Aquela voz, havia mexido comigo de uma maneira inimaginável, meu corpo inteiro se arrepiou, eu sentia que a conhecia, era grave como a de qualquer homem mas ao mesmo tempo delicada, me sova tão familiar quanto a minha própria. Permaneci senta em minha poltrona, de costas a ilustre presença do homem que acabara de chegar, após ouvir sua voz fechei meus olhos e assim permaneci, todas as senhoras presentes na sala provavelmente se viraram para vislumbrar a figura que acabara de chegar, com minha xícara de café agora já vazia em mãos, assim que ouvi a tal voz, de olhos fechados imaginei como seria sua figura, quando os abri lá estava o homem de minha imaginação, quando me viu pareceu surpreso, como se já me conhecesse e que não esperava me encontrar por lá, ele não devia ser muito mais velho que eu, eu em meus 22 quase 23 anos, ele deveria ter no máximo seus 28 eu diria, talvez filho de algum amigo de meu pai, eu não saberia dizer.

Eu detestava aqueles chás da tarde com todas aquelas amigas de minha vó, fui criada no campo e estava a menos de um mês na cidade grande na casa de minha avó rica que eu se quer imaginava que existia, ela era mãe de minha mãe, meu pai, a única família que tive a vida inteira, ele era um bom homem e eu sabia que ele me amava mas também sabia que me culpava por minha mãe ter morrido durante o meu parto. Um incêndio a três semanas e meia, exatos 25 dias, havia tirado de mim tudo que eu tinha, meu pai, minha casa e meu noivo.

Todas as segundas-feiras minha avó e mais três amigas suas iam fofocar enquanto tomam muitas vezes bebidas como chá ou café batizados com gim. Naquela tarde Clarice, pareceu zangada em receber uma visita inesperada, ainda mais de um homem, ela vinha me escondendo da sociedade desde que mandou uma dúzia de seus empregados a minha procura, as únicas pessoas que eu via eram os empregados de mansão e aquelas três senhoras.

Clarice, minha avó fez com que eu saísse da sala imediatamente assim que o homem entrou no cômodo, e me levou a sala de jantar onde a porta ficava na outra extremidade do cômodo, ouvi pela porta o homem apresentar-se, acredito que de maneira envergonhada, porém com uma voz calma e galante.

—Senhoras – saudou-as provavelmente retirando seu chapéu – me chamo Alexander DelTorro e sou o advogado responsável pelos bens deixados a senhorita Andersen, Alicia Andersen por Nathaniel McGregory- a partir dai parei de prestar atenção na conversa, e me abistive em pensamentos.

A culpa estava me consumindo lentamente, eu havia provocado aquele incêndio ao esquecer uma das velas da sala de jantar acesa, meu pai Robert estava na missa naquela noite, Nathaniel era proprietário das terras vizinhas, ele viu o fogo e correu a meu encontro, me tirou de lá e voltou por ter visto que meu pai também entrará a minha procura, eles não saíram mais da casa.

— Por ser nova de mais Melissa e ter somente 12 anos ainda não pode herdar os bens de seu irmão e precisa ficar sob a tutela de alguém é por não ter parentes vivos, Alicia é a pessoa mais próxima a ela é por isso seria prudente que ela cuidasse da garota até que a mesma atinja a maioridade.

— Ela não irá cuidar de criança nenhuma, ela prescinda arranjar um marido e não tem que se preocupar em cuidar de criança alguma!

Quando ouvi minha avó dizer aquilo tive vontade de dar-lhe um tapa e dizer que ela nunca havia se preocupado comigo e que não deveria querer fazer isso agora. Então abri de maneira bruaca a porta que me separava deles.

— Desculpe vovó mas eu sou a Alicia e não você, irei cuidar dela e a senhora não tem que se meter na minha vida, acabei de perder meu noivo e a senhora só quer saber de me arranjar um marido! Poupe-me! – as senhoras presentes na sala assustaram-se com a maneira que tratei Clarice.

Alguns dias se passaram, Melissa estava feliz por eu estar lá cuidando dela, Alexander estava conosco, ele deveria nos observar, ou mais especificamente a mim e como eu iria cuidar de Melissa. Ele era um homem intrigante e não costumava falar muito, a maioria das vezes ele ficava na biblioteca durante o dia, já a noite ele ia para seu quarto e só era visto no dia seguinte. Quando eu estava lendo ou simplesmente estava sozinha, Alex costumava me observar do outro canto do cômodo, seus olhos eram de um azul quase brancos, seus cabelos pretos e um pouco cumpridos, ele era alto, extremamente alto eu diria, quase dois metros, sua figura era imponente e por ele sempre estar a me observar me deixava mais intrigada.

Um mês havia se passado, estava quase na hora de Alexander ir embora, mas eu já tinha me acostumado tanto com sua presença que temia sentir sua falta, como sentiria a de qualquer um com quem convivesse durante algum tempo, só não sentia falta do tempo que tinha passado com minha avó, por estar trancada todos os dias sem poder sair ou fazer nada.

Alexander acabou ficando um pouco mais para o aniversário de Mel, ela estava completando 13 anos, antes de comemorarmos havíamos ido a cidade para assistir à missa, Alex não era religioso e acabou ficando em casa, quando voltamos havia uma movimentação fora do normal na casa, o que achei muito estranho é assim que chegamos perto da porta de entrada um homem nos abordou para que entrássemos na casa, lá dentro haviam mais cerca de três ou quatro homens. A partir disso tudo ficou confuso, eu estava abraçada com Melissa quando um deles a puxou para longe de mim e fomos arrastadas para a sala de jantar onde Alex estava sendo segurado por mais quatro homens, um deles o segurava pelo pescoço, dois nos braços, um em cada e segurava atrás dele uma corrente que estava presa em sua cintura, fui atingida na cabeça por alguma coisa e cai desnorteada, eu podia ver Alex gritar alguma coisa mas não conseguia ouvir, sentia que tudo girava e que eu estava deitada em algo molhado, provavelmente meu próprio sangue, aqueles homens que seguravam Alex começaram a arrasta-lo para fora de lá enquanto outros seguravam Mel e também a arrastavam de lá. Sem conseguir me mexer enquanto meus olhos se abriam e fechavam lentamente e com dificuldade de respirar observei alguns homens botarem fogo nas cortinas utilizando velas. O fogo começava a se alastrar enquanto todos saiam do cômodo. Agora o fogo chegava no teto, depois disso tudo ficou preto.