Aquele caminho eu já conhecia perfeitamente, o mesmo céu avermelhado, a mesma estrada cercada pelas mesmas árvores, mais a diante, jaulas abarrotadas de pessoas e algumas que continham apenas uma, por onde eu passava o sofrimento delas ficava maior, ao final do caminho, bem diante de mim há o costumeiro penhasco mas dessa vez à minha espera está um homem diferente da figura da noite passada, dessa vez seus olhos eram verdes e seus cabelos loiros, ele era alto e sua barba estava por fazer. Dessa vez minha morte veio por intermédio de um beijo, senti minhas forças sendo drenadas e me desfaleci no chão.

Quando abri meus olhos pude ver que o relógio acima da porta de meu quarto marcava 5:01 AM, o horário costumeiro. Quase duas horas depois um enfermeiro veio trazer minha medicação e me acompanhar até o refeitório, eu não era considerada perigosa mas sim instável e a medicação me deixava enjoada e sonolenta, não sentia vontade de comer e a cara da comida também não era das melhores. Todas aquelas pessoas pareciam zumbis, vê-las naquela situação me deixava triste e com receio de ficar como elas, eu já não sabia dizer se as coisas que eu via eram reais, se minha imaginação era fértil ou se realmente estava ficando louca, a loucura não me remetia medo mas ficar presa e sedada até morrer causava-me arrepios na espinha. Pensar daquela forma me causou um ataque de pânico, minha garganta se fechou e meu desespero ficou maior por não conseguir respirar.

Acordei em meu quarto algumas horas depois com um homem sentado na cama ao lado da minha me observando, ele usava um jaleco branco sobre uma camisa social azul clara com uma gravata listrada azul escura e uma calça social preta, seus cabelos eram escuros e seus olhos claros, quase brancos destacados pelas cores de suas roupas, olhos aqueles que não pude me prender para identificar sua verdadeira cor pela intensidade do olhar que me era retribuído por detrás de óculos de grau, que lhe davam uma aparência intelectual.

Sentei-me rapidamente na cama abrindo e fechando a boca várias vezes buscando alguma coisa para dizer em protesto de sua presença em meu quarto mas não consegui dizer nada, percebendo minha confusão ele se manifestou.

— Meu nome é Thomas Chester eu sou o médico psiquiatra responsável por você, soube que teve um ataque de pânico e decidi vir até aqui para que não tenha que ir até minha sala. Gostaria de saber qual o motivo do seu ataque de agora a pouco. – permaneci parada tentando entender o que se passava enquanto ele, que tinha seus olhos cobertos por óculos olhou-me por cima deles segurando em mãos alguns papeis, que provavelmente eram sobre mim, um pequeno bloco de notas e uma caneta.

— Simplesmente não me sinto confortável neste lugar, não quero morrer aqui.

— O que a faz pensar que irá morrer aqui? – ele me olhava fixamente nos olhos mas eu não possuía coragem de olhar nos seus.

— Tudo e todas as circunstancias – olhava para as minhas próprias mãos e esfregava meus dedos uns nos outros.

— Não acho que você vá morrer aqui, se seu tratamento for eficiente, você sairá daqui e poderá viver uma vida normal. – enquanto falava comigo, o Dr. Chester anotava algo em seu pequeno bloco de notas.

— Você acredita em mim Doutor? Acredita que não sou louca? – ele nada disse, continuou com a mesma expressão imparcial olhando em meus olhos – Sei que não acredita, que como todos, acha que estou inventando ou que tenho delírios – uma risada nervosa e sem graça escapa por entre meus lábios — mas o que me faz saber que vou passar o resto da minha vida aqui, e que aqui irei morrer é porque sei que não estou louca, e sei que enquanto não disser que realmente estou e fingir que os monstros foram embora vou continuar aqui, e não pretendo mentir sobre nenhum dos dois.

Uma sirene começou a tocar e todos os enfermeiros começaram a correr pelos corredores, o Dr. Chester se levantou em um sobre salto quando o som começou, sem dizer nada saiu porta a fora de forma abrupta e rápida. Horas mais tarde, durante o café da manhã uma das pacientes se sentou em minha mesa e puxou conversa sobre o ocorrido, e quando percebeu que eu não sabia do que se tratava me explicou como se fosse obvio.

— Quando a sirene toca só pode haver dois motivos, alguém fugiu ou alguém morreu, as vezes algum paciente ataca um enfermeiro ou médico, as vezes eles morrem, as vezes algum de nós se matam, ou tem aqueles que morrem tentando fugir, mas nunca vi alguém realmente conseguir fugir, normalmente os que matam são os do prédio A, poucos de nós fazem isso, a gente só se mata, mas eles, de lá, não se matam nunca.

Após tomar café da manhã descobri que não se tinha muito o que fazer por lá, fiquei horas sentada em um banco perto das arvores e observei as janelas do prédio A, e percebi que alguém lá dentro me observava de volta, aquele lugar me dava enjoo só de pensar em ficar ali por muito tempo.

Descobri muito sobre a mulher que se apresentou durante o café, ela tem 32 anos, se chama Marlene, pedi que eu a chamasse de Lene, ela está ali porque depois de perder um bebê a 7 anos ela começou a ver o filho em todos os lugares, tinha uma cicatriz em seu rosto, e uma áurea laranja ao redor de suas mãos, laranja é cura, descobri também que ela foi medica, pediatra, o que tornou mais difícil perder o filho. Mas eu não a achava louca, um garoto vestido todo de branco mas com as roupas rasgadas estava agarrado ao vestido dela, ele sabia que eu podia vê-lo, não adiantava fingir que não os via, eles sempre sabiam, mas ele era cego, realmente era, quando vivo, essa parte ela não me contou, eu sabia, simplesmente sabia, por mais que procurasse nunca cheguei a uma explicação. Descobri que Janete, a enfermeira que nos entregas as roupas pega os sapatos e roupas de tamanho errado de propósito. Lena acha que é falta de um namorado.

Consegui trocar com Marlene, os sapatos, os dela eram grandes demais e os meus pequenos, os dela 36 e os meus 34, trocamos e eles serviram perfeitamente. Ela era maior que eu, não que eu seja uma gigante, mas ela tinha pés pequenos.

O lugar ficou repentinamente barulhento com o ataque de um paciente na mesa ao lado, ele avançava em todos e gritava.

—Você é o demônio! O demônio! Não! Não, só está amarrada a ele – o homem ria descontroladamente — Ele vai matar você! Ele vai matar você! — Ele se virou para mim e gritou apontando o dedo para meu rosto. A áurea dele tomou conta do ambiente em um vermelho vivo, vermelho da dor e sofrimento. Depois tudo escureceu e senti meu corpo pesar.

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Sob o céu avermelhado do alvorecer e sobre as águas de um imenso lago, jazia um pequeno barco de madeira sendo levado pelo vento. A bordo dele estava uma garotinha miúda ainda com suas roupas de dormir, com uma pequena boneca de pano em seus braços, sua respiração ainda estava ofegante por ter corrido até lá e as lágrimas que escorriam por suas bochechas não estavam a deixando se acalmar.

Ela havia tido novamente aquele pesadelo horrível e quando acordou seus olhos insistiam em pregar-lhe peças dando vida as criaturas horripilantes que habitavam seus sonhos. Ao contar a seus pais eles não acreditaram e a acusaram de estar fazendo aquilo para chamar a atenção e então ela correu, correu o mais rápido que suas pequenas pernas a permitiam.

Quando estava praticamente no centro do lago as criaturas voltaram e ao se assustar a menina acaba por cair na água onde seres com chifres e caudas como as de sereias a puxaram cada vez mais para o fundo, pouco antes de perder a consciência ela vê a figura de um homem nadando em sua direção.

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Tive uma infância difícil, principalmente depois de descobrir que eu havia sido adotada, algo que eu nunca se quer tinha imaginado, mas aos 14 anos os pesadelos pioraram que foi quando meu único refúgio era passar noites em claro lendo livros e mais livros da enorme biblioteca de meu pai, às vezes lia até mesmo dicionários, quando dentro de um destes acabei por encontrar um documento preenchido a mão autorizando a adoção de um bebê cujo nome era o meu, quando amanheceu fui atrás de meus pais e questionei-os sobre o assunto. Eu fui encontrada em um pântano, quase morta, com cerca de 3 meses, de acordo com o que me foi contado eu deveria estar lá a quase duas semanas e algumas freiras me encontraram durante uma "passeata" religiosa.

As pessoas costumam me achar fraca por conta de meus desmaios constantes o que elas não entendem é que eles me protegem, mentira, nem eu não sei o que significam, a um tempo atrás passei com um psicólogo que disse o os desmaios talvez sejam uma espécie de auto preservação, que pode ser que determinada coisa que me faça desmaiar desperte uma lembrança ruim, e o desmaiar seja para esquecer ou para evitar o evento.

Estava quase na hora de minha consulta, eu iria passar por uma avaliação psicológica com o psiquiatra do hospital, Dr Chester no prédio C, mas antes, fui acompanhada por uma enfermeira até o térreo lateral do prédio B, dos dormitórios, onde era servido o café da manhã e depois de pegar uma xícara de café fui me sentar em um dos bancos de madeira que ficavam espalhados por toda a propriedade, em especial um bem perto das arvores, quando vi uma senhora, de uns 70 ou 80 anos eu diria, cuidando de um jardim de flores, ela parecia com dor por conta da posição de ficar agachada. Terminei de tomar meu café em um único gole e joguei o copo de plástico em uma lixeira ao lado do banco, me levantando para ir até onde a senhora estava.

Pelas suas roupas ela parecia ser uma paciente daquele lugar, ela repentinamente me lembrou a minha avó. Dei um sobressalto quando a senhora se dirigiu a mim.

— Não se acanhe minha jovem – a senhora gesticula para que eu me aproxime.

Se a garota não tivesse visto os olhos da idosa, jamais seria capaz de saber que ela era cega, apesar de seu dom, tamanha era a precisão com que ela sabia exatamente onde cada coisa estava em sua pequena maleta com coisas para cuidar de jardins. Quando a senhora olhou em direção a Alaya, ela se assustou e chorou.

— Minha garota, você é linda como um anjo de olhos castanhos e cabelos loiros, eu posso vê-la, mas apenas em minha lembrança. – A senhora secava as lágrimas enquanto a garota a olhava boquiaberta.

— O que a senhora quer dizer?

— Que já nos conhecemos, em minha infância, você viveu bem, agora não sei o motivo de estar aqui, mas sei que estão enganados por fazerem com que fique nesse lugar. – Ela limpava as mãos em um pano enquanto se sentava no banco ao lado da jovem.

— Acham que estou louca, por isso estou aqui. – Aquela mulher para estar ali deveria ter algum problema. É a única explicação para o que ela dizia. – Mas bom, é impossível que seja de mim que a senhora fala, eu nem havia nascido.

— Vou ficar lhe devendo explicações, estou aqui porque minha família não quis cuidar de uma velha sega, não sou uma paciente, já está na minha hora, mas me deixe lhe dizer algo. Assim como uma rosa de pétalas rosas ou uma borboleta de cor âmbar, a natureza tem sua beleza como a do seu sonhar Alaya, você não é louca, eu sei que as coisas que vê são reais.

— Tudo bem... Mas então deixe-me perguntar. – a senhora já se afastava com sua maleta.

— Pergunte! – falou, enquanto continuava andando.

— Como sabe meu nome? – agora eu estava de pé para que ela me ouvisse melhor enquanto se afastava.

— Eu já lhe disse, já nos conhecemos. – ela entrou no prédio me deixando para trás cheia de dúvidas.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.