Amaldiçoados- "Brave World"
1 Capítulo 1
Notas iniciais

A manhã que agora se levantava estava bonita e o sol estava espreitando. Agradeci mentalmente ao dia por ter nascido tão limpo, sem nenhum sinal de chuva. A minha mãe sempre falou que viagem com chuva é viagem amaldiçoada. Acho que a minha mãe é uma mulher muito supersticiosa, mas como é óbvio ninguém tem coragem de a contrariar.
Como em todas as grandes viagens, os pais acordaram mais cedo que nós. Quando digo “nós” estou me referindo a mim e a Joseph (o incrivelmente grande chato e irritante do meu irmão mais velho) e de Cupcake a minha gatinha branca. Pelo que me apercebi se tinham levantado antes do sol nascer.
Os meus pais (e digo meus pais, porque sinceramente não me apetece incluir Joseph na família) se chamam Cristal e Dan de Daniel. A minha mãe é loira, magra e um pouco nariguda, o que pode ser um defeito ou não, pois segundo o meu pai faz parte do charme peculiar dela. Mas de um modo geral a minha mãe é bonita, com olhos cor de mel, e uma grande tendência para corar com exagero (e para gritar com exagero também). Já eu sou mais parecida com o meu pai. O meu pai é o oposto da minha mãe e consequentemente do meu irmão, que é a fotocópia dela. Tem olhos azuis, cabelo castanho muito escuro quase parecendo preto, e o pior de tudo é o facto de ser baixo, muito mais baixo que a minha mãe, algo que sempre o incomodou. Desde já confesso que tive a pouca sorte de pegar isso do meu pai, como tudo o resto.
Vivemos na pequena província de Lakewood, se chama assim porque passa um grande lago a sudoeste do centro da aldeia. A nossa pequena fazenda se encontra um pouco afastada do centro, perto do grande lago. É uma casa antiga e cheia de história. Segundo a minha mãe, que é uma fanática por história e tudo que a envolva, foi habitada na antiguidade pelos antigos prefeitos de Lakewood. O prefeito Logan Mcguire e seu irmão Imran Mcguire.
E falando de tudo isso esqueci completamente de me apresentar. Meu nome é Harriet, e tenho 15 anos, quase 16, acho que faz toda a diferença menciona-lo. Sou uma garota comum da minha idade. Tenho aulas de ballet, aulas de piano, aulas de pintura, aulas de teatro, aulas de psicologia com o meu pai, e ainda aulas de poesia, tirando é óbvio o facto de frequentar a escola da aldeia (parte do meu dia, coisa que preferia eliminar). Talvez não seja uma garota assim tão comum, mas eu gosto de ter o meu tempo bem preenchido.
Tenho o vício de usar o meu cabelo escuro, perfeitamente trançado e rigidamente preso na parte detrás da minha cabeça. Uso também uns óculos quadrados muito antigos, acho que já pertenceram à minha mãe. Uso eles desde os meus quatro anos de idade, mas preferia que não os tivesse de usar. Em relação à minha aparência, não me considero uma rapariga feia mas também não sou extraordinariamente linda. Muitas pessoas me elogiam pela minha beleza, mas eu não me considero assim tão bonita. Tenho pele muito branca (quase pálida), olhos azuis que parecem anormalmente grandes por baixo dos meus óculos, e ainda pequenas sardas por baixo deles.
Mas vamos parar de rodeios, afinal esta história não é sobre mim. Talvez tenha um pouco que ver. Mas a história que vos vou contar envolve muito mais coisas que eu. Coisas que ninguém nunca viu, nunca ouviu falar ou nem ousa prenunciar.
Foi no preciso momento em que eu estava a fazendo as minhas malas, apenas duas mas grandes, que uma enorme ventania entrou pelo meu quarto adentro. Levei a minha mão com dificuldade aos meus olhos e meio atordoada comecei a caminhar até à minha janela que se tinha aberto de surpresa. Aquela ventania fazia tal força em mim, que podia jurar que senti os meus pés levantando voo por escassos segundos.
Assim que finalmente, mas a muito custo consegui fechar a janela antiga, consegui ver lá fora os meus atarefados pais colocando várias malas dentro do pequeno carro do pai. Suspirei tristemente contra o vidro pensando em como eu odiava a tia Bethy. Só de pensar que teria de a atorar ela este Verão todo, me fazia doer a cabeça. A tia Bethy, como é chamada porque odeia o seu verdadeiro nome (Bethany), é a irmã mais velha da minha mãe. Tem uns 60 e poucos, mas cara de 40 e poucos. É enorme! Duas vezes mais alta que o meu pai. Tem cabelos loiros como a minha mãe, mas não tão curto quanto o dela. E o pior de tudo é o seu interior. É antipática, fria e má. Mas sobretudo inteligente e esta era a pior parte, porque ela inventava os piores castigos para mim.
Foi no meio de todos esses pensamentos que subitamente reparei em algo. Um pequeno papelinho, provavelmente trazido pela grande ventania, estava agora ali no chão de madeira do meu quarto. Estava amarelado, pelo que presumi que fosse antigo. Caminhei calmamente até ele o pegando e virando-o para poder ver a outra face. Lá estava um desenho bonito de uma floresta igualmente bonita, e ali parados a olhar para ela estavam duas crianças. Uma garota e um garoto. Virei o papelinho de novo procurando o nome do seu dono, mas nada.
Me sobressaltei quando ouvi um barulho junto da porta do quarto. Me virando rapidamente para a porta encontrei Cupcake brincando com a alça de uma das malas de viagem. Sorri aliviada por não ser a mãe ou Joseph.
–Oh, és tu Cupcake! Você me assustou.- disse sem folego. A coloquei no meu colo e saí do quarto, me dirigindo para a porta para sair para o jardim.
Encontrei Joseph atrapalhado com as malas no fundo das escadas. Tentava colocar uma enorme televisão dentro de uma minúscula mala, sem grande êxito como é óbvio. O meu irmão pode ser bastante insistente mas a inteligência não é de facto o seu forte.
–Não era mais fácil se você pedisse uma mala maior da mãe?- perguntei com pena do seu desespero.
–Era mais fácil era se você calasse a boca e me deixasse concentrar! Garotinha…- deixei ele reclamando sozinho e saí para o jardim. Estava sem paciência para o ouvir reclamando, sendo assim me dirigi apressadamente para o carro. O que veio a piorar as coisas, pois junto dele estava a minha mãe com cara de poucos amigos.
–Já aprontou outra discussão com o seu irmão?- perguntou a minha mãe visivelmente chateada.
–Na verdade eu só estava a tentando ajudar, mas ele…- tentei explicar mas fui cortada pelo seu discurso.
–Já devia saber que odeio ver-vos discutir. Pelo amor de Deus Harriet, vocês são irmãos!- começou ela retirando a gata dos meus braços.- Agora vá buscar as malas ao seu quarto e se despeça da gata!
–O quê? Como assim me despedir da Cupcake?- perguntei incrédula.
–O quê? Você achou mesmo que a poderia levar junto? Ora, deixe de ser criança Harriet!- disse as palavras tão alto que as senti como uma sova, como tal comecei a chorar automaticamente.
–Mas porquê? Porquê mamãe?- perguntei sentindo os olhos se enchendo de lágrimas, que caíam repetitivamente no meu vestido novo.
–Não comesse com choraminguice.- disse colocando a gata no chão com brutalidade, me fazendo soluçar com medo.- Ela é uma gata e ela está sempre desaparecendo por dias. Ela sabe cuidar de si! Aliás, nós vamos lhe deixar comida e água. Por isso deixa de choraminguice e vá buscar as suas malas, e se despede da gata. A não ser é claro que queira ter motivos reais para estar chorando.
Com esta ultima frase entro no carro, me deixando ali fazendo carinho na gata que me olhava triste. Eu tinha percebido perfeitamente o que ela queria dizer com motivos reais para chorar. Provavelmente me daria uma surra. Lá ao fundo vindo com mais duas malas vi o meu pai se aproximando de mim com uma expressão séria no rosto.
–Vá lá, filhota! Faz o que a mamãe te pediu.- falou ele como sempre mais compreensivo me piscando o olho, eu não entendi. Entrou no carro, e logo depois vi a minha mãe sair de dentro do carro irada.
–Porque se demora tanto, Harriet? Vá buscar as suas malas, menina!- reclamava alto sendo acalmada pelo meu pai que de dentro do carro lhe dizia algo, em vão como é óbvio.
Me apressei então a pegar na gata e corri para o interior da casa, subindo as escadas que davam para o meu quarto, o mais rápido que consegui. Peguei nas minhas duas malas, e olhei em redor do quarto pensando em como iria sentir falta daquele meu pequeno refúgio. Passei os olhos uma ultima vez pelo meu ursinho de peluche. Sabia que se o levasse comigo a minha mãe me chamaria de criança e me colocaria de castigo, sendo assim o deixei ficar em cima da cama impecavelmente feita, mesmo que aquela fosse a única recordação que eu tinha da minha avó Marilyne.
Os meus pensamentos foram cortados pela gata que começou passando na minha perna e ronronando ternurenta. Sorri tristemente para ela me ajoelhando junto dela.
–Sinto muito Cupcake. Eu não queria mesmo te deixar aqui.- a acariciei atrás das orelhas.- Promete que fica bem?
Depois de me ter despedido da gata e de lavar a minha cara que estava cheia de lágrimas, desci as escadas para ir embora. Olhei para trás apenas uma vez e desejei não o ter feito. Lá estava a gata no topo das escadas me olhando triste e ronronando também tristemente.
–Cá está ela!- disse o meu pai quando cheguei no carro. A minha mãe do seu lado estava vermelha de raiva, como sempre.
–E posso saber porque demorou tanto assim?- perguntou ela com raiva. Estava se preparando para dizer mais alguma coisa quando o meu pai a cortou.
–Eu vou te ajudar a por essas malas lá atrás.- disse ele pegando em uma das malas. Contorna-mos o carro e ele sorriu para mim docemente.
–Coloque as suas malas aqui, eu já volto!- disse ele piscando para mim.
–Onde vai papai?- perguntei sem compreender, mas mesmo assim obedecendo e colocando as malas lá dentro.
–Faz o que te disse, já volto!- com essa frase entrou na casa, saindo então do meu campo de visão.
Depois de colocar as duas malas lá, entrei no carro. Do meu lado estava Joseph que me olhou com desprezo e depois se concentrou de novo no seu celular. Com certeza falando com a sua igualmente horrível namorada.
–Onde foi aquele homem agora, heim? Tal pai, tal filha! Dois atrasados mentais…- começou a minha mãe reclamando entredentes. Consegui ver pelo canto do olho Joseph sorrindo maldoso. Como sempre satisfeito quando a mãe brigava comigo, ou com a gata, ou com qualquer coisa ou objeto que fosse.
–Já cá estou!- anunciou o meu pai se sentando na frente do volante, me piscando o olho me fazendo sorrir.
–Já não era sem tempo.- resmungou minha mãe.
–Bom, aqui vamos família!- disse ele suspirando, ignorando o comentário maldoso da minha mãe que começava agora a discutir com ele também.
Assim que o carro começou a andar encostei a cabeça no vidro, olhando a paisagem passar rapidamente diante dos meus olhos. Nunca tinha saído de Lakewood, e sempre sonhei em como seria saír daqui nem que fosse por um dia apenas. Em todos esses pensamentos felizes, eu parecia contente. Me sentindo livre como se estivesse voando. Mas naquele momento não me sentia nem um pouco feliz. Odiava a minha tia Bethy! Casa da qual me estava dirigindo para lá passar as férias inteiras. Que inferno!
–Estou falando com você,anormal!- o berro de Joseph me despertou para a realidade. E para aquela cruel realidade de se ter aquele loiro como irmão.
–Desculpa estava distraída. Que se passa?- perguntei me recompondo, já me doía o pescoço de estar naquela posição à tanto tempo.
–Foi você que desenhou?-perguntou ele como se estivesse enojado. Na sua mão segurava o mesmo papel que tinha aparecido no meu quarto, trazido pela ventania. Não me lembrava de o ter trazido, mas assumi que como eu era distraída não me lembraria se o tivesse feito, por isso apenas ignorei.
–Não. Eu o encontrei.- disse calmamente fixando os meus olhos no pequeno desenho, temendo que ele o rasgasse só para me chatear.
–Sabe o que eu acho? Acho que foi você que o fez.- disse ele com um sorriso maldoso.
–Porque acha isso?- perguntei arrancando o desenho da sua mão, lhe arrancando juntamente uma expressão raivosa que me fez sentir medo.
–Porque algo tão desprezível só poderia ter sido feito por você!- disse me empurrando com brutalidade contra a porta do meu lado, me machucando. Soltei um pequeno gemido de dor, e massajei o meu braço receando que ele o fizesse de novo.
–Joseph!- berrou o meu pai, lançando um olhar ameaçador pelo espelho retrovisor. Já a minha mãe continuava na dela, como se o meu braço não tivesse quase sido esmagado.
Passei o resto da viagem massajando o braço, que parecia doer cada vez mais. Por vezes olhava para o meu pai à espera daquele sorriso compreensivo que ele sempre me dava, mas ele não apareceu. Por isso passei a viagem toda recebendo gritos da minha mãe dizendo “Para de choramingar Harriet!” ou “Para de ser criança Harriet”.
Quando finalmente chegamos ao inferno, que era traduzido como “A casa da tia Bethy”, consegui ver que era uma grande fazenda rodeada por uma floresta densa. Assim que passamos por os antigos portões que ião dar a um caminho dentro da floresta comecei a me sentir enjoada. Na medida em que nos íamos aproximando da casa, mais os meus sentidos de alerta diziam para eu fugir dali para fora, mas eu não podia.
Quando o carro parou a minha mãe saiu disparada para o lado de fora. Contornou o carro rapidamente e abriu a minha porta me puxando para o exterior. Me encolhi imediatamente com medo que ela me pudesse bater, mas não. Ela começou a ajeitar o meu vestido e depois passou para o cabelo.
–Você tem que estar apresentável para a tia Bethy!- explicou ela me olhando ameaçadora.-Vai ter a tua roupa sempre apresentável assim como o cabelo. Entendido?
–Claro mamãe.- concordei sentindo as suas mãos experientes tratando do meu cabelo.
–Vai ser sempre educada com a sua tia e nunca irá contrariá-la, percebeu minha menina? Não quero que ela fique pensando que eu não sei dar educação.
–Claro mamãe.- concordei de novo assimilando todas as ordens que me tinha dado.
–Cumprirá todas as tarefas que a tia Bethy te der e ajudarás os criados nas suas tarefas.- continuou ela ajeitando o meu casaco com brutalidade.
–E Joseph? Que fará ele mamãe?- soube logo que foi um erro ter perguntado. Ela me olhou com raiva e depois agarrou no braço com brutalidade me obrigando a olhar para os seus olhos.
–O Joseph é um bom garoto, ao contrário de você. Irá fazer o que eu falei e o que a tia Bethy disser para você fazer, entendido?- disse ela fazendo cada vez mais pressão no meu braço.- E se eu souber que está incomodando o meu queridinho fica sem comer quando voltar-mos, entendido?
–Claro mamãe.- respondi automaticamente. Dentro do carro estava Joseph olhando para a cena mais que contente.
–Ótimo.- acabou por dizer largando o meu braço. Depois ajeitou os seus próprios cabelos e roupa, e avançou para a porta da casa.
Mal a tia apareceu na porta me arrastei até ao carro sem coragem para olhar para a cara dela. Joseph já tinha saído tal como o pai, e estavam agora a se dirigindo para a casa onde a tia os esperava sorridente. Dispensei os comprimentos e me deixei ficar dentro do carro enquanto ela cumprimentava os meus pais, e enchia o Joseph cheio de carinhos e lhe passava uma nota para a mão disfarçadamente. Joseph olhou satisfeito para a nota e disse algo à tia Bethy, que não consegui entender. Seja o que for que lhe disse fez a tia Bethy olhar para o carro e consequentemente para mim. Mal me viu fechou a cara e me lançou um olhar malvado. Vi ela levantando um dedo e depois me chamando com cara de poucos amigos.
Suspirei me preparando para sair do carro, e após alguns segundos saí para o lado de fora. Me virei cautelosamente para a minha família que me olhava e me encolhi ao ver o sorriso maldoso da minha tia que me olhava de alto a baixo.
–Você não mudou nada desde a última vez que te vi.- declarou ela abrindo cada vez mais o seu sorriso maldoso.- Continua com a mesma cara de inocente de sempre. Quantos anos já tem ela Cristal?
–Tem 15 anos, irá fazer os 16 semana que vem.- informou a minha mãe pegando em uma das malas.
–Oh, vai fazer anos na minha casa. Mas que maravilha!- disse com um sorriso falso. Algo naquele sorriso me dizia que iria ser o pior aniversário de sempre.
Ignorei o seu olhar maldoso e comecei a olhar em redor. Floresta mais floresta e mais um pouco de floresta. Mas algo de diferente no meio da florestação me chamou à atenção. Duas árvores curvadas faziam um pequeno arco que ia dar a um caminho para dentro da floresta. Eu reconhecia aquele arco. Eu reconhecia aquele caminho. Mas de onde? Onde? De onde eu conhecia ele?
–O desenho.- sussurrei compreendendo. De repente a mesma ventania que por mim tinha passado no quarto, voltou mas com mais força ainda. E algo nela me dizia que havia muito mais coisas a temer que a tia Bethy.
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