Amaldiçoados
1 Cap. 1 – Em uma Cesta de Frutas
- Aki. Aki!
O garoto era capaz de ouvir aquela voz familiar chamando por ele, cada vez com mais firmeza, mas ele ainda tinha esperanças de que ela desistisse se ele ficasse completamente imóvel debaixo das cobertas. Não foi o que aconteceu, infelizmente para ele. Duas mãos arrancaram-lhe as cobertas e, antes que ele pudesse reclamar, essas mesmas mãos subiram as persianas da janela, deixando a luz do Sol invadir o quarto.
- Ahh... Fuyu-nee!! – Ele reclamou, colocando-se sentado sobre sua própria cama, os olhos negros encarando aquela mulher de cabelos curtos e negros, alguns anos mais velha que ele.
- Não me venha com “Fuyu-nee”. Você não vai se atrasar pro seu primeiro dia de aula na nova escola. Vamos, se vista! Eu te deixo lá antes de ir para o trabalho. – Ela foi até a porta, mas antes de sair do quarto, ela o olhou por cima do ombro – Eu volto com um balde de água fria se não levantar, ouviu bem?
E o jovem Aki sentiu arrepios pelo seu corpo todo só de imaginar. Finalmente ela saiu, fechando a porta atrás de si. Ele suspirou longamente antes de levantar-se para tomar seu banho e vestir-se antes que a irmã voltasse, pois ele sabia que o balde de água fria não era uma ameaça da boca pra fora, conhecendo ela bem como ele conhecia. Durante as férias escolares, Aki havia se mudado para morar com a irmã mais velha, Fuyuki, por causa de vários desentendimentos com o pai. Fuyuki o acolheu em Tóquio, onde tudo era novo para Aki ainda, tendo ele vindo de uma cidade pequena mais para o interior do Japão. O pai havia concordado com a ida de Aki para a casa da irmã contanto que ela ficasse de olho nele e não o deixasse se tornar algum tipo de delinquente.
Depois de alguns minutos, Aki desceu as escadas e caminhou até a cozinha, onde sua irmã o esperava com um típico café-da-manhã japonês. Porém, ela apenas deliciava-se com uma xícara de café. Mesmo sem acompanhá-lo comendo, Fuyuki permaneceu sentada ao lado do irmão e os dois conversaram sobre coisas triviais. Mesmo com a diferença de idades os dois se davam muito bem. Depois que Aki terminou seu café, os dois entraram no carro preto de Fuyuki e ela partiu para deixá-lo na escola.
- Vê se não fica andando sozinho, viu? Não quero irmão antissocial. Faça amigos, baka. – Ela disse assim que parou o carro frente aos portões da escola.
- Sim, sim... – Ele disse, mas seu tom de voz mostrava um interesse nulo naquilo.
Fuyuki sorriu e partiu em seu carro, rumo ao seu trabalho. Aki respirou fundo, parado diante dos portões, enquanto os outros alunos já adentravam a escola. A maioria em duplas ou pequenos grupos. Todos rindo ou comentando algo que havia acontecido com eles ou com algum conhecido. Aki passou os dedos pelos cabelos, bem acima da nuca, com uma expressão de alguém que via um grande desafio à sua frente. Um grande e nada empolgante desafio.
Logo ele estava caminhando pelos corredores da escola, procurando pela sua sala, quando outro corpo bateu contra as suas costas e com o impacto foi ao chão. Quando Aki virou-se, ele viu uma menina de longos e lisos cabelos negros e olhos bem redondos de um castanho tão claro que chegava a ser alaranjado. Ele nunca havia visto olhos assim, talvez ela fosse meio estrangeira.
- Está... tudo bem? – Ele disse, erguendo a mão para ajudá-la a levantar-se.
- Unyuu... – A garota fez uma careta, passando a mão na lateral dos quadris como se os tivesse machucado na queda. Mas então ela olhou para Aki e logo abriu um grande sorriso, aceitando sua ajuda, mas soltando a mão dele assim que ficou de pé. – Obrigada! E... Me desculpe. Eu realmente não estava olhando por onde andava. – E ela deu uma risadinha meio sem graça.
- Tudo bem. – Ele respondeu, forçando um sorriso. Notava-se logo que ele não era muito bom em primeiras conversas.
- Você é novo aqui, não é? Eu conheço todos da escola! Menos os que estão entrando agora no primeiro ano, é claro. Mas você parece ter a minha idade. – Ela continuava sempre sorrindo.
- Ah, sim. Meu nome é Hashimoto Aki.
- Prazer em conhecê-lo, Aki-tan! – Ela sorriu mais abertamente e Aki arqueou a sobrancelha, um tanto surpreso e incomodado com aquele apelido repentino. Afinal, haviam acabado de se conhecer. – Eu me chamo Sohma Sakura. Qual é a sua sala? – E ela mexeu um pouco a cabeça, tentando espiar o papel que Aki tinha em mãos e que ela imaginava ser os horários das aulas dele e as salas.
- A-Ah, bem... – Ele olhou mais uma vez antes de responder – Sala 3-C.
- É a minha sala! Isso é ótimo! Parece que o destino nos uniu, Aki-tan! – Ela parecia bastante empolgada.
- O destino... ah, sei... – A expressão dele era clara. Ele não sabia lidar com uma garota como Sakura. Verdade fosse dita, a única garota com a qual ele sabia lidar era a irmã mais velha e isso quando ela estava nos seus bons dias.
- Venha, eu levo você! – E ela começou a andar pelos corredores, sem olhar para trás, confiante de que seria seguida. Logo estavam diante da sala 3-C. Sakura avisou a ele de que ele esperaria ali fora e a professora o chamaria depois de cumprimentar a turma. Despediu-se dele temporariamente e entrou na sala. A professora não tardou a chegar. Uma senhora de idade com óculos redondos que deixavam seus olhos maiores que o normal. Como Sakura havia lhe dito, a professora o chamou e pediu que ele se apresentasse para a turma. Depois disso, ela lhe mostrou a mesa vazia, bem atrás da de Sakura. Era a penúltima da fileira rente a janela.
O resto do dia foi normal, levando em conta que Sakura ficou tratando-o como se eles fossem amigos de infância ou quase isso. Ela sempre estava disposta a ajudá-lo com qualquer coisa e só o deixava sozinho quando ele precisava ir ao banheiro. Assim que as aulas acabaram, Aki recebeu um telefonema de sua irmã. Sakura estava ao lado dele e ficou apenas observando-o de um jeito curioso.
- Fuyu-nee, pode falar. – Ele disse.
- Aki, eu espero que você tenha feito amigos, porque você vai precisar ficar na casa deles por uns tempos.
- O quê? Mas como assim?
- Eu vou ter que fazer uma viagem... – Ela suspirou – É muito importante pro meu trabalho, acabaram de me informar.
- Eu posso ficar sozinho em casa, eu sei me cuidar e-
- Aki, me escuta! – Ela o interrompeu – Você é um estudante. Você não trabalha. Como é que você vai se alimentar? E eu não sei quando eu volto. Não posso simplesmente deixar você sozinho! Por favor, coopere comigo.
- Mas eu...
- Aki, eu tenho que viajar ainda hoje. Estou só terminando de acertar as coisas aqui e... Sim, senhor! Agora mesmo, senhor! – Ela parecia estar falando com outra pessoa. – Eu vou ter que desligar. Olha, eu vou tentar mandar algum dinheiro pra você, só me manda uma mensagem com o endereço de onde você vai ficar. Eu te amo, irmãozinho. Você sabe que eu não faria algo assim se não fosse realmente preciso.
- Eu sei, Fuyu-nee, mas eu... – E antes que ele pudesse terminar, ela desligou. Aki suspirou longamente, sentindo-se completamente perdido.
- Problemas? – Sakura o olhou, muito preocupada.
- Minha irmã vai viajar... e eu preciso de um lugar pra ficar por uns tempos. Eu não faço idéia de onde...
- Eu sei! – Ela quase gritou, assustando-o um pouco – Eu sei onde você pode ficar, Aki-tan! Vamos, não é muito longe daqui!
Ela insistiu tanto e Aki estava tão desesperado que ele acabou seguindo a garota. Era loucura, mas era sua única opção. Depois de uma caminhada não muito longa, eles pararam diante de um prédio simples. Sakura o guiou até o quarto andar e em seguida até o apartamento 401. Ela tocou a campainha e sorriu enquanto esperava. Logo em seguida, um rapaz bem alto abriu a porta. Ele tinha cabelos negros e olhos vermelhos. Sim, vermelhos. E não parecia ser lente. E a expressão de poucos amigos daquele rapaz poderia fazer um bebê chorar e animais rosnarem como se diante de uma aparição ou algo do tipo.
- Sakura? O que... – Ele começou a falar, mas foi interrompido com Sakura que já ia entrando na casa, puxando Aki pelo pulso.
- Ele pode ficar aqui uns dias, Hi-nii? Ele é meu amigo e não tem onde ficar. Por favor! – Ela praticamente fez biquinho para convencê-lo.
O rapaz arqueou a sobrancelha e olhou para Aki que sorriu completamente embaraçado. Ele suspirou longamente e puxou Sakura para ter uma conversa em particular na sala ao lado. Deixado sozinho, Aki olhou ao redor e ficou imaginando o que raios ele estava fazendo ali. Aquilo estava muito estranho, ele não deveria ter seguido Sakura. Pelo menos era o que passava pela cabeça dele naquele momento. Ele podia ouvir as vozes de Sakura e do desconhecido meio de longe. O rapaz não parecia nada feliz com a idéia de Aki vivendo em seu apartamento. O garoto não aguentou e abriu a porta rapidamente para sair. O impulso de seu corpo era seguir e sair o mais rápido dali e por isso ele não foi capaz de parar mesmo depois do segundo em que seus olhos se fixaram nos olhos acinzentados de uma linda garota mais baixa que ele. Aquele segundo pareceu durar uma eternidade enquanto os olhares deles se fixavam e os corpos se aproximavam. Vendo que não tinha escapatória, seu corpo bateria contra o da garota, Aki decidiu abraçá-la para não acabar machucando a menina. E foi então que uma fumaça envolveu o corpo dela e quando essa fumaça se dissipou, Aki estava abraçando um pequeno gato preto.
- Mas... o que... – O gato lhe arranhou o rosto antes que ele pudesse completar a frase e a Aki soltou o animal que correu para dentro da casa.
- O que aconteceu aqui? – O rapaz mais velho voltava com Sakura e viu o gatinho preto subindo as escadas velozmente. – Ah, droga...
- Ops... Esqueci que a Kari-chan estava ficando aqui também. – Sakura então olhou para Aki que tinha a expressão de alguém que havia visto um fantasma – Aki-tan, eles são da minha família... e, desculpa, mas eu esqueci de dizer que essa família tem um pequeno probleminha. – Ela forçou um sorriso – Acho que você vai meio que se sentir como um bolinho de arroz em uma cesta de frutas. – E ela deu uma risadinha, tentando quebrar o gelo.
Aki apenas ficou encarando a escada pela qual o gato havia subido, ainda sentado no chão onde havia caído com aquela menina que desapareceu em seus braços. E a frase que Sakura disse, apesar de tão aleatória e aparentemente sem noção, viria em breve a fazer muito sentido na vida de Aki.
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