Amaldiçoado
21 Capítulo XXI - Ainda vou te encontrar
Notas iniciais

— Dan, tem certeza de que quer mesmo fazer isso? Não sabe o perigo que corre? — indagou Jiraya andando de um lado para o outro. Via o Anjo celeste se movimentar enquanto recolhia os itens para o feitiço.
— Sei Jiraya, eu tomei minha decisão... — seu tom não era animador, mas parecia convicto de suas palavras. Os intensos olhos azuis vidrados nas páginas velha e surradas do livro em que achara o feitiço. — Eu tomei uma decisão quando sai do Céu. — completou suspirando e fechando os olhos — Precisaremos de um rubi, pra variar... — ele falou tocando o próprio colar, o qual fora plagiado por aquele que suspeitava estar por trás de tudo — Esse vai servir — arrancou o mesmo e o jogou dentro de uma vasilha de cobre. A peça fez um barulho característico. A face de Dan agora estava inexpressiva, apenas os olhos transmitiam a frieza que se apossava de sua alma. Suspirou pesadamente.
— Sabe as consequências desse feitiço, não sabe? — ele não queria ser cúmplice.
— Não é consequência, é a causa... O efeito virá logo depois — respondeu.
— Unir sua benção a do Orochimaru é loucura, Dan! — protestou.
— Loucura? — o fuzilou com o olhar — Loucura é deixar esse desgraçado livre para cometer algo contra minha própria filha... Eu já a abandonei demais Jiraya, não posso fechar meus olhos pra isso. Ainda mais agora que tenho certeza da culpa dele nisso tudo. — falou seriamente. O que fazia as chances do Arcanjo de conseguir impedi-lo serem quase nulas.
— O que acontecer a você, acontecerá a ele...E vice-versa... Sabe disso, não sabe? — indagou e o outro assentiu. — Dan, se ele morrer...
— ... Nós dois morremos. — concluiu baixando o olhar — E vice-versa... — sussurrou, dando um sorriso triste por fim — Apenas, diga a Tsunade que eu a amo, muito. — pediu com o mesmo sorriso triste.
Após o grito da menina um silêncio sepulcral se instalou naquela floresta noturna. Apenas o eco longínquo e o som da chuva e trovões que eram ouvidos.
O cenário estava quase paralisado entre os Anjos que ali haviam, apenas o sangue que escorria da ferida fatal de um deles tornava a cena mais viva.
Tenten fora a primeira a se movimentar. Após liberar o ar dos pulmões que sequer notara que prendia, a Mitsashi caiu sentada e emitiu alguns soluços chorosos. A cena que via era quase traumatizante. Os longos cabelos lisos e azulados ganhavam uma tonalidade vermelha a medida em que o líquido escarlate fugia da ferida causada pela adaga, a mesma que atravessara seu tórax.
Dan havia se colocado entre ela e Neji no milésimo exato para empurra-la e salva-la do golpe que lhe tiraria a vida. Mas em compensação, agora era ele quem dava seus últimos suspiros.
Os intensos olhos azuis estavam arregalados e fitava o rosto do amaldiçoado que permanecia imóvel. Alguns segundos se passaram e Neji tentou retirar a adaga, mas fora interceptado pelo mais velho que segurou seu pulso com força. Dan sabia que ele ainda estava sob o efeito da maldição e que só pararia quando alguém morresse. Pois seria ele, mas ele não morreria sozinho.
Novamente ele tentou retirar sua arma, o que feriu ainda mais o corpo do outro que mais uma vez o impediu. Um gemido de dor ecoou dos lábios de Dan e ele baixou os olhos sentindo as batidas de seu coração desacelerarem a medida em que a adrenalina se esvaia de suas veias por ter corrido o mundo atrás deles.
Neji permanecia tão inexpressivo, seus olhos e expressões ainda assustadoras. Era como se o robô assassino ainda estivesse lá, e lá ficaria pelo tempo que fosse necessário.
Já Tenten sentiu novamente seu corpo tremer, voltou a chorar após o susto. Que dor era aquela que se apossava de seu peito? Mal conhecia aquele homem, o qual por sinal lhe abandonara e abandonara sua mãe... Deveria odiá-lo por sua atitude inumana, mas não conseguia. Mas e agora era justamente ele quem lhe salvara. Como reagir diante de tal ato?
— D-Dan...? — chamou erguendo minimamente o braço direito como se quisesse tocá-lo.
O Anjo celeste se aproximou lentamente de Neji, até que pudesse sussurrar em seu ouvido:
— Orochimaru... — ele falou simplesmente. Sentindo quê, não suportaria por mais um minuto. Torcendo internamente para que a genialidade do Hyuuga fosse capaz de captar sua mensagem. Sentiu o corpo do outro tremer levemente, parecia que aos poucos Neji recobrava sua consciência, mas não estaria vivo para explicá-lo.
Finalmente soltou o pulso do moreno, sentindo seu corpo ser dilacerado pela adaga ao impulsionar-se para trás e a mesma sair rasgando-lhe ainda mais a carne. Dan caiu no chão e muito próximo de Tenten, emitindo um barulho oco no processo. Os olhos azuis não transmitiam nenhum tipo de emoção.
Instintivamente a Mitsashi levou as mãos a boca, totalmente assustada com a situação. O Anjo que descobrira recentemente ser seu verdadeiro pai agora dava os últimos suspiros de vida, e tudo por sua culpa. Aproximou-se do mesmo com os olhos cheios de lágrimas e tentou tocá-lo, mas recuou com medo. Não dele, de si mesma. Tenten não entendia o porquê, mas não se sentia merecedora daquele sacrifício.
—... Tenten... — ouviu sua voz chama-la e despertou do transe, olhando-o no mesmo instante. Viu Dan erguer uma mão trêmula e segurar a sua, chorou mordendo os lábios e engolindo em seco. — Você se parece muito com a sua mãe... — tossiu cuspindo uma quantidade generosa de sangue.
— Não faça esforço! — ela se desesperou, aproximando-se dele ainda mais e fazendo com que a cabeça do mesmo repousasse em seu colo. Totalmente inofensiva, Tenten não sabia o que fazer para ajudá-lo. Dan emitiu um sorriso que mesclava tristeza e felicidade, diante da inocência de sua menina.
— Saiba... — tossiu novamente. Ela se desesperou, pedindo para que ele parasse de falar, que não exagerasse, mas ele sabia que não havia volta. A arma com a qual fora ferido era a única capaz de lhe tirar a vida. Sorriu mais feliz, mostrando os dentes brancos e manchados com o sangue que vomitava involuntariamente — E-Eu tenho orgulho de você, Tenten... — ele falou olhando pra ela e segurando sua mão.
A morena sorriu agradecida e assentiu várias vezes, estava ficando tímida com o olhar do Anjo sobre si. Ele lhe encarava paralisado, mas com um sorriso levemente esboçado nos lábios.
Enquanto isso o Anjo amaldiçoado caíra de joelhos no chão. A arma escorreu para um local mais afastado no processo e Neji respirava de forma descompassada enquanto mantinha-se sentado sob os próprios calcanhares. Aos poucos ele sentia sua consciência voltando, assim como seus sentidos. Era capaz de mover as mãos e ergue-las o suficiente para ver o sangue que lhes sujavam. A boca aberta enquanto puxava ar com necessidade para os pulmões.
Naquela altura ele já havia regredido o segundo estágio de sua maldição para o primeiro, os olhos voltaram ao seu tom límpido e perolado. As veias não eram mais tão marcantes quanto antes, assim como sua expressão.
Tentava entender o que havia acontecido, demorou alguns segundos até erguer os olhos e fitar a cena de Tenten chorando próxima do corpo do pai. Ela falava coisas, mas ele era incapaz de entender. Em sua mente apenas um nome se repetia como um eco infinito. Orochimaru.
Tenten levantou a cabeça e mirou o Hyuuga, viu que o mesmo não era mais a criatura monstruosa a qual quase lhe matara segundos atrás. Sorriu triste para o mesmo e voltou a fitar a imagem de Dan, ele permanecia na mesma posição. E a verdade e a negação viera à tona aos olhos castanhos.
— P-Papai...? — indagou assustada e sentindo o coração se despedaçar ao ver a mão do azulado escorrer sob a sua.
Órfã, Tenten estava órfã. Outra vez.
***
— Hinata...? Hinata! — alguém chamou lhe despertando do transe causado pelo choro impulsivo de horas à fio. A Hyuuga viu-se desesperada após ver o seu pai morrer para salva-la. Justo ele a quem ela sempre julgou não se importar consigo.
Após ver o Demônio golpear Hiashi com sua arma sagrada, Hinata não pensou duas vezes antes de vingá-lo, era um inimigo qualquer e não fora necessário retirar a adaga do coração de seu pai para matá-lo. Após isso a azulada sentou-se no chão com os olhos cheios de lágrimas. Sua visão estava embaçada e o coração dolorido. Perguntava-se por que todas aquelas coisas ruins estavam acontecendo consigo, o que havia feito para merecer?
Seu pai havia confessado que apagara parcialmente sua memória. Olhou por alguns instante para o corpo do Uzumaki que se encontrava desacordado poucos metros dali, mesmo que não conseguisse focalizar nada com precisão. Continuou a chorar. Chorou, como há muito não fazia.
Havia perdido o seu pai, seu único laço familiar que passara a se importar. Hanabi havia se mostrado uma pessoa indigna de seu amor, virou-lhe as costas quando mais precisou, era sua irmã, mas simplesmente não conseguia olhá-la nos olhos sem ver todo ódio que a mais nova tinha para consigo. Tudo bem, seu pai nunca fora um exemplo de homem, entretanto, mesmo quando lhe expulsou do Clã ela sentiu a dor dele, mesmo que este não demonstrasse. No fundo Hyuuga Hinata sabia, havia sido expulsa para não precisar ser morta.
Não soube por quanto tempo chorou abraçada ao corpo inerte e ensanguentado de Hiashi. Mas o fez até não ter mais forças e sentir suas lágrimas secarem, quando ouviu seu nome ser chamada, sequer tinha mais forças para derramar uma única gota de lágrima.
Seu rosto estava marcado pelo líquido salgado, os olhos, nariz e boca vermelhos. Naquele momento ela se encontrava em uma espécie de transe, parecia ter tido a sua alma arrancada do próprio corpo. A dor não passava, talvez nunca passasse.
Hinata nunca em sua vida pensou que fosse dizer ou pensar nisso... Mas agora entendia Neji. Entendia todo o ódio e fúria que ele sentia. Queria que todos pagassem, que todos morressem. Mas não queria ter perdido seu pai.
— Hinata! — chamou novamente a voz, despertando-a de mais um transe em que se encontrava. Lenta e automaticamente, a Hyuuga ergueu o próprio corpo parcialmente sujo de sangue, a chuva havia amenizado, mas não parado.
Novamente olhou para as próprias mãos, a sensação era de que havia assassinado o próprio pai. E ela sabia que tinha culpa, afinal fora por causa dela. Sempre ela...
Olhou novamente na direção de Naruto que permanecia desmaiado. Agora sua visão não se perdia nas lágrimas e ela podia ver claramente a expressão serena, quase angelical que ele possuía na face, mesmo nocauteado.
— Ele disse... — ela sussurrou sem desviar o olhar do Uzumaki. Na verdade Hinata não precisava olhar para saber quem antes havia lhe chamado
O Arcanjo milenar abaixou-se ao lado da menina Hyuuga e pôs uma mão amiga em seu ombro, a situação como um todo ainda estava bastante confusa:
— Disse o quê? — questionou Jiraya numa voz tranquila, ao mesmo tempo que inquisidora. Hinata franziu o cenho e o olhou, suas orbes peroladas pareciam transmitir um pedido silencioso de socorro ou piedade. O que fez o coração do mais velho se apertar diante da súplica muda.
— Que estávamos juntos... Que me amava. — falou e baixou os olhos, desviando o olhar na direção do corpo falecido de seu pai — Confessou que havia apagado a minha memória... Como ele pôde? — ela fez menção de iniciar um novo choro. Mas ao mesmo tempo que forçou os olhos e fez uma expressão chorosa, ela nada conseguiu expelir. Nenhuma única gota do líquido salgado e cheio de dores.
Estava seca, estava oca.
— Não vou pedir para não ficar triste, seria burrice da minha parte... — falou Jiraya observando o corpo do gêmeo mais velho de Hizashi e líder do Clã Hyuuga. — Mas preciso pedir para levá-lo daqui... Ele merece ser enterrado, Hinata. — falou afagando as costas da menina. Seu tom era ameno, como se falasse com um animal ferido. E bem, supondo a situação, talvez realmente estivesse.
— Eu sou uma pessoa ruim, não sou? — indagou novamente olhando para as próprias mãos — É a única forma de explicar toda essa desgraça que me persegue... — soluçou sentindo sua garganta doer e resquícios deixados pelo choro compulsivo. Jiraya suspirou pesadamente e balançou a cabeça com um breve menear.
— Quero que você me ouça muito atentamente, Hinata... — ele começou falando. — Você não é uma má pessoa. Você é uma pessoa muito boa, a quem coisas ruins aconteceram. Além disso, o mundo não se divide entre pessoas boas e más. Todos nós temos luz e trevas dentro de nós. Até os Anjos e Demônios... Acredite. O que importa é qual desses caminhos nós escolhemos pra seguir. É o que realmente somos. — as palavras pareceram purificar e amenizar um pouco da dor que a Hyuuga sentia. Mas ainda lhe restava dúvidas.
— Mas eu errei! — ralhou mais pra si do que pra ele, fechando as mãos em punho — Eu matei Uchiha Sasuke... — choramingou baixando os olhos.
Através do baixo olho ela conseguiu ver o braço do Arcanjo se mover até o corpo de seu pai, tocando-lhe a adaga fincada ao seu peito e a qual Hinata não tivera coragem de retirar antes, então ele o fez. A curiosidade a forçou a erguer os olhos e fitá-lo, Jiraya observava a adaga suja de sangue com muita cautela. E falou:
— Sim, você matou... — ela voltou baixou a cabeça e quis chorar com a acusação verdadeira — Mas ele está em um lugar melhor. — completou levantando e mostrando a adaga para ela enquanto caminhava na direção de seu pupilo desfalecido.
— Como você sabe? — questionou com certa descrença.
— Eu não sei... — deu de ombros e sentou-se próximo ao corpo do Anjo loiro, mas seus olhos fixos na Hyuuga que também lhe encarava como se buscasse uma explicação plausível. — Mas posso garantir que qualquer lugar é melhor do que aqui, para ele... — deu de ombros e ela arqueou uma sobrancelha. Jiraya sorriu nostálgico. O quanto não teve trabalho com aqueles três? ...Naruto, Neji e Sasuke. — Sasuke vivia a sombra de seu destino, Hinata. Ele sabia que chegaria o momento em que teria que matar o Anjo prodígio... Mas seu coração era bom, e mesmo querendo cumprir seu papel, no fundo ele sabia que não podia. Por isso Orochimaru enviou Neji atrás da Mitsashi... Mas aí ele se apaixonou e deu no que deu. — deu de ombros. Sequer notara que havia falado demais.
— Orochimaru? — indagou com os olhos arregalados, Jiraya sorriu tristonho, não pelo Arcanjo que por anos havia lhe enganado... Mas sim pelo seu amigo, a quem no mesmo instante se recordou.
— Sim, Hinata. Orochimaru. — disse pausadamente e desviando os olhos para o Céu como se pudesse ver o sorriso tranquilo do amigo que só Deus sabe onde estaria no momento. Um sorriso de adeus... — Ele se foi agora... E o Céu já parece mais triste. — Hinata se irritou e se levantou.
— Do que está falando? — ralhou. Só então Jiraya se deu conta da realidade e a olhou curioso, levantando-se também.
— Dan, Hinata... Ele fez um feitiço que ligava a própria vida a do Orochimaru, o verdadeiro mentor de toda a desgraça que nos ocorreu até hoje. Foi Orochimaru quem amaldiçoou o Neji, foi ele que ativou a maldição dele no dia em que o mesmo quase exterminou seu Clã e matou o próprio pai. Foi ele quem ordenou que Neji... — fez uma breve pausa — O qual por sinal ainda não sabia de nada... Mas cumpriu a ordem dele e matou a namorada do Sasuke há alguns anos. Assim como foi atrás da Tenten para matá-la também... Foi ele quem colocou o Céu contra Naruto e me obrigou a sair de lá, dando-me como um desertor e traidor aos olhos de todos... — caiu no chão exausto e com raiva ao mesmo tempo. — Agora o Dan está morto... E ele também. — uma lágrima solitária escapou de seus olhos e ele deixou que a mesma chegasse ao chão de terra molhado pela chuva.
— Mas como assim? — Hinata exasperou-se — Você aceitou e ficou do lado dele mesmo assim? — gritou.
— ELE TAMBÉM ME MANIPULOU! — revidou olhando-a num misto de raiva e desespero. Num ímpeto de fúria apertou com mai força a adaga e tentou esfaquear Naruto que permanecia imóvel e desmaiado. Mas Hinata foi mais rápida e o interceptou, segurando suas mãos com toda a força que tinha.
— O que está fazendo? — perguntou horrorizada. Ele queria matar o próprio discípulo? O mesmo que ele acabara de alegar que fugira do Céu para proteger?
— Solte-me! Eu vou acabar com isso de uma vez... — falou olhando fixamente para o Uzumaki. Hinata utilizava toda a força que tinha, mas Jiraya era mais forte. Aos poucos ele conseguia empurrar a adaga contra o corpo do Anjo loiro. A Hyuuga por sua vez via as próprias mãos trêmulas devido a força que usava e que era revidada.
— Pare! — ordenou desesperada ao ver que a adaga já cortava a carne do Uzumaki. — PELO AMOR DE DEUS, PARE! — gritou sentindo o coração acelerar pelo misto da adrenalina e medo. Já havia perdido pessoas demais para um dia só.
— POR QUE? POR QUE EU PARARIA? — ele berrou perfurando ainda mais o tórax do loiro e fazendo o sangue expelir como um jato do local. Hinata não entendeu como conseguiu, mas novamente voltou a chorar. Todas as lágrimas que achou que não tinha mais, voltaram à tona e ela não se conteve.
— Por favor... — implorou. Para seu desespero a tremules de sua mão e a força imposta por Jiraya não ajudava. — Para...
E num único movimento o mais velho se soltou, jogando longe a adaga lendária. A Hyuuga não olhou para ele, mas assim que o mesmo se afastou ela sentiu o corpo fraquejar e caiu sob o Uzumaki, apoiando sua cabeça no peitoral exposto do mesmo. Na região próxima da pequena ferida, nada suficiente para mata-lo. Continuando a chorar compulsivamente.
Ainda com as mãos trêmulas ela tocou a carne ferida e com o pouco de benção que ainda tinha, curou o ferimento sem parar de chorar.
Jiraya e afastou com passos descoordenados e olhando fixamente para o casal. Sorriu de canto e satisfeito consigo mesmo, seu plano havia dado certo. Encenou bem. O Arcanjo nunca planejara matar seu pupilo, apenas fazer a Hyuuga enxergar os próprios sentimentos pelo mesmo.
— Você o ama, Hinata. Mesmo sem suas lembranças... — falou. — Cuide dele, dê todo o amor e carinho que foi negado pelo tempo e circunstâncias ao meu discípulo... Ele nunca deixou de pensar em você! — completou e suspirou. Criando fôlego para se aproximar novamente dos dois. — Mas por hora, leve o corpo de seu pai de volta para seu Clã. — olhou para o mesmo um pouco distante. — Ele precisa ser enterrado como um digno guerreiro celeste ao lado do irmão. — mas ela parecia relutante em se afastar do loiro, abraçando ainda mais o mesmo. Jiraya afagou os cabelos da mesma sentindo piedade. — Eu cuido dele aqui, Hinata. — disse em seu tom ameno — Agora vá! — ordenou.
***
— Você é meio problemático, sabia? — indagou a loira parando bruscamente a sua caminhada e pondo as mãos na cintura. Estava discutindo com o rapaz que a acompanhava.
A verdade é que a Sabaku não sabia ao certo para onde estava indo. Já estava anoitecendo quando a mesma decidiu sair para caminhar. Com a sua roupa de academia e um tênis apropriado, Temari pegou seu celular — averiguando se havia alguma resposta de Tenten. — e com os fones de ouvido ela saiu apartamento a fora.
Não estava com cabeça para suportar os chiliques de Ino e muito menos a indiferença de Gaara. Os dois pareciam cada vez mais distante dela... Ou talvez fosse ela quem não se aproximava mais de ambos. Sem contar que estes pareciam não se importarem com a falta de notícias da Mitsashi.
Mas de acordo com a Yamanaka, Tenten já havia mandado várias mensagens informando que estava bem e que não tinha previsão para voltar das suas férias inesperadas com o ex-professor Hyuuga. E mesmo querendo acreditar, ela sempre se pegava imaginando o porquê da amiga não responde-la diretamente. O que acabava tornando tudo muito suspeito.
Para completar também havia o sumiço repentino de Hinata. Aparentemente a mesma havia voltado para a casa dos país no exterior. Mas sem se despedir? A história num todo estava muito mal contada.
— Você que me ignora o caminho inteiro e eu sou o problemático? — questionou o Nara abrindo os braços. — Não creio... — cruzou os braços e meneou negativamente.
Os olhos negros de Shikamaru vagaram pelo enorme calçadão em que se encontravam. O vento frio de fim de tarde faziam os cabelos de Temari esvoaçarem com força, obrigando-a por vezes a retirá-los dos olhos e da boca. Já os seus estavam em seu penteado costumeiro, presos num rabo de cavalo alto e fixo.
Respirou fundo inalando o cheiro de maresia e torcendo para quê a calmaria do local lhe desse coragem para fazer o que tanto queria.
Também estava preocupado com o sumiço repentino dos dois Anjos, mas não poderia sequer pensar em revelar algo para Temari. Além de muito provavelmente ser chamado de louco, a loira também poderia correr riscos de vida sabendo da verdade.
Na verdade, só pelo fato dela estar tão envolvida indiretamente em toda aquela confusão já era deveras perigoso. Quem dirá se soubesse de algo? Não... Sem sombra de dúvidas a melhor solução era deixar Temari permanecer no escuro... Pra sempre.
— Claro que é! — a voz irritada da loira o despertou do leve transe causado pela sonolência constante do Nara. Ele piscou algumas vezes e a olhou como se a mesma fosse louca. — Não sei se percebeu, bicho preguiça, mas você está me seguindo desde que saí de casa. — ela completou fazendo gestos e o olhando com um semblante nada amigável. Shikamaru por sua vez fez cara feia com o apelido que recebeu.
— Eu só estava tentando te distrair... — falou tentando acalma-la e se aproximando para tocar-lhe o rosto. Separou uma mecha de fios dourados que insistiam em cobrir-lhe a visão daqueles olhos verdes e penetrantes que havia aprendido a gostar recentemente.
— O que você tá fazendo!? — perguntou estapeando a mão do Nara. Este por sua vez ia reclamar da agressão, mas no fundo foi capaz de captar que na verdade Temari havia ficado mexida com o gesto. Então sorriu galante:
— Calma loira... — abriu um pouco mais do sorriso preguiçoso e ela arqueou uma sobrancelha.
Temari quis recuar, quis falar que aquilo não era certo. Assim como não estava com cabeça para galanteios no momento. Todavia, não podia negar que a sensação fora deveras boa. Sentia seu coração acelerado e a respiração levemente descompassada.
Shikamaru notou os sinais e a provável recusa da Sabaku. E num pedido mudo ele segurou uma mão dela e saiu puxando-a na direção de um dos quiosques que ali havia.
— Pra onde está me levando? Me solta! — esperneou e ele revirou os olhos. É claro que ele não esperava que ela aceitasse assim, de bom grado...
— Vamos tomar uma água de coco, valeu? — a olhou por sob o ombro com uma sobrancelha arqueada. — Sei que você está com os nervos a flor da pele por causa das suas amigas... Mas não pode enfartar por elas. — repreendeu.
— Não preciso disso...! — exclamou puxando a mão bruscamente, naquela altura a loira já podia sentir a dificuldade de andar na areia da praia com o tênis. Cruzou novamente os braços e baixou a cabeça fitando os próprios pés. As sobrancelhas franzidas e o bico raivoso nos lábios carnudos davam-lhe uma expressão de mulher séria e perigosa, e Shikamaru adorava isso.
Aos seus olhos era algo extremamente sexy.
— Eu não falei que precisava... Mas você não vai recusar. Aliás, já te disse como fica sensual e linda com essa cara? — sorriu de canto ao vê-la arregalar os olhos e virar o rosto totalmente corada.
Não esperou um convite formal para voltar a puxá-la pelas areias da praia. Naquele dia ele ensinaria a Sabaku o real motivo de sua melhor amiga ter fugido com o Hyuuga. Havia notado desde tempos, o mal de Temari era falta de uma boa noite de sexo e um bom romance. E se dependesse dele, ela não passaria por isso nunca mais.
***
Alguns dias depois.
Suas orbes peroladas observavam o mutirão de pessoas vestidas de preto. Hinata havia voltado para seu Clã com o corpo falecido de seu pai. A comoção foi geral, haviam perdido seu líder, tudo se tornou estável.
Via pessoas se movimentarem de um lado para o outro para desejarem os pêsames aos parentes mais próximos, como ela. Ouvia choros baixos e palavras daqueles que lhes desejavam as condolências. Mas Hinata estava totalmente inerte. Desligada do mundo interior. Tudo o que seus olhos captavam era a imagem de seu pai dentro daquele caixão de madeira e mármore branco. Assim como detalhes em ouro.
Se deveria ou não estar lá? Não se importava. De acordo com as ordens e regras do Clã, a herdeira direta assumia a liderança no caso da morte do líder. E Hiashi não havia mudado as mesmas.
Mesmo em outro mundo, ela era capaz de ouvir pessoas sussurrarem que jamais a veriam uma líder. Que jamais lhe aceitariam. Que ela não era capaz e que na verdade era uma traidora. Aceitá-la lá, seria o mesmo que aceitar aquele que um dia assassinou metade do Clã e deixou a outra metade traumatizada e debilitada.
Sim, não eram todos os presentes que chegaram a conhecer Hyuuga Neji, mas sua fama o procedia. E lá, ela não era a das melhores.
De acordo com a sua vontade, Hiashi seria enterrado próximo de seu irmão gêmeo e sua falecida e amada esposa. Mãe de Hanabi e Hinata.
— Meus pêsames, querida. Sei como é difícil pra você! — uma voz tranquila e feminina ressonou em seus ouvidos. Hinata despertou do transe causado pela onda de lembranças que lhe invadira, tomando um susto momentâneo e secando as teimosas lágrimas com as costas das mãos.
Olhou para a mulher que possuía um belo par de orbes peroladas idênticas as suas. Seu nome era Lira, Hyuuga Lira. Possuía uma aparência de uma mulher de quarenta e tantos anos e participava do conselho do Clã.
Sem forças para responder, ela apenas meneou com um aceno positivo e baixou os olhos enluarados fitando as próprias mãos entrelaçadas no colo. Hinata estava sentada em uma cadeira próxima do caixão de Hiashi.
Olhou mais uma vez para a figura do pai ali, deitado... Era perturbador vê-lo assim, tão frágil. Principalmente por saber que a culpa era sua. Levantou-se levemente e seguiu na direção da cama de madeira, pondo as mãos na borda.
A Hyuuga não se conteve em não tocar o rosto do homem, sentindo a pele fria. Ao longe era assim, Hiashi parecia estar dormindo. Mas a verdade era cruel e abatia os sentimentos da nobre guerreira e herdeira direta de seu trono.
Hinata fora capaz de ouvir o burburinho que se iniciou próximo dali, olhares indiscretos e atravessados que lhe eram lançados. Não deu muita atenção para a pequena discussão, estava mais preocupada em guardar as últimas memórias do seu honorável pai em sua mente... Para sempre.
— Ela não é apropriada! — um Hyuuga exasperou-se, chamando finalmente a atenção da azulada que o olhou atordoada, ainda inclinada sob o caixão do pai e com uma delicada mão sob o peito do mesmo. Curiosamente, local onde sentiu uma espécie de pedra ou algo mais sólido. Voltando imediatamente sua atenção para o corpo sem vida.
— Fale baixo! — ordenou Lira. — Estamos em meio a um enterro...
Mesmo ouvindo tudo, Hinata fez questão de não dar a devida atenção ao caso. Na verdade, o que chamou-lhe a atenção mesmo fora o colar que o pai usava. Era uma grossa corrente de ouro com um imenso amuleto de rubi, a peça por sua vez parecia esquentar ao seu toque. E sem pensar duas vezes ela o retirou com um único puxão.
Através do vidro vermelho a Hyuuga viu o próprio reflexo. A sua imagem refletida e cansada naquele pequeno pingente era algo doloroso aos seus olhos. As orbes peroladas, as quais sempre tão cheias de vida e brilhantes, agora estavam opacas, vermelhos de tanto chorar e sem brilho. Abaixo dos mesmos duas grandes olheiras profundas completavam o visual de alguém que não dormia há dias...
Sentiu como se sua alma refletisse naquela peça. E era estranho pensar. Estranho até imaginar as verdades por trás de tudo o que Hiashi havia lhe revelado.
Ele realmente havia apagado a sua memória? Instintivamente a imagem de Naruto lhe veio à mente. Mais precisamente do dia em que ele a beijara na faculdade... Ele estava tão gentil, tão amável... Ao mesmo tempo que tão diferente de quando supostamente se conheceram.
— O que pensa que faz aqui!? — soou uma mulher em voz alta, trazendo-a de volta para a realidade. Hinata piscou os longos cílios azulados e voltou a fitar o pequeno grupo de conselheiros que ali haviam. Seu cenho estava franzido e a sua curiosidade aumentou ainda mais ao ver Hanabi no meio de todos eles, instintivamente fechou seu semblante e um ódio colossal tomou conta de seu corpo. — E onde conseguiu isso? — apontou para o colar que estava em suas mãos. — Me devolve! — trincou os dentes andando até o lado oposto da Hyuuga mais velha que apertou ainda mais o objeto entre suas mãos.
— Não! — respondeu e Hanabi a olhou com fúria.
— Não é bem vinda aqui, Hinata. Se acha que pode liderar o Clã só porque é a primogênita, saiba que está muito enganada...
— Do que você está falando? — ela indagou afastando-se com cuidado. — Não vim aqui para ser líder, Hanabi. Vim aqui para me despedir do meu pai! — exclamou. A outra cruzou os braços e riu debochada.
— Oh sim... E eu nasci ontem...
Dos demais Hyuuga's que ali haviam, ninguém ousava pronunciar uma única palavra. Hinata franziu o cenho e arqueou a sobrancelha olhando desconfiada para a irmã.
— É isso que você quer, não é? — seu tom era cauteloso. — Foi isso que sempre quis! — meneou negativamente. — É a liderança que você quer, Hanabi? — sem pensar duas vezes a Hyuuga mais velha pegou o anel de ouro com o símbolo de seu Clã, o qual estava nos dedos do falecido Hiashi, e jogou na mais nova com fúria. — Então fica com ela! — exclamou e em seguida saiu correndo dali.
Não se importava com mais nada. Hinata havia procurado o seu lugar no mundo, e só havia uma pessoa para a qual ela sempre voltaria.
— Naruto...! — sibilou com as mãos no peito e o suposto colar de seu pai entrelaçado entre os dedos finos e delicados. Logo saindo da Ilha dos Hyuuga's sem olhar pra trás.
***
Um mês havia se passado desde então.
Era estranho pra ela estar assim, era estranho agir assim. Como uma pessoa que acabara de conhecer podia ter um efeito tão destrutivo nela? Tenten sentia uma tristeza profunda toda a vez que se lembrava da morte de Dan. Seu pai.
Voltara para Tókio com Neji após descobrirem que Orochimaru, o mentor de toda a desgraça em suas vidas e na vida de tantos outros, estava morto. Ainda não havia conversado com Hinata, mas através de Jiraya ela soube de tudo que aconteceu com a Hyuuga. Soube também que após o ocorrido no enterro de Hiashi, ela foi até ele, atrás de Naruto. E lá estava desde então. Ficou triste e feliz pela amiga, talvez, se ela estivesse ali no momento, ambas poderiam compartilhar da mesma dor. A dor de estar sozinha em família, pra sempre.
Sim, pois não importava a quantidade Hyuuga's que haviam naquele Clã, ou não importava se Tenten teria laços perdidos pelos mundos, tios, primos e etc. Nada seria capaz de tapar o buraco que a dor da perda dupla deixava.
Era tão triste, tão doloroso. Já havia chorado demais, mesmo que não entendesse exatamente o porquê. Gratidão? Amor fraternal? Seria possível? Seria possível se afeiçoar a uma pessoa com um único contato ou conversa? Bem, em seu caso sim. Ela se apaixonara por Neji desde o primeiro momento em que se esbarrou com ele naquela faculdade... Quem sabe?
Estava em um dos maiores cemitérios de Tókio. Dan havia sido cremado, como tantos outros corpos que ali residiam suas cinzas. Sim, aquele cemitério hospedava apenas cinzas mortalhas. Nada mais. As covas como um todo, eram pequenas placas de mármores com escrituras no chão. E todo o local era preenchido com uma grama verde e vivaz. Quase como um aviso de que a morte na verdade não era o fim de tudo.
Andava pelo local com uma única rosa vermelha em mãos, a mesma era exuberante. Os olhos fixos na placa de tamanho mediano, com palavras simples e apenas um nome. Ouviu quando Neji cessou os passos para dar a ela mais privacidade. Estava de luto, mas precisava se despedir.
Não havia tido coragem para fazê-lo desde então. Só havia se trancado dentro de si mesma durante aquele mês, sofrendo por ela e por todos.
Seu vestido preto e colado, os cabelos castanhos amarrados em um rabo de cavalo baixo. Seu rosto ausente de maquiagem e os olhos vermelhos pelo tempo que já havia chorado.
Tenten chegou até o túmulo reservado para Dan e parou estática durante alguns segundos, os olhos castanhos estavam fixos na pedra de mármore com os seguintes dizeres:
" Aqui jaz Dan... Um Anjo que sempre vai olhar por mim. "
Por mim quem? Ninguém saberia, exceto ela, é claro. Aquela frase era dedicada a ela. Sentiu o coração apertar um pouco mais e abaixou-se lentamente, sentando-se sob os próprios calcanhares. Começou:
— Oi... — seu tom era baixo, ela não conseguiu evitar o riso causado pelo humor negro do momento. Olhou para o céu em busca de coragem. Estava passando por aquilo novamente, e em menos de um ano. — Oi Dan... — recomeçou, agora suas palavras continham um pouco mais de convicção. — Eu... Eu sei que devo estar parecendo uma idiota aqui... — olhou para o lado meio perdida, fitava a grama como se esta fosse lhe dar coragem e palavras para prosseguir. — ...É estranho né? Nem tivemos tempo para nos conhecer direito... Eu só soube um lado da história e te julguei mal. Te julguei de acordo com as minhas deduções. Eu nunca pensei que realmente houvesse algo assim... Algo maior, além de uma missão, sabe? Eu nunca achei que fosse amada... — semicerrou as orbes castanhas ao sentir as lágrimas lhe inundarem outra vez. — Me perdoa, Dan. Eu não sei fazer isso... — ela chorou e ergueu a cabeça, fitando Neji que lhe observava de longe. Em respeito ao falecido Anjo, o Hyuuga trajava uma roupa social preta e os longos cabelos lisos estavam presos em seu típico rabo de cavalo nas pontas.
Era uma verdadeira tortura ver Tenten daquele jeito, naquele estado. Pior ainda era saber que havia matado o homem inocente. Descoberto então, nos últimos segundos de vida do mesmo, que ele nunca tivera nada com a morte de seu pai. E assim como ele, Dan foi apenas uma peça do jogo de Orochimaru. Uma parte de sua alma, a qual ele julgava não possuir uma até conhecer a Mitsashi, estava se rompendo. Uma dor avassaladora tomava conta de si. E a sensação era de que mil agulhas lhe atravessavam o peito sem piedade e repetidas vezes por fazê-la sofrer daquela maneira.
De forma discreta ele fechou as mãos em punhos, as mesmas estavam escondidas nos seus bolsos dianteiros da calça.
O perolado observou com uma pontada no peito, Tenten falar mais algumas coisas para o túmulo de seu pai. Ela estava tão entretida falando que mais parecia que o dito cujo estava presente à sua frente. E talvez estivesse. Várias palavras passaram despercebidas aos olhos com dons de leitura labial do moreno, mas uma última frase ele conseguiu entender com clareza.
— Para onde vão os Anjos? — foi a pergunta dela enquanto fitava o céu. Baixou os olhos sentindo um mundo desabar em suas costas. Sentia algo ruim, e não era nada relacionado a dor da perda. Neji não conseguiu compreender, mas algo dentro dele gritou, ele estava perdendo Tenten.
Esta por sua vez se levantou e caminhou cabisbaixa na direção dele. Ela podia sentir os olhares de Neji sobre si, mas não sentia vontade de retribuir os mesmos. Sua alma estava despedaçada, era o certo a se fazer?
— Tenten... — ele a chamou tentando toca-la assim que ela se aproximou o suficiente. Mas ela repeliu o gesto erguendo a mão e meneando negativamente. — O que você... — se calou ao vê-la erguer a cabeça a fitá-lo. Sua expressão era tão triste... Céus, como aquilo doía em Neji.
— Eu amo você. — ela falou com convicção, não estava mais chorando. Na verdade, a Mitsashi parecia segurar um mar de sentimentos no momento. — Eu sei que... Muitas vezes eu errei com você. — seu tom era baixo, quase inaudível. Mas a audição de Neji era bem aguçada. — Mas entenda... — sorriu tristemente e deu de ombros. — Meu jeito de amar é assim mesmo, meio torno... Sem jeito. Eu amo incondicionalmente, sem esperar que seja perfeito, Neji. Apenas sincero. — ela completou tamborilando os dedos finos na própria coxa torneada e por cima do vestido justo.
— É sincero! — ele respondeu acenando afirmativamente. Tenten repetiu o gesto, mas mordeu o lábio inferior e fechou os olhos com força enquanto fitava o chão. Totalmente destruída por dentro. Não sabia que aquele amor proibido seria pago com uma vida inocente. Era ela quem deveria ter morrido. Neji se aproximou mais, não sabia exatamente o que fazer, não tinha jeito com esse tipo de coisa. De forma meio desajeitada e sem delicadeza, coisa que ele definitivamente não possuía, ele falou: — Você se tornou o único motivo pelo qual eu ainda estou aqui... — falou tocando o lábio já muito machucado da morena pelas vezes em que ela reprimiu o choro mordendo os mesmos. Quis beija-la, ela estava tão linda e tão frágil. Mas...
— Não! — ela exclamou afastando-se e novamente repelindo o toque. Sua voz foi grave, ao mesmo tempo que continha entonações tristes.
— Tenten, o que você... — ele falou, mas não terminou. Observava os gestos e as feições da morena. As energias de Tenten eram negativas, assustadoramente tristes. Era como se ela tentasse repelir seu toque. O que estava havendo com sua Mitsashi?
— Eu não posso fazer isso, Neji! — ela completou travando o corpo e sem olhá-lo. — E uma vez você me disse... A única maneira de não ficarmos juntos é se eu não quisesse... — o Hyuuga franziu o cenho aproximou-se dela com uma sensação ruim. Aquela conversa estava tomando um rumo assustador. Novamente ela tentou repeli-lo, mas este usou de força física para segurar seu braço e forçar o queixo dela para fitá-lo. Enfim pôde vislumbrar as orbes castanhas de Tenten, suas pupilas estavam retraídas com o sinal de seu desespero.
— Do que você tá falando!? — sua voz era firme. Mas ao contrário disso, Neji estava num turbilhão de pensamentos, sensações e horrores por dentro. Os lábios da Mitsashi estavam trêmulos, os olhos com cílios longos e molhados pelas lágrimas piscavam de acordo com sua vontade de tentar entender. Era mesmo realidade? Era como se seu coração fosse destruído. Molécula por molécula. Era uma tortura sem fim.
— Não... — ela começou, Neji estava petrificado. Suas mãos grandes apertavam com uma força desnecessária os dois braços da morena, mas ela parecia não se importar. Tenten criou coragem e pela última vez ergueu os olhos para fitá-los. Pela primeira vez desde que lhe conhecera, ela viu, Neji também possuía pupilas nos olhos, mas as mesmas eram quase transparentes, eram igualmente peroladas como a íris. Então por que? Por que só agora ela havia visto-as? Seria a claridade? Seria a luz? Seria o momento... Ou seria sua dor? — ... Não posso ficar com você. — sua voz foi um sussurro. Tudo o que ela conseguiu emitir antes das lágrimas se apossarem de si. Não conseguia olhar pra ele, não depois de tudo. A dor era demais. Iria preferir morrer. — Onde você vai, pessoas se machucam, Neji... — ela baixou a cabeça e disse em meio aos soluços. — Eu não posso arriscar a segurança de ninguém mais por causa desse amor.
O Hyuuga permanecia estático, parecia que seus sentidos haviam se perdido com a declaração da Mitsashi. E talvez tivessem.
Na mente dele, o mundo congelou. Ele não conseguia pensar em nada, talvez não quisesse. Um eco desgraçado ressonava em sua mente a seguinte frase: "Não posso ficar com você.". Segundos se passaram assim, era como se a sua ficha não tivesse caído. Talvez nunca caísse. Tenten estava terminando com ele? Depois de tudo? Onde estava aquela garota que havia prometido que lhe amaria independente das circunstâncias? Ela o fitou em súplica.
Então, se era assim. Talvez... Só talvez. Realmente não valesse a pena. Lentamente ele a soltou. Sentia uma dor... Uma dor pior que a própria morte. Mas o fez. Viu Tenten voltar a baixar a cabeça chorando e se afastar. Ele não choraria, não ousaria fazê-lo. Mas sentia a própria alma em frangalhos. Aquela mesma que até os dias atuais ele ainda se perguntava se existia, se possuía uma.
— "Você amou por dois, Neji. No fim das contas esse teu amor doentio foi mais verdadeiro do que todo aquele que ela jurou sentir por você." — as palavras surgiam em sua mente, como se alguém soprasse-as em seu ouvido. Ele nada fez, manteve-se estático. Não quis olhá-la, não quis o adeus. Mesmo sabendo ser inevitável. Estava imóvel. No fim das contas, também, aquela que havia lhe dado uma vida, fora a mesma que a tirara.
Esse era o tal do amor?
Nenhuma palavra foi proferida por ele. Nenhuma. Ainda sem olhar para Tenten, Neji virou-se lentamente para sair dali. Estava destruído, mas não era capaz de chorar. Ele havia feito uma promessa, mas iria cumpri-la? Ela não lhe quis por perto, tudo bem. Tudo bem?
(...) In another life, I would be your girl
We'd keep all our promises
(...) Em outra vida, eu seria sua garota
Nós manteríamos todas nossas promessas
— Neji! — ela o chamou, sua voz era tão chorosa. Tenten não parava de soluçar um único segundo. Ele não quis virar-se para olha-la, não tinha forças e muito menos coragem. No âmago sabia, ela não iria pedir desculpas, e ele não queria um adeus. Então apenas parou sua caminhada, esperando que ela continuasse: — Eu te amo! — ela disse. Suas palavras pareciam ter convicção. E ele quis sorrir, mas não conseguiu.
Era incrível. Incrível como aquilo não fora capaz de chegar em sua alma. Que alma? Talvez realmente não tivesse uma.
Em silêncio estava, em silêncio ficou. Neji voltou a caminhar na direção de uma pequena floresta que havia ali, cercando os arredores do cemitério. No caminho ele fez questão de abandonar os sapatos sociais, ao mesmo tempo em que desabotoou a blusa e jogou a mesma pelo gramado. Alguns metros diante e ele passou uma das grandes mãos pelos cabelos, até as pontas, onde livrou-se da pequena liga que o prendia formalmente. Em resposta um vento forte soprou, esvoaçando os fios negros e lisos. Trazendo o cheiro amadeirado dele até o olfato de Tenten que assistia a cena em meio a sua visão embaçada pelas lágrimas.
Ao chegar abaixo de uma árvore, Neji abaixou um pouco a cabeça e levou a mão até a faixa em sua testa, e com as pontas dos dedos longos, a tocou sutilmente. Pensou em se livrar dela, mas não fez. Era a marca do que ele realmente era, um amaldiçoado. Sempre seria.
Certas coisas nunca mudam, certo?
Abriu as orbes peroladas e as asas brancas e enormes, levantando voou para um horizonte distante de sua vida. Mitsashi Tenten.
Be us against the world
In another life, I would make you stay
Seríamos nós contra o mundo
Em outra vida, eu faria você ficar
Ao vê-lo partir, Tenten sentiu as pernas fraquejarem e caiu de joelhos na grama verde. Um choro compulsivo e exaustivo tomou conta de si. Estava frágil, sozinha e sentindo uma dor avassaladora. Uma mão estava na barriga que já doía pelas vezes em que soluçou fortemente, a outra tocava o chão.
Passou tanto tempo assim, chorando. O horizonte chegou, passou e se foi. Assim como o dia. Estava fisicamente exausta, mas parecia que não iria parar de chorar nunca. Seu rosto já estava totalmente vermelho, os cabelos assanhados pelas vezes em que passou as mãos nos mesmos pensando...
— "O que eu fiz?".
O vestido, antes tão belo e justo, estava amassado e um pouco úmido pelas lágrimas que se escorreram. O busto da morena pareciam suados pelo líquido salgado que ali se concentrava.
Ainda chorando Tenten se levantou, uma tontura ameaçou lhe atacar e ela teve que se abaixar novamente. A cabeça estava explodindo do tempo que já havia chorado. Depreciando-se internamente. Odiando-se.
Caminhou lentamente na direção em que Neji partira. Passou pelos sapatos, passou pela blusa que já havia voado um pouco com o vento. Até chegar próximo do local em que ele soltara os cabelos. Abaixou-se com um sorriso tristonho e pegou a liga, olhando para a mesma. Na cor preta, a liga era simples. Mas ainda tinha o cheiro dos cabelos dele.
Apertou a mesma entre as mãos e limpou uma última lágrima que insistiu em cair. Baixou a cabeça. Tinha que seguir em frente. Por ela e por ele.
— Somos só nós agora... — sussurrou tristemente afagando seu ventre.
So I don't have to say you were
The one that got away
The one that got away (...)
Então eu não tenho que dizer que você foi
Aquele que partiu
Aquele que partiu (...)
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