Amaldiçoado
15 Capítulo XV - Elos de Sangue
Notas iniciais

Haviam acabado de receber a notícia de que Tenten havia finalmente acordado, e Temari já saíra em disparada para o Hospital visitar a amiga. Em forma de apoio, Shikamaru se ofereceu para ir junto e ambos seguiram no carro da loira — já que o Nara ainda não havia comprado outro -.
Enquanto isso, no apartamento dos Sabaku's, Ino e Gaara continuavam no mesmo clima estranho desde que o ruivo descobrira a verdade sobre a Yamanaka. Amava a loira, mas não podia negar e muito menos fingir que aquilo não estava doendo. Só ele mesmo sabia o que teve que passar sozinho durante todo aquele tempo, omitindo e as vezes até se fingindo de desentendido para não precisar mais ouvir da boca da namorada ou da irmã que estava ficando louco.
Era certo que, com o passar dos dias a raiva foi diminuindo, ficando nela um sentimento de culpa. Sim, sentia-se culpado por não ter dado atenção à nenhuma explicação vinda da jovem. Sabia que no âmago, ela deveria ser tão vítima quanto ele.
Gaara chegou a acreditar que depois de tudo que passara, certamente não se assustaria ou desacreditaria de mais nada. Mas a realidade veio como um tsunami e o acertou em cheio com essa de "Caçadores de Anjos". Como? Isso mais parecia um seriado de TV e não a vida real.
Não podia negar, estava curioso. Se dependesse de si, tiraria toda aquela história à limpo e quem sabe talvez desse uma chance para Ino se redimir. Não conseguiu conter o riso safado — de canto — que se formou em seus lábios após o pensamento. Seus pés lhe levaram até o cômodo em que a loira se encontrava no momento, a sala.
Parou sua caminhada silenciosa no momento em que viu a mesma com seu belo traseiro empinado na sua direção, enquanto a mesma tentava inutilmente alcançar algo que caíra atrás do sofá.
— Maldito controle...! — rosnou ela já ficando com o rosto vermelho pelo esforço. Enquanto isso o ruivo cruzava os braços e encostava-se na parede, inclinando a cabeça lentamente e admirando a bela visão da amada que estava de saia curta e uma calcinha fio dental, deixando em evidência a bela bunda empinada e dura da mesma, tal como sua feminilidade.
— " Ok Gaara, agora que já parou de babar na sua própria namorada, faça o que se deve! " — ordenou-se mentalmente enquanto mexia a cabeça de um lado para o outro — Ino!? — falou grave, o que causou um leve susto na loira que pulou sentando-se bruscamente no sofá que rangeu.
— Gaara? — ela indagou incerta e com as sobrancelhas franzidas — Algum problema ? — observou a postura ereta do amado e sentiu um nervosismo tomar conta de si — Olha, se é por conta do controle que caiu atrás do sofá, eu juro que estava quase alcançando e... — o ruivo arqueou uma sobrancelha e a olhou descrente.
— O que? Não tem nada a ver com isso — ele deixou os braços caírem ao redor do corpo. Outra característica de Ino era que ela as vezes era boba demais, beirando a burrice pelo nível das coisas patéticas que conseguia pensar.
— Não...? — ela deu as mãos em frente ao corpo e encolheu os ombros, temendo o que estava por vir — Então? — questionou ao notar que ele não falaria.
— Eu... — ele fitou os próprios pés — Quero que me explique o motivo de ter mentido pra mim todo esse tempo — voltou a cruzar os braços, tentou não transparecer emoção na sua fala, mas suas ações deixaram claro que ele estava irritado.
Ela suspirou lentamente e acenou em concordância, indicando um local ao seu lado para ele sentar-se.
— Então sente-se, por favor — pediu num tom ameno — É um pouco complicado — mordeu o lábio inferior — Talvez seja uma longa conversa... — ele franziu o cenho, mas assentiu.
***
— Obrigada Shika, é muita gentileza da sua parte me acompanhar — agradeceu Temari enquanto andava ao lado do Nara pelos corredores do Hospital.
— Não precisa agradecer loira. Não se esqueça que eu também estava lá, sei como ela deve se sentir — ele deu de ombros enquanto suas mãos repousavam nos bolsos da calça jeans e os olhos negros estavam fixos no chão.
— É... — disse incerta e suspirando, a ansiedade tomando conta de si por finalmente chegar o momento em que abraçaria sua amiga — consciente — outra vez — E alguma notícia dos sequestradores ? — ela indagou olhando-o curiosa. Shikamaru estancou o passo com a pergunta, simplesmente sem saber o que responder — Nara ? — chamou desconfiada pela reação do moreno. Como se não bastasse Gaara que diariamente parecia estar vivendo uma segunda vida por trás dela, escondendo-lhe algo, tal como a impressão de que Hinata fazia o mesmo. Agora Shikamaru também andava tendo reações suspeitas?
— Ah... Oi? — ele a olhou como se nada tivesse acontecido, o curativo em sua testa em evidencia deixava a loira curiosa. "Será que bateram tão forte na cabeça dele que ele ficou louco? " questionou-se mentalmente.
— Eu perguntei se descobriram algo sobre os sequestradores... Qual é? — exaltou-se, revelando sua verdadeira personalidade. As mãos postas na cintura e a expressão carrancuda lhe diferenciava das demais meninas mimadas e choronas — Não é possível que dois homens que sequestraram dois inocentes, jogando um deles no meio da estrada e o deixando a mercê da sorte e levando a outra para sabe-se Deus lá onde e ainda a espancando sem motivos evidentes, fiquem impunes... — revirou os olhos bruscamente e suspirou mirando-o com um bico raivoso.
— Não espancaram a Tenten, Temari — alertou ele lembrando-se que isso era sigilo, e que os próprios Hyuuga's haviam curado a menina para não levantar suspeitas — Bem... Quando descobrirem nós saberemos — deu de ombros outra vez e ela bufou, virando-se e seguindo para o quarto ao qual informaram que a Mitsashi estava. " Ponto pra mim..." comemorou o moreno ao notar que havia escapado da pergunta fatal. Um único deslize seu, e colocaria tudo a perder. Ele não era como Ino que não se precavia com tais assuntos.
Temari seguiu pelos corredores pisando duro, sendo seguida de perto pelo Nara que hora ou outra aproveitava para observar a Sabaku por trás. Não podia negar, era uma loira cheia de qualidades e curvas. Isso era instigante. Mas infelizmente não estava ali para aquilo, pelo menos não no momento.
Por outro lado a loira arregalou os olhos azuis-esverdeados ao ver a cena do quarto da morena, sua cama vazia e a mesma de pé, mexendo em algo perto de um criado-mudo.
— Tenten? — chamou desesperada adentrando o recinto e olhando para a amiga que virou-se assustada pelo chamado repentino, mas em seguida abriu seu melhor sorriso — O que pensa que está fazendo ? — indagou cruzando os braços e fechando seu semblante ao ver a amiga teimosa — que acabara de acordar — já vestida para sair e com sua bolsa em mãos — Deveria estar de repouso, aposto que o médico nem te deu alta... — pensou um pouco — A não ser que ele seja louco! — exclamou batendo o pé e a morena riu chacoalhando os ombros de leve, amava Temari e o jeito único de ser da mesma.
— E não deu, mas eu não preciso disso — estirou língua de forma brincalhona e a outra revirou os olhos.
— Tenten, você não vai sair daqui assim do nada — ela fez birra — Suas taxas estavam muito baixas, sabe-se Deus lá porquê — a outra fez gestos e olhou para cima enquanto falava.
— Como assim? — indagou curiosa arqueando uma sobrancelha, enquanto a outra a olhava com desespero. Uma luz se iluminou em sua mente.
— Os médicos disseram que a única forma de você poder ter ficado tão debilitada era se tivesse perdido uma quantidade exagerada de sangue — falou mais calma — Mas curiosamente — e graças à Deus — você só teve esse arranhão na testa. O que é bem estranho, já que você foi encontrada num lugar bem mais remoto que o Shika — enquanto a Sabaku falava, a Mitsashi virou-se discretamente e observou seu reflexo no espelho, de fato lá estava a pequena cicatriz que a amiga mencionara, mas nada de qualquer outra parte de seu corpo estripada e com sinais da tortura que vivera. Pensar nisso lhe causava um arrepio de medo, o que a fez engolir em seco por reviver em lembranças aqueles momentos terríveis. Agradeceu mentalmente à Hinata e aos Hyuuga's que se dedicaram em curá-la antes de levá-la ao Hospital. Sim, a própria Hyuuga lhe contara sobre o ocorrido. Já bastava para ela as lembranças que ficariam marcadas em sua memória, não queria ter que ficar com aquilo também em sua pele.
— E você está achando isso ruim? — questionou Shikamaru entrando na conversa e tentando desviar o foco — Talvez os desgraçados só quisessem mesmo o meu carro — fez um bico de desgosto e sorriu, mas com certo desespero em seus olhos ao lembrar-se que não teria mais o automóvel confortável para lhe levar aonde quisesse. Tenten franziu o cenho com a informação.
— O que houve com seu carro ? — claro que ela não se recordaria, estava desmaiada. Sequer se lembrava como havia chegado naquele lugar horrendo.
— Não encontraram — deu de ombros com a mesma expressão de falsa alegria e ela mordeu o lábio inferior.
— Desculpe — deu de ombros.
— Oi!? — não compreendeu — Não fala isso, você não teve culpa — desconversou. No âmago, Shikamaru tinha quase certeza de que os próprios Hyuuga's haviam sabotado seu veículo e dado-lhe um fim para não levantar suspeitas. Mas muito provavelmente a Mitsashi não tinha conhecimento sobre isso. E mais uma vez se amaldiçoou por não estar lá, tantos malditos Anjos em um único lugar, principalmente aquele que caçava incessantemente... E ele esquecido no meio de uma floresta vazia.
Nesse momento a porta do quarto é novamente aberta e a imagem da pequena Hyuuga adentrando o recinto é vista pelos três presentes. A menina de cabelos negros-azulados estava com os olhos fixos no chão e demorou certo tempo para perceber a presença dos demais.
— Oh..! — ela assustou-se, as orbes peroladas saltaram da Sabaku para o Nara que a fitava intensamente, e ela já sabia o por quê.
— Hinata! — Temari chamou com um meio sorriso, a morena voltou a fita-la — Ah sim Ten, a Hina também ficou muito preocupada com você. Tinha vezes que estávamos juntas e ela dava uma desculpa qualquer pra ir embora, mas eu sabia muito bem que ela estava vindo pra cá. Só nunca entendi como ela conseguia entrar — resmungou — E claro, essa amizade linda de vocês — revirou os olhos e a Mitsashi segurou o riso ao ver a cena de ciúmes da loira, balançando a cabeça negativamente.
— É verdade ? — ela indagou olhando para a Hyuuga que abaixou a cabeça e olhou para os lados, os olhos perolados fixos em qualquer direção que não fosse ela. De um segundo a outro, as bochechas ganharam uma tonalidade rosada, típico de Hinata. Tenten sorriu de forma meiga ao ver a cena, sabia muito bem como ela conseguira entrar. E na verdade, saber isso foi o principal motivo pelo qual ela ficou com raiva da mesma. Sentia-se traída. E com Neji manipulando-a mentalmente, as coisas simplesmente não melhoravam. Mas afinal, ele também lhe enganou, não é?
Naquele instante simplesmente percebeu que o amor que sentia pela amiga era tão forte quanto o seu para com Temari, se a loira soubesse certamente surtaria. Mas assim como quando a Sabaku aprontava, ela também não conseguia ficar tanto tempo sem aquela amizade, mesmo ainda magoada. No final, aquilo passava. O que ficava era apenas o sentimento de vazio, o sentimento de perder alguém especial.
— É...E-E-Eu — gaguejou, mas não terminou a frase, pois sentiu seu corpo ser apertado num abraço aconchegante — T-Tenten ? — chamou surpresa, seus braços estavam presos pelo abraço e os olhos arregalados de surpresa.
— Não fala nada Hina... — a morena respondeu com um meio sorriso e de olhos fechados, ao mesmo tempo em que repousava sua cabeça na curva do pescoço da amiga.
A Hyuuga sorriu amável e sentiu seus olhos lacrimejarem pelo momento, os sentimentos humanos tinham a força de serem incríveis e únicos. Amizade, ela jamais imaginou que pudesse haver tão puro e ligado ao amor. Amor, um sentimento para poucos em seu Clã, algo que ela desejava do fundo do coração compartilhar. " Mas eu não preciso de um homem para amar, eu tenho minhas amigas " ela pensou também fechando os olhos e sentindo a sensação de que um peso lhe era tirado das costas.
— Muito lindas — ironizou Temari observando a cena com os braços cruzados — Quando sai o casamento ? — arqueou a sobrancelha e fez cara de poucos amigos, Shikamaru riu de canto e perguntou-se como Tenten tinha coragem de chamar a loira de amiga e esconder dela uma coisa tão séria. Afinal, ele acreditava que omitir os fatos não a deixaria livre de algo. Muito pelo contrário, seria pior se ela soubesse por terceiros.
— Nossa, quanto amor por mim — brincou Tenten separando-se da Hyuuga que mantinha os olhos baixos e sua visão ainda embaçada pelo quase choro.
— Que isso Tema... — falou delicada e a Sabaku fez um bico sem graça enquanto semicerrava o olhar na direção das duas.
— Agora que a sessão de reconciliação já acabou, que tal dizer o que pensa em fazer fora da cama se ainda nem levou alta — ela estava sendo irônica, mas no âmago estava feliz pelas amigas. Elas haviam se tornado partes de seu dia a dia, todas juntas — E você dona Hinata ? Sabia disso ? — a indagação fez a menina arregalar os olhos perolados e fitar a Mitsashi como se implorasse por uma salvação. E Tenten respondeu a primeira coisa que veio à sua mente.
— Vamos visitar o Neji — ela sorriu de canto e deu as mãos atrás do corpo.
— O Neji ? Oh! Soube que ele se acidentou. Foi no dia do sequestro ? — Tenten franziu o cenho. Acidente? Era aquela desculpa que Gaara inventara ? Então teria que firmá-la.
— Sim... — Hinata falou antes — Foi por isso que ele não pôde aplicar as provas finais. Sorte que tudo já estava pronto... — deu de ombros.
— Espero que ele fique bem — ela falou num tom ameno e a Hyuuga assentiu. — Ele estava tão preocupado com a Ten... — falou mais pra si do que pras outras ao lembrar-se de como ele tentava omitir os próprios sentimentos inutilmente.
— O que? — questionou a Mitsashi sem perceber, mas a Sabaku ainda parecia perdida em suas lembranças.
— E... Oh céus! — pôs a mão na cabeça — E a minha pergunta ? Eu perguntei se ele tava excitado ? Que horror! — exaltou-se e a morena arregalou os olhos de forma exagerada.
— V-Você perguntou se o Neji estava excitado ? — curiosamente quem estava vermelha de vergonha era a Hyuuga, Tenten apenas surpresa, mas não tanto por conhecer a loira há anos.
— Você fez mesmo isso ? — Shikamaru indagou incrédulo, a Mitsashi pôde jurar que naquelas palavras houve uma certa entonação de ciúmes.
— Sim! Eu fiz! Que vergonha... — respondeu pondo a mão na boca, mas sem fitar nenhum dos três.
— Ela fez... — Hinata se pronunciou num tom quase inaudível ao lembrar-se da cena.
— Por que fez isso ? — Tenten quis saber, não pôde conter a pontada de ciúmes que tomou conta de si.
— Amiga, só te digo que você tá fodida quando for transar com o Hyuuga gostoso — falou fazendo gestos. Agora sim a Sabaku havia conseguido deixar a outra tão vermelha quanto a Hyuuga, pareciam irmãs de olhos e cabelos diferentes, no estado em que se encontravam.
— T-Temari... P-Por que perguntou uma coisa dessas ? — ela insistiu.
— Você tinha que ver o volume nas calças dele — levantou as mãos dando-se por vencida, Tenten sentiu uma leve tontura e por um momento achou que ia desmaiar.
— Tenho que ir... — falou simplesmente e engolindo em seco, puxando a Hyuuga para sair consigo.
— EI! — Temari gritou — Onde pensa que vai ? — rosnou tentando seguir a amiga, mas sendo barrada pelo Nara.
— Você já teve certeza de que ela está bem e viva — falou num tom sério — Agora temos que resolver as coisas entre nós dois — Temari arqueou uma sobrancelha com as palavras. Quem aquele Nara metido a gostoso pensava que era ? — Que conversa é essa de você ficar olhando pras calças de outro homem ? — o queixo da loira caiu, aquilo era ciúmes ?
***
Tenten estava impressionada. O Clã Hyuuga era um lugar magnifico e com certeza um cenário único para historiadores e cientistas. Sua arquitetura era a mistura do que ela via nos filmes da época de Cristo e também de um Japonês antigo. As casas em suas maiorias eram de madeira e pedra, os moradores vestiam-se como no Egito Antigo e o que ela julgava de mais moderno na vestimenta era um estilo único de blusas e calças brancas e folgadas, com um avental cinza escuro amarrado à cintura. De acordo com Hinata, aquelas eram as vestimentas dos guerreiros de elite, dadas apenas aos que chegaram ao nível de reconhecimento. Neji usava ela, ou melhor, ele mesmo quem inventara a moda no local.
Não era segredo que ali, os melhores tinham um único objetivo, ser melhor do que um dia Hyuuga Neji fora. Mas para os anciões, ninguém estava à altura do mesmo.
Por outro lado, a Mitsashi sentia-se tímida por estar ali. Passar pelas ruas de pedra do Clã estava lhe custando uma vermelhidão que muito lembrava à Hinata em seus momentos mais embaraçosos. A verdade por trás disso eram os olhares que a menina atraía por onde passava. Pessoas saíam de suas casas para verem a garota que estava acompanhando a princesa Hinata. E não era por ela estar acompanhada da Hyuuga ou por ser nova ali que chamava atenção. Cada um deles sabiam quem ela realmente era, o Anjo prodígio. Ela não sabia, mas a energia e poderio que existia dentro de si poderia ser sentida por um guerreiro experiente de longe.
— Hina... — sussurrou para a azulada que seguia um pouco mais à frente — Hinata! — puxou o braço para que ela lhe desse atenção.
— O que foi ? — questionou franzindo o cenho ao ver a morena olhar para os lados como se estivesse num local esquisito e com medo, seguiu os olhares dela e entendeu o motivo — Eles sabem que você é, Ten... — ela falou amigável e as orbes castanhas se encontraram com as peroladas num misto de susto e incompreensão — O Anjo prodígio... — deu de ombros virando-se e puxando-a para segui-la.
Olhares de admiração, curiosidade e outros típicos de um Hyuuga lhe eram direcionados. Mas um em especial chamou a atenção da morena de estancou o passo, fazendo com que a outra também parasse.
— Shion... — sibilou horrorizada ao ver a cena da loira de olhos violetas parada na sacada de uma das casas com um vestido branco na altura dos joelhos e olhando-a sem piscar, em seu rosto nenhum esboço de expressões, ao contrário do da Mitsashi que estava com os olhos arregalados e a boca entreaberta.
— O que? Onde ? — a Hyuuga perguntou e novamente seguiu o olhar da amiga, mirando com precisão a garota — Ah...! — engoliu em seco, só então a atenção da outra foi voltada pra si. Elas se encararam, Tenten arqueou a sobrancelha numa nítida expressão de quem queria uma explicação — Não é a Shion, aquela é a Sophi... — respondeu — Ela é uma mestiça, filha de um Anjo celeste com uma Hyuuga distante — deu de ombros — Ainda muito nova ela foi consagrada como Gueixa do Clã, assim como a mãe.
— E o que é ser uma Gueixa ? — indagou incerta da resposta e fitando com preocupação a amiga.
— Quer mesmo saber ? — sua voz quase se perdeu e ela baixou a cabeça, sentindo vergonha como se a culpa fosse dela. Tenten arregalou minimamente os olhos e engoliu em seco, imaginando como deveria ser a vida de uma dessas mulheres — Mas elas não são obrigadas Ten... — Hinata pareceu perceber os pensamentos da Mitsashi — Elas só se deitam com os homens que querem, mas apenas os guerreiros de elite frequentam o local. Algumas delas fazem isso por status, já que mulheres são pouco valorizadas aqui — suspirou e apontou para onde a loira estava — Está vendo essa enorme casa, é a Casa de Chá, local onde trabalham — a morena franziu o cenho.
— Bem no estilo Japonês, não é? — falou mais aliviada pela informação e num tom brincalhão.
— É... Acho que sim — Hinata respondeu no seu típico tom tímido — Vamos, não temos tempo a perder — a fala fez com que um frio percorresse a espinha da Mitsashi e ela tremeu da cabeça aos pés, recordar-se do motivo ao qual fora ali a assustava um pouco. Precisava salvar o homem que amava, não importava como. E saiu seguindo a Hyuuga, mas não sem antes dar uma última olhadela para a loira denominada de Sophi, a semelhança dela com a sua rival era assustadora. E isso fez algo dentro da Mitsashi entrasse em alerta. Nos olhos violetas ela pôde detectar algo diferente.
Ela estava com raiva, e talvez até com um pouco de inveja. Mas... Inveja de quê?
***
Sentada em uma das muitas poltronas para visitas que existia no jardim lateral da casa do líder do Clã, Tenten olhava para o lados com cautela. Mais uma vez pegava observando a arquitetura diferenciada que existia no local, percebeu também, que os Hyuuga’s deveriam ser bastante fãs da Gardênia, já que esta estava por todos os lados.
Na poltrona ao seu lado estava Hinata, sua expressão era de distração. A Mitsashi percebeu que não havia algum sentimento alegre nos olhos ou no semblante da Hyuuga que mostrasse a felicidade da mesma em voltar para casa depois de certo tempo. Indagou-se mentalmente o motivo em questão. Mas percebeu que não era algo que lhe dizia respeito, suspirando confusa.
Estavam há um bom tempo ali aguardando a chegada do pai da garota, também líder de acordo com a mesma. Mas nem nisso ela parecia feliz. Como assim, ela não estava feliz em rever o pai ?
Depois de certo tempo, a garota pareceu perceber o peso do olhar da morena sob si, e virou a cabeça para encara-la.
— O que foi ? – indagou ao vê-la fita-la intensamente.
— Nada... – deu de ombros e virou o rosto, Hinata franziu o cenho desconfiada, mas resolveu não insistir. Estava perplexa e perdida demais em seus problemas particulares. Não sabia como seu pai reagiria, só que enlouqueceria se soubesse o real motivo pelo qual o Anjo prodígio fora ao seu Clã. Outro fato que lhe assustava, era a ausência da benção de Neji. Por mais que a procurasse, não a encontrava em nenhuma parte do Clã. Talvez nas masmorras... Ou não. Ela pessoalmente nunca conhecera todo o local, ele lhe dava medo.
Ela temia pelo pior.
— Eu... Achava que todos os Hyuuga's possuíam olhos iguais aos seus — falou lembrando de um fato, nem todas as pessoas que vira tinham o fator em questão — É por que eles são mestiços ? — Tenten indagou. Hinata franziu o cenho com a pergunta e arqueou uma sobrancelha.
— Não... Pode sim acontecer. Um caso ou outro... — deu de ombros.
— Hina... — chamou a outra novamente e um pouco incerta e olhando fixamente para o chão. Curiosa pelo tom de voz da amiga, a outra a olhou com cautela e tentando decifrar o que se passava em sua cabeça — Como pode uma pessoa parecer tanto com outra daquela maneira ? — franziu o cenho, agora era a vez da Hyuuga olhar para o chão.
— Eu não sei... — respondeu simplesmente.
— E você nunca percebeu ? Nunca se tocou ? — a olhou incrédula e a jovem de cabelo negros-azulados torceu o nariz com uma expressão pensativa.
— Olha... Sinceramente eu já havia percebido sim, mas qual é Ten ? É um caso raro, mas pode acontecer — deu de ombros.
— Acha que existe a probabilidade delas serem irmãs ? — temeu a resposta e os olhos perolados se arregalaram de forma assustadora.
— Tenten! — exclamou.
— Me desculpa! — pediu nervosa — Mas aquilo não é normal, e eu sinto energia negativas vindas daquela garota... Vai que elas tramaram de infernizar minha vida? Uma aqui, outra lá — deu de ombros e Hinata riu das ideias mirabolantes da amiga, balançando negativamente a cabeça.
— Isso é impossível, quantos anos acha que tem a Sophi ? — riu novamente, divertida com a cara da Mitsashi que deu de ombros e franziu o cenho — Centenas... Milhares de centenas — respondeu ainda sorrindo e os olhos castanhos se arregalaram de forma exagerada.
— Como sabe disso ? — falou num tom incrédulo.
— Eu lembro, eu ajudei no parto — deu de ombros. Por um momento o Anjo prodígio achou que seus olhos sairiam da órbita. — Não sou tão nova quanto pareço, amiga — mordeu o lábio inferior e baixou os olhos, mas logo voltando a fitar a outra ao ouvi-la cair numa crise de risos — O que foi? — indagou levemente irritada.
— Nada Hina... Nada — fez gestos negativos com as mãos. Ah! Mas Tenten se lembraria daquilo, certamente encontraria o momento certo para sacanear a amiga. Por outro lado Hinata franziu o cenho desconfiada, mas nada disse. Na verdade, sua atenção foi voltada para as portas gigantescas de madeira e vidro que dava acesso ao interior da casa principal, seu pai estava vindo... E ele não estava só.
***
Seguiam pelos corredores da gigantesca casa de Hiashi, a qual se localizava no ponto mais protegido do Clã e consequentemente, no centro. Nunca estivera ali antes, ainda sentia-se um pouco perdido e temia perder-se naquele vasto labirinto de portas que pareciam não ter mais fim.
Ao seu lado o grande patriarca do local, e não que ele fosse superior a si mesmo, ele tinha seu status e conhecimento pelas coisas que realizou no passado — mas a única coisa que era lembrada no momento, era o fato dele ser o Anjo que gerara o Anjo prodígio -. Todavia, toda aquela pose e queixo erguido — no âmago — lhe causava um certo incômodo. Sentia perdido diante de tanta imponência, já que nunca precisou dessas regalias no Céu.
Entretanto, o que mais lhe deixava em alerta no momento era o fato de que um dos guardiões da casa principal chegara informando de que a menina Mitsashi estava lá, havia ido para lá juntamente com a princesa Hinata. Era ela, sua filha, isso que ela era. Mesmo que todos os fatores lhe guiassem para não ter laços estreitos com ela, que no fim, ela era apenas uma arma para a guerra... Isso doía. Como não se apegar à pessoa a qual lhe deixou mais próximo de realmente ter uma família ? Mesmo que ela não o conhecesse, mesmo que não soubesse de sua existência. Pelo menos assim achava ele.
A última lembrança da menina foi vê-la em uma cama de Hospital e totalmente adormecida pelos efeitos dos remédios. Seu corpo com algumas poucas escoriações e uma leve marca lateral na testa. Agradecera mentalmente pelos Hyuuga's terem-na curado quando ele não fora capaz, por simplesmente não ter mais forças. Mas no âmago sabia que eles só fizeram isso por obrigação, tal como lhe deram uma bela bronca e o arrastara do Hospital em plena madrugada. Sim, Dan havia fugido do Clã para visitar a menina em um momento ao qual sabia que seria seguro. Mas seu estado era precário, e ele ainda não estava totalmente recuperado. Na verdade, temia não se recuperar por completo. E quando a notícia de que ele estava ali contra as ordens de Tsunade chegassem aos ouvidos de Hiashi, ele certamente entraria em apuros. Seria detido. Por isso precisava agir o mais rápido possível.
Precisava vê-la. Bem... E entender o motivo pelo qual ela fora ali. Pois, algo lhe dizia que ela não havia simplesmente concordado em guerrear ao lado do Céu.
Sentiu uma sensação acolhedora e aconchego no peito quando suas orbes azuladas repousaram sob a imagem da morena que se levantava da cadeira e virava-se para fita-los, a cena passou-se lentamente ao seu ver. Os cabelos da garota voaram com o movimento da cabeça e a franja rebelde que se espalhou por sob sua testa, tal como os olhos castanhos que possuíam um brilho que ele sabia que só possuía no seu. O qual representava o dom de ver a índole das pessoas, sejam elas quais fossem.
Ao perceber os olhos do homem sob si, a garota sorriu desconcertada e com o cenho franzido, desviando o olhar do mesmo. Seus dedos nervosos afastaram a franja de seus olhos e ela suspirou.
Realmente. Sua filha era linda, e muito lembrava sua mãe, Yuki. Não precisava conhece-la melhor para saber que para qualquer pessoa, tê-la próximo era um privilégio. E isso não se dava pelo fato de ser quem era, isso vinha de caráter. Agora fora sua vez de franzir o cenho de forma imperceptível, ela tinha mil e uma características, o que ocasionalmente deveria atrair a atenção de muitos homens.
Que bendito sentimento de insatisfação e proteção fora aquele que sentira ao imagina-la rodeada de marmanjos mal afeiçoados?
— Hinata... — Hiashi se pronunciou depois do que parecera décadas. A Hyuuga fez uma breve reverencia com a cabeça baixa e fitou o patriarca que meneou com as mãos, lançando seus olhos perolados na direção da morena que deu as mãos atrás do corpo, levemente intimidada. Ela provavelmente não tinha muito jeito em esconder sua timidez perto de alguém que possuía uma pose tão séria quanto àquele Hyuuga. — Seja bem-vinda, Anjo prodígio — falou saudosamente e ela fez uma careta que Dan achou divertida, mas não demonstrou. Ela certamente não estava acostumada com aquilo, ou realmente não havia gostado. A segunda opção lhe deixou curioso.
— Ah...! — ela ergueu o dedo indicador e Hiashi arqueou uma sobrancelha — Meu nome é Tenten. Mitsashi Tenten — juntou as mãos atrás do corpo e ergueu o queixo. Ela realmente não havia gostado. O que atiçou a curiosidade do azulado.
— Hm! Muito bem, Tenten — o tom debochado não passou despercebido por nenhum dos três, Dan deixou claro a sua insatisfação pela grosseira com a qual o Hyuuga tratara sua filha, Tenten percebera e Hinata estava de braços cruzados e com a expressão fechada, também visivelmente irritada com o mais velho.
— Obrigada, senhor Hyuuga! — rebateu com um sorrisinho cínico e de canto a ironia. Se não fosse um homem muito experiente e que aprendera desde cedo a demonstrar frieza em suas expressões, Hiashi certamente teria ficado boquiaberto pela ousadia da garota.
Ainda levemente irritado, lançou um olhar direto para Dan e percebeu que o mesmo também não estava satisfeito com sua atitude. Sendo um Hyuuga, ele certamente não se rebaixaria ao nível dela — ao seu ver, em seu Clã e em sua residência, ele era Deus. Não admitia menos que isso -, por isso mudou de assunto. Um Hyuuga sempre resolvia seus problemas com classe e superioridade. O que certamente aquele menina tola não teria.
— Hinata! — falou sério. Assim que ouviu seu nome ser pronunciado, a Hyuuga postou-se em posição ereta e queixo erguido. Hiashi nada comentou, mas não podia negar que havia notado uma mudança considerável desde que a primogênita retornara da missão. Estava mais altiva, mais confiante... Era como se ela houve criado em meses uma personalidade que não criara em séculos. Aquilo lhe deixava intimamente satisfeito, era uma melhora afinal. Todavia, preocupava-se ao perceber que não fora dentro dos muros de seu Clã que ela adquirira tal maneira de ser. Perguntava-se se mantê-la presa na ilha durante todo aquele tempo após o ocorrido com sua memória havia sido algo bom.
Mas quem poderia julgar-lhe ? Aquele era um assunto sigiloso e pouquíssimos sabiam, aos quais não tinham ordens alguma para falar. Fazê-la esquecer de sua parte de sua vida contribuiu para que ela se tornasse a menina retraída e tímida que costumava só se aproximar de outros Hyuuga's quando era necessário. E diferente da garota que ela era quando estava com o Anjo Uzumaki, aquela Hinata não era a boba apaixonada e que vivia a sombra de alguém. Ela estava trilhando os próprios caminhos.
Isso lhe preocupava. E se ela fizesse algo que destravasse os cadeados que guardavam o segredo dos dias antecessores ao qual tivera sua memória apagada ? Ela se recordaria de tudo. Principalmente dela própria chorando e implorando, tendo que ser detida por ele, Hizashi e Neji para mantê-la imóvel enquanto um antigo feiticeiro Hyuuga — já falecido — sondava e aprisionava parte de sua história através de uma luz dourada que fluía de suas mãos e ia de encontro a cabeça da menina.
Esse era todo seu medo. O medo de que Neji houvesse revelado algo sob seu passado para complicar sua vida. Ele precisava saber...
— Sim, senhor? — ela falou ao perceber que ele estava demorando bastante para se pronunciar novamente.
— Qual o motivo de ter levado aquele traidor para uma missão tão importante ? — ralhou — Como ousa ? És uma traidora ? — indagou novamente e ela suspirou baixando o olhar de forma pensativa. Sabia que nada que falasse convenceria o mais velho de seus motivos, então resolveu ser direta.
— O levei para salvar à Tenten — disse simplesmente. Por outro lado a Mitsashi sentiu seu estômago embrulhar, era dele quem falavam. Do Neji. Seu Neji...
"Onde você tá?" indagou-se mentalmente e implorando para que um milagre fizesse com que ele fosse capaz de ouvi-la e responde-la.
— Como ousa ? — Hinata nunca havia visto o pai tão sem palavras, era como se ele escondesse algo. Repetir frases mais de uma vez, principalmente já tendo uma resposta? Isso não era do feitio de Hyuuga Hiashi.
— Como ouso ? — retrucou — Apenas fiz o mais lógico, um segundo à mais e a Tenten estaria morta. Se isso acontecesse, você teria que dar adeus à seu título de líder do Clã de guerreiros que nunca falha, já que, teria vacilado numa missão que você mesmo estava... — desafiou e os olhos do mais velho se arregalaram quase que imperceptivelmente. Tenten mordeu o lábio inferior e arqueou as sobrancelhas. Mesmo que a situação fosse delicada, ela confessava que adorava ver o circo pegar fogo.
— Vacilava ? — falou pausadamente e só então a Hyuuga se dera conta do que acabara de falar, inclinando o corpo e perdendo a postura altiva — E que conversa é essa de "você"? Onde estão seus modos garota ? — ralhou demonstrando sua irritação e inclinando o tronco pra frente, o que fez a jovem de cabelo negros-azulados recuar um passo e fitá-lo com precaução.
— Hiashi! — a voz de Dan finalmente se fez presente e os três lançaram olhares surpresos para o homem que tivera coragem suficiente para barrar a autoridade do Hyuuga. Só então Tenten percebera que ele não fora apresentado, mas em seu peito residia uma estranha sensação de que o conhecia de algum lugar. — Creio que este não seja o melhor momento para da sermão na sua filha... — Hiashi quis responder à altura, mas assim que abriu a boca, a voz da Mitsashi soou em seus ouvidos.
— Isso mesmo! — ela exclamou apontando para o patriarca e dando as mãos atrás do corpo, Hinata sorriu de canto pelo jeito único de ser da amiga. Aparentemente, para intimidá-la sempre teria que ser mais do que Hyuuga Hiashi. Pois Tenten só ficava por baixo por pouco tempo, até criar coragem suficiente de desafiar quem a intimidava.
— Que seja! — respondeu deixando a postura ereta e mais uma vez atraindo a atenção do trio, tendo como Dan um espectador cauteloso e que aguardava alguma frase maldosa vinda do mesmo para com sua filha — Isso resultou em sua prisão, e... Graças à boa vontade do senhor Orochimaru, conseguimos um aval para aplicar-lhe a sentença mais cedo, em três dias para ser exato — falou com orgulho e dando as mãos atrás do corpo, estufando o peito no processo. Mas a informação caiu como uma forte pancada para os demais, principalmente para a Mitsashi que sentiu o mundo cair sob seus pés. Não entendeu se fora de alivio por saber que o seu estava vivo, o desespero pela informação de que não teria muito tempo para planejar algo ou simplesmente a pronuncia do nome do homem que sequer conhecia, mas já odiava.
Orochimaru, essa simples palavra e que dava nome à pessoa que agora ela mais odiava, tivera o dom de lhe causar arrepios na coluna e uma incômoda sensação na barriga, tal como ânsia de vômito — um embrulho em seu estômago -.
— QUE !? — eles falaram em uníssono e Hiashi alternou o olhar desconfiado entre os três rapidamente.
— Isso mesmo que vocês ouviram, aquele assassino precisa pagar pelo que fez! — exclamou sério e desconfiado pelas reações adversas. Hinata estava com os olhos tão arregalados quanto conseguia, Dan parecia insatisfeito com alguma coisa, e a Mitsashi aparentemente iria desmaiar a qualquer momento.
— Q-Quem é Oroch... — sua voz falhou e ela não foi capaz de terminar a frase.
— Orochimaru... — Dan falou e ela ergueu a mão para que ele não falasse. Não havia dúvidas, Tenten havia herdado seu dom. Podia não ter provas contra o Arcanjo, mas a certeza de que ele causava sentimentos ruins em sua filha era suficiente. Talvez sabendo disso, Tsunade parasse de ser tão cega em relação ao mesmo.
— Quem é ele ? — indagou numa leve entonação de raiva e engolindo em seco. Fungou, parecia tentar engolir um choro. Dan franziu o cenho.
— É um dos três Arcanjos supremos — respondeu e viu a morena morder o lábio inferior. Quis intervir e tirá-la daqui — Hiashi eu... — ele começou a falar, mas seus olhos permaneceram sob a figura feminina — Gostaria de conversar à sós com ela — mesmo que sua frase fosse direcionada exclusivamente para o Hyuuga, o Anjo celeste não se importou em diminuir o tom de sua voz. O que chamou a atenção das duas jovens que o observaram curiosas. Hinata já esperava por algo, Tenten parecia absorta aos problemas.
— Certamente. — Hiashi assentiu um pouco incomodado por ter sido "descartado" pelo outro — Venha Hinata, ouviu o que ele disse — disse grave e a Hyuuga abaixou a cabeça — suspirando -, balançando-a negativamente. Ao voltar a ergue-la mirou os olhos azulados que lhe imploravam por aquilo.
— Por favor, senhorita Hinata — pediu ele num tom amável e ela mais uma vez suspirou, assentindo.
— Oi? — Tenten se pronunciou irritada, certamente não havia gostado de ter sido excluída da conversa, quando sabia muito bem que o assunto era ela — Alguém pediu a minha opinião ? — cruzou os braços em sinal de birra — Perguntaram se eu queria conversar à sós com este homem ? — apontou para Dan que franziu o cenho, sentindo um aperto no peito. E por mais que aquele sentimento machucasse, ele tentava entender os motivos dela. Afinal, ela nem o conhecia.
— Tenten — Hinata falou incrédula pelas palavras da amiga — Não fale assim. Esse homem é o seu... — não terminou a frase, pois ouviu um pigarreio do Anjo celeste. O que deixava claro que ele mesmo queria dar a informação.
— Oi Tenten... — ele começou e a morena a olhou incrédula, como quem dizia " Sério? ". E ele não soube muito bem como continuar, então improvisou — Acho que não fomos apresentados formalmente — falou ele andando até ficar frente à frente com a Mitsashi que o olhou numa expressão que mesclava curiosidade e desconfiança — Eu... — suas palavras não saíam, e pela segunda vez num mesmo dia, ele via a cena passar em câmera lenta diante de seus olhos. O belo par de orbes castanhas se arregalando lentamente, de acordo com a curiosidade da morena que ansiava por uma resposta. Talvez até insatisfeita pela demora da mesma. Dan engoliu em seco e completou — Eu sou sei pai.... — não sabia exatamente como dar aquela informação sem abalar ou deixá-la confusa. Mas era exatamente assim que Tenten demonstrava estar, perdida. Olhou de Hinata para Dan várias vezes como se indagasse com os olhos onde estava a brincadeira no meio de tudo aquilo. — É bom finalmente te conhecer... — engoliu em seco, e respirou pausadamente. Jamais imaginou que a dimensão de sentimentos para com alguém que deveria apenas ser uma mera arma de guerra, fosse tão forte. Ele a amava. A amava como um pai ama sua única filha. Seus olhos lacrimejaram, ele sentiu como se aqueles segundos fossem os mais demorados e tortuosos de sua vida, os segundos em que ela levou para abrir a boca e pronunciar as seguintes palavras:
— Você é o Dan ? — seus olhos estavam arregalados, e os do homem não tardaram a ficar da mesma maneira.
— Me conhece ?
***
Andando novamente pelas ruas do Clã Hyuuga, Tenten e Dan mais uma vez chamavam a atenção dos curiosos. Pessoas que sequer imaginavam que viveriam para presenciar tal cena. Afinal, quando a profecia do Anjo de asas douradas surgiu, Neji ainda não havia se exilado. Muitos ali ainda nem eram nascidos. Tal como na época muitos outros ainda estavam vivos.
O Anjo celeste aparentemente já estava acostumado com os olhares diversificados sob si, mas a morena, não. No percurso o homem de olhos e cabelos azulados não pôde deixar de notar que a menina estava visivelmente incomodada com alguma coisa. Todavia, não quis força-la a falar. E apenas continuou a andar até que ela se sentisse segura o suficiente para olha-lo nos olhos.
Afinal, ele também estava confuso. De onde ela o conhecia ? Será que a menina Hyuuga havia dito algo? Suspeitava muito. Ela não era de fofocas. Talvez tenha dito isso pra proteger a amiga... Ou não.
Ao chegarem ao ponto mais sudeste da enorme ilha, a Mitsashi finalmente parou e deu as mãos em frente ao corpo. As reações adversas deixavam claro seu nervosismo. As pequenas mãozinhas trêmulas e os olhos brilhantes, assim como a boca de lábios volumosos que por vezes se abriram, mas voltaram a se fechar pela falta de palavras. Por mais que quisesse aguardar o tempo da menina, Dan estava se sentindo angustiado pela falta de ação da mesma, e resolveu intervir.
— Quer perguntar ou falar algo? — sua voz foi cautelosa e ela mordeu o lábio inferior, talvez pensando no que dizer.
— Q-Quem... É esse tal de Orochimaru ? — a expressão de decepção do rapaz não passou despercebida. De todas as coisas prováveis que ela poderia perguntar, tal como " De onde você é? Como você veio parar aqui ? O que faz aqui ? Como pode dizer que é meu pai? Por que nunca me procurou ? ", ela perguntou justamente sob a pessoa a qual ele não gostaria de falar no momento. Mas também ficou alegre, aquilo demonstrava que ela era esperta o suficiente para perceber que não deveria confiar no outro.
— Já disse, é um dos três Arcanjos supremos... Acho que a menina Hyuuga deve ter falado deles pra você — ela havia. Durante sua viajem até o Clã, Hinata se prontificou em explicar algumas coisas as quais Neji não se importara em mencionar. Mas...
— Não é isso que quero saber, sabe disso! — exclamou deixando os braços caírem ao redor do corpo e suspirando, seus olhos castanhos — depois de algum tempo — miraram os azuis num misto de incerteza e desconfiança. Mas seu pai não suportou a pressão, baixou os olhos e pensou numa resposta que sanasse as dúvidas da garota.
— Você nasceu com dons, Tenten. Dons que outras pessoas chamam de sexo sentido, o seu é mais forte. Não é impressão, é realidade. Seu dom não permite que você se decepcione com as pessoas, você sabe quando elas mentem e se possuem ou não caráter.
— Eu me decepcionei com a Hinata... — falou lembrando-se da época em que passou magoada com a Hyuuga.
— Você se deixou levar pelas palavras... Mas em momento algum ela foi algo diferente do que você esperava desde o primeiro momento em que a conheceu. — corrigiu-a sério e ela franziu — Acho que não preciso de uma resposta direta, não é? — questionou se referindo à pergunta que a filha havia feito à pouco. Ela apenas assentiu sem ânimo, mas no âmago Dan sabia que algo ainda incomodava e muito a garota — Por que será que eu sinto que você está me escondendo algo? — os olhos castanhos se arregalaram minimamente, tal como a cabeça erguida. Eles se encararam por alguns segundos até ela responder:
— Não... Está tudo bem... — engoliu em seco e novamente baixou a cabeça. Quanta mentira. Nunca em toda sua vida ela esteve tão desesperada e com medo, nem mesmo quando esteve cara à cara com a morte. Realmente, estar prestes de ver quem você ama morrer, é pior que a própria morte.
— Tenten eu... — sentiu-se perdido, a dor dela era a sua dor. Ele não havia a visto crescer, não havia ensinado-lhe o que era certo e errado e muito menos a controlar os próprios dons. Mas a ligação que sentia para com ela era algo que nem mesmo seu amor por Tsunade barrava. Ela era parte de si, sangue do seu sangue. E só agora ele compreendia a misericórdia e o amor de Deus por alguns humanos tão desprezíveis, até mesmo Lúcifer. Elo de sangue não se quebra. — Sei que nunca fui presente, sei que falhei como um pai... Mas acredite, não foi por vontade minha — o assunto pareceu despertar a garota de seu sofrimento particular. A morena ergueu os olhos para fitá-lo, neles Dan pode perceber que ela estava irritada, que aquilo era um assunto delicado.
— Ah sim! — falou com ironia, os olhos azulados se arregalaram minimamente — Eu tenho plena certeza que a sua intenção não era desvirginar minha mãe e depois ir embora como se nada tivesse acontecido — abriu os braços e fez gestos debochados enquanto falava. A verdade é que ela não imaginou o quanto aquelas palavras magoavam o Anjo celeste que olhava para a garota perplexa, usando todos os seus anos de experiência e entendimento para buscar alguma razão no meio de tanto desgosto que a menina demonstrava ter por si. Bem, talvez ele entendesse.
— Ten... Ten... — ela ergueu o dedo.
— Não! Você não se importa comigo ou com que eu sinto, você só quer saber do seu Céu e da sua preciosa "Arcanja" — naquela altura lágrimas já escorriam pelos olhos e molhavam o rosto que aos poucos ganhava uma tonalidade avermelhada devido à intensidade do choro e da raiva. A verdade é que ela não respondia por si, a confusão pela qual estava passando, o sofrimento e o medo... Era demais, ela só queria uma vida normal... Todavia, aquilo tornava-se impossível pelo simples fato de ser ela. Ela sabia.
Que acabassem consigo, mas deixassem o seu amor em paz.
— Tenten, você não sabe o que está falando... — ele tentou se aproximar, mas ela o repeliu. No momento os olhares curiosos dos Hyuuga's também faziam parte do show. Mas aparentemente nenhum dos dois se importavam.
— Não! — ela ralhou — Eu sei muito bom do que eu estou falando. Eu li e reli o diário da mamãe milhares de vezes. Eu até sei o maldito dia em que você apareceu na vida dela! — os olhos azuis se arregalaram ao máximo. Um diário ? Nunca soubera da existência de nenhum diário. Yuki lhe guardou um segredo tão sério assim? Ela guardava suas informações num maldito caderno que de secreto só havia um nome? — Se você realmente se importasse... — ele a calou no momento em que a segurou pelos braços e a olhou sério. Tenten o observou num misto de fúria e insegurança, ainda não havia visto aquela expressão no rosto dele.
— Escute-me, onde você encontrou esse tal diário ? — indagou.
— Nas coisas da mamãe — quando começou a voltar para a realidade, ela olhou para os lados e se sentiu diminuta diante de tantos olhares perolados.
— Tenten... — seu tom mudara drasticamente ao ver os pensamentos del mudarem também. Agora sua voz continha uma pitada de arrependimento e ele parecia falar com um animal assustado — Por favor, acredite em mim. Nunca quis abandona-las. Você tem razão, eu errei. Mas a verdade é que eu nunca omiti minha real missão para Yuki, ela esteve ciente o tempo todo. — ela arregalou os olhos no momento em que o viu com olhos lacrimejantes — Passamos por muita coisa juntos, mas como amigos, ela sabia. O dia que você nasceu foi... Lindo. Você era linda, Tenten — uma lágrima solitária escorreu pelo olho direito do homem ao recordar-se do momento em que segurou a menina em seu colo. A áurea dourada que ela possuía era quase ofuscante ao seus olhos, mas ele quis guardar na memória o motivo pelo qual chorou pela primeira vez em sua vida.
No vislumbre de um momento, ela viu o brilho colorido — devido o raio solar que batera na mesma — refletido da lágrima em seus olhos no momento em que a mesma escorreu pela orbe azulada do homem que deveria chamar de pai, a lembrança e déjà-vu vieram como um flashback.
**
Um quarto escuro, muito escuro. Havia apenas a luz de uma vela acessa e o brilho da lua que adentrava pela janela. Ela não quis ir ao Hospital, ela achou perigoso. Sua menina não poderia correr nenhum risco, ela não queria ter que se desapegar dela momento algum.
Os únicos sons que podiam ser ouvidos no local eram dos gritos de dor da mulher que estava prestes a dar à luz e do homem que tentava auxiliar no parto.
— Força...! — ele pedia.
O rosto totalmente suado, os lençóis manchados de sangue e todo o cenário deixavam claro que ela estava quase no limite.
— E-Eu... N-Não aguento mais — falou sôfrega e sentindo uma pontada de dor na cabeça.
— Está quase lá... Vamos Yuki, você é capaz — ela forçou-se um pouco até ser capaz de ver o brilho que havia nos olhos do homem por quem era apaixonada. — Força! — ele pediu gentilmente, mais uma vez.
Num último grito de dor alucinante, ela foi capaz de ouvir um choro baixo e sua cabeça caiu exausta no travesseiro que já estava parcialmente sujo de suor e sangue.
— U-Uma menina...? — ela indagou. Não havia feito pré-natal, não fazia feito exames, mas seu coração de mãe sentia. Sempre sentiu. Todavia, seu corpo não aguardou por respostas, ela desabou em um sono profundo segundos depois, enquanto ele ainda admirava o bebê.
— Sim... — ele disse — sem perceber que ela adormecera — com um sorriso largo no rosto enquanto trazia a pequena para muito perto de seu rosto. Os olhinhos ainda estavam fechados, e mesmo não entendendo o motivo de ser uma garota, ele poderia sentir que ela vinha com propósitos maiores do que simplesmente ser um Anjo prodígio — Minha pequena Tenten... — ele sentiu sua garganta secar e a visão embaçar no momento em que sentiu a mão pequena segurar e apertar com força seu dedo mindinho — Sim... Papai está aqui, pequena — ele a abraçou, não importando-se com o sangue.
**
Como nas vezes anteriores, ela sentiu o corpo ceder e quase foi ao chão, sendo previamente amparada por Dan que a olhou desconfiado. Ele entendia o que acabara de acontecer.
— Está tudo bem? — quis saber, semicerrando os olhos e a olhando com cautela.
— S-Sim... — ela mentiu pondo a mão na cabeça.
— Tem certeza? — inclinou levemente a cabeça e ela o fitou, novamente querendo chorar. Em seguida o abraçou sem falar nada. Num primeiro momento o Anjo celeste viu-se surpreso pela reação repentina, mas um aconchego no peito o fez ceder ao abraço e acolhe-la de forma gentil. Repousando a cabeça dela sob seu peitoral. Aos poucos sentiu as lágrimas encharcarem o tecido de sua blusa e os ombros da garota chacoalharem devido aos soluços.
— Me... Me desculpe — ela pediu.
— Não tem de que se desculpar — respondeu afagando os cabelos castanhos
— T-Tenho — ela soluçou afastando-se do abraço e o fitando — Eu não tinha o direito de falar aquelas coisas — passou as costas da mão no rosto, numa inútil tentativa de seca-lo.
— Você só fez o que achava que era certo. Não se preocupe — pediu baixinho e sorriu, olhando-a com ternura. Pela primeira vez também vira um sorriso sincero brotar dos lábios da menina.
— Por favor... Não espere que eu vá chama-lo de pai, ou trata-lo como um... — o pedido desgostoso desanimou o Anjo celeste que baixou os olhos de maneira pensativa.
— Eu entendo que, você se acostumou a não depender disso — sua voz continha certo tom de tristeza, e mesmo sentindo-se culpada, Tenten não poderia mentir num momento tão crucial. Era o que ela sentia, afinal.
— Obrigada... Por entender — agradeceu.
***
Após o incidente com Dan, Tenten retornou à casa principal com o mesmo e se dirigiu — com uma serva como guia — até o quarto de Hinata. A menina estava arrumando algumas coisas que mantinham-se intocáveis desde a sua partida, mas o semblante abatido e cansado da amiga chamou a sua atenção, e por isso ela decidiu levar a mesma para conhecer o ponto mais leste do Clã — de frente para o mar — e que tornava possível uma bela vista para o pôr-do-sol.
No momento ambas estavam sentadas sob o alto de um morro de pedras e gramas verdes, à sua frente uma bela vista para o mar e em segundos, a imagem do sol se pondo. Tenten estava sentada e com os braços abraçando as pernas, enquanto Hinata permanecia em posição de meditação.
— Aqui é realmente lindo, Hina... — ela disse, aspirando lentamente e sentindo o cheiro da maresia e da grama. Estar ali era uma verdadeira terapia. Mas de difícil acesso, tinha que confessar.
— Sim — respondeu a Hyuuga com certa calmaria que embalava o clima no local. Os olhos perolados estavam quase fechados, e o corpo balançava de um lado para o outro lentamente — como se a mesma estivesse embalada no som de uma música lenta, que tocava apenas em sua cabeça -. Tinha saudades de estar ali, mas nunca antes havia levado alguém. Na verdade, julgava que o local era especial demais para ser compartilhado com pessoas supérfluas. Como considerava quase toda população de seu Clã. Nem mesmo sua irmã mais nova, Hanabi, havia tido esse privilégio. — Mas diga Ten, no que está pensando? — indagou olhando para a morena que permanecia com os olhos fixos na paisagem. Viu a mesma morder o lábio inferior.
— Não sei... Minha cabeça está um caos, Hina. Tento pensar mil coisas, mas tudo sempre me lembra o Neji — fitou a amiga com um olhar de quem pedia socorro — Você não conseguiu descobrir para onde ele fora levado? — indagou ela.
— Não consegui nenhuma informação com Hiashi. Me desculpe Ten... — não terminou, o menear negativo de sua cabeça já deixava claro sua resposta. A Mitsashi levou à mão ao peito e suspirou.
— Não posso deixar que nada de mal aconteça à ele. Ele só está preso por culpa minha — choramingou.
— Não fale isso Tenten, Neji em momento algum fora obrigado a entrar lá...
— ... Mas entrou por mim — levou as mãos ao coração — Pra me salvar — sua mente então viajou até os momentos em que esteve encarcerada naquele lugar horroroso, lembrou-de da felicidade que invadiu seu peito por vê-lo ali, ao mesmo tempo em que entrou em desespero. — Seria romântico, se não fosse trágico... — baixou os olhos e Hinata franziu o cenho, olhando-a fixamente.
— Ten... Não me diga que você acredita que o Neji possa realmente ser romântico algum dia, não é? Amiga, você não o conhece... — a mão erguida da Mitsashi deixou claro que ela não queria tocar no assunto.
— Não, eu não espero que algum dia ele seja romântico comigo. Também não preciso viver com ele pra saber que ele não teria feito aquilo se realmente não se importasse, Hina. Eu o amo, e nem você e nem ninguém irá mudar isso — seu tom era sério. Suas lembranças, cansativas.
**
— Por favor, não espere que eu vá chama-lo de pai. — ela pediu novamente sentando-se em um banco de mármore da pequena e simbólica praça. Sua consciência estava pesada, imaginava que estava sendo cruel com o Anjo celeste. Ele não aparentava ser tão mal assim.
— Eu sinceramente não espero isso — Dan reafirmou, sentando-se ao seu lado — Mas espero pelo menos ter uma relação amigável com você — pôs a mão acima da dela. A garota mirou a mão que repousara sob a sua, mas nada fez. — Quero que compreenda que eu estou aqui para ajuda-la no que for preciso. Que entenda que meus únicos interesses não são só as ordens do Céu — falou lembrando-se que na época no nascimento da menina, ele quebrara várias delas ao permanecer tanto tempo na terra — Claro que quero que você siga seus passos e possa aceitar o caminho que traçaram pra você, não se submetendo à isso, obviamente. Mas lutando ao nosso lado — ela entortou o nariz, não gostava do assunto — Só que eu também me importo com o que você quer. Estou disposto a ajudar você Tenten... Mas precisa me dizer o que te incomoda — a mão que estava sob a dela, agora ia de encontro ao ombro da garota que o olhou perplexa.
— O que você...
— Não se esqueça que herdou de mim o dom de ver a índole das pessoas. Sei que algo está te incomodando, isso é claro pra qualquer observador... — ela pensou por um tempo.
— Você não entenderia, está do lado deles... — a mão apertou seu ombro levemente. Ela o encarou.
— Tem certeza ? — quis saber ele olhando-a fixamente nos olhos, ela sentiu os seus lacrimejarem. Ela negou com a cabeça — Então diga... — seu tom era ameno e cauteloso. Ela suspirou pesadamente.
— Por favor, me ajude a salvar o Neji...
**
— Me desculpe Ten... — a voz dela retirou a Mitsashi de seus devaneios e era nostálgica, Hinata parecia mergulhada em pensamentos. Tenten olhou para ela e a pegou observando com exatidão para uma ilha distante. A qual se observada bem, poderia ser visto nela, um farol. — Eu não tenho o menor direito de opinar sobre os seus sentimentos para com meu primo, imagino que para ter vindo até aqui, você realmente sinta algo por ele... — ela sussurrou. Segundos depois, um sorriso suspeito e com uma pitada de tristeza, brotou dos lábios da Hyuuga.
— O que foi? — indagou a morena curiosa pela forma como ela sorria.
— Sabe amiga — falou convicta — Eu acho que, de todas as suas escolhas, a melhor delas foi querer salvá-lo. É por isso que eu apoio você. E prometo que vou ajuda-la...
— É só por isso mesmo ? — Tenten estava alegre com aquela declaração, mas sentia que ela estava incompleta.
— Sinceramente ? — os olhos perolados ganharam um brilho de dor e saudade — É porque eu acredito que você é a unica pessoa capaz de mostrar ao Neji que ele é alguém melhor... Você é a única pessoa capaz de fazê-lo ser alguém melhor — baixou a cabeça, lembrando-se das palavras sôfregas do Hyuuga enquanto era aprisionado pelos membros do Clã.
" Cuide dela Hinata. Tenten irá precisar de você, agora mais do que nunca. Ensine-a a viver sem mim... " implorou, sem se importar com o que estava prestes a acontecer consigo mesmo.
— Obrigada... — agradeceu pela confiança e a outra meneou com a cabeça, em sinal de que ela não precisava agradecer.
— Você quer saber mais? — indagou, mas continuou sem esperar por uma resposta — Eu também acho que ele ama você, Ten... Mesmo estando do lado inimigo, Neji se mostrou mais humano perto de você, do que ele jamais fora antes. — os olhos castanhos se arregalaram de forma exagerada. Nenhuma das duas perceberiam que perdiam naquele exato momento, o belo espetáculo que a natureza lhes davam com o cenário do céu tingido de laranja, vermelho e dourado. Seu sol estava se pondo, a lua já começava a despontar no horizonte. E os últimos raios solares batiam de frente ao farol abandonado, iluminando-o.
— Obrigada pela confiança, de verdade — agradeceu e mirou a paisagem, mais precisamente a pequena ilha distante que há pouco a Hyuuga fitava incansavelmente — O que é aquilo, Hina ? — indagou a morena apontando para o mesmo. Hinata olhou na direção em que ela apontava.
— É um farol abandonado há muito tempo... — respondeu normalmente -Antes de ser um farol, era uma pirâmide. Mas não deu muito certo, a maresia corroeu as pedras... Eu acho — franziu o cenho, com uma estranha sensação de que havia perdido algo — Foi o que me contaram...
— Não é da sua época, senhorita Hyuuga Hinata? — debochou Tenten rindo sozinha enquanto a outra revirava os olhos e lançava um olhar entediado para a Mitsashi que lançou-lhe um beijo no ar, ao qual a outra fez questão de "desviar" do mesmo. — Ah... Piranha! — rosnou indignada, essa foi a vez de Hinata rir da brincadeira. Mas logo voltando sua atenção para o tal farol. Havia algo de errado, mesmo morando toda sua vida no Clã, ela não se recordava de quando fora construída a tal pirâmide, deveria ser muito antiga... E qual seria o real motivos para os Hyuuga's fazerem algo tão absurdo assim no meio de uma ilha? Seus olhos se iluminaram.
— É isso! Só há um motivo pelo qual os Hyuuga's insistiam em povoar aquela área, só há um motivo que explique o fato de a ida para lá ser restrita para guerreiros de elite... Tenten, é lá que o Neji está! — alertou olhando fielmente para amiga que engasgou coma própria saliva.
— Oi? — sentiu-se paralela à realidade.
***
Num lugar remoto na terra, muito afastado do Céu e de difícil alcance, um Arcanjo e seu mensageiro conversavam sob a possibilidade do que realmente estava acontecendo.
— Estive certo todo esse tempo, o maldito Hyuuga se tornou um traidor — riu de canto — Quem diria que um homem experiente como aquele, se renderia aos encantos de uma pirralha ? — cruzou os braços observando a penumbra do local, o que julgava ser deveras instigante. Os olhos inumanos estavam semicerrados e a boca curvada num sorriso sádico.
— Certamente, senhor Orochimaru — falou Kabuto indiferente a toda cena de horror que era onde estavam. O local mais parecia um castelo dos filmes do Conde Drácula. Suas paredes repletas de selos cristãos e enoquianos, suas funções eram simples, tornar aquela região inexistente para o resto do mundo. Principalmente de Anjos e Demônios não autorizados. — Mas... O senhor não teme que esse terceiro grupo que está à procura do Anjo prodígio, se torne um problema ? — indagou meio incerto. Todavia, ao contrário da reação que ele achava que o Arcanjo teria, o homem apenas abriu mais seu sorriso maníaco.
— Ora Kabuto, vejo que não está assim tão atualizado das informações, não é? — questionou virando-se para ficar frente à frente com o rapaz de aparência jovial.
— Desculpe-me senhor... Não — falou ajeitando o óculos e fitando o moreno.
— Sasuke está se tornando um humano desprezível. Não bastava aquela garota Haruno para infernizar meus planos, seu algoz também resolveu rebelar-se por motivos pessoais. Esses Anjos e Demônios medíocres acham que podem conosco. E eu vou derrubar um à um, mas para isso agirei por baixo dos panos — falou levemente irritado.
— Isso quer dizer que...
— Tenho plena convicção de que a probabilidade de Sasuke conseguir ganhar essa guerra contra o Anjo prodígio é minima. Ela tem muitos ao seu lado, mesmo sendo uma imprestável. Nós somos poucos, sem contar de que particularmente eu não confio em Jiraya... Ou melhor, eu só confio em mim — falou sério e o mensageiro remexeu-se incomodado. Nunca dera motivos para desconfiança, faria qualquer coisa pelo bem de seu senhor. Ele podia ao menos reconhecer isso. Entretanto, conhecendo-o bem, se ele agisse diferente, não seria ele. — Fui eu mesmo que enviei aqueles dois Demônios, Kabuto. Eu os ordenei que torturassem a garota até que ela contatasse o Hyuuga. Eu precisava descobrir se ele estava mesmo disposto a trair mais uma vez aquele que o acolheu... — então o rapaz pareceu entender.
— Então... Todo esse tempo, era o senhor ? — questionou olhando-o e o outro assentiu — E por que não matou a garota de uma única vez ? — quis saber.
— Alto lá, Kabuto. Não se esqueça de que ela ainda é um Anjo, mesmo que tenha nascido e se criado na terra. Sabemos que matar um Anjo, ainda mais no nível dela, não é algo tão simples assim... Por isso a melhor maneira é agir com cautela e esperar o melhor momento, preparar a nossa melhor arma... — falou lentamente virando-se para um pequeno poço de águas cristalinas, a qual ele utilizava de sua feitiçaria para ver o que quisesse. Seria isso fatos do passado, presente e quem sabe, futuro. Claro que, na última opção a realidade poderia mudar de acordo com os acontecimentos. — Eu mesmo dei o aval para que os Hyuuga's executem o Anjo amaldiçoado. Sei que a garota irá salvá-lo, eles fugirão, então só aí meu plano entra em ação...
— Que seria... ? — ele estava muito curioso. Jamais havia conhecido alguém com uma mente tão ardilosa quanto a do seu senhor.
— Dan está disposto a morrer pela garota, provou isso ao descer para terra sem permissões. O que ocasionalmente deixou Tsunade abalada o suficiente para falhar em suas defesas. — fez uma breve pausa enquanto semicerrava o olhar. Era certo que, em sua mente muitas probabilidades sambavam, mas ele só falava o que julgava necessário para que o outro soubesse — Eu suspeitava que o Hyuuga era um traidor e que não entregaria o Anjo, soube disso no momento em que Jiraya me passou a informação de que ligara para ele e ele falara que ainda não tinha intimidade suficiente com ela. Apenas aquele idiota é burro demais para acreditar nisso — esnobou.
— E então ? — aos poucos começava a compreender.
— Simples, a melhor maneira de matar um Anjo é fazer com que alguém que o já faz antes, o faça novamente... — deu de ombros — Matar Anjos não é facil, mas eu desenrolo — falou debochado levantando a mão e observando com cautela o pingente vermelho vivo do colar que segurava.
— E-Este é... — Kabuto estava boquiaberto, apontou com receio para a peça. Mas não obteve resposta.
— No fim das contas... Quando meu plano entrar em ação, um Anjo irá perder seu par de asas — sorriu ao ver atrás da água cristalina, seus olhos transparecerem o brilho escarlate.
***
Lua cheia. Um ótimo momento para rituais e feitiços eram os minutos em que o satélite natural da terra chegava ao ápice de sua magnificência. Momento ao qual se originalizou as várias lendas sobre vampiros e lobisomens.
Naquele momento um grupo de feiticeiros se reuniam num ponto remoto do deserto. No meio da concentração, uma mesa de pedra. A qual repousava o corpo desfalecido do melhor guerreiro Hyuuga. Um pouco mais ao norte, um velho cantarolava em uma língua estranha para os humanos e dançava pulando de um lado para o outro parecendo estar alegre. Mas na verdade, ele apenas estava preparando seu feitiço. Em suas mãos um estranho colar com um pingente de rubi, sua confecção era rara, sua aparência ? Era simples. Apenas a estranha pedra escarlate envolta por uma cobra de prata.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!O que todos faziam ali ? Quem era o real causador de tudo aquilo ? Quais seus objetivos ? Eles não sabiam. Apenas cumpriam ordens. Eram Demônios sedentos por sangue. Matariam aquele Anjo se pudessem, mas a única forma de matar um Anjo... Era sendo outro Anjo. Abençoados eram aqueles que nasciam protegidos pelas asas celestes. Como um dia fora profetizado...
"Quando o mal mais uma vez pisar sob a terra, sua criação de asas douradas virá para combate-lo"
Segundos, minutos e horas se passaram. Os escolhidos estavam ali, cada um cumprido sua função. Quem seria louco para não fazê-lo ? Sabiam que seu líder era forte, ele tivera o poder de dominar aquele velho maluco que falava em língua estranha mais à frente.
Dado certo tempo, seis pessoas se aproximaram do corpo inerte que aos poucos se agoniava pela sensação torturante. Mesmo desfalecido, ele reagia. Uma queimação estranha o fazia gritar inconscientemente, obrigando aos Demônios próximos à segurá-lo com força. Estava perto, estavam quase lá.
Depois de horas e dias concentrando e aguardando a chegada da lua cheia, eles foram capazes de verem na testa do Anjo as primeiras marcas de que o feitiço se concretizava e sua vontade e corpo, eram selados.
Ela brilhou, resplandecendo seu momento mais sublime no céu, eles souberam que era o momento. O velho feiticeiro se aproximou e pôs o colar no pescoço do Anjo atormentado. Recitando as últimas palavras em grego.
" Με αυτή την κορύφωση, σας καταραμένοι "
Com este clímax, eu te amaldiçoou.
Selando assim suas vontades, seus desejos e sanidade no momento em que aquela marca amaldiçoada fosse ativada. Seus olhos se abriram, mas ele parecia em transe. O rubi superaqueceu e como um imã foi de encontro a testa do rapaz, deixando em evidencia o selo que ganhava um tom avermelhado quando ativado, ao mesmo tempo em que veias aos poucos saltavam ao redor de seus olhos brancos. Ele ameaçou se soltar, o que assustou aos feiticeiros próximos que recuaram.
— Segurem-no! — o velho ordenou, fazendo com que eles voltassem rapidamente e observassem a pequena explosão e o corpo do Anjo amaldiçoado desfalecer mais uma vez.
Os céus choraram sangue, os seus piores dias ainda estavam por vir.
***
O plano estava feito, na verdade, todo ele havia sido realizado com a ajuda de Shikamaru. O mesmo estava se sentindo culpado por tudo que estava acontecendo, e não que houvesse perdoado o Hyuuga pelo que ele fizera com sua irmã. Mas se o mesmo iria morrer, que fosse por suas próprias mãos.
Tenten estava nervosa, não havia dormido. De acordo com Hinata, e as informações do Nara, o único jeito de chegar ao farol abandonado era no exato momento em que o sol nascia. Quando o mar estava secando e era possível ver um caminho de pedra, criado por um antigo arquiteto Hyuuga.
Elas haviam conseguido, depois de despistar vários guerreiros, chegaram ao local. Ninguém suspeitaria, não delas. Para eles, elas tinham Neji como um inimigo.
Mas Hinata não podia prosseguir, ela teria que ficar de guarda e interceptar qualquer um que tentasse entrar no porão abandonado que dava acesso ao local que o Hyuuga estava aprisionado. Tenten teria que ir sozinha. E a imagem macabra que o local possuía, não a assustava. Nada a assustava, a não ser o medo de perder aquele que amava.
Merely we fall out of line
Out of line
(Alegremente nós saímos
Da linha, nós saímos)
Estava com um molho de chaves preso ao cós da calça, não sabia como ou quando a Hyuuga havia conseguido-a. Mas de acordo com a mesma, era suficiente para conseguir libertar Neji.
O interior do farol era uma verdadeira penumbra, estar ali era um sacrifício. O cheiro de peixe podre, a pouca iluminação e principalmente a visível falta de higiene ali lhe dava náuseas. Imaginava que aquilo era igual ou pior do que o local ao qual fora torturada.
Com a ajuda da luz fraca que emanava do celular de Hinata — a qual a mesma fizera questão de que Tenten levasse consigo -, a Mitsashi seguia pelo caminho a qual fora orientada. Ela correu pelos corredores do porão. Não imaginava que por baixo daquele local, havia um outro maior ainda.
De onde estava ela conseguia ouvir facilmente as ondas que quebravam nas pedras que rodeavam o farol, perguntava-se se ali não era perigoso demais para deixar alguém aprisionado. Se a intenção dos Hyuuga's eram executar Neji, eles estavam fazendo muito bem seu trabalho.
Por vezes tropeçou em algumas tralhas abandonadas e empoeiradas. Encontrou um corredor totalmente escuro e no âmago sentiu que estava no caminho certo.
Mas doía, imaginar o seu Neji naquele lugar precário, doía.
I'd fall anywhere with you,
I'm by your side
Swinging in the rain
(Eu cairia em qualquer lugar com você,
Eu estou ao seu lado
Balançando na chuva)
A medida em que andava, tocava com a mão livre as paredes, certificando-se que estava seguindo uma linha reta. A verdade é que Tenten não tinha ideia de para onde estava indo. Apenas seguia seu sexto sentido aguçado.
A cada passo que dava, a cada centímetro que andava, ela percebia que o local era uma depressão. Pois cada vez mais estava ficando frio, o chão estava molhado e as paredes úmidas. A cada passo que dava, seus pés afundavam numa espécie de rio, mais e mais.
Humming melodies
We're not going anywhere until we freeze
(Cantarolando melodias
Nós não vamos a lugar nenhum até congelarmos)
Dado certo momento, quando a água já chegava a sua cintura. A Mitsashi parou de sentir as paredes de pedras. No seu lugar, barras de ferro.
Sentiu-se curiosa, em nenhum momento a avisaram que teria que entrar em alguma parte com água. E ela deveria estar com medo, deveria estar com medo por provavelmente estar se desviando do local ao qual realmente estava Neji. Mas uma força interior lhe dava vontade de continuar.
Poderia ouvir claramente a voz de sua consciência se fosse possível.
— Vá embora... — uma voz baixa — cansada e falha — fez um frio percorrer a espinha da Mitsashi que agarrou-se fielmente as grades de ferro.
Mas... Estava diferente. Talvez o timbre, ou seu tom num todo, mas em qualquer lugar do mundo ela reconheceria aquela voz.
— Neji!? — chamou mexendo na tela do celular para que a luz acendesse. E assim que o fez, apontou-a para os lados. Mais precisamente para o local ao qual jurara ouvir a voz...
Lá estava ele...
I'm not afraid anymore
I'm not afraid
(Eu não tenho mais medo
Eu não estou com medo)
Ver o grande amor de sua vida totalmente acorrentado, sangrando e engolindo a própria dor devido água salgada que castigava suas feridas a cada vez que tocava a pele ferida, deixou o coração de Tenten em frangalhos. Lentamente ela encostou a cabeça nas barras de ferro e iniciou um choro baixo e silencioso, perdendo os próprios sentidos.
Neji estava com uma venda nos olhos, a mesma possuía um simbolo em seu meio que a Mitsashi não decifrou o significado. Os braços abertos e presos à correntes que se interligavam num todo. Duas lanças de ferro estavam apontadas para o tórax do moreno, pareciam parte de uma armadilha que poderia ser ativada com um simples movimento do mesmo. Os longos cabelos de Neji estavam molhados e soltos.
Mas o que mais chamou a atenção e assustou a morena por breves segundos, foi ver as asas de seu lindo Anjo abertas e acopladas à parede de pedra atrás de si. Estavam sangrando, e isso se dava devido à duas peças pontiagudas, uma de cada lado, que atravessavam-nas.
— Vá... Embora! — ordenou novamente e ela notou o quão era difícil para ele falar. A cada movimento as lanças se aproximavam mais de seu corpo. Do tórax para baixo ela não tinha visão devido à água do mar.
Forever is a long time
But I wouldn't mind spending it by your side
(Para sempre é muito tempo
Mas eu não me importaria de gastá-lo ao seu lado)
Após algumas falhas tentativas, Tenten percebeu que a única forma de entrar na sela era por baixo. Sim, por baixo. Deduziu que toda aquela água era apenas um disfarce para a abertura que havia logo abaixo dela.
Apoiou o celular numa fenda que havia numa das paredes do interior da sela, e mergulhou tateando as barras de ferro até seu fim. Tomando cuidado para não ferir-se com suas extremidades pontiagudas, mas ainda assim, ganhando um corte superficial no ombro direito e fazendo uma careta de dor no processo.
Quase perdeu o ar quando seus cabelos se prenderam à uma das barras e se recusavam à soltar-se. Teve que puxá-los com força, perguntou-se se havia ou não perdido metade dos fios no processo. Mas no fim ela havia conseguido, estava no interior da sela. Nadou lentamente até chegar à superfície e vislumbrou através da luz fraca, chegando mais próximo do homem que tanto amava.
Carefully we're placed for our destiny
(Cuidadosamente fomos colocados para o nosso destino)
— N-Neji... — tocou com carinho o rosto belo do Hyuuga que trincou os dentes e rangeu.
— Sai! Vai embora! Eu sei que é uma ilusão... — sua voz soou sofrida — Eu não posso... Não quero mais presenciar isso e não poder fazer nada... — disse baixo, num tom de desgosto e dor profunda.
Os olhos castanhos se arregalaram, ele achava que ela era uma ilusão? Como assim? O que haviam feito ? Seu coração sangrou com a possibilidade de terem torturado o seu amor, e chorou. Tocando com ternura mais uma vez a face dele.
— Não meu amor... Eu estou aqui — seu tom choroso deixou o moreno em alerta. Ela sentiu o corpo másculo se contrair com o toque quente. Mas quem pudera, Neji estava sem camisa. Certamente estava morrendo de frio, e num ímpeto de desespero ela o abraçou. Sua cabeça repousou sob o peitoral definido e machucado. Sentiu quando mais uma vez o corpo dele reagiu ao contato, como se estivesse totalmente em alerta, e estava.
You came and you took this heart and set it free
Every word you write or sing is so warm to me
(Você veio e você tomou este coração e libertou-o
Cada palavra que você escreve ou cantar é tão quente para mim)
O Hyuuga permaneceu imóvel durante incontáveis segundos, era como se daquela vez, ela pudesse tocar sua alma com aquele abraço. Mas ele sabia que não era ela... Quantas vezes eles não utilizaram de seus sentimentos para tortura-lo?
Tortura física não funcionava com Neji, mas a psicológica... Mais precisamente as milhares de vezes as quais ele fora obrigado a assistir a morte da menina e não poder fazer nada. Aquilo era demais.
So warm to me
(Tão quente para mim)
Mas havia algo diferente naquele abraço. Algo que apenas os momentos em que realmente esteve com ela que fora capaz de lhe fazer sentir. Ele sabia o que era aquilo. Aquele abraço quente, aquele cheiro de hortelã e a sensação de sentir seu coração acelerar a cada momento em que inalava o perfume...
Não poderia ser uma mera ilusão. Era real demais...
— Tenten... — sussurrou sôfrego e aguçando sua audição, os soluços contidos deixavam claro o choro compulsivo ao qual ela se encontrava.
— Sou eu meu amor... Eu estou aqui! — disse convicta e erguendo a cabeça apenas para fita-lo.
I'm torn
I'm torn to be
Right where you are
(Estou despedaçada,
Estou despedaçada por estar bem aqui
Aonde você está)
— Por que acha que eu sou uma ilusão, Neji ? — ela indagou e ele se calou — Fale comigo... — pediu serena — Eu quis tanto estar novamente com você... Eu só pensei nisso... — choramingou.
— O que está fazendo aqui ? — questionou tentando não demonstrar sua fraqueza, mesmo encontrando-se naquela situação deplorável.
— Não está claro? — se surpreendeu — Eu vim salvar você, meu amor... — tocou novamente a face dele com carinho. Estava incomodada com aquela maldita venda que lhe impossibilitava de ver os olhos que tanto almejou por dias. Desde que se apaixonara. Rapidamente procurando uma forma de retira-la, mas sendo impedida por ele que esquivou-se.
— Perdeu seu tempo! — disse sério, o que a assustou. Era certo que estava mentindo, mas não poderia correr o risco de fazê-la correr esse perigo... Ele jamais se perdoaria se algo acontecesse à ela.
— C-Como assim Neji? Do que você está falando ? — ela perguntou, mas no âmago sentia medo da resposta. As próximas palavras do Hyuuga foram as mais difíceis de sua vida, e ele nunca imaginou que um dia faria algo assim por alguém.
— Eu não preciso que ninguém me salve Tenten. Eu não preciso de você! — um silêncio incômodo aos ouvidos do Hyuuga se instalara no local. Doeu mais nele, do que nela, mas ela não sabia... Certamente não sabia. Tenten permanecia imóvel diante da revelação. Sentia que aos poucos seu coração falhava algumas batidas e tudo que ela queria era esconder-se e chorar por dias. Aquilo significava que ele não a amava? Realmente se enganou todo aquele tempo?
— Neji... — foi tudo que sua boca fora capaz de pronunciar, enquanto seus olhos se perdiam na escuridão da água salgada.
— Já falei pra ir embora, se eles pegarem você aqui, terá o mesmo fim — ela entendeu claramente o deboche e sentimentos negativos que vieram com as palavras. Tal como a expressão superior que ele possuía no rosto de olhos vendados, mesmo agora, naquela situação. Mas mais do que isso, ela detectou sinais de outros sentimentos.
— E por que se importa? — indagou tentando ser séria.
— Não me importo... — desconversou amargurado, estava cada vez mais difícil controlar seus instintos e sua vontade avassaladora de tentar um loucura para se libertar e poder abraça-la outra vez, beijá-la e finalmente fode-la.
I'm not afraid anymore
I'm not afraid
(Eu não tenho mais medo
Eu não estou com medo)
— Eu sempre soube, desde o inicio, que a tarefa mais dificil da minha vida seria amar você. Mas eu amei. Eu sempre soube que estaria sujeita à uma rejeição. Mas eu tentei... — desviou os olhos da figura masculina — Então eu digo à você, que não precisa me dizer o que pode acontecer comigo por vir aqui. Eu não sou uma criança que precisa de cuidados e atenção, eu sou uma mulher. Uma mulher perdidamente apaixonada e que está disposta sim, a morrer por quem ela ama. — respondeu séria, sequer acreditando que acabara de proferir tais palavras.
— Deixe de ser burra, Tenten. Isso não é um conto de fadas onde você se casa com o príncipe e vive feliz para sempre. Isso é a realidade, e eu sou o monstro e não o mocinho... — ralhou ele irritado, sentindo o primeiro estagio de sua maldição ser ativado. — Não é comigo que você terá seu final feliz... — sussurrou.
Tenten viu-se surpresa ao ver as veias saltarem ao redor de seus olhos e por baixo da venda. Mas então, por que será que mesmo com o perigo iminente, ela não sentia medo? A Mitsashi observava com cautela o que acontecia ali, na testa de Neji, onde aos poucos uma marca avermelhada e que muito lhe lembrava o símbolo narcisista aparecia diante dois traços.
Aquilo deveria ser assustador, e ela perguntava-se se o motivo era o mesmo pelo qual ele possuía aqueles olhos amaldiçoados e misteriosos, ou se havia algo mais por trás disso tudo.
E Neji não precisou avançar mais em sua maldição. A regrediu, engolindo em seco e prosseguindo.
— Eu sou amaldiçoado e não é você e nem o seu maldito amor quem vai mudar isso... — ele ralhou e ela pôs a mão no peito, sentindo os olhos lacrimejarem e engolindo em seco também.
— Eu sempre soube que você não me levaria para um castelo Neji, mas eu te amei mesmo assim... E não me culpe por amar alguém que deu sentido à minha vida, não me culpe por amar alguém que me mostrou que escolhas podem ser feitas e caminhos podem ser tomados, não me culpe por amar alguém que me ensinou que não existe certo e errado quando é o amor que está pedindo. — lembrou-se de quando achava que ele era casado, mas que ainda assim queria estar com ele. E não era apenas uma vontade carnal — Não me culpe por ter amado você, porque eu te amo e não é sua arrogância ou sua personalidade demoníaca quem vai mudar isso... — ela praticamente gritou num misto de raiva e desespero. — E só pra você saber, eu não quero ter um final feliz com você... Eu não quero ter um final com você. Nunca... — sua voz se perdeu.
Forever is a long time
But I wouldn't mind spending it by your side
(Para sempre é muito tempo
Mas eu não me importaria de gastá-lo ao seu lado)
— Ten... — ele sussurrou com sofreguidão. Não tinha mais forças para bater de frente com ela, estava exausto. Estava mentindo pra si mesmo quando dizia que não queria estar com ela... Ele queria protege-la, queria muito...
...Por que em seus pesadelos, era através de suas próprias mãos que ela perdia a vida. E ele não suportaria ser seu algoz, não depois de assumir pra si mesmo, que o único motivo pelo qual ele ainda não havia desistido de tudo, era ela.
Era a chance e a vontade alucinante de ver mais uma vez aquele sorriso lindo e que lhe tirava a sanidade, tal como aqueles dentes que hora ou outra aprisionavam seus lábios deliciosos de forma sexy e única.
Tell me everyday I'd get to wake up to that smile
(Me diga isso todos os dias, que eu vou acordar com aquele sorriso)
Mentir pra si mesmo? Simplesmente não dava. Ela mais uma vez ganhava a batalha. Porque em seu coração ela era a princesa em apuros, mesmo que ele sempre continuasse a ser o monstro que a fazia correr perigo.
Num movimento rápido ele a sentiu puxar a venda de seus olhos, estranhou quando tentou abri-los e uma pequena claridade ofuscava sua visão. Não recordava-se de nenhum foco de luz no local.
Aos poucos Tenten pôde ver o vislumbre daquele belo par de luas. Os quais falavam por si só que ele também esperara todos aqueles dias para isso novamente.
I wouldn't mind it at all
I wouldn't mind it at all
(Eu não me importaria com isso
Eu não me importaria com isso)
— Fala agora... Olhando nos meus olhos, que você não sente nada por mim — desafiou e o viu franzir o cenho, tal como fechar sua boca numa linha rígida.
— Não sou homem pra você, Tenten... Você é o tipo de garota que merece todas as coisas boas, e eu só sou capaz de te trazer sofrimento — ela baixou o olhar e balançou negativamente a cabeça, como era dificil fazê-lo entender. — Me desculpe, eu realmente queria poder colocar o mundo aos seus pés, mas não sou a pessoa certa pra isso... Não sou capaz disso — ela soluçou alto e levou uma mão até a boca, não acreditava que estava ouvindo aquilo. Não depois de tudo...
Neji não se moveu, mas quis puxar os braços e fazer com que a armadilha fosse ativada. Apenas para sentir as lanças perfurar-lhe e atravessar seu corpo para não precisar ver aquela cena, queria morrer. Por mais que tentasse, não conseguia evitar a sua maldita visão de embaçar por vê-la tão desamparada e sofrendo. Tudo por sua culpa. Ela continuava a balançar a cabeça negativamente, sua visão se perdia nas águas que cobriam sua cintura. Mas uma gota — que chacoalhou a mesma e formou vários círculos — chamou a sua atenção e ela parou de chorar, erguendo novamente a cabeça e vislumbrando os olhos perolados cheios de lágrima. Do lado direito de sua face marcada pela dor e um pouco sujo pelo tempo que passara ali, um caminho recém feito pela lágrima cristalina que escorreu.
— Eu não quero o mundo Neji... — ela ficou na ponta dos pés, tocando os ombros másculos do rapaz que não retirava os olhos de si. Como se aquela pudesse ser a última vez em que se veriam. — Eu só quero o seu amor... Você de corpo e alma — apoiou a testa no peitoral dele e chorou um pouco mais. Neji fechou os olhos e abaixou a cabeça, beijando o topo da dela e os cabelos molhados, o que chamou a atenção da mesma. Ele prosseguiu:
— Não entende Tenten... ? Você já me tem de corpo e alma. Você já despertou em mim esse tal de amor. E se pra você ficar bem eu preciso morrer... Que seja — Tenten sentiu seu mundo cair de cabeça num chão de mármore. Havia mesmo ouvido tais palavras dele ? Todo aquele espetáculo era porque ele queria mantê-la segura... Porque a amava? Ele a amava? Realmente a amava ?
Mais uma vez o silêncio se instaurou no local, os olhos castanhos perdidos nos perolados opacos. Neji apenas aguardava alguma reação dela. Realmente, não havia sido tão difícil quanto ele imaginava que seria.
You so know me
Pinch me gently
I can hardly breathe
(Você me conhece tanto
Me prendeu gentilmente
Eu mal posso respirar)
Estava visivelmente nervosa. Suas mãos estavam trêmulas, sua garganta estava seca, seu coração batia tão acelerado que ela poderia jurar que fugiria da caixa torácica a qualquer momento. Tal como a tontura que aos poucos a deixava enjoada.
Por um momento sua cabeça a colocou numa realidade alternativa, ou havia mesmo ouvido aquilo ? Simplesmente não entendia as reações de seu corpo. Deveria estar feliz, não? Então por que essa maldita sensação de que ela iria desmaiar a qualquer a assolava? E essa ânsia de vômito? Era normal?
E suas respostas? Teria alguma resposta?
Precisava agir, reagir...
Forever is a long, long time
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(Pra sempre é muito, muito tempo
Mas eu não me importaria de passar ao seu lado)
" Volte à realidade Tenten, é tudo verdade..." ouviu sua consciência " Ele precisa de uma resposta, antes que seja tarde demais..."
Depois do que parecera séculos para o Hyuuga, ela voltou a fitá-lo. Mas ele percebera que os olhos dela não tinham um foco certo. Riu internamente, era isso que ele causava nela? Estranho... Mas ele sabia que não era só aquilo.
" Ela deve estar tentando digerir a informação " deduziu o então Gênio do Clã Hyuuga.
— Neji... — sua voz parecia distante, mas ela forçou o corpo a aproximar-se dele e tocou-lhe a face do rapaz com carinho. Mesmo tentando evitar, ele não conseguiu impedir que os olhos fechassem com o contato que lhe aquecia a alma ferida — E você acha mesmo que estar longe de você é bom pra mim ? — a indagação fez com que os olhos perolados se abrissem bruscamente e a fitassem num pedido silencioso para que ela não continuasse. Mas ela não desistiria...
— Tenten... — tentou argumentar, mas ela pôs um dedo em seus lábios e o calou.
— Não! — exclamou — Eu vim aqui salvar você, Neji... Por que é só com você que eu me sinto segura. Quero sentir seus braços me protegendo mais uma vez e quero ver as suas asas. Sei que você é capaz de fazer isso se eu te soltar daqui... Então por favor, diga que vai estar comigo amanhã e que não será uma simples lembrança... Eu não suportaria — choramingou.
Tell me everyday I get to wake up to that smile
(Me diga isso todos os dias, que eu vou acordar com aquele sorriso)
— Eu estou aqui, meu amor... Eu sempre estarei aqui por você. Não importa o que aconteça... — ele tentou reconfortá-la enquanto movia lentamente o rosto, implorando através do gesto, um carinho dela.
— Então venha comigo, vamos embora comigo... Neji — falou cedendo ao momento. Imaginando que mesmo que passasse o resto de sua vida ao lado do Hyuuga, ele jamais agiria da mesma forma novamente. Porque Neji não era romântico, mas fora assim que ela se apaixonara por ele. Ele era perfeito aos olhos dela. Ela sempre o amaria, até nas dificuldades. Mesmo nas dificuldades.
— Eu vou, Tenten... — disse vencido e beijando os dedos finos da mão da garota — Eu vou até o fim do mundo com você. Eu não me importaria mesmo...
I wouldn't mind it at all
I wouldn't mind it at all
(Eu não me importaria mesmo
Eu não me importaria mesmo)
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