Amaldiçoado
19 Capítulo XIX - Desejo Suicida, Instinto Protetor
Notas iniciais
No mais profundo lugar da terra, um antigo Arcanjo e um Anjo celeste se viam perdidos em meio a tantas poções e livros de feitiço antigo. Não era nada totalmente inovador para eles, porém, dos Arcanjos que existiam, o que mais entendia sob o assunto era ninguém menos que Orochimaru e não ele.
Jiraya havia sido expulso do Céu. E isso fazia mais tempo do que ele conseguiria lembrar com exatidão. Mas a verdade é que o coração do Arcanjo sempre permaneceu puro.
Enquanto ainda estava no reino de Deus, foi apedrejado e humilhado até por pessoas que ele considerava próximo ou da família, como diriam os humanos. Não se arrependia do que havia feito, para ele a verdade estava em seu coração e não no local onde vivia. Talvez fosse por isso que o Arcanjo que realmente não merecia tal título não confiasse nele, nesse caso, Orochimaru.
Mas o tempo e a necessidade de sobrevivência lhe mudaram.
Se estava planejando mesmo coisas ruins? Talvez. Fez coisas más, visando o bem daquilo que lhe interessava. Fora egoísta, um dos pecados que o homem lá de cima mais abominava. Sabia que não merecia mais o título que um dia recebeu com esmero. Entretanto, quem poderia culpar aquele que suportou sozinho o carma do adeus?
Nem mesmo os Anjos são capazes de tamanho feitio. E com ele não seria diferente. Mentir para si mesmo era o que ele faria se dissesse que não lhe cortava a alma ver seu amado pupilo no caminho para o mal. Ainda mais sabendo que aquele coração era tão puro — ou até mais — que o seu.
Mesmo que de alguns tempos para cá o loiro tenha mostrado um comportamento estranho. E isso lhe intrigava.
Havia algo em seus olhos azuis, uma clama? O que Naruto poderia querer passar em sinais o que não conseguia em palavras? Então, também não era o Arcanjo de cabelos longos, brancos e repicados que entendia essa fala. E sim Tsunade. Sua área era outra, estrategista, como um dia fora chamado. Um ótimo comandante em batalhas e conhecido por seus planos sempre darem certo.
E de certo tempo pra cá, ele havia descoberto que não era mais tão bom assim. Uma vez que se deixou ludibriar pela conversa de outro.
Por egoísmo. De novo.
Continuou vasculhando todos aqueles livros velhos e empoeirados. Sorte sua que por ser um ser superior não sofria com as consequências de fazê-lo. Ou doenças. Ao seu lado, Dan, o homem mais corajoso que um dia ele já conhecera. Certamente.
Afinal, mesmo sendo Anjos, eles eram orgulhosos. E então, quem no reino dos Céus abriria mão de tornar-se um Arcanjo para salvar a vida de uma pessoa amada? Ele o fez! Sem pensar duas vezes, Dan salvou a vida de sua amada.
Tal como desceu para a terra — sem condições e forças — para procurar a única filha. A qual por sinal nem sabia antes de sua existência — e por tanto a mesma pela qual ele não deveria ter nenhum sentimento de pai —. E agora estava ali, pondo em risca ser descoberto por estar com um traidor e ser punido severamente pelas Leis do Céus.
E ele sequer se importava.
Ou pelo menos não demonstrava.
E ainda assim, lá estava ele. Despreocupado com o que poderia acontecer consigo, visando o futuro de sua vida filha e consequentemente, da terra. Jiraya sabia que por trás de todo amor havia um fundo de responsabilidade.
— Dan... — chamou, fazendo os olhos azuis se voltarem para si. Suas roupas tradicionalmente celestiais, entretanto num estilo antigo. Parecido com o que se usava na época de Cristo.
— Sim? — incentivou com certa curiosidade.
— Tem certeza que quer fazer isso? — questionou e outro baixou os olhos. Parecia pensativo e levemente frustrado. — Digo... — pigarreou — Ainda não encontramos a fórmula desse feitiço, mas sabe que é perigoso... Lembro-me de suas consequências brevemente. — parou e pensou. — O que pretende fazer, Anjo celeste? — o olhou com o cenho cerrado. Ele parecia não querer falar sobre o assunto.
— Apenas vamos adiante, sim? — respondeu simplesmente tateando as estantes antigas e de madeira. Jiraya prosseguiu quando percebeu que ele não continuaria:
— O efeito colateral desse feitiço é perigoso. Unir a sua vida com a de outrem... É muito perigoso — virou-se para ele e fez alguns gestos. Suspirando em seguida.
O azulado continuou a procurar algo relacionado ao feitiço.
— Não é efeito colateral — falou sem olhá-lo — É exatamente esse o fundamento do feitiço. Não há segundas intenções... — respondeu e Jiraya se exasperou. Estaria ele fazendo uma loucura?
— Então diga-me Dan, à quem você quer unir a sua vida? — entreabriu levemente os braços.
Por fim Dan o olhou nos olhos, esperava que pelo menos uma vez o outro entendesse sua resposta visual — como sempre fora mais fácil com sua Tsunade —. Entretanto pareceu dar certo. Jiraya arregalou os olhos e engoliu em seco.
Se estivesse mesmo entendido aquilo, ele estaria certamente cometendo uma loucura.
***
— Do que que você tá falando? — ralhou a loira mostrando o punho direito e se controlando para não esmurrar a cara o irmão adotivo.
— Pois é Ino... Foi isso mesmo que você ouviu — ele deu de ombros e arregalou os olhos de forma sutil, inclinou levemente a cabeça para o lado e em seguida olhou para Gaara, esperando que ele entendesse o que estava querendo dizer e que não poderia fazê-lo naquele instante.
E teve suas preces atendidas.
— Ino, meu bem... — Gaara falou tocando levemente o ombro da loira que o olhou com a sobrancelha arqueada — Pode me fazer um enorme favor? — pediu juntando as mãos em reza, parecia que implorava, e a Yamanaka franziu o cenho. Assentindo sem jeito, como negar algo ao seu amado? — Ótimo... — falou e se aproximou da jovem, sussurrando algo em seu ouvido.
A julgar pela reação da mulher, o Nara deduziu que era algo realmente íntimo. Uma vez que Ino corou da cabeça aos pés e arregalou seus olhos azuis enquanto olhava desesperada para o Sabaku. Em resposta Gaara apenas arqueou levemente a sobrancelha e ela assentiu, olhando de canto para Shikamaru que semicerrou o olhar imaginando o que o cunhado estava aprontando.
— Com licença. — falou normalmente, mas não sem antes enviar um último olhar mortal para o irmão — E essa conversa não acaba aqui...! — falou com o dedo enriste e o Nara abriu a boca e bocejou preguiçosamente enquanto coçava o alto de sua cabeça. Com tédio da situação num todo.
Poderia estar dormindo... Maldita hora em que aceitou ser babá de uma Sabaku maluca dentro de um shopping.
Gaara ficou observando a namorada caminhar pelo corredor estreito de seu apartamento e assim que a viu adentrar seu quarto, voltou sua atenção para o moreno que permanecia escorado na parede. Em seguida passou pelo mesmo e saiu do local, fechando a porta atrás de si no momento em que o outro também saiu.
Desceram pelo elevador — em silêncio —, na verdade todo o percurso até a área de lazer do prédio fora silencioso. Mas isto mudou assim que o ruivo notou que estavam em um local seguro o bastante para continuarem a conversa.
— E então? — cruzou os braços e o observou com cautela, o outro suspirou cansado.
***
Sasuke estava andando pelos corredores da faculdade de forma despreocupada. Curiosamente Jiraya não havia permitido que ele e Naruto retornassem a mansão.
O Uzumaki e ele agora viviam as escondidas nos prédios do local. Não tinham para onde ir, pelo menos ele não queria ter. Gostava do trabalho de quinta que exercia ali, lhe fazia esquecer dos problemas que Orochimaru lhe arranjara. De Neji, a única coisa que se sabia era que o mesmo havia sido capturado pelo antigo Clã que uma dia pertencera.
Sempre fora criado pelo Arcanjo de longos cabelos negros e lisos de forma indireta. Querendo ou não, o homem que era fascinado por cobras sempre estava ali, interferindo em suas decisões. Mas o mesmo não interviu quando lhe roubaram os poderes.
Parou por um segundo e massageou as têmporas, lembrou-se de uma conversa recente que tivera com Naruto. Onde o loiro lhe dizia para não se deixar levar pelas intenções daqueles que lhe queriam o mal. Suspirou frustrado. O que Uzumaki queria afinal? Uma hora dizia que matar o Anjo prodígio era sua função, outra que aquilo era errado... Era como se ele possuísse duas personalidades.
Sasuke sabia que no fundo não havia nascido para aquilo. E por mais que as implicações legais lhe dissessem o que ele realmente era, ele não queria ser parte daquele jogo. Não queria ser controlado por ninguém.
O papel de Demônio do mal combinava mais com o Hyuuga. Oh sim... Ele... Neji fizera diversas atrocidades em seu passado. E aquilo só provava que origens não ditam quem você realmente é.
Ele era um Demônio sim, assim como seu irmão fora. Mas estava longe de possuir o mesmo desejo sanguinário que um dia o outro possuiu. Diferente do moreno de olhos perolados, o qual vivia constantemente exercendo com êxito o papel de vilão. Isso porque o dito cujo nascera Anjo.
— " Você não é ruim, Sasuke... Olhe pra você, suas origens não traçam seu caráter. Só você pode fazê-lo a partir das suas atitudes... E você decidiu amar. O amor não nasce em corações impuros. Assim como uma semente não é capaz de florescer em uma terra rochosa. Ou até nasce, mas morre pela falta de raízes." — as palavras de sua amada Sakura lhe vieram à mente.
Engoliu em seco e por breves segundos fechou os olhos, permitindo que algumas lágrimas teimosas de saudade lhe molhassem a face. Para depois enxugá-la com as costas da mão.
Fungou levemente e indagou-se:
— Sakura... Será que você realmente tinha razão? — o tom de sua voz fora rouco. Baixou a cabeça e voltou a caminhar na direção da biblioteca em silêncio.
Assim que chegou no local desejado, estranhou o fato da luz estar acesa. Era madrugada e não deveria ter ninguém ali. Estranhou ainda mais ao ver o Demônio da besta sentado ao lado de uma garota desfalecida em uma das mesas, e ele bem sabia quem era ela.
— O que essa garota faz aqui, Naruto? — indagou sem rodeios. O outro se levantou num pulo e o olhou com os olhos arregalados. Sasuke franziu o cenho diante da reação do outro.
— Sasuke — ele caminhou até o moreno e o segurou pelos ombros, parecia estar desesperado — Sasuke por favor me diga, o que está acontecendo comigo? — o Uchiha ergueu uma sobrancelha sem entender a situação.
— Do que tá falando? — Naruto se afastou com uma cara de dor, usou uma das mãos — a qual estava com grandes unhas, tal como de uma besta — e passou-a pelo próprio peitoral como se quisesse rasgar a própria pele. Era como se estivesse se sentindo sufocado, como se algo dentro de si gritasse pra sair.
— E-Eu não sei... — sua voz era sôfrega, ele parecia cada vez mais agoniado — Uma sensação estranha... Muito estranha... — subiu as mãos para o pescoço enquanto rodava no mesmo lugar, girando os calcanhares. Suas expressões sempre dolorosas — O que tá acontecendo comigo, Sasuke? — foi para perto do outro e lhe segurou firmemente os braços, repetindo o gesto anterior. Seus dentes começavam a crescer. Os olhos do moreno se arregalaram de forma sutil.
— Naruto, você precisa voltar... Precisa ver o Jiraya! — falou simplesmente — Tem certeza que consegue controlar a besta que aprisionou dentro de você? — sua voz soou preocupada. O amigo parecia estar sendo muito torturado.
— M-Minha pele queima... — abaixou-se, abraçando o corpo em posição fetal e grunhindo.
— Vem! — ordenou pegando-o pelo braço — Nós vamos voltar agora! — mas ele relutou — Naruto! — trincou os dentes, irritado pela situação.
— Me diz Sasuke... — levou a mão até o alto da cabeça, fez gestos giratórios com as mesmas e parecia pensar bastante antes de falar — Por que a Hinata não se lembra de mim? — apontou para a Hyuuga — E-Eu lembro de ter me encontrado com ela no pátio... Mas era como se ela me odiasse ou algo do tipo — caiu de joelhos sentido uma dor alucinante. O grito ecoou pelo local e ele esmurrou o chão para conter a própria exasperação — Ela... — ergueu a cabeça. Sasuke ficou horrorizado, era como se a pele do Uzumaki se desprendesse de seu corpo. Ficando apenas em carne viva ou algo parecido — Ela tem medo de mim! — gritou novamente.
O Uchiha não sabia o que fazer. Jamais havia visto o outro daquele jeito. Naruto batia a cabeça no chão, forçada os dedos contra o mesmo, sendo possível para o moreno ouvir os ossos se quebrarem. Ele estava simplesmente paralisado sem saber o que fazer. Sua mente parecia ter congelado.
— AHH! — gritou louco, sentindo a besta dentro de si ser finalmente domada.
Caiu exausto no chão. Aos poucos seu corpo foi recuperando a sua imagem natural, os fios loiros, a pele branca e levemente bronzeada, os olhos azuis... Naruto estava com suas forças zeradas, e não era pra menos. Algo dentro de si estava acontecendo e ele não sabia exatamente o quê.
Sentiu seu corpo ser erguido com a ajuda do outro e em seguida foi posto sentado em uma das cadeiras ao lado da mesa em que a Hyuuga estava. Forçou o braço trêmulo e totalmente suado — assim como o resto do corpo — e tocou com as costas dos dedos o rosto delicado da menina. Praguejou-se intimamente pelo hematoma que ela possuía no alto da cabeça, mas contava com o lado sobrenatural da menina para curar-se rapidamente.
Sorriu — mesmo sentindo dor — ao sentir a respiração calma dela. Segurou entre os dedos os fios azulados, os quais exalavam seu cheiro único e adocicado. Naruto enfrentaria até Deus para poder estar com ela... Quem dirá uma reles besta?
— Tem coisas tão vagas na minha mente, Sasuke. É como se faltasse partes do que eu vive na memória... — falou tristemente e baixo. Na verdade, parecia fazer esforço para falar. Uma vez que respirou fundo ao fazê-lo e sua voz saía entrecortada. — Eu a amo... Tanto — uma lágrima teimosa escapou das orbes azuladas. Preferia nunca ter reencontrado a menina novamente, aquilo só fizera todo o amor que tentou suprimir esmagando-o, voltar à tona. E a situação pela qual estava passando lhe cortava a alma, era uma sensação pior do que lhe arrancarem o coração. Ela era seu coração, afinal.
Enquanto isso, Sasuke observava toda a cena petrificado. Simplesmente não entendia o que estava acontecendo. Sempre soube do amor esquecido do loiro por um Anjo, mas nunca imaginou que o mesmo estivesse prevalecido com os anos e muito menos que ainda estivesse lá, tão vivo quanto antes. Além do mais, não era isso que o Uzumaki demonstrava quando estava em seu harém. Na verdade, aquela parecia a única forma de satisfazê-lo — forma esta que ele aprendera com o maldito Hyuuga —.
Ah não ser que...
— Naruto! — chamou sentando-se numa cadeira ao lado do Uzumaki e batendo em sua perna. O outro parecia estar distraído, uma vez que sobressaltou-se levemente e o olhou com os olhos levemente arregalados. — O que pensa que está fazendo? — arqueou a sobrancelha — Essa garota é um Anjo, Naruto. Sabe o que Anjos fazem com Demônios? — esperou que ele respondesse, mas ele não o fez — Eles nos matam! — exclamou seriamente. O loiro franziu o cenho.
— Mas eu também sou um Anjo... — sua voz permanecia rouca e entrecortada, tal como baixa. Sasuke balançou negativamente a cabeça.
— Não, você é um Demônio agora... Você já foi um Anjo. Mas a besta que vive dentro de você te transformou em um de nós — acusou levantando-se novamente e com o dedo enriste. Estava mandando os sinais para o loiro ligar os pontos, mas o mesmo era extremamente lento.
— Como assim? — franziu o cenho. Selar algo demoníaco dentro de si não lhe fazia uma pessoa mal... Ou fazia?
— Não vê o que está acontecendo? — abriu os braços e o outro pareceu não entender. Se ele estivesse certo — e parecia estar, uma vez que Naruto era mais lerdo que o normal —, seria perigoso deixar que aquilo permanecesse por muito mais tempo — Essa besta está controlando você! — exclamou apontando para o mesmo como se apontasse para o acusado.
***
— Espera um momento! — exclamou erguendo a mão e franzindo o cenho. — Está me dizendo que então, a Temari não faz ideia do que realmente somos? — ergueu uma sobrancelha de forma sutil e o outro respirou fundo e bocejou. O vento daquele fim de tarde estava lhe dando um grande sono, tudo que ele mais desejava no momento era sua cama.
— Exatamente! — respondeu simplesmente — Inventei uma desculpa qualquer para tentar desvia-la do foco, a verdade é que Temari na maioria das vezes se deixa levar pelo lado emocional e... Dessa não foi diferente — deu de ombros.
Gaara estava surpreso, não tinha como negar. O Nara não havia enganado só a sua irmã, como também a si e a sua namorada. Levou uma mão até a boca entreaberta enquanto o mesmo parecia pensativo.
Então queria dizer que Temari ainda estava protegida? Desentendida e totalmente absorta sobre os verdadeiros problemas deles? Tinha que confessar pra si, aquela era uma ótima notícia no meio de tanta tragédia que lhes rodeavam.
— Olha... — procurou palavras enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro e colocava uma mão na cintura.
— Eu sou um gênio, eu sei — deu de ombros com um meio sorriso — Mas você ainda quer minha cabeça, não é? — riu pelo nariz com a cara que o ruivo fizera.
— É... Com certeza eu quero — ele assentiu levemente, voltando a por uma mão no queixo — Mas agora eu preciso conversar com a fera — meneou com um aceno, indicando a sua namorada que deveria estar irritada. Sem contar que a mesma poderia fazer alguma besteira, tal como tentar ir conversar com Temari sobre o assunto.
— Certo, boa sorte — falou se virando.
— Ei! — exclamou e o olhou o olhou de forma curiosa por sob o ombro — Não vai me ajudar? — abriu levemente os braços na pergunta. A sombra de um sorriso se formou nos lábios do Nara que deu de ombros.
— Me perdoe meu caro, entretanto minha cota de mulheres problemáticas já ultrapassou os limites por hoje e extrapolou a capacidade pelos próximos cem anos — acenou e voltou a caminhar na direção da saída do prédio. Gaara revirou os olhos, mas riu de canto.
***
— Dan está na terra, como o senhor suspeitava — falou o homem de cabelos brancos e o outro revirou os olhos.
— Você tem um ótimo sentido para descobrir o óbvio, Kabuto —resmungou levemente irritado.
— Perdão senhor Orochimaru — baixou a cabeça e o Arcanjo esboçou um riso de canto — Creio que já tenha dado início ao seu plano, certo? — questionou simplesmente e o outro assentiu levemente, virando-se para fitar seu subordinado — Peço perdão novamente se estiver sendo inconveniente meu senhor, mas... Não consigo ver o lucro diante de tudo que está acontecendo — parou um pouco — Digo... O Anjo amaldiçoado fugiu, Dan não está no céu e agora ele mesmo está de corpo presente para salvar o Anjo prodígio — deu de ombros. Simplesmente não entendia a situação como um todo. Será que havia algo que estava passando despercebido diante de seus olhos?
Era quase impossível.
— Aí que está, Kabuto! — exclamou apontando levemente o dedo indicador na direção do mensageiro — Desde a Guerra Milenar que percebi, o próximo Demônio prodígio jamais chegaria aos pés de seu antecessor — respondeu semicerrando os olhos.
— No caso, Sasuke jamais se igualaria a Itachi? — questionou e o outro assentiu. — Compreendo... E concordo. Uma vez que o antigo Demônio prodígio foi capaz de controlar a besta de nove caudas, já o atual sequer conseguiu controlar os próprios poderes. Não é atoa que este fora selado no corpo de um reles humano... — falou debochado, sentia-se superior a qualquer criatura do mundo inferior. E nunca gostara mesmo do Uchiha.
— Exato! — confirmou — Este fora um dos principais motivos que me fizeram agir desde muitos anos atrás... Após a guerra, eu passei a vigiar melhor os guerreiros Hyuuga's, Kabuto. Notei que os mesmos possuíam sim a força invejável que muitos queriam. Sabe o tamanho do poder que eu teria se fosse capaz de controlar um deles? — cruzou os braços — Então pensei, se é para ter domínio sobre um... Que seja do melhor, é claro. Não precisei me esforçar para descobrir quem era o "Melhor guerreiro que o Clã Hyuuga um dia já tivera.", e durante uma missão, a qual por sinal era alarme falso, dado por mim.. — abriu seu sorriso sombrio — Nós o capturamos Neji e realizamos o ritual para selar sua mente e liga-lo a este colar. — ergueu a peça que não soltava por nada. O brilho avermelhado do rubi reluziu nos óculos do subordinado — Logo depois o jogamos de volta no deserto. Não demorou muito para que ele fosse encontrado por outro Hyuuga. — falou pensativo, como se a cena passasse diante de seus olhos — Deixei que ele vivesse bem, por pelo menos mais um ou dois séculos... Esperei que os malditos se esquecessem do ocorrido para não levantar suspeitas. Descobri que Neji escondia de todos o seu selo amaldiçoado — sorriu levemente outra vez — Isso facilitou demais em tudo. Em uma noite datada em meu calendário celeste, eu ativei a maldição... Essa noite ficou marcada na memória de todos os Hyuuga's com muito sangue, dor e morte. — a risada maligna ecoou pela pequena caverna enquanto o Arcanjo chacoalhava os ombros — enquanto ria — lembrando-se de seu feitio. Até o próprio Kabuto sentira um frio de horror percorrer sua espinha ao imaginar o que o Clã havia passado naquela noite.
— Muito ardiloso meu senhor, muito ardiloso. — elogiou sem esboçar reação.
— Após isso foi muito fácil. Neji fora exilado após matar o próprio pai e não demorou muito para que ele se unisse ao imprestável do Jiraya. Inconscientemente se unindo à mim, eu o controlo até sem este colar e ele nem sabe... Sou bom em convencer as pessoas. Só o fato de que ele é capaz controlar a besta que existe no seguidor de Jiraya sem o mesmo saber, prova isso — cruzou os braços e sorriu de canto — Mas a verdade é que sei que Sasuke jamais chegará ao nível do Hyuuga, e então, eu serei obrigado a usar o mesmo para matar o Anjo prodígio. — sorriu de canto — Ou... Matar aquele que insiste em proteger ela — virou-se e deixou a frase no ar, aguardando que o outro entendesse suas intenções. — Lembre-se Kabuto, você tem que estar sempre um passo a frente do seu inimigo. Não importa as circunstâncias... — sua voz era aveludada, quase como uma dica para iluminar a mente do outro. Ao seu ver já havia falado demais. Olhou por sob o ombro para o mensageiro e viu o mesmo arregalar os olhos de forma quase sutil. — Meu plano inicial era fazer Neji ensinar ao Sasuke a ser tão bom quanto ele... Mas isso deixou de ser prioridade no momento em que eu descobri a maneira certa de manipular cada um deles — sorriu.
— Dan... — e ele não era tão burro assim.
***
Neji estava mexendo nas panelas enquanto era sutilmente observado por Tenten. Sentia o peso das orbes castanhas em suas costas e gradativamente aquilo estava lhe irritando. Sabia que no âmago a morena não estava observando o que fazia, apenas pensava em como falar sobre alguma coisa. E ele odiava isso.
Soltou a louça de inox sob a pia, causando um barulho característico de metal batendo e fazendo a Mitsashi pular do lugar assustada. Estava sentada em um dos bancos da mesa de mármore preto, seus braços apoiados acima da mesma. No momento tudo que usava era uma blusa cinza e larga e uma calcinha de renda. Já Neji — que estava em frente a pia e do outro lado da mesa, de costas para a jovem — trajava apenas a calça de moletom cinza e que era presa por um elástico na região dos quadris, deixando todo seu comprimento até os pés, soltinho. Curiosamente, a caça do Hyuuga e a blusa da Mitsashi eram partes de um conjunto masculino.
O moreno se virou lançando um olhar gélido e irritado para Tenten que franziu o cenho e engoliu em seco. Talvez jamais se acostumasse a maneira bruta que o rapaz agia, mas tentaria.
— O que foi? — indagou entre dentes, seus olhos estavam semicerrados e fixos nas feições abatidas da garota. Ele sequer piscava. Por outro lado ela sentiu seu coração acelerar levemente e virou o rosto — evitando olha-lo nos olhos —, a cada dia que se passava era como se descobrisse que jamais o conheceria por completo. Neji era complexo, possuía variadas formas de agir e pensar — mesmo que só demonstrasse uma. A frieza, superioridade —. Ele era mil homens em um só.
Já Tenten... Bem, ela era apenas Tenten. Uma mulher singular. Com seus problemas e confusões, Tenten possuía tons e dores, cores e sabores.
Eles eram totalmente opostos na maneira de agir e pensar, e totalmente iguais na maneira de amar. Amavam-se assim, em um olhar, um gesto ou até mesmo um momento. E por mais que eles se mostrassem de planetas ou universos diferentes, a Mitsashi sabia que ele jamais deixaria algo de ruim acontecer a ela. Estava também disposta a morrer por ele se necessário fosse, afinal. Isso era amor? O que era amor?
" — Hinata... Eu não sei se posso continuar. Eu não sei se isso é certo.
— Tenten... Você conseguiu chegar até aqui, é uma vitória! Vai mesmo deixar o medo falar mais alto que o amor?
— Eu não sei Hina... O meu medo não é que dê errado, e sim de ser rejeitada. Eu estou disposta a qualquer coisa por ele, mas não sei quanto a ele... Sabe, ele nunca disse que me amava ou algo do tipo. E sinceramente não é algo que eu espere dele, mas ainda assim... — baixou os olhos engolindo em seco. Sentiu as mãos firmes da Hyuuga tocar a sua e a mesma sorrir de forma sincera.
— Não desista, Tenten! — exclamou e suspirou, poderia estar fazendo uma loucura, mas algo dentro de si falava mais alto. Talvez ainda acreditasse que tudo que o Hyuuga fizera no passado fora superficial, e que algo de bom ainda poderia vir do mesmo. Hinata era assim, sonhadora, mas crente — Você não tem ideia do bem que fez pra ele, Ten... — sorriu de forma amável ao recordar-se de como o Hyuuga demonstrara estar desesperado quando a Mitsashi fora sequestrada — Não sabe o quanto ele mudou por sua causa, deixando de fazer coisas pra te proteger. — completou. Em sua mente a ideia firme de que a missão do Hyuuga era levar a morena para o lado do Inferno, mas ao contrário disso ele parecia querer fugir com ela de lá.
— Eu sei bem, Hina... Essa é a história mais clichê que existe — debochou de si mesma com uma voz chorosa, os olhos já começavam a lacrimejar — Tudo parte de uma ilusão... — engoliu em seco e deixou um soluço escapar de seus lábios.
— Pode ser... — Hinata falou singela enquanto tocava com carinho o rosto da amiga e forçava o queixo da mesma para encara-la — Mas é real... — completou sorrindo e mostrando todos seus dentes brancos e perfeitos. "
Tenten se recordara da conversa que havia tido com Hinata minutos antes de irem para o farol salvar o Hyuuga. Ela parecia tão confiante... Talvez, se não fosse por ela, certamente não teria conseguido. E agora estava lá, sendo egoísta o suficiente para não se preocupar com o bem estar da amiga.
— Nada... — respondeu num tom baixo e o ouviu respirar fundo. Voltou seus olhos na direção do Hyuuga e o viu de lado, olhando mais precisamente para a janela de vidro, estava de dia. O peitoral definido e tentador subia e descia gradativamente, na mesma medida em que ele respirava. Os músculos em seu ápice atingindo a beleza sublime e perigosa que aquele Anjo amaldiçoado possuía. Viu a íris prateada se voltar para si, apenas a íris. Neji permanecia imóvel — a não ser é claro, sua respiração —, sentiu um frio percorrer sua espinha e se extinguir em seu ventre numa sensação calorosa e excitante. O moreno notou os sinais da morena, o rosto que ganhou uma imperceptível coloração avermelhada e a respiração que acelerou brevemente, a boca pequena e rosada se entreabriu para puxar ar para os pulmões.
— Não me faça descobrir, Tenten! — ele alertou no seu tom mais quente — permanecendo frio —. Ela sabia o que ele queria dizer, e como sabia. Havia provado do lado mais profano de Neji nos dias que se passaram após ter fugido com ele. E não que não quisesse mais aquilo, entretanto, sua preocupação falava mais alto.
Como estariam todos? E se os Hyuuga's estivessem descoberto sobre a participação de Hinata em tudo? Afinal, onde estava a menina Hyuuga? Perguntas sambavam em sua cabeça e ela só queria ser capaz de compreender aquele sentimento de conforto e confusão que lhe assombrava todas as vezes em que deitava sua cabeça sob o travesseiro.
— Eu... — mordeu o lábio inferior e baixou os olhos. Assustou-se brevemente ao sentir a respiração quente do Hyuuga em sua clavícula e virou o rosto para o lado direito, fitando o mesmo muito próximo a si e com a respiração pesada. Poderia se perder naquele belo par de luas se não estivesse confusa o suficiente até para racionar com precisão o que queria. Sentiu quando ele a segurou pela nádega esquerda e pelas pernas — levantando-a nos braços —, virando-a sutilmente e a depositando sob a mesa de mármore frio — devido ao clima da colina —. Tenten gemeu baixinho pelo arrepio após o toque com o objeto gélido e finalmente soltou seu lábio da prisão dos dentes. Neji se aproximou da morena, quase acoplando os corpos e a obrigando a sentir o quão já estava duro. A Mitsashi era uma verdadeira caixinha de mistérios até mesmo para os sentidos apurados do Hyuuga. Uma hora ela mostrava estar feliz por estar ali, com ele, e livre dos problemas de ser um Anjo prodígio. Em outra parecia querer fugir e voltar para a vida pacata e tediosa em que vivia.
De uma coisa o dono dos olhos perolados tinha total certeza, jamais entenderia com precisão o que se passava naquela cabeça de longos fios castanhos e ondulados. Fios estes que no momento lhe tiravam a concentração enquanto o mesmo aprofundava seu rosto na curvatura do pescoço dela, enquanto que com sua mão direita ele soltava sutilmente as madeixas castanhas que estavam presas em um coque desleixado. Sentia aos poucos seus sentidos e juízo lhe abandonarem, aquele cheiro de sândalo e lavanda eram o pior tipo de tortura que um dia o mesmo já passara.
Sua mão esquerda estava firme na bunda dela, obrigando-a a permanecer muito junta a ele. Tenten estava de pernas abertas e como uma boa menina que era, roçava seu sexo molhado e quente no de Neji que sem esforço algum alcançava — com os quadris — o ponto mais alto da mesa e exatamente onde ela estava. Ouvia os gemidos baixos e guturais que ela emitia através daquela adorável boca a qual ele amava foder. Além de roçar, ela fazia questão de esfregar os seios eriçados e fazê-los sentir os mesmos duros através do tecido da blusa em seu peitoral.
Baixou levemente os olhos enluarados para fitar aquele belo par de mamilos empinados. Esboçou uma leve sombra de um sorriso e passou a língua nos próprios lábios, mordendo brevemente o inferior — soltando o pedaço de carne macia sem pressa —. Logo depois voltou a erguer a cabeça e observar com cautela as feições desejosas da morena, repetiu os gestos com a boca da mesma antes de iniciar um beijo dominador.
Bocas que dançavam em sincronia, Neji no comando da situação. Sua língua hábil girava ao redor da língua feminina, provocando-a com a ponta enquanto usava os dentes e mãos para excita-la ainda mais.
A mão que antes estava nos cabelos, desceu para prontamente apalpar o peito da garota que arfou diante do toque experiente. Neji tinha o dom de fazê-la sentir dor e prazer como jamais imaginou antes — uma vez que ela sempre imaginou que a dor fosse sempre se sobressair diante do prazer —, e mais que isso, ele tinha o dom maior de tornar aquele jogo viciante.
Tenten se engasgava com a própria saliva quando tentava engolir o desejo que se acumulava em seu corpo, deixando-a de água na boca e na boceta. Sentia a pressão do toque pesado do Hyuuga em um de seus pontos frágeis, ele massageava a região com uma pressão precisa, ao mesmo tempo em que tocava o bico de forma tão gentil... Gemeu outra vez e afastou sua boca da dele.
Fitou por segundos incontáveis o rosto masculino até senti-lo segura-la firmemente outra vez e coloca-la no chão.
— Você o que...? — indagou finalmente, como uma forma de provoca-la. Sabia que naquele momento a Mitsashi provavelmente já havia esquecido da conversa que tiveram minutos antes. E estava certo, ela franziu o cenho e meneou levemente de um lado para o outro.
— O que? — questionou com a boca entreaberta, seu coração batia fortemente de desejo. Ele as vezes era tão cruel com seu raciocínio, deixando-a sempre a desejá-lo mais e mais — Eu... Nada! — mesmo confusa ela respondeu. Só queria transar com ele até suas forças se esvaírem e desmaiar novamente. E o faria. Por mais que o Hyuuga sentisse prazer em provoca-la, ele não conseguia fazê-lo por muito tempo antes de sentir a própria excitação clamar por atenção.
E naquela altura ela já podia ver o membro pulsar dentro da calça dele.
— Ótimo... — ele falou pondo a mão na parte de trás da cabeça dela e alisando a região, ao mesmo tempo em que fazia força para fazê-la se aproximar. Tenten deu dois passos na direção dele sem pestanejar. E ao vê-la próxima o suficiente, segurou firmemente o rosto dela com as duas mãos e a forçou a olhá-lo nos olhos, os fios castanhos emaranhados nos dedos longos do Hyuuga — Agora me chupa! — ordenou entredentes.
***
Sexo.
Parecia que a relação deles se resumia apenas a isso. E bem, talvez realmente fosse.
Por vários momentos Tenten pensou em fugir e se esconder, mesmo sabendo que não chegaria longe. Afinal, se ele não a encontrasse, seus desejos e vontades falariam mais alto no segundo em que a saudade batesse. Ela quis pedir para ele ir embora, mas sabia que não seria capaz de viver — sem enlouquecer — sem a sua parte mais louca e fugaz, ele. Implorou a si mesma para controlar seus instintos, dizer que teria sua parte e comando naquela relação, mas difícil era convencer a si mesma daquilo. E pior, por isso em prática no momento em que era tocada.
No âmago a Mitsashi sentia que na verdade, Neji havia lhe sequestrado. Conseguia ver com clareza a falta de vontade que ele tinha em querer voltar para Tókio. E pensando como uma louca apaixonada ela estaria bem, estava com seu homem, afinal. Mas e como amiga? Sentia medo de colocar os outros em risco por sua culpa. Medo de voltar algum dia e eles lhe desprezarem por ter fugido com o Anjo que até poucas semanas atrás queria matá-la. Ou até mesmo que algo pior acontecesse a eles, por sua causa.
Se ao menos pudesse falar com algum deles, saber se estavam bem...
— Hinata... — sussurrou baixando os olhos.
Naquele momento estava sentada no alto de uma pedra, os braços abraçavam as pernas e o queixo estava apoiado nos joelhos. Os olhos castanhos que fitavam o horizonte e o belo pôr-do-sol, tal como a imensidão do céu azul e as belezas que o local afastado de toda atrocidade humana lhe oferecia.
Estava próxima a um grande precipício, aos arredores tudo que via eram florestas e mais florestas. No fim da vala, um rio, largo e de águas cristalinas. Talvez pudesse ir lá, mas Neji certamente não permitiria. Era perigoso e consideravelmente longe do alcance dos feitiços que lhe escondiam do radar dos Anjos. Suspirou pesadamente.
Era tão estranho se sentir aprisionada, mesmo estando livre.
Sentia o peso das orbes peroladas sob si, sabia que mesmo com o Hyuuga catando lenha para se aquecerem, ele a vigiava. Não importando onde ou o quê, ele cuidava dela. E confessa pra si que gostava dessa proteção, desses cuidados. Mesmo que as vezes tudo lhe sufocasse. Estranho era ela se sentir tão dividida quando se tratava dele. Era estranho ela querer ele tão perto, ao mesmo tempo que tão longe... E mesmo sabendo que estavam fugindo de todos, sentia que o maior perigo era ele. Mas sabendo que não conseguiria ficar sem ele, ela apenas se calava, se entregava.
Valia a pena. Ela o amava afinal. Amava todo aquele amor doentio e macabro que ele tinha pra lhe oferecer. Aquele era Neji... Um homem experiente na cama — e que homem —; Um amante pra vida real; Um Anjo por linhagem... Um Demônio por natureza; Um gênio para seu antigo Clã e melhor guerreiro; Um terror para aqueles que se opuseram a ele... Entretanto uma criança no sentido de amar. E para ela... Bem, ela sabia que por trás de todas aquelas facetas existia uma alma machucada e que muito provavelmente jamais havia provado do amor.
Os sinais dele lhe dizia isso, era tudo novo pra ele... E para ela também. Era melhor do que ela havia lido nos livros de romance ou em poemas antigos, era mais vívido do que ela assistia em filmes clichês e em sua maioria desinteressantes. Era tudo simplesmente mais intenso.
Bufou. Não importava o quanto tentasse, parecia que nunca entenderia com exatidão aquela cabeça maluca. Levantou-se e abriu levemente os braços, deixando o frio gélido de início de noite lhe arrepiar o corpo e deixá-la relaxada. Não conteve um sorriso safado que brotou em seus lábios perfeitos no momento em que imaginou que por mais que tentasse compreender os mistérios do Hyuuga, o que mais lhe atraía era deliberadamente o mistério que existia nele. O perigo... A aventura de estar entre a vida e a morte toda vez que transava com ele e presenciava o primeiro estágio de sua maldição ativada... Realmente, deveria ser louca.
Deixou de olhar para o céu e inclinou levemente a cabeça na direção da parte da floresta próxima em que Neji estava, como imaginado o Hyuuga carregava a madeira olhando pra ela. Revirou os olhos e voltou a fitar o horizonte, estava quase de noite, mas alguns raios solares teimosos ainda insistiam em dar seu último brilho do dia. Cruzou os braços e mordeu o lábio inferior no momento em que sentiu vontade de fazer uma loucura e pular daquele precipício.
Se Neji surtaria? Claro que não! Apenas iria mantê-la amarrada na cama pelos próximos cem anos. Olhou para o Hyuuga novamente, aproveitando um momento de distração do mesmo enquanto pegava mais lenha no chão e sorriu travessa.
" Tenten..." seu lado racional alertou.
Mas qual mal havia? Afinal, ela era um Anjo, não? Anjos voam... Ela poderia aprender.
Se aproximou cuidadosamente da parte mais extrema da grande pedra, tomando cuidado para não deslizar na mesma e ter uma queda feia, a qual poderia lhe causar grandes problemas e talvez uma fratura exposta. Os olhos castanhos fixos no penhasco que naquela altura já não se via mais o que havia em seu fim, sentiu medo e por instinto recuou.
Ou pelo menos tentou.
Uma forte tontura a fez levar a mão a cabeça por instinto, fechou os olhos e gemeu de dor. Era como levar uma forte pancada, até mesmo via tudo ao redor embaçado ao abrir as orbes castanhas... A casa, a floresta... Tudo! Nada tinha foco. Desequilibrou-se e deu um passo para trás, não o suficiente para cair, mas a falta de firmeza em seu passo ocasionou em um belo deslize que a levou precipício abaixo.
Sentiu o corpo ser sugado escuridão abaixo, o único foco que tinha através dos olhos semicerrados era tudo ficando escuro... Gradativamente, a medida em que caía. Através de um último raio de sol ela foi capaz de ver algo vir em direção, e só conseguiu focar nas grandes asas brancas e cabelos negros antes de tudo apagar.
***
Irritado. Furioso. Enraivecido? Qual a melhor denominação para distinguir o estado de ódio em que Neji se encontrava naquele momento? Talvez o dicionário ainda não houvesse inventado nada que ao menos chegasse perto disso.
O Hyuuga tinha os punhos cerrados enquanto andava de um lado para o outro da sala de estar, sentia sua mão em carne viva pela força que colocava nos próprios dedos. Forçando a unha a ferir a carne. Pouco importava-se com o sangue. Seu rosnado era nítido em cada passo que dava, passos firmes e pesados, parecia querer afundar o chão de madeira que era injustamente castigado. Não conseguia ter controle absoluto sobre o primeiro estágio de sua maldição, e por causa deste motivo parte do rosto — região próxima aos olhos —, se caracterizavam com as veias saltantes. As quais pareciam vim do casco de sua cabeça ou do emaranhado de fios sedosos e longos. Os dentes trincados e a respiração curta e pesada, assim como acelerada.
No sofá, o corpo desfalecido e levemente gelado da Mitsashi. A morena parecia despertar aos poucos. Mas o ódio que ele sentia fazia uma vontade inumana dentro de si florescer, clamando para esfolar a menina viva. Dilacerar por completo sua carne e esmurrar sua alma até que a mesma viesse a sangrar.
Entretanto não podia. Não conseguiria. E ardia em si a loucura de lutar contra seu lado mais sombrio. Instinto suicida? Ela deveria ter. Deveria saber que se não morresse na queda, Neji a mataria.
Por sorte era rápido. Por sorte era atento. Por sorte vira quando a maluca praticamente se jogou do alto daquele precipício. Quais as intenções dela afinal? Queria se livrar dele? Não tão fácil assim, ela havia lhe enfeitiçado, e agora tinha que suportar as consequências.
Imaginar que algo poderia ter acontecido a ela fazia algo dentro de si se romper. Não queria chorar. Não ia. É coisa de momento? Por que este momento vem durando desde que a conhecera.
Ouviu o resmungo da morena e no mesmo milésimo virou-se olhando fixamente para a mesma que despertava ainda zonza. Já não tinha como evitar, sua maldição estava ativada. As orbes peroladas sequer piscavam.
Tenten gemia enquanto instintivamente tateava o próprio corpo como se estivesse sentindo-o dormente. Abriu e fechou os olhos por várias antes de conseguir focalizar onde estava e acostumar-se a claridade da lâmpada. Pareceu preocupada ao perceber o que estava acontecendo, por instinto seus olhos se voltaram para o Hyuuga e ela engoliu em seco.
Ali ficaram, por segundos, talvez minutos intermináveis se encarando. Tenten não sabia se queria se ele se pronunciasse ou não, tinha receio do que poderia acontecer. Estava na cara que ele não estava em seu juízo perfeito. Já Neji controlava-se ao máximo para não fazer nenhuma loucura, sentia seu maxilar trincar e as mãos tremerem diante da vontade psicopata que havia em si.
Ela finalmente tomou coragem, levantou-se ainda cambaleante e apoiando-se no sofá. O Hyuuga sequer piscava, mas estava atento a cada passo dela, preparado para pegá-la se tentasse correr.
— Neji... — chamou desconfiada, ele simplesmente não se moveu e ela engoliu em seco sentindo seu coração apertar. Seu sexto sentido alertava perigo a cada vez que se aproximava dele. — Por que tá me olhando assim? — indagou juntando as mãos de frente ao corpo e inclinando levemente a cabeça.
Finalmente viu a sobrancelha esquerda do moreno se arquear. Não soube ao certo se aquilo era algo bom ou ruim, mas ainda tinha medo, ao mesmo tempo em que sentia vontade de pular nos braços dele e implorar por perdão.
— Você ainda tem coragem de perguntar? — questionou entredentes e finalmente soltando uma quantidade considerável de ar que sequer sabia que segurava. Eliminando assim, boa parte de sua exasperação. Mas não total. Tenten sabia que ele estava se controlando pra não gritar.
— Não foi bem assim... — tentou se explicar, mas ele explodiu.
— COMO NÃO FOI ASSIM, TENTEN? ESTÁ QUERENDO MORRER? — no susto a morena saltou para trás e abraçou o próprio corpo. Entretanto, em questão de segundos a expressão de medo da mesma passou para raiva e ela cerrou os punhos, inflando o peitoral e arrebitando o nariz afilado.
Do lado de fora da casa, uma chuva fina começava a cair de acordo com os sentimentos e confusões do Anjo prodígio.
— NÃO GRITA COMIGO! — revidou em tom de ordem e viu a sombra de um sorriso sádico se formar nos lábios masculinos. Tal como a expressão assassina.
Neji deu um passo na direção dela e parou, Tenten entrou em alerta e por instinto recuou. No segundo seguinte eles haviam trocado de lugar. Na verdade, ambos haviam se movido em uma velocidade além do que os olhos humanos poderiam ver. A Mitsashi sequer entendera o que havia acontecido e como fora parar ali, mas ao vê-lo tentar se aproximar, apenas correu o mais rápido que pôde.
— Ah... — ele falou esnobe — Está querendo brincar, Mitsashi? — Neji desativou o primeiro estágio de sua maldição, seu tom era sacana e a morena sentiu-se completamente perdida. Quantos homens ele conseguia ser ao mesmo tempo?
Mas ela ainda estava em alerta, e com raiva.
Viu novamente o Hyuuga tentar se aproximar e em resposta pegou o primeiro vaso de vidro que viu ao seu lado e jogou contra ele. Ocasionalmente o moreno apenas ergueu o braço direito para se defender, e acabou ganhando um corte profundo assim que o vidro se estilhaçou em seu braço de aço. Lentamente ele deixou o membro cair ao redor do corpo, o sangue pingava sem dó e ele encarava a menina com um ar que mesclava indiferença e descrença. Naquele momento Tenten parecia arrependida do que fizera ao ver seu lindo homem sangrar. Mas ele parecia não se importar com a dor.
— Se quer morrer, Mitsashi, fala que eu te mato! — exclamou entredentes e novamente se aproximou dela. Mas dessa vez ela não fora capaz de acompanha-lo, o moreno usou uma velocidade ainda maior do que anteriormente. Invisível aos olhos castanhos. No momento seguinte ela estava prensada entre ele e a parede. Com uma das mãos ele segurou o queixo dela com força e forçou o rosto dela para encara-lo, a morena tinha os dentes cerrados. Ele parecia não se importar com a fúria dela e muito menos com o sangue que expelia de seu corte e sujava ambas as roupas. — De prazer...! — completou finalmente excitado e ela franziu o cenho, fechando a boca e mordendo a própria língua para não da-lo o gosto de ouvi-la gemer diante da provocação. Claro que sua tentativa fora inútil, Neji não precisava ouvir ou sentir ela para saber o quanto a mesma lhe desejava. Aquilo estava escrito em seus olhos.
Sentiu um forte empurrão e deixou os corpos se afastarem, dando a ela o espaço que queria.
— Vá pro inferno, Hyuuga! — ralhou entredentes e saiu em disparada para o quarto. Precisava compreender a situação, mais que isso, precisava compreender seus sentimentos e seu lado sadomasoquista.
De lá ela fora capaz de ouvir o surto de fúria do moreno. Vidro se quebrando, urros de ódio e dor. Ouvia tudo calada. Chorando em silêncio e abafando a própria vontade de correr lá e consolá-lo, com um amor que apenas ela tinha para ele.
O mais puro e sincero.
Lembrando-se do ocorrido no penhasco ela mordeu o lábio inferior com uma expressão indagadora. Estava com medo e confusa, nunca tivera medo de altura antes. O que fora aquela tontura afinal?
***
Há quanto tempo estavam naquilo? Dias? Semanas?
Não! Horas. Apenas horas. E era exatamente isso que preocupava Jiraya, as malditas horas. Pensava ele que o Anjo celeste não estava fazendo a coisa certa, era como se jogar dentro da cova dos leões. Ele não se importava com a própria vida? E Tsunade, como ficaria?
O pior de tudo é que certamente sobraria para ele.
Entretanto ele sabia que o que o azulado estava fazendo também era algo sábio a se fazer. Orochimaru não imaginaria algo assim nem em seus planos mais diabólicos e bem arquitetados. Entretanto, lhe partia a alma saber as consequências daquele feitiço.
Ao qual, por acaso, Dan já estava começando a fazer. E pior, ele estava ajudando.
— Dan, fazendo isso você só estará adiando uma guerra iminente... — tentou intervir. Quem sabe assim o azulado criava juízo e tentava encontrar outra maneira?
— Para os próximos séculos? — respondeu prontamente. Parecia preparado para qualquer coisa que ele falasse — Onde até lá já poderão ter descoberto uma maneira de vencer aquele maldito sem mortes desnecessárias? — ralhou semicerrando o olhar. Jiraya suspirou, mesmo sendo uma boa pessoa, o Anjo celeste era deveras cabeça dura.
— Ou para a próxima geração do Anjo prodígio. — retrucou sem cerimônias — Não se sabe o tempo que este feitiço irá durar, dias ou anos... é perigoso fazê-lo. — completou. Achava loucura demais os planos do outro. Mais que isso, suicídio.
— Jiraya... — suspirou pesadamente. O Arcanjo então pode ver, no âmago não era aquilo que ele queria. E a dor foi compartilhada por ambos — Loucura é não fazê-lo! Tenten não está preparada pra isso! — seu tom não era nada animador. Jogou mais um ingrediente na receita do feitiço. Ele estava tão cansado... O tempo em que passou na terra para gerar o Anjo prodígio lhe fora deveras prejudicial. Voltar assim do nada, e sem permissões, certamente não ajudava. — O segredo é sempre estar um passo à frente dos seus inimigos, Jiraya — ele lançou aqueles intensos olhos azuis na direção do mais velho. Se realmente quisesse, Jiraya poderia nocauteá-lo e aprisioná-lo ali até a poeira baixa. Mas o fato de simplesmente não conseguir abandonar um velho amigo o fazia ajudá-lo com tudo. Até mesmo a trair seu atual aliado, ao qual descobrira recentemente que de aliado não possuía nada.
Os planos de Jiraya quando se uniu a Orochimaru era unicamente conseguir fazer com que os Anjos aceitassem seu pupilo da forma como ele era. Ou até mesmo encontrar uma maneira de tirar a besta de dentro de Naruto. Nunca quis realmente ferir ninguém. Mas foi fraco... Deixou-se seguir as regras do moreno pelo mesmo motivo egoísta e isso custara a vida de pessoas inocentes. Tudo para no fim, descobrir que era apunhalado pelas costas.
Estava na hora de rever seus princípios.
Observou com cuidado o azulado parar de procurar ingredientes e ir até os livros antigos do outro lado da sala. Permanecia pensativo, imóvel.
— Jiraya! — Sasuke adentrou o recinto puxando Naruto pela gola da camisa. Este por sua vez trazia Hinata nos braços. — Temos que conversar sobre... — seus olhos ônix travaram assim que viu o Anjo celestial no local. Fitou o outro querendo respostas.
— Ele não vai fazê-lo mal, Sasuke. — afirmou Jiraya e olhou discretamente para o Anjo de cabelos e olhos azulados que parecia distraído com os livros, mas de ouvidos atentos a tudo ao redor — Não é mesmo, Dan? — arqueou a sobrancelha.
— Não... — respondeu simplesmente — Deveria! Mas não vou... — exclamou ainda sem olhar para nenhum dos três — ou quatro —.
— É a sua palavra de confiança? — perguntou o Uchiha num breve tom de deboche. Além de Anjo, aquele era o pai da garota que ele estava destinado a matar. Dan finalmente parou o que estava fazendo e lançou um olhar gélido na direção do moreno que ficou em alerta, mas sem demonstrar.
— Não preciso fazê-lo acreditar, Demônio. — falou no mesmo tom cortante. Só então ele pareceu perceber a terceira — quarta — pessoa desacordada que estava nos braços do Uzumaki — O que a menina Hyuuga faz aqui? — arqueou a sobrancelha. Jiraya também pegou-se confuso pela situação.
— Não tente se aproximar dela! — ralhou o loiro com os dentes cerrados e um olhar assassino. Dan e Jiraya trocaram olhares confusos, era claro que ambos sabiam do antigo romance que os dois tiveram.
— Sasuke! — falou o Arcanjo de cabelos brancos e o outro o fitou curioso — Diga logo o que quer... — suspirou — Estou resolvendo assuntos importantes! — exclamou por fim.
— É um algo do seu interesse... E até arriscaria dizer que é urgente — cruzou os braços e o outro o olhou irritado.
— Pois diga logo, Oras! Não tenho tempo para isso... — bufou e o outro revirou os olhos.
— Tudo bem! — sorriu de canto de forma debochada. Jiraya quis dar um belo tapa naquele rostinho bonito pela ousadia, mas não se moveu — A besta de nove caudas está controlando o Naruto! — jogou de uma vez e tanto os olhos do Arcanjo, quanto os do Anjo celeste se arregalaram em surpresa.
— Mas... Como? — olhou para Naruto buscando respostas.
— Eu... Eu não sei! Está tudo confuso mestre — ele parecia assustado e confuso. Jiraya entrou em alerta.
— Está sim, eu vi! E só um idiota pra não perceber que a forma que o Naruto agia era muito suspeita! — completou o Uchiha levemente irritado. O Arcanjo parou por alguns segundos e fechou os olhos massageando as têmporas. Como? Quando? Desde quando aquilo acontecia?
— Senhor, senhor! — um dos subordinados de Jiraya chegou às pressas no local, gritando e totalmente exasperado. Sequer havia se importado com o que o outro poderia estar fazendo. Se estaria ocupado ou não. O assunto era urgente e de extrema necessidade do conhecimento do Arcanjo renegado.
— Mas o que foi agora, DROGA! — gritou a última palavra cerrando os punhos e virando-se na direção do recém-chegado.
Quão grande não fora a surpresa do mesmo quando vira Dan ali. Arregalou os olhos e recuou levemente o passo com medo de que o mesmo pudesse lhe matar, eram um Demônio afinal. E era isso de Anjos faziam, eles matavam Demônios sem se importar se eles eram realmente bons ou maus.
— E-Eu... — gaguejou amedrontado e Jiraya revirou os olhos enraivecido.
— Fale de uma vez! — ordenou exasperado pelos recentes acontecimentos. O homem parecia paralisado diante da figura celeste e aquilo estava lhe irritando. Também torcia para que o assunto fosse realmente importante, caso contrário ele mesmo mataria o intruso.
Aquele feitiço era algo sigiloso e ele teria que lembrar-se de trancar a porta com sete chaves quando aquilo acabasse.
Só então o subordinado pareceu voltar para a realidade, mas ainda estava levemente atônito. Piscou algumas vezes e se preparou para a passar a informação para os outros dois:
— Encontraram o Anjo prodígio...
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