Alívio

1 Capítulo Único


Notas iniciais
AVISO DE GATILHO: AUTOMUTILAÇÃO Boa leitura!

Havia um ano, um ano que tentei atentar contra a minha vida, mas fui salvo, parte por causa das maravilhosas rabanadas de mamãe, parte pelo abraço que ela me deu. Em resumo: mamãe me salvou.

Aquele ano havia sido tão difícil quanto o outro e por vezes, pensei em findar todo o meu sofrimento. Não sabia ao certo o que ainda me mantinha vivo, talvez fosse só medo ou quem sabe um misto de medo e agonia. Medo de deixar de existir e agonia de não saber para onde iria.

Continuava tendo a mesma opinião sobre o natal. Ele ainda me parecia uma festa patética e falsa, onde havia uma troca de presentes ridicula. Em realidade, o fim do ano sempre acaba sendo ridículo, pois nós sempre achamos que o próximo ano será melhor, sempre acreditamos nessa melhora que nunca vem.

Aquele natal era diferente de todos os outros. Eu tinha um namorado. Estava com ele, com a família dele, que era quase tão idiota quanto a minha. Apenas os meus sogros sabiam do nosso namoro, os outros pensavam que entre Alberto e eu só existia uma sincera amizade.

Mesmo estando sentado ao lado dele no sofá, mesmo eu o desejando intensa e violentamente, eu não me sentia amado, eu me sentia sozinho, sozinho naquela imensidão de gente desconhecida.

Um sentimento de tristeza e vazio tomou conta de mim. Não conseguia entender o porquê me sentia assim.

Foi estranho, mas do nada comecei a sentir inveja de Alberto, ele vivia em situação bem melhor que a minha. O meu namorado não tinha o psicológico fragilizado, pais homofóbicos, irmãos desagradáveis… Obviamente, assim como eu, ele tinha que enfrentar a homofobia fora do seu lar, mas dentro dele não, ele estava sempre seguro: seus pais o amavam.

— Narciso, tudo bem contigo? Parece pensativo…

Acabei me assustando um pouco com a fala de Alberto, eu estava preso em meus pensamentos.

— Estou ótimo — respondi num tom de voz fraco, evidenciando a minha mentira.

Era óbvio que eu não estava bem. Eu nunca estava... Mas já estava me acostumado a mentir, a fingir a tão esperada felicidade natalina.

— Não mente — declarou num tom ríspido, praticamente ordenando a verdade.

— Você sabe que eu sou um lixo — murmurei.

Alberto manteve-se em silêncio, olhou-me fixamente e depois deu uma rápida olhada ao redor de nós e ao constatar que nenhum dos seus parentes estava prestando atenção na gente, sussurrou, acariciando o meu rosto:

— Eu amo lixo, então.

Nós estávamos juntos há quatro meses e ninguém havia se arriscado a dizer um eu te amo ou algo semelhante. Aquela foi a primeira coisa parecida a sair dos lábios de um de nós.

Senti uma agonia dentro de mim. Não sabia como reagir. Deveria dizer que o amava também?

Limitei-me a um leve sorriso de canto de boca, mas ao perceber que Alberto apresentava uma leve irritação em sua face, acabei forçando um sentimento, que talvez ainda não existisse ou que não estava pronto para ser demonstrado.

— Eu amo quem ama lixo, então — anunciei com um sorriso no rosto, um sorriso tão forçado quanto aquele sentimento.

Ele me olhou com carinho, demonstrando um semblante feliz. Então, fez uma proposta:

— Vamos pro meu quarto?

E antes que eu pudesse responder, dona Marta, minha sogra, anunciou:

Vamo, pra mesa minha gente é hora da ceia.

Não precisei responder a pergunta, pergunta essa que teria uma resposta afirmativa, apesar de eu ainda não estar pronto para o que Alberto queria.

Fomos para a mesa em silêncio, sentei de frente para Alberto e dona Marta disse que cada um já poderia ir se servindo.

Durante todo o jantar permaneci calado, escutando a família do meu namorado conversar sobre os mais diversos temas. Eles demonstravam várias opiniões preconceituosas, que dona Marta tentava rebater, mas parecia ser ignorada pelos seus familiares.

Depois de terminar de comer, voltei ao sofá com Alberto, todavia logo pedi licença e fui ao banheiro, estava muito apertado.

Depois de ter feito xixi, fui lavar as mãos e enquanto fazia isso, olhava para o meu rosto triste refletido no espelho. Não entendia aquela tristeza, deveria estar feliz. O ano acabava e dali a um ano eu atingiria a maioridade, acabaria o colégio e poderia sair daquele inferno.

Reparei que o espelho também era um armário. E como sempre achei tão bonitinho aquele tipo de espelho, me deixei levar pela minha curiosidade e acabei abrindo aquele armário.

Encontrei uma pasta de dente, escovas, fio dental, enxaguante bucal… E uma lâmina de barbear, o meu olhar fixou-se nela por alguns instantes e eu a peguei e a analisei durante um breve período de tempo. Depois, com a minha mão direita, passei a lâmina suavemente pelo braço esquerdo que estava estendido na minha frente. Não houve corte nenhum, eu não tinha colocado força o bastante para isso.

Eu já havia me automutilado antes, porém nunca com uma faca ou outro objeto semelhante. Eu sempre optei por objetos que não deixassem marcas e que não me machucassem tanto, o meu objetivo era tentar sanar a confusão que sentia e para tal, usava coisas como bocais de caneta ou garfos e nunca exercia muita força sobre eles.

Não queria que mamãe pudesse ver aquilo e eu tinha medo da dor, odiava sentir dor — tanto física quanto psicológica — se realizava essa espécie de mutilação era porque estava confuso e com raiva. Talvez, acreditasse que deveria punir alguém e no caso, a pessoa mais indicada para punição era eu.

Voltei a passar a lâmina pelo braço, dessa vez com força e enquanto feria a minha própria pele soltei um grito de dor, mas um grito abafado, que seria inaudível pelos presentes na casa.

Naquele momento sentia a mesma confusão das outras vezes que havia me mutilado, mas dessa vez não parei ao ver o primeiro ferimento, a dor não foi o bastante para me deter. Daquela vez eu queria marcas, queria poder me lembrar daquilo depois.

Iniciei um novo corte, este teve sentido vertical e atingiu quase todo o meu braço. Podia ver o vermelho do meu sangue. A dor começou a me incomodar. Sentei no chão do banheiro e comecei a chorar, me sentia envergonhado por ter feito aquilo.

De repente, ouvi batidas na porta, era Alberto.

— Narciso, tudo bem contigo?!

Não respondi, apenas levantei assustado e fui guardar a lâmina, para poder então ir abrir a porta.

Quando finalmente abri a porta, algo em meu rosto acabou denunciando toda a tristeza existente em mim. Alberto sem dizer uma única palavra me abraçou e em seguida me deu um beijo.

Nem o abraço nem o beijo curaram todo o turbilhão de emoções que eu era, mas ao menos eles conseguiram me deixar um pouco mais aliviado.

ATENÇÃO!!!

SE VOCÊ TEM SENTIMENTOS/PENSAMENTOS SEMELHANTES AO DO PERSONAGEM PROCURE UM PSICÓLOGO!!
Geralmente em faculdades que têm o curso de psicologia é possível ser atendido gratuitamente ou a valores menores que o comum. Além disso, há psicólogos que realizam preços sociais (valores mais baratos e/ou adequados à realidade econômica do paciente)

Notas finais
SE VOCÊ TEM SENTIMENTOS/PENSAMENTOS SEMELHANTES AO DO PERSONAGEM PROCURE UM PSICÓLOGO!! Geralmente em faculdades que têm o curso de psicologia é possível ser atendido gratuitamente ou a valores menores que o comum. Além disso, há psicólogos que realizam preços sociais (valores mais baratos e/ou adequados à realidade econômica do paciente) Espero que tenham gostado. Estou sempre receptiva a críticas construtivas. Beijinhos e até mais ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!