Além do rio

12 Homens misteriosos


Notas iniciais
Não sei vocês, mas eu imagino o Boto tal qual Ian Somerhalder https://78.media.tumblr.com/tumblr_lyoal56O9z1rozl9do1_500.jpg

Sábado de madrugada

[Lucia]

O desconhecido misterioso que aparecera na festa junina era simplesmente inexplicável.

Nem em um milhão de anos eu encontraria as palavras apropriadas para descrever o quão hipnótico aquele homem de roupas sociais era. Não só fisicamente, mas também em seus gestos e maneira de falar. Era como se houvesse mágica em cada palavra que saía de sua boca, encantando-me de forma mística e tentadora. Além do mais, ele parecia dizer exatamente o que eu gostaria de ouvir e de maneira até melhor, surpreendendo-me. Pelo modo como falava, parecia ser inteligente e estratégico. Também devo ressaltar que o estranho tinha um ótimo senso de moda e estilo, por usar roupas tão elegantes e que combinavam com sua pessoa.

Conversamos por alguns minutos, contudo, eu seria incapaz de recordar-me sobre o que falamos. Era como se toda a minha capacidade de focar e prestar atenção houvesse simplesmente fugido e eu não conseguisse me concentrar propriamente em suas palavras.

—Ah, o luar... –Olhava para o céu noturno, refletindo. -Sempre misterioso. Uma lua cheia como essa, tão luminosa, instiga os nossos instintos mais profundos. Veja.

Obedeci imediatamente.

—Uma lua deveras extraordinária não pode deixar de ser observada. –Sua voz era calma, doce e um pouco rouca, o que a deixava muito sedutora. –Assim como uma dama tão bela não deveria ficar sozinha. Qual é o teu nome? –Me encarou, de modo que senti como se um milhão de borboletas duelassem em meu estômago.

—Lucia. –Respondi. Até o tom da minha voz havia sido alterado, como se eu estivesse em uma espécie de transe. –Meu nome é Lucia.

—Lucia. –Saboreou a palavra. –Um belíssimo nome. Digno das mais belas e encantadoras rainhas dos castelos mais bonitos, que, no entanto, não chegam aos teus pés, minha querida Lucia.

Olhei para baixo enquanto sorria, envergonhada. Quando voltei para cima vi que ele, em uma reverência, estendia uma de suas mãos para mim.

—Me acompanha nessa dança, Lucia?

Estendi meu braço para ele e imediatamente senti as costas de minha mão ganharem um doce beijo, no exato momento em que meus olhos recebiam um demorado olhar penetrante. Isso fez as borboletas em meu estômago terem um verdadeiro ataque.

Quando ele endireitou sua postura, pousei minhas mãos em seus ombros e senti um arrepio percorrer meu corpo inteiro apenas por ter tocado o homem misterioso. Quando as firmes mãos seguraram minha cintura, senti-me como uma boneca de porcelana prestes a quebrar. Porém, havia algo estranhamente bom em toda essa sensação ansiosa.

—Sabe, Lucia, é em noites assim que as mais belas histórias acontecem. –Ele dançava muito bem e me conduzia em todos os passos. –Os amantes, como Romeu e Julieta, pensam em seus amores quando observam o céu estrelado. Os poetas olham para a lua e escrevem poemas sobre seus corações prestes a explodir. Não tarda a reencontrarem a pessoa que faz seus olhos brilharem assim como as estrelas ou até mais, e sentem como se houvessem sido brutalmente flechados por Eros, o Cupido. Flechados, no entanto, com certo antídoto anestésico e entorpecente, que os deixa bobos e alegres. E essa, minha querida, é a forma mais sublime de saber que se está vivo: presenciando a alegria que só pode ser sentida quando está com alguém que amas. E eu? Bem... Eu não poderia ser mais feliz do que sou aqui, neste exato momento, dançando contigo.

—Cada palavra tua parece ter saído de um conto de fadas. –Sorri. Então, lembrei-me de algo. –Creio que não perguntei seu nome.

—Qual nome lhe agrada mais?

Por alguns instantes, lembrei-me da novela que estava assistindo. Nela, havia um protagonista heroico e charmoso que me arrancava os suspiros sempre que assistia. Chamavam-no de Fernando, o galanteador.

—Fernando.

—Então Fernando serei. –Sorriu de lado, como uma espécie de Elvis muito sedutor e com olhos semicerrados. –Nada me encanta mais do que o teu sorriso de satisfação, Lucia.

A cada vez que “Fernando” falava meu nome, eu sentia um formigamento pelo corpo. Era impossível negar que aquele homem tinha não só efeitos psicológicos e emocionais sobre mim, mas físicos também. E ele sabia disso.

—O que acha de dar um passeio, minha querida Lucia? –A sombra do chapéu em seu rosto o deixava ainda mais misterioso.

—Um passeio? –Me animei. -Para onde?

—Para onde pudermos tomar ar fresco. –Senti seus dedos alisarem carinhosamente minha bochecha. -E, é claro, onde eu puder ver a lua iluminando seu rosto de algodão.

Ainda estava cedo quando saímos da festa. Caminhamos de braços dados e conversamos por um bom tempo. Eu nem ao menos prestava atenção para onde estávamos indo. Em certo momento, Fernando arrancou uma linda flor do chão e, cuidadosamente, colocou-a em meus cabelos. Enquanto seus olhos estavam voltados para a planta, admirei seu olhar até que o mesmo direcionou-se para mim e o homem encarou-me com um sorriso discreto e charmoso.

—Chegamos. –Disse ele, observando o local. –Olhe como a luz do luar fica magnífica quando refletida nas águas do rio. –Segurou de maneira muito suave meus braços, alisando-os. –Assim como o brilho dos teus olhos, minha menina.

Dessa vez, foi impossível controlar os movimentos de meu corpo. Como uma espécie de ímã, nos atraímos de tal maneira que era como se fossemos feitos um para o outro. Seu beijo era quente e úmido como a floresta na qual estávamos, arrancando-me o fôlego. Quando ele se afastou, percebeu o tamanho de minha decepção por ter parado a ação e sorriu, tirando uma mecha de cabelo da frente de meu rosto. Porém, quando pensei que iria beijar os lábios — que mais pareciam pétalas — novamente, os senti em meu pescoço, de modo que minha pele arrepiou-se intensamente. Eu estava completamente enfeitiçada pelo charme daquele homem e não estava nem um pouco disposta a parar com tudo aquilo. Sentia-me mais viva do que nunca.

Sua respiração voltou a ficar muito próxima de mim, tanto que logo pude sentir seu hálito igualmente quente. Vagarosamente, meus lábios sentiram os seus, muito doces, macios e confortáveis, de forma que tive vontade de continuar para sempre. A língua muito quente parecia saber exatamente o que fazer, guiando-me, assim como os firmes braços que serviram de apoio para os meus, antes que eu os pousasse em seus ombros numa tentativa de me aproximar do homem. Fernando deve ter pensado o mesmo e, logo, estremeci quando nossos corpos se aproximaram e ao sentir um par de mãos muito fortes apertaram levemente minha cintura, causando-me uma aconchegante sensação de segurança.

Uma das mãos, no entanto, subiu por meu pescoço, tocando o mesmo com muita delicadeza. Senti dedos interromperem suavemente o beijo em um momento ideal para recuperar o ar. Os mesmo acariciaram meus lábios semiabertos enquanto eu encarava aqueles olhos cerrados e galanteadores. Quando voltei meu olhar para sua boca, que sorria levemente, ele logo voltou ao beijo que agora ganhava um pouco mais de velocidade, mesmo que ainda estivesse consideravelmente lento.

Quando passei minhas mãos em seu chapéu, ele imediatamente parou o que estava fazendo e me ergueu com tanta facilidade que era como seu eu não passasse de uma delicada pluma, desviando minha atenção do acessório. Quando Fernando me levantou até a altura de sua cintura, senti mais uma vez as borboletas esvoaçarem dentro de mim.

O formigamento que também surgira naquele mesmo momento só amentou ainda mais quando ele, ainda me carregando, prendeu-me entre ele a uma grande árvore que eu sentia em minhas costas, como se fosse uma parede úmida e muito áspera. Nossos corpos ficaram tão próximos nesse momento que precisei afastar meus lábios para respirar por mais alguns segundos e não morrer sufocada.

Então, com a maior facilidade do mundo, Fernando sentou-se no chão e logo em seguida apoiou-se para trás, deitando-se e deixando-me por cima. Enquanto observava cada detalhe de seu rosto perfeito, sorri levemente, assim como ele fazia. Então, tirei o cabelo que caía sobre meu rosto e o coloquei atrás da orelha antes de me curvar para baixo e beijá-lo mais uma vez. Enquanto estudava de perto os traços de sua boca, ele sorria diversas vezes o que me deixava com ainda mais vontade de continuar a sentir os lábios que pareciam ter sido feitos de mel. Senti a calorosa mão percorrendo minha pele, o toque suave ganhando cada vez mais intensidade e firmeza. O grupo de dedos viajantes gerava uma onda de calor e arrepios por onde passava.

Assim como duas criaturas apaixonadas, ficamos por ali mesmo, nas margens do rio, até amanhecer.

[Cristina]

A noite ao lado de Wesley estava sendo mais divertida do que eu imaginara. Sentia-me bem e confortável quando estava com ele. Porém, em certo momento um bocejo me escapou.

—Dia longo. –Disse ele. –Tu deve estar morrendo de sono.

—O sono começou a partir do momento em que acabou a comida.

O índio riu da minha expressão tristonha e concordou que seria melhor voltarmos para nossas cabanas. Quase todos já haviam ido embora, provavelmente porque estavam acostumados a dormir e acordar muito cedo. Procurei Lucia para me despedir, mas não a encontrei. Porém, ao invés de seguir pelo caminho normal quando já estávamos indo, corri em direção à igreja, onde era possível enxergar a lua melhor.

—A lua está tão bonita hoje! Parece cada vez mais cheia.

—Sim, está. –Concordou, observando a lua com as mãos em seus bolsos. Ele a contemplava, assim como eu. –Daqui da igreja conseguimos ter uma ótima visão do céu noturno.

Corri para trás da igreja e Wesley me seguiu. E ele estava certo: como as árvores dali haviam sido cortadas, a visão do céu era esplendida. A música já havia ficado para trás, muito baixa. Ademais, logo notei o motivo pelo qual as árvores haviam sido retiradas.

—É um cemitério.

—Igreja antiga. –Explicou o índio, exercendo sua função de guia turístico. –Assim como a maioria, guarda os falecidos da cidade. Como a Vila é bem pequena, acredito que esse cemitério já está de bom tamanho.

Observei por algum tempo e Wesley aproveitou para continuar falando.

—Tem medo? –Provocou.

—Não, seu bobo. –Retruquei. –Eu sou mais corajosa do que tu pensa.

Andei em direção aos túmulos, porém, percebi que em determinada distância havia uma pessoa caminhando.

—Tem alguém ali. –Sussurrei.

Wesley e eu fomos para trás de um túmulo consideravelmente grande e observamos, tentando reconhecer quem era o indivíduo.

—Ah, é o Seu Antônio. O homem que tu já conhece da feira. –Falou em tom baixo, aliviado por reconhecer a pessoa. –Infelizmente, fiquei sabendo que ele perdeu toda a sua família muitos anos atrás. Não sei exatamente como e não gosto de tocar em assuntos tão delicados como esse, por isso não perguntei. E parece que ele não gosta de falar sobre isso.

Observei o homem que me vendera frutas no primeiro dia em que pisei nas terras pacatas da Vila. Ainda com sua estranha mania de se coçar, ele carregava oito flores em suas mãos. Duas delas eram grandes e as outras seis, menores. Antônio colocou cada flor em um túmulo diferente e senti pena por ele.

—Mas o que ele está fazendo num cemitério a essas horas? Já deve ser no mínimo meia noite.

—Não me pergunte. E, se pensar bem, nós também estamos num cemitério à meia noite.

Enquanto eu observava, algo chamou minha atenção. Antônio estava passando mal. Muito mal. Depois de uma crise de coceira vinda de sua mania, deveria estar sentindo uma dor de cabeça tão intensa que a segurou o mais forte que pôde, emitindo fracos grunhidos que foram aumentando de intensidade, provavelmente conforme o nível da dor. Logo depois, tudo o que consegui ver foi o mesmo caindo no chão a ponto de se contorcer, desesperado. Eu estava prestes a pedir a Wesley para que fossemos ajuda-lo, mas o que vi em seguida me fez mudar definitivamente de ideia.

Antônio tentava abafar seus gritos, mas ainda assim eram horríveis e pareciam conter muito sofrimento. No entanto, era possível ver que seu corpo estava mudando. Até mesmo trocando de forma. Cada vez que ele se contorcia ficava maior, mais forte e sobre-humano, como se uma coisa monstruosa estivesse tentando sair de dentro de um casulo, que era o seu corpo. Entretanto, eu já não conseguia ver sua metamorfose, graças à intensa quantidade de pelos que cresciam por toda a sua pele nua, já que as roupas haviam sido completamente estraçalhadas. E então, a coisa mais horripilante dos últimos tempos aconteceu: Antônio, com a cabeça erguida para o céu, emitiu o uivo mais alto, ameaçador e horripilante que eu já ouvira em toda a minha vida. Era possível ver suas enormes presas, garras, orelhas, cauda e focinho. Antônio já não era mais um humano, mas também era monstruoso e demoníaco demais para ser um lobo ou cachorro. Era um lobisomem.

Senti Wesley segurar minha mão, pronto para correr. Porém, ele sabia que se desse apenas um único passo, seríamos vistos e morreríamos em apenas um instante. E foi então que a imagem do assassinato da Vila se formou em minha mente. Foi ele. Esse tempo todo, o simpático vendedor de frutas era quem estava por trás da imagem mais horrível que eu já vira e que me provocara extremo medo e insegurança.

—Nós temos que fazer alguma coisa. –Falei.

—Sim. –Eu sentia a tensão em sua voz sussurrada. –Dar o fora daqui o mais rápido sem sermos vistos. Mas como?

—Ele ainda está sofrendo as dores da transformação. Talvez, se formos silenciosos, podemos nos esgueirar por trás dos túmulos e entrar na igreja.

—Então precisamos nos apressar. –Seus olhos estavam vidrados no monstro e, assim como eu, tinha as mãos encharcadas de suor.

Lentamente, demos um passo para trás, tentando fazer menos barulho do que uma formiga. Sucesso! Conseguimos nos afastar alguns centímetros daquela criatura horrorosa, porém, não era o bastante. Ainda com o mesmo cuidado, ousamos passos cada vez maiores, até que cometemos o pior erro de todos: quisemos ir rápido demais.

Quando arriscamos andar mais rápido, ouvi um alto “crack”. Olhei para baixo com o pescoço mais duro do que o de um robô e notei que Wesley havia derrubado um vaso de flores secas que algum conhecido deixara em um dos túmulos.

—Ah, fala sério... –O índio parecia mais inconformado com o ato estúpido do que com o fato de que estávamos prestes a sermos devorados por um monstro.

Como se o barulho fosse um apito de comando, o lobisomem olhou diretamente em nossa direção e senti meu coração saltando.

—Corre, Wesley! –Gritei, empurrando o rapaz. Eu sabia que agora já não adiantava manter a calma.

Quando disparamos a correr, o bicho gigante não ficou para trás. Possuía tanta força em suas quatro patas que era mais veloz do que um carro. Não era possível vencer uma criatura como essa na corrida.

Eu já não sentia minhas pernas, apenas a força de Wesley puxando meu braço para que eu corresse mais rápido, embora não conseguisse alcança-lo. Tudo o que eu queria era uma pausa para respirar quando senti algo puxando minhas pernas. Algo tão forte que meu braço imediatamente soltou-se de Wesley e senti meu rosto bater com uma força absurda no chão. Após esse infeliz acontecimento, tudo o que senti foi a terra suja passando por meus lábios enquanto eu era arrastada para trás.

—Cristina! –Wesley, que parou de correr, agora olhava para trás, horrorizado, pensando no que poderia fazer.

Uma garra três vezes maior do que a minha cabeça virou meu corpo abruptamente, deixando-o de barriga para cima. Mas tudo o que eu queria era não precisar ter olhado tão de perto para aqueles enormes dentes pontudos e cheios de saliva, que ficavam ainda mais assustadores acompanhados do uivo aterrorizante. Eu podia sentir o hálito da fera e o único jeito plausível de descrevê-lo é que tinha cheiro de morte. Porém, eu não iria partir sem lutar. Assim que o lobisomem fechou a boca, agarrei seu focinho e o apertei o mais forte possível, de modo que ele deu um salto para trás, balançando a cabeça peluda e procurando por oxigênio. Todavia, ele iria voltar ao normal em questão de segundos.

Enquanto isso, apalpei o chão ao meu redor procurando qualquer objeto que pudesse utilizar como arma, mas não havia nada. A única coisa que estava ao meu alcance no momento era o crucifixo que Dona Geraldina me dera. Mas... Era exatamente isso que eu precisava! Nada melhor para afastar um demônio do que um objeto sagrado. E feito de prata.

Assim que o animal se aproximou novamente, ainda mais feroz do que antes, juntei todas as energias que ainda me restavam e arranquei a cruz do colar em meu pescoço. Finquei-a em um dos olhos do lobisomem, tratando de enterra-la muito bem, por mais nojento que fosse. O monstro se afastou, gritando de dor como um cachorro monstruoso gigante. Se fosse qualquer outro objeto, ele apenas ficaria irritado. Mas como se tratava de um crucifixo de prata, era como se ele estivesse sendo dilacerado por dentro.

Enquanto eu me levantava do chão, sem tirar os olhos do lobisomem, percebi que Wesley corria enfurecido em direção à criatura. Ele carregava um enorme galho de madeira que provavelmente acabara de arrancar de alguma árvore, embora o galho parecesse muito resistente. Aproveitando que o animal não estava em si, Wesley saltou em direção ao mesmo, enfiando o tronco diretamente no coração do lobisomem, que caiu no chão com um estrondo.

Como o lobo era muito forte, o índio teve certo trabalho para conseguir transformar o galho em arma. Alguns minutos se passaram e Wesley ainda estava em cima do monstro, perfurando o peito do animal o máximo que podia. Finalmente, a criatura enfraquecida e com a língua de fora, parou de respirar. Muita força foi necessária para que o galho perfurasse a pele do lobo.

Depois que Wesley levantou, percebemos que o lobisomem transformava-se novamente em humano. E lá estava Seu Antônio, como se nunca houvesse sofrido a transformação. Porém, tinha um dos olhos e peito terrivelmente perfurados. O índio sentiu-se mal com essa imagem.

—Eu... –Sua voz estava fraca e trêmula. Seus olhos começavam a lacrimejar. Estava em choque. –Eu matei uma pessoa.

—Não! –Corri para abraça-lo. Eu também precisava de conforto. –Tu matou um monstro.

Wesley encarou o cadáver e limpou imediatamente algumas lágrimas que escorreram.

—O que fazemos agora? –Perguntou.

Enxuguei meus olhos, que também estavam molhados e observei o local. Eu precisava pensar rápido, Antônio não poderia permanecer ali. Então, percebi que ao longe havia algumas pás.

☀☀☀

Ao lado dos oito túmulos que Antônio visitava frequentemente, Wesley e eu cavamos uma cova. Como o falecido era um homem adulto, o buraco precisava ser fundo e espaçoso. Logo depois, arrastamos o corpo pesado até a cova e o enterramos. Coloquei folhas e grama sobre a terra para que não notassem logo de cara que estava remexida. Muitas explicações seriam necessárias se alguém descobrisse.

O trabalho havia sido árduo e cansativo, principalmente porque estávamos desesperados para terminar. Depois de concluído, sentamos em frente aos túmulos e permanecemos em silêncio. Minha mente ativa de escritora não parava de criar suposições malucas nem por um minuto, e comecei a formular hipóteses. As flores ainda estavam lá. De repente, pensei em algo que, por mais sem sentido que fosse, era a melhor das opções. Pelo menos eu ficaria satisfeita em pensar que estava correta.

—Seis flores pequenas... Cada uma em um túmulo diferente. –Falei. –Seis irmãos. Ele era o sétimo, o lobisomem. Setes cidades diferentes em sete anos. A Vila era a próxima, onde ele provavelmente iria passar sua linhagem de lobo para outra pessoa.

Wesley, depois de um longo período de silêncio, completou:

—Duas flores maiores e túmulos um pouco mais refinados. –Seus olhos, assim como os meus, estavam pesados e fixos nos túmulos. Ele havia seguido minha linha de raciocínio. –Mãe e pai. –Mais um longo período de silêncio. Depois, continuou. –Ouvi... Ouvi falar que sua família não frequentava a igreja e ele acabou não sendo batizado, mas nunca imaginei que...

Ele não completou a frase, mas não precisava. Depois de um tempo, o índio levantou-se e só então desviei meu olhar para ele.

—Vamos embora. Já está tarde.