Além do rio

10 Chuva e açaí


Notas iniciais
O "sábado" ficou tão grande que precisei dividir em várias partes hahah espero que curtam Capítulo bem fofinho pra vocês! Boa leitura

Sábado de manhã

[Cristina]

Como estava mais relaxada após um dia de compras divertidas com Lucia, dormi muito mais do que deveria na noite de sexta. Quando acordei, o sol já estava baixo e brilhante.

—Desculpe, Biscoito. –Falei enquanto procurava apressadamente pela ração do cãozinho. –Já passou do horário do seu café da manhã.

Dito isso, coloquei sua ração na vasilha e o acariciei. Logo depois, troquei a água velha e só então fui cuidar de mim mesma.

O chuveiro da cabana era simples, porém, acredito que pessoas ecológicas e que possuem um estilo de vida sustentável iriam gostar da ideia. A água era fria, porém perfeita para aturar o calor. No banheiro também havia alguns sabonetes, shampoos e óleos naturais, além de uma escova para lavar as costas feita de fibras e madeira.

Enquanto passava o hidratante corporal, logo após o refrescante banho, notei que minha pele estava cheia de manchas: hematomas leves, pequenas feridas ainda em processo de cicatrização e marcas deixadas por mosquitos. Lembrei-me do caçador que havia sido morto pelo Curupira na floresta, mas tratei de expulsar a imagem da minha cabeça rapidamente. Aquilo não iria acontecer comigo.

As roupas usadas já estavam todas jogadas pelo quarto, porém, ainda havia muitas outras na mala. Coloquei shorts e uma blusa leve e confortável. Dessa vez escolhi usar tênis de caminhada e optei por deixar os cabelos recém-lavados soltos para secarem naturalmente. Uma coceira em minha perna direita alertou-me para não esquecer-me do repelente.

Quando saí à procura de Wesley, não o encontrei. Bati na porta da cabana e, como ninguém atendeu, fui olhar pela janela, mas ele não estava lá. Será que finalmente reconhecera sua origem indígena e fora caçar animais para cozinhar? Ou talvez estivesse fazendo alguma espécie de ritual para não chover, tendo em vista que na Amazônia chovia muito. Ou talvez apenas estivesse se banhando no rio, assim como da primeira vez que o vi. E como havia sido constrangedora...

Sem conseguir controlar meus pensamentos, voltei automaticamente para o dia em que conheci o índio, relembrando de toda a vergonha que, por sorte, ele não fazia questão de comentar. Previsivelmente, a principal imagem que aparecia em meus pensamentos era a do índio lavando-se nas águas do rio. Minhas bochechas esquentaram. Merda... Por que aquilo fazia tanto efeito em mim? Era só um cara tomando banho no rio, nada de mais. Não era alguém importante como um cantor, modelo ou ator de novela. Apenas ele. Apenas...

—Cris?

—Wesley! –Exclamei mais alto do que pretendia.

Ele acabara de chegar por trás, sem que eu percebesse. Eu provavelmente estava tão distraída viajando na maionese que nem ao menos me dei conta de sua presença. O índio, percebendo que eu estava um tanto estranha e desajeitada com o susto que levei ao vê-lo, estava desconfiado. Seus cabelos molhados entregaram que o mesmo realmente estivera se banhando, como desconfiei.

—Está tudo bem?

—Tudo ótimo. –Disfarcei. –Uma maravilha. Olha que linda aquela pedra ali do lado, tu já reparou nela antes? Aposto que não.

—É, deve ser. –Ainda estava confuso enquanto olhava para a pedra, mas decidiu não pedir explicações. –E então, quais são os planos para hoje?

—Acredito que, caso fossemos para a floresta novamente, eu estaria muito cansada para a festa junina hoje à noite. Gostaria muito de aproveitá-la ao máximo. Que tal fazermos algo por aqui mesmo?

Logo depois de falar, minha mente traiçoeira não deixou de maliciar a frase “fazermos algo por aqui mesmo”. Mas, não! Eu não poderia continuar pensando coisas como essa. Ah se o arrependimento matasse... Qual era o meu problema?!

—Idiota... –Murmurei para mim mesma.

—O quê? –Perguntou ele, indignado.

Dando-me conta do que estava acontecendo, fiz a primeira coisa que me veio à cabeça: dei o mais forte e estrondoso tapa que pude em meu próprio braço, de modo que até o índio se assustou.

—Mosquito idiota.

Mesmo que o plano de última hora tenha funcionado, eu me segurava para não gritar de dor. Embora tivesse uma estatura baixa, eu era mais forte do que parecia. Precisei ficar acariciando o local do tapa pelos minutos seguintes.

—Está acordado há muito tempo? –Mudei de assunto.

—Sim. Acordei bem cedinho com algumas batidas na porta da minha cabana. Era uma senhora pedindo café.

—C-Café? –Um arrepio percorreu minha espinha.

—É, nada mais. Eu dei o pouco que tinha e ela foi embora. Por quê?

—Matinta Pereira.

A bruxa. Diz a lenda que é uma mulher bem velhinha e mal apessoada, a primeira pessoa que pede café nas casas de manhã. Também pode se transformar em uma ave medonha e rabugenta.

—Oh, meu Deus... –Sei que, em qualquer outra circunstância, Wesley não acreditaria. Mas depois de tudo o que aconteceu ele não hesitou em seguir minha linha de raciocínio. –Pensando bem, eu me lembro de ter visto uma ave bem estranha logo depois que a velha foi embora. Droga, eu deveria ter lhe acordado.

—Não tem problema. –Suspirei. –Do jeito que as coisas andam, creio que iremos encontrar mais coisas bizarras em breve.

O índio pensativo provavelmente analisava o que lhe ocorrera de manhã, fazendo caras e bocas de quem estava desacreditado. Enquanto isso, senti meu estômago roncar e ele também percebeu.

—Está quase na hora do almoço. –Verificou ele, olhando para o sol. Era impossível ser mais índio do que isso. –Eu estava pensando em comer na Vila. Quer ir?

—Se eu ficar aqui vou ter que cozinhar minha própria comida e... digamos que eu não tenho os dotes necessários para a cozinha. Vamos lá!

Wesley riu e partimos.

Quando chegamos ao pequeno, porém aconchegante restaurante de comida caseira da Vila, meu estômago roncava tão alto que eu poderia comer uma onça inteira. Senti que estava salivando enquanto olhava todas aquelas comidas típicas da região, como tambaqui de banda, tapioca, bolinho de pirarucu com molho de tucupi e costela de tambaqui. Não sabendo o que escolher, peguei um pouco de tudo e enchi o prato.

Quanto mais comia, mais apreciava os sabores da região. Nem sequer reparei que Wesley me encarava com estranheza.

—Pra onde vai toda essa comida? –Indagou.

—Não é porque sou magra que eu necessariamente como pouco, dã. –Falei ainda de boca cheia.

Ele moveu a cabeça negativamente, com um sorriso e voltou a cortar o pedaço de carne em seu prato.

Quando pagamos a refeição, surpreendi-me com o preço, que era muito barato para o tanto de comida que pedimos. Na cidade grande tudo era mais caro e eu me acostumara a comer nos restaurantes de lá. Além disso, eu estava tão cheia que era difícil andar. Não cabia nem mais uma gota de água em meu estômago, entupido até a garganta.

—Vamos tomar açaí? –Perguntou ele.

Ao mencionar a palavra “açaí”, meus olhos brilharam. Eu não poderia perder a oportunidade de tomar o açaí direto da Amazônia. E como num passe de mágica, mais espaço se abriu em meu estômago, clamando pela sobremesa. Wesley não precisava dizer mais nada.

Logo menos, quando estávamos no estabelecimento que vendia açaí, Wesley e eu nos dividimos. Iríamos pegar acompanhamentos diferentes e eu estava ansiosa para escolher os mais diversos possíveis. Peguei chocolate derretido, leite condensado, marshmallow, e quando estava prestes a pegar as deliciosas castanhas-do-pará reconheci a silhueta de uma figura próxima.

—Otto? –Perguntei.

—Cris! Oi. –Surpreendeu-se ao perceber minha presença. Acabara de colocar uma caixa grande e aparentemente muito pesada no chão. –Eu não sabia que estava aqui.

—Muito menos eu. –Sorri. –O que estava fazendo com essa caixa?

—Ah, de vez em quando eu ajudo os donos a carregarem as caixas de frutas até aqui. Sabia que eles mesmos fazem o açaí que você está tomando?

—Verdade? –Olhei o açaí que estava em minhas mãos, surpresa. –Por isso está tão diferente. E mil vezes melhor! Tem um gostinho natural.

Norato e eu engajamos em uma conversa longa e divertida, não hesitei em começar a tomar o açaí enquanto conversávamos. Tudo estava bem, até que alguém apareceu ao nosso lado. Alguém que, por alguns instantes, eu havia esquecido que me acompanhava.

Wesley, com seu açaí em mãos, nos encarava com um olhar surpreso e um tanto desapontado.

—Oh, me desculpe. –Disse Honorato. –Eu não sabia que estava acompanhada.

—Não, tudo bem. –Apressou-se Wesley. Pude sentir o tom amargo em sua voz. –Eu já estava de saída.

—Wesley. –Chamei, correndo em sua direção.

—Está tudo bem, Cristina. –Olhou diretamente em meus olhos. –Eu preciso ir para casa arrumar algumas coisas. Divirta-se.

Quando o índio virou-se e foi embora, tomando seu açaí, senti-me a pior pessoa do mundo. Eu sabia que não estava tudo bem. E sentia um grande desconforto ao vê-lo caminhar para longe. Longe de mim.

—Bem... –O clima também estava pesado para Honorato. –Talvez seja melhor eu ir.

—Não! –Virei-me para ele. Wesley já tinha ido embora. Eu não queria que Otto partisse triste e cabisbaixo também. –Quero dizer... Esse açaí está realmente muito bom. Vem, por que não pegamos um para ti também?

Ele sorriu.

—Claro!

Honorato, embora tão jovem quanto eu, tinha infinitas histórias para contar. A maioria era sobre acontecimentos passados da Vila e sobre seus moradores. Algumas eram bem engraçadas, como aquela sobre o dia em que um homem se esqueceu de amarrar os cavalos na carroça e, quando deu ordem para partir, eles simplesmente saíram correndo sozinhos enquanto ele ficou boquiaberto, á ver navios.

—Mas, espere aí. –Falei, ainda rindo. –Uma carroça? Ainda existem essas coisas por aqui?

—É...Ahn... Ainda havia carroças há certo tempo atrás. Sabe como é, região afastada e tudo mais.

Nesse momento, observei o céu e percebi que já não estava tão azul.

—Uau! Parece que vai cair um toró.

—Estamos na Amazônia. –Brincou. –Seria estranho se não chovesse.

—É, tu tens razão. –Ri. –É melhor eu ir embora. Meu hotel cinco estrelas fica um pouco longe e não quero ficar presa aqui.

—Tudo bem. Vamos lá, eu faço companhia.

Caminhar com Honorato era muito agradável. Estávamos em ritmo lento até que senti algumas gotas caindo em meus ombros. Em poucos segundos a chuva já estava caindo em potência máxima e precisamos correr o mais rápido possível. Mas não adiantou. Ficamos tão encharcados que era impossível evitar as risadas. Logo aceitamos nosso destino e decidimos apenas brincar na chuva, como duas crianças despreocupadas e alegres. Pulamos em poças, chutamos água e rodopiamos pela chuva, sempre tentando evitar possíveis escorregões.

Quando chegamos ao caminho de terra a chuva já havia parado.

—Achei que iria chover a tarde toda. –Torci a água acumulada em meu cabelo.

—As chuvas geralmente passam bem rápido. –Ele também tentava tirar a água de seus cabelos e rosto. -Mas poderia ter durado mais, me diverti como nunca em todo o meu tempo de vida.

—Tu fala como se tivesse nascido há séculos.

Eu ri, mas na verdade estava prestando atenção em como a camisa de Honorato havia ficado colada com a chuva. Carregar todas aquelas caixas de frutas deveriam ser ótimos exercícios físicos, pois seu corpo era bonito e bem definido. Mas... Se ele estava ensopado, então isso quer dizer que eu também estava. Imediatamente, olhei para seus olhos e o mesmo desviou o olhar. Prova de que também estivera reparando.

Olhei para o outro lado tentando disfarçar, porém percebi algo um tanto desagradável.

—Argh, a estrada de terra está repleta de lama. –Fiz uma careta. –Não acredito que vou estragar os sapatos que comprei apenas para vir para esta viagem.

—Não se preocupe, eu te ajudo.

Levei um susto quando percebi que meus pés já não tocavam o chão e emiti um grito curto. Honorato me levantara tão facilmente que me senti uma criança novamente. Eu queria falar algo, mas simplesmente não conseguia, pois meu corpo concentrava toda a energia nas minhas bochechas que coravam mais a cada segundo. Ainda mais quando Norato afirmava suas mãos em minha pele, garantindo que eu não caísse e me causando sensações estranhas.

Andamos em silêncio pelo caminho todo, como recém casados rumo a lua de mel, só que ao invés de um lugar chique e bonito, estávamos em um poço lamacento e com sapos coaxando ao longe, animados pela chuva. Enquanto ele olhava para frente, eu admirava seus traços e o olhar firme, porém doce. Quando ele me encarava de volta e eu desviava o olhar, o rapaz abria um leve sorriso e voltava a olhar para a estrada.

Quando finalmente chegamos, Otto me colocou delicadamente no chão e ficamos nos encarando por o que pareceu se tratar de muitas horas. Mas foram apenas alguns segundos. Só voltamos à realidade com a tosse de Norato.

—Bem, já vou indo. –Falou. Mas eu sentia que ele, no fundo, não queria ir. Assim como eu não queria que ele fosse. –Tenha uma boa noite, Cristina.

—Igualmente. –Sorri.

Permaneci no mesmo lugar e acompanhei Honorato partir. Era engraçado e adorável o modo como ele olhava para trás de vez em quando e sorria ao perceber que eu ainda o observava. No entanto, já estava anoitecendo e eu precisava me arrumar.

Estava na hora da festa.

Notas finais
Só queria falar que como eu morria de medo da Matinta Pereira quando era criança, a participação dela nessa história vai ser só isso mesmo Pra falar a verdade, eu até precisei ficar olhando pra trás quando pesquisei e escrevi sobre ela. Alguns traumas a gente nunca supera kkkkk Vejo vocês por aí ♥