Além do rio
4 Assobio assustador
Segunda-Feira, madrugada
[Cristina]
Apesar do frenético barulho de animais e picadas de mosquitos, adormeci rápido. Estava cansada e precisava de energia para o próximo dia, contudo, algo me despertou inesperadamente durante a madrugada.
Encolhi-me na cama dura que deixou meu corpo desacostumado enquanto o longo e assustador assobio terminava. Seu eco fazia cada um de meus pelos da nuca se eriçarem.
Biscoito, que estava dormindo até então, levantou a cabeça e olhou ao redor.
Encolhi-me ainda mais, com o coração acelerado, quando ouvi o repentino barulho de aves levantando voo desesperadas perto dali. Mas estava de noite. Algo havia as assustado.
Sabia que deveria encarar os possíveis perigos no momento em que decidi sair de casa. Não poderia me dar ao luxo de ser covarde. Não agora. Segurei firme a pequena faca que havia deixado do lado da cama antes de dormir.
Levantei-me cuidadosamente e coloquei as botas de caminhada. A madeira do chão rangia sob meus pés, o que dificultava o objetivo de ser o mais silenciosa possível.
Fui até uma das malas e peguei uma lanterna, preparando-me para sair. Biscoito levantou-se e veio até mim.
—Não. –Ordenei. –Você fica aqui. Pode ser perigoso.
O cãozinho, apesar de não ter gostado muito da ideia, sentou-se e obedeceu. Ficou em alerta para sair de imediato caso fosse preciso.
Sem perceber, engoli saliva. Estava nervosa. Aquela poderia ser a criatura que havia deixado um enorme e bizarro dente de lembrança e eu não sabia se era uma boa ideia me encontrar com algo sobrenatural e desconhecido em plena madrugada.
Caminhei lentamente entre as duas cabanas, iluminando cada região com a lanterna. O local estava muito escuro e já era por volta de 3h da manhã. Senti minha pele arrepiada pelo medo.
A lua cheia era a única fonte de luz naquele local, além de minha lanterna, e tudo estava quieto. Até mesmo os gritos de animais e sons de insetos da noite se calaram. As aves já haviam ido embora e o único som que ouvia era o dos pequenos galhos se quebrando a cada passo meu, até que parei de andar. Fiquei assim por um tempo, observando a mata que levava para o rio, até que um estrondo fez meu coração pular. Gritei e virei-me para trás, onde me deparei com um enorme galho caído no chão.
Iluminei a árvore e vi o local em que a madeira havia se partido. Ele estava seco e velho, era óbvio que iria cair a qualquer momento. Isso me tranquilizou.
Biscoito, ao ouvir o grito, foi correndo em minha direção.
—Que susto do cão! –Coloquei a mão no peito, aliviada por não se tratar de nada demais. Reparei que o cachorro estava me fitando. -Não você, Biscoito. Nada pessoal.
De repente, escutei um riso divertido que parecia vir de qualquer lugar. Ele não durou muito, mais tinha eco e uma voz masculina. Iluminei a mata, mas não havia ninguém por ali e o medo voltava a tomar conta de meu corpo, até que pensei finalmente ter entendido o que estava acontecendo quando a lanterna iluminou a cabana de Wesley.
—Aquele maldito...
Caminhei a passos largos até a cabana vizinha e abri a porta, que estava apenas encostada. Lá dentro, Wesley, que usava uma camiseta simples e bermuda, dormia numa rede vermelha.
—E ainda diz que não é um índio... –Sussurrei, antes de começar a sacudi-lo. –Wesley! –Gritei, mas ele não respondeu. –Wesley, seu cretino. Não adianta fingir que está dormindo, eu sei o que você fez. Se estiver pensando que vai me amedrontar, pode tirar o cavalinho da chuva! Não vou cair nas suas brincadeirinhas idiotas.
Quando o moreno finalmente abriu os olhos, sua cara era de sono. Ele era um ator melhor do que eu imaginava.
—O que está fazendo?! –Zangado, parecia não entender o porquê daquela algazarra. –Ficou maluca?
—Muito engraçado, Tupinambá. Da próxima vez, vê se assusta a vovozinha!
Seguida por meu fiel cãozinho, saí da cabana a bati a porta com tanta força que algumas folhas que estavam no teto caíram em minha cabeça.
—Ahrg! –Rosnei.
Wesley deve ter sentido as paredes tremerem. Por um momento, até eu fiquei com medo de que elas caíssem.
[Wesley]
Aquela garota era completamente insana.
Quem ela pensava que era pra chegar na cabana dos outros desse jeito?
Depois de tudo aquilo, fiquei tão desnorteado e sem entender, que achei melhor evitar mais discussões e intrigas. Virei-me para o outro lado e me aconcheguei novamente na rede, reclamando em voz baixa.
Quando fiquei mais calmo, lembrei-me dos detalhes daquele dia.
O que diabos era aquela coisa verde? Eu tinha certeza de que aquilo é um dente, mas em toda a minha experiência como biólogo e explorador da floresta, nunca ouvi falar de algo assim. Era inacreditável.
Falei para Cristina que algum animal poderia ter comido a oferenda de frutas deixada por ela, mas logo observei melhor e percebi que não havia nenhuma casca, sobra ou fezes. Considerei a hipótese de algum macaco ter levado embora, até ela me mostrar o dente assustador.
Eu não sabia no que estávamos nos metendo. E se ela estivesse certa?
☀☀☀
[Cristina]
Os passarinhos já preenchiam a manhã com seus cantos quando o sol nasceu, iluminando a cabana.
Ao sair, ainda me espreguiçando e bocejando, notei que um índio caminhava na direção do caminho de terra.
—Ei, onde você vai?
—Bom dia pra você também. –Falou e só depois olhou para trás. –Estou indo para a Vila comprar comida. Não achei que você fosse levantar tão cedo.
“Como se fosse fácil dormir com toda essa claridade e animais barulhentos”. Me diverti com o pensamento.
—Espere por mim, estou indo com você!
☀☀☀
Muitas pessoas acordavam cedo na vila. O comércio já estava aberto e alguns moradores varriam a calçada de casa.
Fomos até a banca de frutas da feira, onde reconheci o vendedor. Ele se chamava...
—Antônio! –Cumprimentou o índio. –Como vai?
—Bom dia, Wesley. Eu estou muito bem, obrigado. – Logo reparou na companhia. –Ora se não é a moça turista.
—Sou eu. –Sorri e continuei a observá-lo. Só agora havia notado que ele tinha uma engraçada mania de se coçar.
—Ela veio a trabalho. –Me olhou de modo incriminador, como se não acreditasse que aquilo era um trabalho a ser levado a sério.
—Trabalho? Que chique. –Falou coçando o queixo e depois voltou-se para Wesley. –Mas e então, o que vai querer hoje?
Enquanto o moreno fazia suas compras, observei que uma jovem se aproximava a cavalo. Ela parecia estar na faixa dos dezoito anos e era muito bela, com cabelos volumosos, cacheados e pretos, além de bochechas rosadas. Quando desceu do belo cavalo de pelo marrom, dirigiu-se à banca de frutas e cumprimentou.
—Bom dia, Toninho. Bom dia, Wesley. –Virou-se para mim e percebeu que nunca havia se encontrado comigo antes. Estudou-me de cima a baixo. –E bom dia...
—Cristina.
A moça sorriu. Ela era tão bonita que parecia uma atriz de cinema. Sobrancelhas grossas, porém muito bem cuidadas. Os olhos expressivos e o brilho labial em sua boca rosada brilhavam com a luz do sol. Senti uma pontinha de inveja.
—Bom dia, Lucia. –Antônio pegava as frutas para Wesley,
O índio, além de cumprimenta-la, acariciou o pescoço de seu cavalo. Ele realmente era bom com animais.
—O nome dele é Tornado. É tão veloz como um. –Lucia explicou, notando que eu observava o animal e sorriu. Depois, mudou de assunto. Então você é nova por aqui?
—Sim, cheguei ontem.
—Wesley, você não pode deixar de leva-la à festa junina! É sábado a noite e, confie em mim, é a melhor festa do ano. Todos vão estar lá!
—Lucia, ela está á trabalho. –Interveio ele.
—Não seja chato. –Protestou. –Trabalhadores também merecem um pouco de descanso.
Wesley, que mais prestava atenção em Tornado, tinha a expressão de quem pensava “Descanso do quê?”.
—Parece divertido! –Sempre gostei de festas típicas. A cultura brasileira despertava meu interesse e por isso acabei me apegando tanto às lendas folclóricas.
—Então está decidido. Oh, meu Deus... –Levou as mãos ao rosto. -Eu preciso escolher um vestido.
—Vaidosa como sempre. –Observou Antônio, entregando as frutas de Wesley.
Ela abriu um sorriso tímido e escolheu algumas maçãs. Puxou assunto comigo.
—Mas, e então... –Estudou as frutas, avaliando se estavam boas. –O que a trouxe aqui?
—Lendas. –Falei com naturalidade. –Estou à procura das criaturas do folclore. Histórias estranhas.
Primeiro, ela me olhou como se eu estivesse louca. Totalmente compreensível. Mas ela pareceu se interessar.
—Meus avós sempre me alertaram para tomar cuidado com os espíritos da floresta. Não posso dizer que acredito, nunca vi um. Mas também não desacredito...
Depois de escolher belas maçãs vermelhas e pagar, montou no cavalo.
—Gostei de te conhecer, Cris. –Disse enquanto se afastava. — Espero ver vocês na festa!
Enquanto a observávamos indo embora, Wesley me deu uma das sacolas para que eu o ajudasse a carregar e disse que agora deveríamos ir à padaria.
—Ela parece legal.
—Ela é legal. –Concordou. –Eu a vi crescer. Sempre correndo por aí com suas irmãs e montando à cavalo.
—Você parece um velho, falando desse jeito.
Wesley virou os olhos.
Eu estava pronta para partir quando uma sensação estranha percorreu meu corpo e senti alguém se aproximando. Quando virei-me, estava frente a frente com um moço bronzeado e bonito.
—Precisa de ajuda para carregar as frutas? –Perguntou Honorato.
Eu estava corada e com uma sensação esquisita no estômago. “Que merda é essa?” Pensei. “Agora toda vez que eu olhar pra esse cara vou sentir coisas estranhas?”
—Não, ela está bem. –Wesley respondeu e tomou a sacola das minhas mãos.
Achei que esse fosse apenas o jeito do índio, mas gostava de imaginar que ele talvez estivesse com ciúmes.
—Ah, sim. Sem problemas. Vou ver se o Toninho precisa de ajuda com algo. –Ele parecia um pouco decepcionado. Encarou-me e o brilho em seus olhos voltou, assim como o sorriso gentil. –Tenha um bom dia.
—Pra você também. –Gostaria de ter conversado mais, mas aquilo foi tudo o que consegui dizer. Algo naquele rapaz me encantava. Talvez fosse sua bondade ou o belo sorriso.
Enquanto eu caminhava ao lado de um falso índio até a padaria, encontramos Dona Geraldina. Como de costume, com seu crucifixo pendurado no pescoço, o terço entre as mãos e caminhando para a igreja.
—Hoje é dia de confissão! –Esclareceu.
Depois que nos despedimos de Geraldina, seguimos até a padaria e terminamos as compras.
Fiquei animada com a ideia da festa junina e me perguntei se Honorato também iria estar lá.
☀☀☀
[Geraldina]
A igreja estava vazia quando fui ao confessionário. Isso era reconfortante. Eu poderia demorar o quanto quisesse, já não havia mais ninguém esperando.
—Às vezes eu me sinto um pouco culpada, padre. –Disse para o homem que ouvia atentamente. Eu estava mais confortável agora, depois de alguns minutos falando. As confissões retiravam um enorme peso das costas. –Meu marido se foi há muitos anos. Tenho muito respeito por ele e de vez em quando ainda visito seu túmulo. Mas...
—Não se sinta envergonhada. –Disse o padre, me encorajando. –A vergonha vai contra os ensinamentos do nosso Senhor.
Calei-me por alguns segundos, era mais difícil tocar nesse assunto em voz alta. Por fim, concordei com a cabeça e continuei.
—Eu... Eu sinto que estou começando a esquecê-lo. Que talvez... Eu esteja me interessando por outros homens.
—Isso é natural, Geraldina. –Disse ele, compreensivo. –Tenho fé de que o lugar em que seu marido está é belo e tranquilo, e que ele apenas deseja a felicidade de sua esposa.
A felicidade irradiou-se pelo meu corpo e agradeci ao padre, que indicou as rezas que eu deveria fazer e me dispensou. Ele era a pessoa que eu mais confiava e admirava.
Ao sair da igreja, com peso do corpo e da alma mil vezes mais leve, vi a imensa quantidade de folhetos espalhados pela vila.
A festa junina estava chegando.
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