Além do horizonte escuro- Os Lâfrer

1 ​PRÓLOGO: O Som do Silêncio




​O deserto não tinha som. Pelo menos, não após a explosão.

​Richard Lâfrer sentiu o impacto antes de ouvir o estrondo. O estilhaço de morteiro não escolheu lado; ele simplesmente rasgou o ar e encontrou o seu alvo. Em um segundo, o capitão dos fuzileiros navais tinha o mundo sob controle; no segundo seguinte, o mundo era um borrão de poeira, sangue e um calor insuportável que emanava do lado direito do seu rosto.

​Ele tentou abrir os olhos. Apenas o esquerdo respondeu, lutando contra o suor e a areia. O direito... o direito era apenas um vácuo de dor latejante.

​— Capitão! Lâfrer! Responda! — a voz do sargento soava abafada, como se viesse debaixo d'água.

​Richard tentou levar a mão ao rosto, mas seus dedos encontraram apenas o metal quente e a umidade viscosa do próprio sangue. Ele quis gritar que estava bem, que era apenas um arranhão, mas a escuridão avançou mais rápido que sua voz. A luz do sol do Afeganistão apagou-se para ele, dando lugar a um inverno eterno e silencioso.

​Meses depois, o cheiro de pólvora fora substituído pelo perfume caro de gardênias da mansão de sua mãe. Richard estava sentado na poltrona de couro de seu escritório, o mesmo lugar onde um dia planejou conquistas, mas que agora parecia uma cela de luxo.

​O lado direito de seu rosto, agora marcado por uma cicatriz que descia da têmpora até a bochecha, permanecia imóvel. Ele mantinha a pálpebra fechada, escondendo o que a guerra havia levado.

​A porta rangeu levemente. Ele não precisava ver para saber que sua mãe, Claire, estava lá. O tilintar das joias dela era seu novo sistema de radar.

​— Richard, querido... a enfermeira chegou.

​Ele não se virou. Manteve o olho bom fixo em um ponto qualquer da parede escura.

​— Eu já disse que não quero ninguém aqui, mãe. Mande-a embora.

​— Ela não é uma enfermeira comum, filho. Ela serviu na base militar. Ela entende o que você passou.

​Richard soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor.

​— Ninguém entende. E eu não preciso de alguém para limpar minha babá e me contar histórias de ninar.

​Foi então que ele ouviu um passo diferente. Firme, mas leve. Não era o andar hesitante de uma empregada ou o passo ansioso de sua mãe. Era o caminhar de alguém que já havia pisado em solo sagrado e em campos de batalha.

​— Eu não conto histórias de ninar, capitão Lâfrer — uma voz feminina, calma e profundamente firme, cortou o ar pesado do escritório. — No meu turno, nós trabalhamos com a realidade. E a realidade é que você ainda tem um caminho a percorrer, quer queira, quer não.

​Pela primeira vez em semanas, Richard sentiu algo que não era apenas amargura. Era curiosidade. Ele virou o rosto lentamente, focando seu único olho azul na silhueta parada à porta.

​Hadassa Nymerelle não recuou diante da cicatriz dele. Ela não desviou o olhar. Ela apenas sustentou o peso daquela escuridão com um par de olhos que pareciam carregar o pôr do sol.

​— Meu nome é Hadassa — ela continuou, aproximando-se sem pedir permissão. — E eu não estou aqui para ter pena de você. Estou aqui para garantir que você não se esqueça de como se luta.

​Richard apertou o braço da poltrona, os nós dos dedos brancos.

​— Você está perdendo seu tempo, enfermeira.

​— Veremos — ela respondeu, com um meio sorriso que ele não pôde ver totalmente, mas que pôde sentir na suavidade do tom dela. — O horizonte pode estar escuro agora, Richard. Mas eu sou excelente em encontrar saídas na escuridão.