Além do foco.

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Boa leitura.

Começo de tarde chuvosa, vento frio, o céu coberto por nuvens cinzas, cliché dizer que o tempo estava como o humor de Caio, mas a verdade é que por dentro seus sentimentos estavam mais para um temporal com ventos fortíssimos. Apesar de toda catástrofe sentimental, ele tinha a quem se apegar e se agarraria até que tudo passasse ou se acalmasse, já que essa tempestade interna no momento parecia não ter fim, talvez um dia tivesse, só que Caio poderia estar inundado de tantos sentimentos e reviravoltas que, passar ou não, não fizesse mais diferença.

— Já podemos ir, quer eu pare o carro aqui na porta? – Jorge se aproximou perguntando com preocupação para o sobrinho.

Caio olhou para o homem à sua frente, cabelos curtos loiro escuros, olhos verdes, os óculos redondos lhe deixavam com uma aparência simpática, o que só realçava o olhar carinhoso que sempre carregava em sua face, o nariz vermelho por causa do frio, lembrava seu pai fisicamente, mas o inverso dele na personalidade.

— Eu estou bem – respondeu tentando dar seu melhor sorriso. – É meu braço que está quebrado, o resto 'tá perfeito.

Jorge olhou para o sobrinho concordando com a cabeça e sorrindo carinhosamente para ele, sabia que o resto não estava perfeito como dissera, Caio devia estar decepcionado, revoltado, preocupado, talvez enfurecido, mas triste acima de tudo.

— Vamos, ainda tenho que ver como vamos fazer com o ensaio já que seu braço está quebrado. Talvez seja melhor cancelar sua participação – comentava enquanto iam para o carro abraçando os ombros do sobrinho.

— Tio, é só um ensaio fotográfico, sem contar que vai ter aquela entrevista, daí é só falar sobre...

— Sobre sua queda da escada, de como rolou por ela depois de um tapa? – perguntou interrompendo em tom rude, não estava bravo com o garoto, mas situação o enfurecida.

— Não fale como se não fosse eu, sei bem o que aconteceu e o porquê aconteceu. Sobre a entrevista é só dizer que foi um acidente doméstico – respondeu com calma, tentando convencer ao tio, mesmo sem ter certeza se era aquilo que queria. Pensar na desculpa de um acidente doméstico quase o fez rir de desgosto.

— Primeiro temos que ver se a agência não vai se opor a te fotografar assim, se aceitarem e até lá você ainda estiver bem com essa ideia... – terminou fazendo um movimento com as mãos como quem diz "tanto faz".

— Obrigado – sorriu para aquele que estava lhe ajudando, sendo seu salva vida. Sem ter a menor ideia que Jorge estava tão abalado quanto ele.

O aquecedor do carro deixava um ambiente gostoso e confortável, Caio se olhou no espelho seu rosto estava perfeito, sem marcas, o cabelo preto comprido passando dos ombros estavam presos, os olhos pretos não estavam iguais ao dia anterior, algo tinha mudado, os acontecimentos daquela madrugada tinham tirado parte da sua felicidade, seu brilho. Agradecia mentalmente o tempo inteiro por ter o tio ao seu lado, se indagava o que seria dele se não fosse Jorge. Será que poderia contar com Leandro?

Leandro era o maquiador da agência e namorado de Caio, cinco anos mais velho, mesmo assim ainda um tanto irresponsável e imaturo. Caio com vinte anos sentia agora que sua vida estava mudando e isso lhe causava apreensão, o fazia pensar sobre tudo e todos ao seu redor, e se indagava se era boa ou não essa mudança.

— Você vai amanhã? – perguntou Jorge, tirando o garoto de seus devaneios.

— Se eu acordar bem, acredito que não seja motivo para faltar. Estou ansioso para começar na verdade.

— Você que escolheu cursar engenharia? – Jorge sempre quis perguntar isso, mas sentia que nunca existia espaço.

Caio suspirou perante a pergunta, a verdade é que não sabia ao certo o que queria, sempre foi muito podado pelos pais, nunca escolhia nada, sempre colocaram as coisas na sua frente e o empurram, nunca precisou lutar por nada, sempre reprimido, afinal o que valia era a voz do pai e da mãe, essa por vez também era reprimida pelo esposo, mas convivia com isso, resignadamente, Caio chegou no seu limite.

— Foi, e de qualquer forma já estou no terceiro ano — respondeu olhando a paisagem passar pela janela.

Entrar com 18 anos na faculdade não foi ideia sua, ele nem queria estudar, queria dar um tempo de tudo e se focar nas seções de fotos e fazer alguns trabalhos de modelo, não queria que aquilo fosse permanente, mas também não queria algo que comprometesse toda sua vida, como escolher uma profissão, pediu um ano para seus pais, mas é evidente que isso lhe foi negado.

Jorge nada disse, apenas concordou com a cabeça, pensava na conversa que havia tido com o irmão.

— Caio ainda vai ser um grande engenheiro.

— Gilson, você precisa deixar o garoto escolher.

— Mas Jorge, foi o próprio Caio que disse o que queria – Beatriz falou entrando na conversa dos irmãos.

— Eu espero que ele realmente curse engenharia e deixe essa história de ser modelo para trás, isso não vai levá-lo a nada.

— Ele é muito fotogênico e tem muito carisma…

— Pare com essa conversa mole, Jorge! – Gilson interrompeu elevando o tom de voz. – Pare de colocar essas ideias na cabeça do meu filho!

Gilson nunca gostou da ideia de ter um filho no mundo das artes, seja qual for a área, apoiaria o filho somente naquilo que tinha certeza que o levaria a um futuro promissor.

— Está sendo ótimo para ele, voltou a confiar em si mesmo. Foi tudo muito difícil para ele, esses últimos meses foram terríveis!

— Não foram terríveis apenas para ele! Já parou para pensar em como Beatriz e eu nos sentimos?

— Não é apenas vocês que sofrem! – Jorge levantou do sofá. – O garoto ficou muito mal por causa do Antônio!

E mais uma discussão foi iniciada, Beatriz desatou a chorar, soluçando. No segundo andar da casa, próximo a escada estava Caio, sentado, escutando tudo o que diziam, inevitável segurar as lágrimas, elas brotavam sem permissão. Chorando em silêncio, afundou o rosto nas mãos, desde a morte de Antônio, Caio era uma avalanche de sentimentos.

— Ele era meu filho! Meu filho! – gritou Gilson apontando para si. – Quem deveria estar um caco sou eu! Caio deveria ter a mesma postura e se mostrar forte como eu, para dar forças a Beatriz, mas não!

— Eles eram irmãos, Gilson! Irmãos! – falou respondendo o outro da mesma forma. – Como pode dizer quem deve sofrer mais ou menos por tamanha perda?

Jorge sabia plenamente de quem era o sonho de ser engenheiro, sorriu com a lembrança do sobrinho, lamentava imensamente pelo que aconteceu, mas não podia, não deveria medir quem sofria mais ou menos, todos amam de formas diferentes, em intensidades diferentes. Quem é a criatura que pode medir o amor?

Notas finais
Obrigada por ler, espero que tenha gostado.