Além do encanto
2 Briga de bar
Alguns dias haviam se passado desde o primeiro encontro entre Elina e Shiro, era de se admirar que a assassina não tenha perdido a paciência com as ofensas recebidas. Por outro lado, Elina desaprovou completamente a amizade de Celine com alguém tão questionável como Shiro.
— Elina, nem todos os humanos são ruins. — Argumentou a ruiva.
— Ela é. Eu sinto, Celine. O cheiro de sangue que exala do corpo dela pode ser sentido a quilômetros. — Elina torceu o nariz ao lembrar do cheiro metálico invadindo seu nariz. — E não é só o cheiro de sangue, algo muito ruim emana dela. Fique longe dessa garota, estou avisando.
— Eu disse a você, ela é uma assassina, foi educada dessa forma. Porém, ela caça apenas pessoas ruins. Pode-se dizer que ela é uma boa assassina. — Ela sorriu gentilmente ao olhar para a amiga, porém Elina apenas revirou os olhos irritada, o que fez com Celine soltasse um pesado suspiro. — Entendo não gostar dela, mas ao menos... Seja legal. Ela também é minha amiga, então se me considera tanto quanto diz, trate-a bem.
Elina puxou com força o capuz, escondendo mais seu rosto, na tentativa de esconder sua frustração.
— Como quiser.
Celine preferia que Elina fosse o mais discreta possível ao andar entre os humanos, temia que ao descobrirem sua real identidade eles a caçassem em busca de lucros ou experimentos. Mas a garota entendia muito bem sobre isso, afinal, o motivo de sua existência era justamente proteger outras criaturas mágicas da maldade do ser humano.
As duas amigas entraram na taverna, porém conversavam tão distraidamente que sequer notaram a presença da assassina mais ao fundo. Shiro terminava de virar uma generosa dose de vodka, tentando esquecer o estresse do último trabalho.
Em meio a calorosa e animada conversa que as duas tinham, Elina acabou por esbarrar em um homem que passava atrás de sua cadeira, a bebida que voou derramou em ambos.
— Só pode ser brincadeira. — Ela balança o braço tentando, inútilmente, secá-lo. — Agora vou feder a cerveja.
Antes que pudesse ter alguma reação, o homem a puxa brutalmente pela gola da roupa, seus pés mal tocavam o chão. Graças ao movimento brusco, a cadeira em que Elina estava sentada tombou, gerando um grande estrondo e chamando a atenção de Shiro.
A assassina olhou na direção do som e, em meio a multidão, notou os cabelos ruivos de Celine, a garota segurava nervosamente o braço do homem. Ela ameaçou levantar para ajudar a amiga, mas uma mecha de cabelo cor de rosa chamou sua atenção, junto dele o aroma de rosas alcançou seu nariz.
As pupilas de Shiro dilataram brevemente.
— Devemos ajudá-las? — Ela sussurrou. Para os outros, ela estaria falando sozinha, mas a voz em seu interior a respondeu.
"Celine sabe se cuidar, já a outra..." — Disse Pyke.
Antes que pudessem chegar a um consenso, o som do corpo de Celine sendo jogado contra as mesas tomou o lugar, Shiro sequer teve tempo de reagir antes de Elina socar o homem o deixando desnorteado no chão.
— Humano insolente. — Disse ela enquanto arrumava a bagunça deixada pelo homem em sua roupa. Elina alcançou o braço de Celine a ajudando a levantar. — Você está bem?
— Sim, sim. Já estou acostumada.
Logo um grupo de homens as rodeava, ambas suspiraram, enquanto o cajado de Celine aparecia em sua mão, Elina sacava a espada.
Logo a briga começou e Shiro se ajeitou novamente na cadeira assistindo a tudo.
— Acho que elas dão conta.
"Melhor do que eu poderia imaginar."
A briga se desenrolava, três para cada, não chegava a ser um problema, porém era algo chato de lidar. Elina deixou a espada de lado, aquilo realmente não era para ela.
Com o braço, defendeu um golpe ao seu rosto, mas logo teve que desviar de outro que vinha pelas suas costas. Estava mais preocupada com Celine do que consigo, mas não conseguia encontrar uma brecha para ver como a amiga estava.
Já Celine usava sua magia apenas para se defender, devido a quantidade de pessoas presentes no local, preferia não arriscar que alguém inocente terminasse machucado.
Elina suspirou, já impaciente com aquela situação, e socou o homem à sua frente o lançando contra a parede, pegou sua espada do chão no caminho que fazia até o homem, e a enfiou no ombro do mesmo o prendendo na parede.
— Vocês já estão me irritando
Aproveitando seu descuido, o companheiro do homem à sua frente a imobilizou em um mata-leão, mas enquanto tentava se soltar um golpe com uma bandeja de metal deixou o homem atordoado aos seus pés. Ela levou a mão à orelha tentando diminuir o incômodo que o som causou a ela também.
Ao olhar para o lado, viu a assassina a encarar com um sorriso convencido.
— Eu não preciso da sua ajuda.
— Aceito os agradecimentos quando essa confusão acabar. — Shiro se curvou em uma reverência, assim desviando de um ataque.
Elina segurou o punho do homem e o girou, o lançando para fora da taverna.
— Por que não cuida da própria vida?
Shiro desapareceu e no instante seguinte apareceu atrás de Elina a defendendo.
— Você não pode ser um pouco mais grata? Eu estou ajudando você.
— E eu não pedi sua ajuda. — Ela se virou e socou o homem que Shiro segurava, o nocaute foi instantâneo.
"Ui, grossa" — Pyke assobiou.
"Se for em personalidade, sim, ela é insuportável. Se for em soco, sabemos que eu sou mais forte" — Shiro soltou o homem e bateu as mãos limpando-as.
Um pouco mais ao lado, Celine acabara de perfurar o corpo de um homem com seu cajado e, após sussurrar um encantamento, o corpo do homem explodiu. O rosto de Elina se contorceu instantaneamente ao ter seu corpo coberto por sangue. Agora foi a vez de Shiro assobiar.
— Onde aprendeu isso, princesa? — A pequena assassina caminhava tranquilamente até Celine, quando o homem que foi lançado anteriormente tenta acertá-la com uma cadeira.
Com agilidade, Shiro pula se prendendo no teto. Para Elina, a garota mais parecia um gato eriçado, tinha a sensação de que mais um pouco e ela iria hissar. Ela quase riu com esse pensamento. Quase.
A garota bufou irritada e puxou sua flauta.
— Cansei de todos vocês. — Seus olhos verdes se iluminaram.
Uma melodia começou a ser ouvida por todos do local, ao mesmo instante os objetos começaram a tremer e levitar. Shiro arregalou os olhos não tendo um bom pressentimento em relação àquela situação.
No momento em que mesas e cadeiras começaram a voar violentamente pelo ambiente, Shiro se soltou do teto e agarrou Celine levando ambas para trás do balcão na tentativa de se proteger.
Os objetos caíram com brutalidade sobre os corpos de seus rivais, seja os que estavam conscientes ou não. E então levitaram mais uma vez, para então golpeá-los novamente. E de novo. Mais uma vez. A brutalidade era contrastante com a melodia em que se ouvia, sequer restavam pedaços inteiros quando a música parou.
As duas amigas olharam cuidadosamente por cima do balcão para analisar a situação, enquanto isso, Pyke gargalhava na cabeça de Shiro.
"Ela é completamente louca, Shiro, ela é maluca." - Ele ria mais ao ver o rastro de destruição deixado por Elina.
"Ela não é um elfo, não é?" — Shiro sorria nervosa.
"Não, você me deve 20 pratas." — Ela coçou a nuca lembrando da aposta que tinham feito sobre que criatura Elina seria, se suas pontudas orelhas significavam se ela seria uma elfa ou uma fada.
"Calado, você não tem porquê precisar de dinheiro."
"Tsc... Estraga prazeres."
Shiro pula por cima do balcão, enquanto isso, Elina guarda sua flauta e endireita a postura extremamente mal humorada por ter sua noite arruinada por alguns humanos idiotas. E então, de repente, ela sente uma pressão em seu pescoço e a sensação de uma lâmina afiada atrás de sua orelha.
— Ora, ora. Não é muito comum encontrar orelhudos andando por aí. — Uma gota de sangue pingou de sua orelha, Elina se sentiu paralisada diante da situação. — Só essas orelhas devem valer uma grana.
O homem começou a rir, suas mãos a segurando e a risada em seu ouvido faziam seu estômago se retorcer, porém a risada foi interrompida pelo som do corpo dele batendo contra o chão.
Uma adaga atravessou a boca do homem e agora ele agonizava no chão, afogando em seu próprio sangue, Elina jurou ter visto os olhos de Shiro brilharem por um breve segundo.
— Ei! — Gritou a assassina. — Sei que todos aqui me conhecem, e sabem muito bem de tudo o que sou capaz. Estejam cientes que se alguém ousar encostar nessa garota, não vão viver para ver o próximo dia.
Os olhares, que antes a encaravam com ferocidade, agora estavam distantes e praticamente não a viam no local. Shiro se aproximou com cautela e agora a cobria com sua capa.
— Você está bem?
Elina levantou o olhar para a garota, os olhos vermelhos a encaravam com preocupação, Celine estava um pouco mais atrás a encarando da mesma forma. A pequena fada se encolheu e cobriu mais o rosto com o capuz.
— Obrigada, mas isso não é da sua conta. — Disse ela em um tom quase inaudível, e então disparou porta a fora.
Shiro e Celine se apressaram em alcançá-la.
— Elina, vai ficar tudo bem. Nada vai acontecer, eu prometo. — Shiro gritou fazendo com que sua voz ecoasse pela rua.
— Eu não pedi sua ajuda, assassina.
— Elina!
Antes que elas pudessem alcançá-la, Elina desapareceu, apenas sua capa restou no chão úmido da precária rua em que se encontravam.
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