Além do Trono

3 O Início da Ruína


Acusações, dúvidas e gritos. Catarina começava a se arrepender amargamente de seu plano, focou tanto na incerteza da presença dos reis e rainhas que acabou negligenciando o resultado com todos ali presentes. Devia ter falado com cada reino separadamente, pensou enquanto observava Lucien apontar o dedo para Damen numa discussão calorosa sobre antigas rivalidades.

— Basta! — Cansada de tanta enrolação, a rainha de Solaria intervém em busca da atenção dos demais líderes. — Minha intenção não era causar este efeito em vocês, parecem mais crianças que líderes de nações.

— Pelo menos nós merecemos nossos lugares ao trono, Catarina. — Destila Alec.

— Se você quer entrar na questão no mérito, não vamos esquecer de como você mereceu o seu. Causou a separação de Filippe e passou de amante para o lugar da antiga esposa. Seu único mérito foi um caso muito bem sucedido com um monarca, Alec. — Revida Catarina.

Com os nervos à flor da pele, Alec dá um passo na direção da mulher, mas Filippe o impede:

— Se vamos nos prender a cada detalhe da coroação de todos, não sobrará um realmente merecedor do cargo que ocupa – tenta apaziguar.

— Filippe está certo, eu também gostaria de lembra-los que, apesar de não ter nascido para o trono, a ótima reputação de Catarina intercedeu na escolha de Eros para nomeá-la rainha. Como vocês mesmos sabem, pois já usaram de seus dotes em questões relacionadas aos próprios reinos – Completa Selene.

— Se não fosse por Catarina, o atentado contra nosso filho teria sido fatal. O Reino da Cillía está em dívida pela vida salva de seu herdeiro – Sienna a apoia.

Catarina agradece silenciosamente os monarcas e respira aliviada enquanto observa todos voltarem aos seus lugares na mesa, os ânimos pareciam ter se acalmado, aproveitou o momento e explicou sua ideia sobre o Pacto da União. Ouviam intrigados, como já havia mostrado no baile, Lucien era o mais interessado na união. Os licantropos pareciam em dúvida, as gêmeas permaneciam quietas, apenas absorvendo o máximo que podiam da reunião. O trisal da Cillía prontamente revelou sua decisão favorável ao acordo.

— Agora que todos já tiramos nossas dúvidas e os benefícios da união foram discutidos, vamos votar, quem está disposto a assinar o Pacto? — lidera Catarina ao ser a primeira a erguer o braço.

Khalesa observa o marido, incerta, Lucien levanta sua mão e ela o imita. Selene, Sienna e Damen fazem o mesmo. Relutantes, os reis de Lupinus também se juntam aos demais.

— Astrid? Amara? — Lucien questiona-as.

— Nós ainda não decidimos se o pacto trará algum benefício para Asteria. Nossa realidade é diferente, somos autossuficientes e usamos defesas mágicas. O que podem fazer por nós que já não temos? — diz Astrid, a outra irmã sustenta o mesmo olhar voraz.

— Vocês lembram d’A Grande Invasão? Foi antes do seu tempo, antes do tempo de qualquer um aqui, na verdade. O povo Além do Mar invadiu o território de Asteria com artefatos inibidores de magia, o reino quase foi exterminado. Se Lupinus não intervisse com seu exército, Asteria não existiria hoje – Fillipe finaliza: — Do que adianta magia quando não se pode usá-la?

— Asteria já criou outros feitiços para sua defesa, esses inibidores não podem mais nos atingir – Amara intervém.

— Assim como vocês evoluíram, o povo Além do Mar pode ter feito o mesmo. Estão dispostas a arriscar outro massacre em suas terras? — Catarina completa seu raciocínio — Vejam bem, o único objetivo desse Pacto é que todos prosperem. Sem mais guerras nem intrigas, apenas reinos fortalecendo seus territórios e relações.

As gêmeas trocam olhares silenciosos entre si, pareciam conversar mentalmente, por fim, chegam num veredito:

— Asteria também assinará o acordo – dizem em uníssono.

— E qual a nossa garantia de que Solaria não mudará de lado novamente? Eros já era difícil de lidar, Apollo foi simplesmente intragável. Podemos contar com você, Catarina? — indaga Khalesa.

— Vocês têm a minha palavra – responde firme. E de fato, Catarina estava disposta a fazer o possível e o impossível para permanecer no trono de Solaria.

Satisfeita, ela observa Lucien pegar a pena e assinar o Pacto da União, em seguida passa para Fillipe, que a segura e parece repensar, olha para Alec que o incentiva. Ele assina o papel. Danem foi o mais afobado, estava animado com as possibilidades que o Pacto traria para todos, mas não via a hora daquela reunião acabar. Queria voltar para o baile e festejar com suas mulheres. Assinou o Pacto. Amara foi a primeira das rainhas de Asteria a selar seu nome no papel, mas antes de Astrid ter a oportunidade de fazer o mesmo, Lucien começa a tossir e passar mal. Todos voltam a atenção a ele.

O rei de Aryum despenca no chão, as mãos retorcidas contra o peitoral, espuma branca sai de sua boca conforme tenta respirar. Khalesa grita e tenta ajudar o marido em vão, Lucien está morto. Enquanto Khalesa alenta o corpo do marido, Fillipe demonstra os mesmos sinais e cai no chão com Alec tentando reanimá-lo. O próximo é Damen, mas as esposas desesperadas já previam o destino do rei. E assim acontece, Damen morre.

As gêmeas seguram nas mãos uma da outra enquanto se encaram, pesar em seus olhares:

— A morte é apenas uma passagem, até nosso reencontro, irmã — conforta Amara, Astrid confirma chorosa. Segundos depois, já está morta.

Estarrecida, não havia adjetivo melhor para descrever o estado que Catarina se encontra, sua boca não conseguia formular palavras para o que acabou de presenciar.

— Isso é sua culpa! — ataca Khalesa – Nos atraiu para uma armadilha!

— Eu sinto muito..., mas vocês precisam entender que fui pega de surpresa também. E não seria nada inteligente da minha parte planejar um ataque tão óbvio como este, estão armando para todos nós! — tenta se defender.

— As mortes ocorreram antes de você assinar, por que não assinou primeiro, Catarina? — pergunta Sienna.

— Eu queria dar a oportunidade aos convidados, eu juro, não estou envolvida em nada disso.

— Sabia que devíamos desconfiar, Solaria não tem bom gosto para reis e rainhas, sempre tramando à nossas costas... Avisei Lucien, sua ingenuidade foi o que o matou. — Khalesa levanta e olha para o corpo do homem sem derrubar uma lágrima. Raiva tomava conta de si no momento. — Você tem que pagar pelo fez, uma vida pelas quatro que acabaram de morrer, a vida da única monarca de seu reino.

Catarina vacila, tinha que pensar em algo para conseguir se esquivar o máximo da morte, era inocente. Mas como podia explicar isso para as viúvas e Astrid?

— Vou achar quem armou essas mortes. — Virou para as esposas e suplicou — Sienna e Selene, estou cobrando a dívida com a Cillía, me deem tempo para achar o verdadeiro culpado.

Elas discutem com Khalesa e Astrid, Alec continua ao lado do corpo do marido em estado catatônico. Logo retornam com uma sentença, a rainha de Aryum não parecia satisfeita com o que foi decidido:

— Você tem até a manhã, apenas. Enquanto isso, mande fechar as entradas e saídas de Solaria. Ninguém está autorizado a deixar o reino até que uma punição seja realizada, nossos guardas pessoais vão vigiar estes locais.

A rainha de Solaria agradece a oportunidade que lhe deram, mas sabia que se vacilasse, sua morte será uma certeza pela manhã. Respirou fundo e saiu da sala sem rumo, azoada com tanta desgraça.

— Chamem Azriel — ordenou aos guardas, precisava do seu conselheiro real mais do que nunca.

Notas finais
Palavra do desafio: AZOADA. "Aturdida".