Além do Tempo
1 Introdução
Era uma fria noite de agosto, as ruas estavam vazias, e o silêncio que vagava com o vento era ensurdecedor. As luzes das casas estavam acesas, e era possível ver através dos vidros famílias reunidas, sorrindo, sentados em suas mesas de jantar. Apenas uma casa do bairro se encontrava com as luzes apagas, e na varanda uma estranha silhueta repousava em uma cadeira de descanso, ao seu lado uma pequena mesa com uma grande xícara de café, em sua mão um cigarro pendia aceso, a fumaça do cigarro brincava com o vento frio de inverno e dançava até se dissipar completamente.
Quem se aproximasse ouviria um choro baixinho, quem chegasse perto o suficiente poderia ver os olhos castanhos marejados, e as lágrimas escorrendo pelo rosto, encharcando os cabelos platinados da pequena moça. Aquela era Morgana.
Semanas haviam se passado desde a sua perda, e a garota ainda sofria em silêncio na varanda todas as noites. As luzes da sua casa há muito não eram acesas, e ela vagava pelos corredores escuros sem se importar com os objetos que derrubava pelo caminho. Os armários já estavam vazios, e fazia alguns dias desde que ela não comia uma refeição decente. Os pratos trazidos pelos seus amigos no dia do enterro, continuavam congelados da forma que foram deixados. Morgana se recusava a comer qualquer que fosse daqueles alimentos, como que se fingisse que eles não existiam, pudesse fingir também que jamais havia perdido Rafael.
Rafael.
Ela tentava ignorar sua partida, mas era impossível pois nunca em sua vida tinha sentido sua casa tão vazia, nem nas longas viagens que ele fazia, nem mesmo quando brigavam e ele partia. Nunca tinha sentido o vazio que se instaurava em sua vida naquele momento, e era duro demais sentir aquilo, aquela dor não se comparava a nenhuma outra, e era insuportável. Não era a toa que as lágrimas vazavam pelo seu rosto todas as noites, ela as continha o máximo que conseguia, mas elas sempre vinham a tona, transbordavam para fora toda a sua dor.
Os primeiros dias não haviam sido tão difíceis, ela acordou, fez seu café e foi para o trabalho, quando voltava para casa um pequeno lampejo do acontecido vinha a sua mente, mas se afastava tão rápido que ela mal podia notar, então ela fazia o jantar e ia assistir alguma série, enquanto assistia sempre pensava em Rafael, se ele estaria assistindo a mesma série naquele momento, ou o que estaria comendo independente do hotel o qual estivesse, só então parecia que se dava por conta do que realmente tinha acontecido, então ela chorava por um longo período até adormecer, e quando acordava na manhã seguinte tudo estava bem novamente, tudo havia sido apenas um sonho assustador.
Exatamente duas semanas depois é que ela realmente assimilara tudo, era um domingo, e como todos os outros domingos em que Rafael estava viajando a primeira coisa que ela fazia ao acordar era ligar pra ele, antes mesmo de levantar.
Ela então pegou o celular e ligou, mas o celular chamou diversas vezes e ninguém atendeu, só depois de ligar a terceira vez é que ela ouviu o zumbido que vinha do armário, e só ao abrir a porta e se deparar com a caixa dos pertences que foram encontrados com Rafael depois do acidente é que ela realmente entendeu.
Ele não estava mais ali, ele havia ido embora e a abandonado. Ele havia morrido.
Morgana sempre pensara na morte como uma velha amiga, um alguém prometido que todos irão encontrar ao fim da vida.
Morgana nunca havia pensado em perder o seu maior tesouro. Ela nunca havia pensado em como seria a morte para quem ficava.
E era justamente por isso que estava passando.
A única pessoa que foi capaz de amar havia morrido, e agora ela vagava sozinha pelo mundo, incapaz de seguir em frente.
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