Além do Tempo
9 Reencontro no Rio - Capítulo 9
Notas iniciais

Além do Tempo — Capítulo 9
Camus ainda estava no quarto de Radamanthys, chocado com o que descobriu sobre o medalhão e aquele baú.
Quando ouviu a porta se abrindo se afastou como pôde do baú voltando a ficar próximo a cama, ainda se sentia fraco sentou no chão com o lençol enrolado em seu corpo, cobrindo sua nudez.
Radamanthys parou na porta e se pôs a observar o elfo, como se pensasse em algo.
Camus por sua vez sentia medo e asco em igual medida, sabia que não conseguiria evitar as investidas de Radamanthys por muito mais tempo, não se seus poderes não fossem mais necessários ao tirano.
— Está melhor, Camus? — Radamanthys, analítico.
— Um pouco melhor. — Camus respondeu tentando não demonstrar o medo que sentia.
— Diga-me, Camus, acha que está perdendo seus poderes? — Radamanthys sondou, se aproximando de Camus que ainda estava sentado no chão.
— Sou um elfo, Radamanthys, um elfo não perde seus poderes. — Camus respondeu tentando parecer altivo, porém longe de seu habitual porte.
— Hum, entendo, — Começou Radamanthys, — Quer dizer que você consegue restabelecer seus poderes, sua força? — O Rei tirano questionou sondando.
— Preciso ter contato com a natureza. Me deixe ir ao rio, preciso me banhar no rio ou no mar. — Camus pediu, sabia como era humilhante pedir algo ao Rei, mas ele não estava em condições de manter seu orgulho.
Camus sempre sentiu que o medalhão drenava aos poucos sua energia, mas com Shaka e Mu por perto eles estavam sempre o reabastecendo de energia, contudo, agora Camus sabia que não teria a ajuda dos primos para isso e ainda tinha o agravante do medalhão ter feito algo inédito que lhe tirou quase toda sua energia.
Radamanthys aproximou se de Camus inclinou seu corpo e segurando o elfo pelo rosto o beijou à força, invadindo a boca do elfo sem aviso.
Camus por sua vez continuou imóvel sem corresponder ao beijo do outro. Radamanthys soltou o elfo com brutalidade e falou. — Beijar sua boca é como beijar uma estátua de mármore. — E olhando nos olhos de Camus completou. — Frio e estático, no entanto, sua pele é quente e macia.
Camus nada respondeu, observava Radamanthys com olhos de tédio, apesar de estar apavorado por dentro.
— Você me diz que um banho no rio o fará repor seus poderes? — Começou Radamanthys voltando ao assunto como se ele não o tivesse interrompido com o beijo imposto.
Camus apenas se limitou a confirmar com a cabeça.
ooOoo
— Acho que temos lenha para a noite toda, ainda há carne salgada? — Milo perguntou para Máscara da Morte assim que chegou ao acampamento trazendo algumas toras nos braços.
— Sim, temos o bastante, mas os nossos "hóspedes" não comem carne, eles só comem frutas, matos... essas coisas. — Começou Máscara da Morte rabugento. — Acho que o Demônio não dá carne aos escravos, eles não devem ter o costume, onde já se viu dois homens que não comem carne?
Milo não respondeu nada sobre o comentário do amigo, somente perguntou. — Como está o Aioria?
Fazendo uma careta de reprovação, o canceriano respondeu. — Tá na tenda, descansando com o escravo dele a cuidar dos ferimentos. — Pelo tom usado Milo percebeu que talvez Aioria estivesse tendo outros tipos de cuidados com o rapaz.
— E Aldebaran? — Tornou Milo ajeitando a fogueira.
— Esse é outro, entrou para pajear o escravo, aqui os escravos que precisam de cuidados dos amos, já viu disso? — Respondeu amargo mais uma vez o canceriano.
— Não acho educado chamar Mu e Shaka de escravos, Máscara da Morte, sabe bem que Aioria e Aldebaran têm olhos para os rapazes, eles não arriscariam a vida deles em nome de nada, ou só por uma noite de prazer, não tenho dúvidas que há sentimentos ali.
— Há loucura ali, os dois quase colocam tudo a perder, todos os nossos planos e nossas vidas. — Máscara começou a reclamar chegando ao ponto que queria.
Milo girou os olhos antes de dizer. — Você está precisando de uma boa foda, Máscara da Morte, uma boa foda! — E se afastou deixando o outro resmungando ainda mais Irritado.
Após terminar de juntar a lenha e ajeitar algumas coisas Milo seguiu para o rio, precisava se banhar para se refrescar, e também queria ficar só, seus pensamentos sempre iam para certo ruivo que agora Milo sabia, era um elfo.
ooOoo
— Me chamou, Majestade. — Valentine aproximou-se do Rei fazendo uma reverência.
— Sim, quero que junte seis homens, meu elfo quer se banhar no rio e vocês vão acompanhá-lo. — Radamanthys ordenou.
— Não acha perigoso soltar o elfo no rio? — Valentine questionou.
— Ele não vai fugir, de mais a mais, ordenei homens justamente para garantir a segurança do meu elfo. — Radamanthys respondeu.
— Vou levá-lo de coleira? — Voltou a questionar Valentine com olhos brilhantes.
Radamanthys fitou seus olhos em desagrado agarrou-lhe pelo pescoço e disse entre dentes. — O único a colocar coleira no meu elfo sou eu, você e os demais neste Reino devem se curvar perante a ele, meu elfo vai se banhar no rio como um nobre, e vai ser respeitado como tal, ouviu bem?
Com olhos arregalados Valentine confirmou com a cabeça antes de ser solto pelo Rei. — Agora vá faça o que lhe ordenei.
ooOoo
Milo estava nadando relaxado no rio, se banhava após o dia cansativo, a preocupação com o amigo ferido na arena e aquele aperto no coração que vinha sempre que pensava no ruivo, “como alguém que não conheço, que nunca sequer conversei pode ser tão importante em meu coração?” — Pensava aflito sentindo seu peito apertado.
O guerreiro de Gale viu quando alguns soldados se aproximaram trazendo algo, ou melhor alguém, como era noite Milo achou por bem se esconder nas águas a correr o risco de ser visto pelos soldados, fosse o que fosse que eles estavam fazendo ali, pelo horário percebia-se que não queriam chamar a atenção.
Milo pôs-se a observar.
Quatro soldados carregavam uma luxuosa liteira real, dois na frente e dois atrás, outro soldado vinha à frente com Valentine e um último ia atrás do comboio.
Todo este aparato era para garantir a segurança do elfo.
Quando chegaram às margens do rio e colocaram a liteira no chão Milo viu Camus descer auxiliado por um soldado, no rosto do elfo havia o alívio de estar em contato com a natureza enfim, e em Milo só se via a admiração e o pulsar forte do coração ao ver tamanha beleza.
Milo, contudo, permaneceu escondido
Antes que o ruivo desse mais um passo, Valentine o segurou pelo braço e ameaçou. — Não tente nenhuma gracinha, se tentar fugir eu mesmo matarei seu filho.
Camus o olhou sério antes de responder. — Não ouse ameaçar meu filho, seu verme.
— Não ouse tentar fugir. — Devolveu Valentine ameaçador.
Camus nada respondeu, soltou-se do aperto do soldado e seguiu para as margens do rio, sentiu a água em contato com seus pés e uma onde de prazer e renovação percorreu seu corpo, então se virou para o general de Radamanthys e falou. — Não irei fugir, se quisesse já o teria feito, não se preocupe, tem minha palavra. — Camus continuou com os olhos firmes em Valentine, que percebeu o que o ruivo queria, e ordenou.
— Virem-se, o Rei não quer ninguém olhando para o que pertence somente a ele.
Assim que os soldados viraram de costas, Camus olhou para Valentine que compreendeu o pedido do elfo e, praguejando virou de costas.
Com o rosto sem expressão alguma, Camus deixou cair a túnica que usava, ficando completamente nu rodeado pelas águas do rio.
Milo, que observava a cena um pouco distante, manteve-se no mesmo lugar maravilhado com a beleza daquele ser.
O elfo caminhou a passos lentos para dentro do curso das águas, sentindo seu corpo vibrar em satisfação ao tocar na superfície fria, apesar de estar caminhando sozinho, Camus ainda se sentia muito fraco, e o contato com a natureza e a água viva do rio era um balsamo fortificante para si. Após andar até que a água ficasse em sua cintura o elfo mergulhou, seu corpo brilhava ao receber a energia da natureza.
“Perdão criaturas das águas, perdão por absorver um pouco de sua energia e vitalidade, mas preciso me refazer, preciso dos meus poderes, a vida de meu filho depende de mim.” — Camus pediu humilde, em respeito às criaturas das águas antes de começar a absorver as energias do rio.
Por estar muito fraco, sua percepção élfica não estava em normal estado, por este motivo Camus não percebeu a presença de Milo enquanto mergulhava absorvendo a energia do rio. O guerreiro de Gale, por sua vez, observava o elfo com verdadeira adoração, sentiu-se um tanto cansado, mas pensou apenas que seu cansaço fosse referente ao dia atribulado, movimentou-se na água ficando próximo a algumas pedras para se apoiar e não correr o risco de se afogar devido ao cansaço repentino.
Camus notou o movimento e olhou na direção de Milo, seu coração deu um pulo quando o viu ali, preocupado verificou os soldados a margem do rio, todos continuavam de costas para o rio, respeitando sua privacidade, não por serem educados, mas por ordem de Radamanthys, que proibiu seus homens de olharem a nudez de Camus sobre a pena de castração para que o desobedecesse.
— Oi. — Milo falou baixo, apenas para o elfo escutar. — Desculpe, eu não queria ser invasivo, nem ficar espionando seu banho, mas já estava aqui no riu quando você entrou e... — O ruivo nada dizia, deixando Milo mais constrangido de ter sido pego o observando. — Eu te conheço de algum lugar? Me diga, nós já nos vimos antes?
Camus nada respondeu, sentia seu coração acelerado pelo reencontro inesperado, Milo aproximou-se de Camus calmamente.
— Não sei o que está acontecendo comigo, mas não consigo parar de pensar em você desde o primeiro momento em que te vi naquela arena, até sonhei com você, acredita? — Milo falou emocionado sentindo os olhos lacrimejarem, levantou a mão esquerda e tocou no rosto de Camus que fechou os olhos sentindo o toque de Milo em seu rosto. — É como se já o conhecesse há tempos... é como se faltasse você na minha vida.
Camus não podia fraquejar, não poderia colocar Milo em risco novamente, como provavelmente já havia feito naquela noite, e novamente sem consciência dos seus atos, então abriu os olhos e falou sério. — Eu não sabia que estava aqui, consegue sair do rio sozinho? —Perguntou preocupado, pois sabia que ao sugar a energia do rio também sugara a energia de Milo.
O loiro piscou algumas vezes tentando entender do que Camus falava, e como tudo que disse foi ignorado pelo ruivo. — Claro que consigo sair daqui, mas acho que se eu fizer isso agora seus amigos ali não vão gostar muito. — Milo respondeu triste pelo jeito com que Camus ignorou sua declaração.
Atento Camus voltou a olhar para a margem do rio quando notou que Valentine se virava para verificar onde Camus estava, uma vez que não ouvia barulho algum na água.
O elfo se posicionou na frente de Milo, e num sussurro falou. — Não se mexa, faça apenas os mesmos movimentos que eu fizer, por favor! — Milo confirmou com a cabeça e Camus continuou. — Respire fundo.
Assim que Milo pegou ar Camus movimentou-se na água abraçando Milo e mergulhou em seguida levando o loiro consigo, Valentine notou Camus nadando, resmungou sobre a demora e virou-se novamente de costas. Camus, com a agilidade de um elfo das águas e do gelo, nadou rápido afastando Milo o máximo que podia da visão dos soldados de Radamanthys.
Parando atrás de uma pedra, Camus emergiu com um Milo quase sem fôlego. — Por Atena! Quer me matar afogado? — O loiro reclamou.
— Desculpe! Só quis tirar você das vistas dos soldados.— Camus respondeu, antes de perceber que estava muito próximo a Milo, e tão nu quanto ele, um conseguia sentir a respiração do outro, Milo olhava atentamente aquele rosto estranhamente familiar aproximando-se devagar. Camus, percebendo a intenção do loiro, cortou o contato visual. — Preciso voltar antes que sintam minha falta, espere que eu parta com os soldados, somente depois você deve sair, entendeu?
— Por que não foge? Por que se submete àquele tratamento que o monstro da a você? Camus, venha! Fuja comigo, vamos embora. — Milo pediu segurando a mão do ruivo.
O coração de Camus bateu acelerado ao ouvir Milo chamando seu nome, pelo Divino, como queria ir com aquele homem, ser feliz ao lado dele, mas Camus lembrou-se que felicidade não era pra ele, e só o fato de estar ali conversando com Milo já colocaria a vida do seu guardião em risco. — Vá embora, rapaz, faça como orientei, fique seguro.
Ao fazer menção de se afastar, Camus sentiu a mão de Milo o puxando, o loiro olhava nos olhos de Camus, olhos tão conhecidos... apesar de não saber de onde. — De onde eu o conheço?
Camus soltou o braço da mão de Milo quando ouviu a voz de Valentine o chamando. —Só saia daqui quando se certificar que não há mais nenhum soldado por perto. Depois, volte para seus amigos e fuja daqui. Vá embora para longe, vá embora dessas terras, fique vivo rapaz, aqui não é seguro. E salve Mu e Shaka, por favor! — Dizendo isso Camus mergulhou em direção aonde estavam os soldados de Radamanthys, que o procuravam.
— Onde estava? — Valentine perguntou irritado, se aquele elfo cismasse em fugir nenhum deles seria perdoado pelo Rei.
— Nadando. — Camus respondeu saindo da água sem dar atenção ao nervoso de Valentine.
Valentine pegou as vestes de Camus e cobriu seu corpo nu para que os soldados não olhassem para o elfo com cobiça, não porque se importava com a intimidade do elfo, mas por essa ter sido a ordem dada pelo seu Rei.
Com certa brutalidade Valentine levou Camus de volta a até a liteira o fazendo tropeçar no caminho, Milo ao longe observava tudo de punhos cerrados.
— Maldito! — Praguejou saindo de trás das pedras, indo até a margem próxima. — Eu vou salvar você, Camus, eu vou tirar você do domínio deste tirano maldito.
Os soldados se afastaram levando o elfo com eles foi quando Milo percebeu que o elfo havia o deixado nu do lado oposto do rio onde estavam suas vestes e onde ficava o acampamento dos seus amigos. — Mas que maravilha! — Praguejou.
*-*-*-*-*-*-*-*-*
Os dias foram passando, os jogos continuavam a todo o vapor, o Touro e o agora, Aioria de Leão entre outros campeões, eram convidados a sentar no lugar de honra próximo ao Rei, Camus não foi mais visto nos eventos, e isso intrigava tanto a Milo quanto aos seus amigos.
Após o ultimo dia dos jogos, Radamanthys serviria um banquete para os campões, e era neste dia que os guerreiros de Gale e os elfos pretendiam resgatar Camus.
Todas as noites eles se reuniam ao redor da fogueira para combinarem as estratégias de como entrar no castelo; como sair sem serem notados; onde deveriam se encontrar; sobre o acampamento que já deveria ser desfeito; e como empreenderiam em fuga.
— Milo é quem deve encontrar Camus, ele é quem deve tirá-lo de lá. — Avisou Shaka sério.
— Por que o Milo? Esse cabeça de vento pode colocar tudo a perder, acho melhor que eu mesmo vá pegar o elfo. — Máscara da Morte cortou rabugento com medo que o outro colocasse tudo a perder como os dois amigos quase fizeram.
— Já conversamos sobre isso, Camus não aceitará vir e... — Shaka pacientemente tentava explicar, ele sabia que Camus jamais atacaria Milo, ou colocaria a vida do amado em risco, se fosse outro a tentar resgatá-lo Camus poderia resistir e até mesmo congelar o infeliz.
— Eu vou, e isso já está decidido Máscara, — Milo falou sério para o amigo, num tom que mostrava que não abriria mão disso, e virando para Shaka questionou. — Se ele não quiser vir, se ele resistir? Não poderei tirá-lo de lá à força sem ser notado.
Shaka tirou um saquinho que trazia amarrado a cintura e falou: — Se ele resistir você vai usar isso, sopre um pouco no rosto dele que o elfo perderá os sentidos por algum tempo.
— Como sabe tanto sobre elfos? — Aldebaran questionou desconfiado.
— Shaka é um estudioso, sabe muito, de muitas coisas. — Mu respondeu pelo primo.
— Mais um motivo que me intriga, o que um estudioso como você fazia como escravo? — Máscara tornou a perguntar ríspido, não confiava naqueles dois, ou sua implicância era por só causa das besteiras que os amigos arrumaram, não saberia dizer, mas o fato é sempre que possível implicaria com aqueles rapazes.
— Acho que o senhor deve saber que no mundo em que vivemos a liberdade é algo que pode ser facilmente retirada de nós, ainda mais quando falamos de Radamanthys, O Tirano! — Respondeu Shaka altivo encarando o amigo de Aioria, que logo tomou partido a favor do seu amado.
— Mascara pare de ser tão implicante! Por Atena! Já discutimos o plano e vamos seguir conforme planejado, todos aqui sabemos onde deveremos estar e o que deveremos fazer. — O leonino ralhou sério.
O amigo resmungou e alguma coisa que os demais não entenderam e Shaka olhou agradecido para Aioria.
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Radamanthys estava sentado em seu trono real, ali recebia alguns súditos com problemas corriqueiros e se aconselhava com seus homens ou com o mago Ichi.
Ichi era o único que sabia dos poderes recém-adquiridos de Radamanthys e eles passavam a tarde reunidos treinando, o Rei queria dominar seu novo poder.
Radamanthys percebeu que Camus estava cada dia mais fraco e em contrapartida ele se sentia cada vez mais forte, o que o tirano desconhecia era que seu medalhão, espojo de guerra, era o único responsável por seu novo poder e por sua força física, que estava cada vez maior.
O Rei ser perguntava se não era hora de abrir mão dos poderes do elfo, "Se já sou capaz de congelar coisas e pessoas, por que não tomar Camus como meu de uma vez? Por que esperar mais para ter aquele corpo que tanto desejo?" — pensava o tirano.
Nos testes que fizera com Ichi, Radamanthys congelou dois escravos, somente para testar até onde aquele poder havia chegado.
— Acho que já posso abrir mão dos poderes de Camus. — Radamanthys falou alto compartilhando com o feiticeiro os seus pensamentos dos últimos dias.
— Não acho prudente, meu senhor! — Começou o feiticeiro com cautela, nunca era bom ir contra a alguma decisão do Rei. — O senhor ainda não é capaz de congelar vários homens ao mesmo tempo, precisamos do elfo por enquanto.
— Serei capaz de fazer! — Bradou Radamanthys, nem tanto seguro de sua fala.
O mago apenas fez uma reverência não o questionando.
...
Camus havia voltado para seu quarto, uma escrava foi enviada para cuidar do elfo, era ela quem sempre preparava seu banho, o ajudava com as vestes e ornamentos de ouro que o Rei fazia questão.
Desde o encontro com Milo, Camus estava mais amuado que nunca, a solidão de estar sem os primos, a preocupação com o filho desaparecido e agora ver Milo, tocar no guardião e fingir indiferença... aquilo doía demais. E ainda o efeito do medalhão sobre ele se potencializou desde que ficou sozinho sem os primos, Camus sabia que seus primos o davam energia e forças para não sucumbir ao medalhão, coisa que agora ele não tinha mais.
E agora ainda havia a terrível descoberta, o medalhão nada mais é que uma chave para o mal real.
Camus ouviu passos no corredor, seu estômago revirou, logo depois a porta de seu quarto foi aberta e a figura imponente de Radamanthys se fez presente.
Ao ouvir os passos no corredor o elfo se pôs de pé, apesar de fraco Camus sabia que ficar deitado vulnerável só aumentaria os desejos do Rei déspota.
— Vim ver como está, Camus. — Radamanthys perguntou olhando para o elfo.
— Me sinto ótimo. — Mentiu Camus.
Radamanthys sorriu se aproximando de Camus, que deu alguns passos para trás, o Rei foi ágil, ele segurou o elfo, o virou de costas para si e de frente para a pequena janela, Camus assustou-se com a agilidade e gemeu ao ter o braço entortado pelo Rei.
— Camus, se você está tão bem como diz, quero que congele aquelas árvores na entrada do castelo. — Radamanthys testou.
Camus hesitou.
— Vamos, Camus, estou sendo gentil com você escolhi alvos fixos e grandes, quero que os congele agora! — Ordenou o Rei.
Camus olhou para as árvores, levantou as mãos e delas começaram a sair uma luz fria e tal energia começou a congelar a primeira árvore, contudo, Radamanthys encostou-se a Camus que sentiu o toque o medalhão em sua pele, tentou resistir, mas logo sentiu seus joelhos falharem e seu corpo amolecer.
Radamanthys amparou o elfo antes que o mesmo fosse ao chão.
— Sabe, Camus, os Deuses olham por mim, O Grande Hades olha por mim, ele sabe quantas almas já enviei para ele, por este motivo eles me deram o poder, o seu poder agora é meu! Não tardará o dia em que me afundarei em suas carnes macias, pois seus poderes não serão mais necessários para mim.
Falando isso Radamanthys encostou-se a Camus roçando seu corpo no do elfo e lambendo o seu pescoço. — Ah! Elfo... como eu te desejo, desde que o vi se banhar naquelas águas do Egito eu o quero, não sabe como é difícil segurar meus desejos. — O tirano olhou o elfo com desejo, Camus sabia que o fato de estar fraco e indefeso só atiçava mais as taras insanas de Radamanthys, então esforçou-se para sair dos braços do tirano caindo no chão e se amuando contra a parede, não queria passar a imagem de medo, mas era isso que sentia.
Radamanthys não fazia ideia do real poder do medalhão, mas Camus sentia-se enjoado só de pensar o que um déspota como Radamanthys faria com tal poder, e Camus também temia por sua vida, não fosse pelo desejo de viver para salvar Hyoga, o elfo sabia que já teria sucumbido há tempos.
Radamanthys sorriu ao ver o elfo no chão e sentenciou: — Logo meu querido, logo terei você para mim. — O tirano planejava tomar Camus na noite do Banquete dos Campeões, aqueles jogos não seriam realizados à toa, não... Radamanthys planejava ter em seu exército todos os campões, homens fortes e imponentes como o Grande Touro, ou o poderoso Aioria de Leão, que conseguiram ganhar a admiração de Radamanthys e de seus soldados.
ooOoo
A grande noite chegara, Milo, Aioria, Aldebaran e Mascara da Morte haviam se preparado muito e estudado todos os cantos do castelo com a preciosa ajuda de Shaka e Mu, os elfos estavam a postos no lugar combinado.
Radamanthys não economizou em nada, haviam músicos tocando, bailarinas dançando, muita fartura de comida e bebida no Grande Salão Real, onde estavam acomodados os convidados de honra: Os campeões dos jogos. O povo também estava aproveitando da “generosidade” do Rei, algumas comidas e vinhos de inferior qualidade estavam sendo distribuídos, não que Radamanthys fosse um Rei bondoso, mas essa era a impressão que ele queria passar aos campeões, a imagem de um Rei benevolente e generoso.
Aioria e Aldebaran vieram à frente, sendo seguidos por Milo e Mascara da Morte, os dois que vinham atrás estavam vestidos como criados, Milo era “criado” de Aioria e o outro de Aldebaran, Shaka havia falado que Radamanthys não prestava atenção em criados, Milo andava envergado e com o rosto coberto como se fosse um ancião.
Os dois foram ovacionados por todos que ali estavam, ambos agradeceram o gesto de carinho das pessoas acenando com as mãos.
— Ora, ora... os homens mais corajosos que pisaram nesta arena por estes dias. — Falou Valentine, que estava atento à entrada por ser o Chefe da Segurança e General de Confiança do Rei.
Aioria e Aldebaran cumprimentaram o General, Milo vinha trazendo um tapete enrolado nos ombros. — Ei, o que é isso? — Perguntou Valentine de Gonda.
— É um presente para o Rei. — Respondeu O Touro com a voz firme.
— Abra esse tapete, quero ver o que há aí. — Repetiu Valentine.
Neste momento Radamanthys se aproximou dos convidados e questionou qual o motivo da tensão ali presente.
— Pode ser uma armadilha, senhor meu Rei. — Valentine respondeu pegando sua espada para furar a peça.
— Não! Não faça isso. — Foi Aioria quem pediu, e olhando para Milo fez sinal para que este colocasse o tapete no chão e o abrisse.
E assim Milo o fez.
— Seria uma grande pena ter algo tão belo furado por espadas, — Aioria falou ao abrirem a peça realmente bela. — Senhor Rei, — Continuou Aioria fazendo uma reverência. — Achamos que não teria mal algum em lhe trazer a vós um presente, perdão se o ofendemos.
Radamanthys olhou para Valentine com desaprovação, sabia que seu General estava meramente enciumado pela atenção que o Rei estava dando aos dois campeões. — Agradeço o presente só mostra que, além de força, vocês tem educação. Velho, leve meu presente, ponha-o num lugar adequado. — O Rei ordenou a Milo, sem nem mesmo olhar para o "insignificante" escravo.
Fazendo uma reverência Milo se afastou com o tapete nos ombros, ainda andando envergado, e foi para outra ala do castelo, lembrando-se do que Shaka e Mu falaram sobre os recantos internos do local, bem como suas passagens secretas, entrou em alguns corredores e viu dois guardas mantendo em segurança a entrada de um quarto, e pelo que disseram Mu e Shaka, Camus ficava ali.
Milo não estava com sua espada, pois escravos não usam tais objetos, mas tinha duas facas afiadas em sua cintura.
Milo aproximou-se com o tapete nos braços, e imitando a rouquidão de um homem de idade falou: — Olá, gentis soldados, vosso Rei pediu para que eu levasse este presente para os seus aposentos, com certeza deve ser este que está bem guardado por dois poderosos e leais soldados.
Camus estava no quarto sentado na cama aflito, Radamanthys havia sido claro, aquela noite ele tomaria seu corpo, a escrava que foi designada para cuidar do elfo já havia estado lá e o ajudara com o banho, Camus estava vestido com trajes curtos que deixavam suas pernas e dorso em evidência, sensualmente em evidência.
Com os ouvidos atentos foram capaz de ouvir a voz de Milo do lado de fora, levantou assustado prestando atenção na conversa.
— Saia daqui, velho. — Um dos soldados ordenou ríspido.
— Mas, senhor... meu amo deu este tapete para o Rei e me ordenou a colocar em um lugar seguro, o lugar mais seguro é esse que tem dois soldados na porta. — Continuou Milo imitando um idoso.
— Diabos! Velho, vá embora! — Falou o outro empurrando Milo.
— Tudo bem — Falou Milo assentindo com a cabeça fazendo menção de se retirar, porém foi ágil e jogou o tapete nos soldados que no reflexo tentaram de pegar o objeto, Milo teve tempo de golpear os dois com as pequenas facas que tinha junto ao corpo.
Não que o antigo guardião fosse adepto à violência gratuita, mas é que Milo sabia que deixar os soldados vivos para serem punidos por Radamanthys seria muito pior para eles, ao menos ele, Milo, fizera o trabalho de forma rápida.
Assim que os soldados caíram, Milo pegou as chaves no cinto de um deles e abriu a porta, Camus que estava atento a tudo deu alguns passos para trás.
No primeiro momento nada falaram ficaram apenas se olhando, Milo maravilhado com a visão que tinha do elfo tão belamente arrumado, e Camus com um turbilhão de sentimentos em seu coração, a vontade de correr e beijar Milo, o medo de vê-lo morrer novamente, tudo vinha em sua mente, ter seu corpo violado pelo tirano seria menos ruim que ver Milo morrer novamente.
— O que pensa que está fazendo? — Camus indagou trêmulo.
— Vim te tirar daqui. — Milo respondeu esticando a mão.
— Vá embora! Eu não quero ir com você! Fuja e salve sua vida antes que alguém apareça. — Pediu Camus aflito.
— Venha comigo, sei que não é feliz aqui, vamos, vou te levar para junto de seus amigos. — Continuou Milo.
Camus estava bravo com Shaka e Mu, "onde já se viu? Permitir que Milo se colocasse em risco desta forma? Já era para os dois estarem longe bem, longe em busca de Hyoga, e não fazendo com que Milo se arriscasse num resgate sem sentido" — pensava Camus irritado.
— Rapaz, é melhor sair daqui antes que eu grite. — Ameaçou Camus.
Milo duvidava que Camus fosse realmente fazer isso, não apenas por Shaka ter afirmado que Camus não o atacaria, mas por sentir de fato isso, sentir que Camus jamais faria mal a ele.
Milo sorriu enquanto o elfo continuava a falar e falar... Então pegou preso em seu cinto o saco que Shaka lhe dera para usar caso Camus não colaborasse, Milo pegou o pó e soprou em Camus, o ruivo perdeu os sentidos imediatamente. — Depois dizem que eu falo demais.
Milo colocou os corpos dos soldados no quarto do ruivo e enrolou Camus desacordado no tapete. — Me perdoe por isso, Camus.
Logo Milo se recompôs andado envergado como um idoso e colocou Camus enrolado no carpete em suas costas, ele seguiu pelos corredores do Castelo.
A primeira parte do plano tinha dado certo.
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