O vento cortante uivava entre as montanhas nevadas enquanto Milo e Camus avançavam pela trilha sinuosa que levava ao hotel. O lugar, um antigo castelo da era imperial russa, erguia-se imponente contra o céu escuro, suas torres e janelas altas cobertas de neve e gelo. A missão os trouxera até ali: investigar os estranhos eventos que assolavam aquela região remota, onde relatos de aparições e fenômenos inexplicáveis vinham se tornando cada vez mais frequentes.

Ao adentrarem o saguão do hotel, o ranger das tábuas antigas sob suas botas ecoou pelo espaço silencioso. O cheiro de madeira antiga e velas apagadas pairava no ar, e um lustre de cristal, embora empoeirado, ainda refletia os poucos feixes de luz que vinham das lareiras acesas. Poucos hóspedes transitavam pelo local, seus rostos pálidos e olhares esquivos.

Milo estalou a língua, cruzando os braços ao observar a decoração austera. "Tsc. Esse lugar parece tirado de um conto de terror. Você sente isso também, Camus?"

O Cavaleiro de Aquário, sempre reservado, apenas assentiu, os olhos azul-gélidos analisando o ambiente. "Há algo errado aqui. O ar parece denso, como se algo estivesse nos observando."

Após um breve diálogo com o recepcionista – um homem magro e de expressão sombria –, foram conduzidos a seus aposentos. O hotel possuía corredores longos e iluminados por candelabros tremeluzentes, o que conferia uma aura ainda mais espectral ao local. A cada passo, a sensação de serem seguidos se intensificava, mas quando se viravam, não havia nada além de sombras alongadas.

Mais tarde naquela noite, enquanto investigavam o andar superior, encontraram um salão trancado. Curiosos, decidiram forçar a fechadura. O ranger da porta ecoou pela escuridão quando finalmente se abriu, revelando uma ampla sala dominada por um imenso espelho de moldura dourada, tão grande que ocupava quase toda a parede oposta.

Milo se aproximou primeiro, analisando o próprio reflexo. Mas, ao piscar, sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Algo estava errado. No espelho, sua imagem continuava a encará-lo, mas não era apenas isso. Ao fundo, sombras distorcidas se moviam, e então, um vulto familiar surgiu ao seu lado.

Era Camus... mas não como ele o conhecia. Sua armadura azul havia sido substituída por um traje escuro e opressor, seus olhos estavam vazios, como se a luz da vida houvesse sido drenada.

Milo recuou, o coração acelerado. "Camus... o que diabos é isso?"

Camus, que havia se aproximado silenciosamente, franziu o cenho ao ver o reflexo. "Isso... não pode ser real." Mas seu tom, sempre calmo, agora carregava algo raro: uma fagulha de hesitação.

Milo sentiu a raiva misturar-se com o medo. "Isso é uma visão do futuro? É isso que esse maldito espelho está tentando me dizer?" Ele virou-se para encarar Camus de verdade, segurando-o pelo pulso com força. "Você pretende se tornar isso? Um espectro de Hades?!"

O cavaleiro de Aquário permaneceu em silêncio, seu olhar fixo no reflexo distorcido. A resposta não veio imediatamente, e isso foi suficiente para que Milo sentisse um aperto sufocante no peito.

"Camus, me diga que isso é uma ilusão."

Mas o silêncio perdurou.

O espelho começou a vibrar, a superfície se ondulando como água agitada. Então, sussurros emergiram do vidro, segredos inaudíveis, promessas de verdades ocultas.

Milo sentiu uma pontada na nuca e, sem perceber, já havia diminuído a distância entre ele e Camus. Suas respirações se misturavam no ar frio da sala, e os olhos de Milo queimavam de uma mistura de frustração e desejo reprimido. "Eu não vou deixar isso acontecer. Não importa o que esse espelho mostre."

Camus ergueu a mão, tocando suavemente a lateral do rosto de Milo, como se tentasse acalmá-lo. "O futuro não é algo que podemos evitar tão facilmente, Milo. Mas... talvez ele possa ser desafiado."

Os dedos longos e gelados traçaram um caminho até a nuca do escorpiano, e por um momento, o frio do ambiente tornou-se irrelevante. O toque de Camus era um paradoxo – ao mesmo tempo distante e intenso. Milo sentiu o desejo atravessar sua pele como eletricidade, e ao menor movimento, seus lábios se encontraram em um beijo que misturava necessidade e angústia.

O espelho brilhou, projetando mais visões, mas eles já não se importavam. O futuro poderia esperar – pelo menos por aquela noite.

Fim…?


Notas finais
Essa história explora o sentimento de inquietação e dor de Milo ao descobrir um destino que não pode aceitar. Para mim, a relação entre ele e Camus, sempre foi permeada por tensão e desejo, reflete o peso das escolhas e a incerteza sobre o que está por vir. É impossível ignorar a carga emocional que recai sobre Milo na saga de Hades, quando ele vê Camus ao lado de Saga e Shura no assassinato de Shaka. O impacto desse momento e a luta entre sentimentos pessoais e dever sempre me fascinaram. Sem dúvidas, é um tema que gostaria de explorar mais. Tenho trabalhado em universos alternativos, mas quem sabe um dia retorno a essa abordagem com mais profundidade? Obrigado por ler!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!