Além do Olhar

1 O Peso das Expectativas



​A mesa do café da manhã parecia um tribunal. O tilintar das colheres de prata contra a porcelana chinesa era o único som que ousava interromper o silêncio tenso na mansão dos Stanford.

​— Você ainda tem tempo de trancar essa matrícula, Kyara — disse Elizabeth, sua mãe, sem desviar os olhos da revista de decoração. — Falei com o reitor ontem. Sua vaga na Medicina está garantida por causa do seu pai. É apenas uma crise de identidade.

​— Não é uma crise, mãe. É a minha vida — Kyara respondeu, mantendo a voz calma, embora o estômago estivesse comprimido.

​Arthur, seu irmão mais velho, entrou na sala já vestindo o jaleco branco impecável, com o estetoscópio pendurado no pescoço como uma medalha de honra. Ele era o orgulho da casa, o cirurgião prodígio que seguiu cada passo do pai.

​— Maninha, seja razoável — Arthur comentou, servindo-se de café. — Educação Física é um passatempo, não uma carreira para alguém com o nosso sobrenome. Você vai passar o dia apitando em quadra enquanto poderia estar salvando vidas no hospital da família.

​— Eu vou salvar vidas prevenindo doenças, Arthur. Não é porque eu não quero usar um bisturi que meu trabalho vale menos.

​Sem esperar pela réplica do pai, que apenas a observava com um olhar de profunda decepção por cima do jornal, Kyara se levantou. Ela pegou as chaves do seu carro e saiu, sentindo o ar fresco do jardim finalmente encher seus pulmões.

​No Pátio da Faculdade

​O trajeto até a universidade foi feito ao som de música alta, uma tentativa de abafar as vozes da família que ainda ecoavam em sua mente. Assim que estacionou, Kyara avistou sua melhor amiga, Beatriz, acenando freneticamente de um dos bancos de madeira sob as acácias.

​— Amiga, você sobreviveu ao café da manhã dos campeões? — perguntou Beatriz, entregando um copo de café gelado para Kyara assim que ela se sentou.

​— Por pouco. O Arthur apareceu de jaleco só para garantir que eu me sentisse ovelha negra da família.

​Beatriz riu, mas logo se inclinou para frente, mudando o foco para o que realmente importava no pátio naquele momento.

​— Esquece os médicos por um segundo. Olha a recepção calorosa que o Pedro Albuquerque está recebendo ali no portão principal.

​Kyara seguiu o olhar da amiga. Pedro, o quarterback do time de futebol e herdeiro de uma rede de hotéis, caminhava cercado por seus amigos, todos com as jaquetas do time. Ele era o padrão de beleza que a faculdade idolatrava: loiro, sorriso fácil e uma aura de quem nunca ouviu um "não".

​— Ele é o cara mais lindo dessa faculdade, admita — provocou Beatriz. — E ele não para de olhar para cá.

​— Ele é bonito, Bia. Mas parece um catálogo de loja de departamentos. Falta... profundidade — Kyara deu de ombros, observando Pedro e o grupo de amigos rindo alto de alguma piada interna.

​— Profundidade você procura em livros, Kyara! Para a vida real, aquele sorriso do Pedro já resolve muita coisa.

​O sinal tocou, anunciando o início da primeira aula prática de Metodologia do Esporte. Kyara e Beatriz se levantaram, caminhando em direção ao ginásio. Mal sabiam elas que o burburinho sobre Pedro Albuquerque estava prestes a morrer assim que o novo titular da disciplina entrasse pela porta.

​A porta do ginásio se abriu e o som das conversas cessou abruptamente. David Sinclair entrou, a pele retinta contrastando com a camiseta pólo branca que marcava seus ombros largos. Ele não sorria, mas sua presença era como um ímã.

​Kyara sentiu um calafrio que não tinha nada a ver com o ar condicionado. Pela primeira vez, o padrão de beleza de Pedro Albuquerque pareceu terrivelmente comum.