Além do Olhar
4 Entre o Peso e a Leveza
O clima no campus no dia seguinte era pesado para Kyara, mas sua determinação era maior que o constrangimento. Ela não conseguiu dormir, e a imagem da expressão digna de David diante do desprezo de sua família não saía de sua cabeça.
Kyara parou diante da porta da sala dos professores. O coração batia como um tambor. Ela respirou fundo três vezes antes de dar três batidas leves.
— Entre — a voz de David ressoou, profunda e calma.
Ao abrir a porta, ela o encontrou analisando algumas planilhas de desempenho. Ele levantou o olhar e, por um segundo, o silêncio foi absoluto. Kyara sentiu que o ar da sala estava carregado com a tensão da noite anterior.
— Professor... David — ela começou, a voz levemente trêmula. — Eu... eu não sabia onde enfiar a cara ontem. Eu vim pedir desculpas. O comportamento dos meus pais e do meu irmão foi... ridículo. Não tem outra palavra. É imperdoável.
David encostou-se na cadeira, cruzando os braços fortes. Ele a observou por alguns segundos, um olhar analítico, mas sem mágoa.
— Kyara, respira — ele disse, com um meio sorriso que a pegou de surpresa. — Se eu fosse pedir desculpas por cada pessoa que me olhou torto desde que eu tinha cinco anos, eu não faria mais nada da vida.
— Mas não foi qualquer pessoa, foi a minha família! — ela deu um passo à frente, os olhos brilhando de indignação. — Eu sinto muito de verdade. Eu não sou como eles.
David se levantou e caminhou até ficar a poucos passos dela. A diferença de altura era notável; Kyara precisava inclinar a cabeça para encará-lo.
— Eu sei que você não é como eles — ele disse, a voz baixando um tom, tornando-se mais suave. — O preconceito deles é um problema deles, não meu. Eu sou muito bem resolvido com quem eu sou, Kyara. Não deixe a ignorância deles tirar o seu sono.
Kyara relaxou os ombros, sentindo um peso sair de suas costas.
— Você é sempre assim? Tão... confiante? Parece que nada te atinge.
David soltou uma risada curta e vibrante.
— Digamos que eu desenvolvi uma armadura de titânio ao longo dos anos. E, convenhamos, eu sou um excelente professor e um homem muito bonito. Por que eu deixaria um médico ranzinza estragar meu humor?
Kyara não conseguiu evitar e riu, uma risada doce que iluminou o rosto dela.
— Convencido também, eu vejo.
— Apenas realista — ele piscou para ela, quebrando de vez o clima tenso. — Mas agora, falando sério... você está bem? Me pareceu que a discussão em casa continuou depois que eu saí.
— Eu me tranquei no quarto. Acho que bati a porta tão forte que derrubei o lustre do corredor — ela confessou, com um brilho de travessura no olhar meigo.
— Uma rebelde de elite — brincou David, sentando-se na beirada da mesa. — Escuta, Kyara, eu aprecio sua atenção. De verdade. Mostra que você tem o que muitos naquela festa não tinham: humanidade.
Kyara sentiu as bochechas corarem. Ela se aproximou um pouco mais e, de forma atenciosa, arrumou uma pilha de papéis que estava quase caindo da mesa dele.
— Eu só quero que você saiba que, aqui dentro ou lá fora, eu estou do seu lado. E eu quero aprender tudo o que você tem para ensinar.
— Então vamos começar agora — David disse, voltando ao modo professor, mas mantendo o brilho divertido nos olhos. — Me ajude a organizar essas fichas de treino e eu te explico como montar um plano de periodização que faria seu irmão médico morder a língua de inveja.
Ali, entre pilhas de papéis e o aroma de café fresco, a barreira entre professor e aluna começou a dar lugar a algo mais profundo: uma cumplicidade silenciosa, onde o respeito era o alicerce e a amizade, a primeira faísca.
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