Além do Fim
15 Eternamente
Notas iniciais
Aproximadamente 28 luas depois...
Foram os meses mais felizes e incríveis que já viveram. A cada dia, o laço entre os argardianos se tornavam mais forte. O diálogo constante nas reuniões do Conselho antes de cada decisão tornavam o fardo da liderança de Asgard mais leve. O povo, que já acolhera Sif como sua rainha antes dela o ser de fato, agora se regozijava em acompanhar qualquer detalhe da vida de casal que ela e Thor deixassem transparecer. A forma única como os dois se relacionavam, o respeito, o amor, o carinho encantavam a todos.
Loki acabou sendo aceito de volta e passou a integrar o Conselho. Parecia mais maduro agora. E menos ciumento. Grande parte de sua sede de poder desapareceu após perder muito mais do que poderia ganhar com isso. Ele e Sigyn estavam muito mais próximos, envolvidos numa espécie de flerte que nenhum dos dois ainda ousava admitir.
Thor e Sif viviam um momento singular. Classificavam aquilo como a maior aventura de suas vidas. Compartilhando diariamente a mesma cama, a mesma vida e o governo de Asgard, estavam mais unidos que nunca. Há séculos não desfrutavam da paz de forma tão contínua e prazerosa.
O bebê crescendo dentro dela tornava tudo ainda mais especial. Dedicavam um bom tempo diário para observar e acariciar o ventre dela. Criaram o hábito de contar as lendas asgardianas para seu pacotinho de felicidade, deixando-se inundar pelo sentimento de pertencimento naqueles momentos. Sentiam como se todo o Universo estivesse de volta aos eixos e nada mais fosse capaz de atrapalhar a paz que viviam.
Todos sabiam que o momento do nascimento estava perto agora. Talvez faltassem apenas dias. E a euforia começava a se espalhar dos corredores do castelo por toda Asgard. Discretamente, os festejos tradicionais eram preparados e reservados. Cada família já havia separado algo muito valioso para ofertar ao pequeno herdeiro em sua chegada. Assim mandava a tradição. No momento em que fosse anunciado que a Rainha estava para dar à luz, tudo parava e o silencio deveria ser o maior sinal de respeito naquela hora. Na suíte real, ela seria acompanhada pelas maiores sacerdotisas, os anciões mais sábios, os guerreiros mais valentes e os mais dedicados curandeiros. O Rei aguardaria na sala do trono e deveria se mostrar calmo para passar segurança ao povo. Quando a criança nascesse, cada segmento presente no aposento real a avaliaria para reconhecê-la como herdeira justa do trono. Isso daria tempo para que o povo se reunisse na frente do castelo, diante da sacada principal dos pronunciamentos oficiais. Se a criança fosse digna, seria então apresentada ao pai, o Rei, que a tomaria nos braços e a apresentaria ao povo antes do ocaso daquele dia dando início à coleta dos presentes ofertados por todos.
Thor e Sif conheciam as tradições e sempre as respeitaram. Mas acompanhavam os preparativos cautelosos, com longas conversas só entre os dois em seu leito já encobertos pela noite. Entendiam que o povo ansiava pela repetição como forma de sentir-se seguro procurando ali a certeza de que os bons tempos voltaram. Mas acreditavam que já era tempo de superar aquele ritual. Ao longo da gravidez, fizeram prevalecer a ideia de que Asgard entrara numa nova era, onde antigos hábitos deveriam ser superados.
A maior dessas mudanças foi encabeçada por Sif. Ela se manteve à frente das tropas do exército durante toda a gestação. Fazia diligentemente as rotas da guarda toda manhã e ao entardecer. Reunia-se com os principais guerreiros diariamente.
— Estou falando, irmão, cuidado para não se arrepender de suas decisões. Sei que meu histórico me acusa, mas estou aqui de peito aberto. Olhe para ela. Sif já está no último trimestre de gestação e continua percorrendo quase toda Asgard à cavalo duas vezes ao dia! Isso sem contar as longas caminhadas no interior das vilas. Desse jeito, seu filho acabará nascendo no meio do mato! – Loki se viu no direito de tentar abrir os olhos do irmão enquanto desfrutavam de uma mesa de frutas ao entardecer.
Thor olhava para o irmão, mas sua mente vagava longe, lembrando-se de Sif galopando próxima às bordas da Cachoeira do Sem Fim. Seus cabelos ao vento, a postura altiva, o ventre destacado cuidadosamente amortecido pela forma coo ela se posicionava durante o galope. Muitas vezes ele escapara dos seus compromissos a tempo de posicionar discretamente na rocha sombria só para vê-la passar enquanto o crepúsculo descia.
Sif era muita coisa: responsável, determinada, doce, gentil, altruísta, linda e capaz de levá-lo a Valhala a cada noite de amor. Ele confiava nela com sua própria vida. Se essa mulher julgava estar bem para continuar suas funções junto à defesa de Asgard, jamais a contrariaria.
— Thor, ei... – Loki chamou sua atenção estalando os dedos na frente do seu rosto. – Estou falando com você.
— Estou ouvindo, irmão. Você falava sobre as rondas que Sif faz todos os dias.
— As rondas e o perigo dela acabar parindo essa criança num canto qualquer das montanhas de Asgard, Thor.
Ao citar as montanhas, Loki sem querer levou o irmão de volta às lembranças de sua noite de núpcias e Thor deixou o rosto se inundado por um vasto sorriso.
— Ela está ainda mais linda agora, irmão. – disse ainda meio embriagado pela lembrança fazendo Loki esfregar os olhos impacientemente. – Sif sabe o que faz. Se ela diz que está bem, eu confio nela. Providenciamos uma armadura bem mais leve e roupas adequadas pra isso. Quanto ao bebê nascer em algum canto remoto de Asgard... bem, ele foi feito em lugares bem pouco convencionais. – e riu dando um forte tapa na mesa.
— Por Odin. Não acredito que desperdicei tanto tempo e talento criando um plano para que você fosse banido de Asgard sendo que bastava ter dado força ao plano de nossos pais de te casar com Sif que você conseguiria isso sozinho! Se nosso pai estivesse vivo, com certeza você o mataria com a pouca preocupação que coloca no nascimento dessa criança, Thor.
Loki mal terminou de falar, Sif entrou na sala, chegando da ronda da tarde.
— Olá, meninos. Tudo em ordem por aqui? – ela estava animada, usando uma túnica confortável.
Thor foi ao seu encontro, envolveu seu rosto com a mãe direita para beijá-la e repousando a esquerda sobre seu ventre:
— Tudo em ordem, minha senhora. E minhas pessoas preferidas de todo o universo, como estão?
— Estamos bem. E famintos! – disse estendendo a mão para pegar uma fruta na mesa e já a levando à boca.
Thor puxou a espreguiçadeira pra ela se acomodar e começou uma massagem em suas costas acompanhada de delicados beijos por sua clavícula.
— Bem, essa melação é demais para mim. – Loki disse se levantando.
— Não vá ainda. – Sif pediu – Acabei de chegar. Pensei que você compartilharia novidades sobre como as coisas estão com Sigyn.
Loki sentiu-se corar. Ele odiava isso. Esse seu envolvimento com Sigyn o afetava de formas totalmente novas. E agora, pelo visto, estava se tornando público.
— Mais um motivo para eu partir. – disse deixando claro seu desconforto com o assunto. – Cuidem-se. E, Thor, pelo menos uma vez na vida, dê um pouco de atenção ao que digo.
Loki se retirou e Sif arcou para trás desfrutando da mágica que os dedos do marido eram capazes de fazer em seus músculos cansados.
— O que houve dessa vez? O que está preocupando Loki? – questionou.
— Você. Aliás, minha rainha, você se tornou a obsessão de 11 em cada 10 asgardianos. E a tendência é essa preocupação só aumentar daqui pra frente.
— Eu? Aff. – ela revirou os olhos. – Alguma coisa mais específica?
— Loki acredita que se você continuar fazendo as rondas de segurança, nosso filho poderá nascer em algum canto remoto de Asgard.
Sif ficou em alerta, endireitando a postura e buscando os olhos de Thor:
— Ele tem alguma suspeita consistente?
— Nada. Só preocupação de tio. – e abaixou-se à frente dela para depositar um beijo na sua barriga. – Fique calma. Ninguém suspeita de nada. Estamos seguros.
O casal ficou por um minuto em silêncio se entreolhando como os cúmplices que eram e sempre seriam.
Alguns dias depois
A madrugada ainda não tinha chegado quando Gylfi recebeu o corvo mensageiro enviado por Thor. Na manhã seguinte, caberia a ele assumir a ronda da manhã. O guerreiro alto e forte cruzou a mão sobre o peito e fez uma reverencia, aceitando a função. Sif já havia lhe adiantado que seria seu escolhido para substituí-la quando achasse que era hora.
— O que houve? – sua esposa perguntou aflita quando ele retornou ao quarto.
— Nada que mereça preocupação. Volte a dormir. – ele disse calmamente tomando a resolução de não antecipar à mulher sua nova função diante da euforia que isso poderia provocar. A aproximação da hora da Rainha Sif dar à luz devia ser mantida como segredo.
Nos estábulos do castelo, Bjorn e Askla prepararam Fúria, o imponente cavalo de Thor, imenso e com força colossal. Quando terminaram de celar o animal, o conduziram silenciosamente até o pátio que ficava no fundo do castelo. Fora-lhes pedido discrição. Assim agiriam.
Aguardaram ansiosamente a chegada de Thor. Seu rei, sempre sorridente quando passava pelos estábulos, estava agora com o semblante sério, parecia preocupado. Agradeceu aos dois e voltou até a porta. Só então perceberam que a penumbra ocultava ali mais alguém que aguardava a chegada do cavalo: Lady Sif desceu devagar os degraus até o pátio, apoiada no braço do marido.
Quando se aproximaram do animal, Fúria se abaixou, quase numa reverencia ao casal. Parecia compreender a importância que teria para os dois naquele momento.
Thor colocou as mãos protetoramente nos braços de Sif descrevendo movimentos lentos para cima e para baixo enquanto perguntava:
— Você tem certeza disso? São mais de duas horas de cavalgada.
Ela tentou sorrir, mas também parecia muito apreensiva.
— Tenho certeza. Todas as rondas que fiz me ensinaram a ficar mais confortável sobre um cavalo do que sobre minhas próprias pernas. Melhor partir o quanto antes.
Thor assentiu com um sorriso e a ajudou a montar em Fúria. Em seguida, tomou seu lugar atrás dela. Deixaram o pátio devagar, mas assim que alcançaram a estrada, já sem a necessidade de silêncio, a voz do Deus do Trovão exigiu que o animal cavalgasse o mais rápido possível.
A noite estava clara e o casal agradeceu aos deuses por isso. Mergulhar naquele trajeto difícil em total escuridão só os deixaria ainda mais inseguros.
No decorrer da cavalgada pela noite, Thor dividia sua atenção entre o caminho à sua frente e os movimentos sutis que Sif fazia recostada à ele. Mesmo concentrada na equitação como sempre fazia para amortecer o impacto em seu ventre, era cada vez mais difícil ignorar as contrações, mais intensas e frequentes agora. A forma como os músculos de suas costas enrijeciam chamavam a atenção do marido que procurava colar mais seu corpo ao dela para diminuir a frio da madrugada oferecendo algum conforto.
Por duas vezes ela pediu para que parassem por um minuto. Não chegou a descer de Fúria. Apenas respirou repetidas vezes e disse que poderiam prosseguir.
Pouco mais de duas horas e meia depois, chegaram à uma cabana simples, às margens do lindo lago Edas, pequeno e de águas quentes, um lugar mágico e especial que canalizava diferentes formas de energia positiva que fluíam pelo Universo.
Iduna abriu a porta da cabana e os recebeu com um sorriso. A velha senhora já os aguardava:
— Graças aos deuses vocês chegaram! Eu já estava aflita. Entrem. – disse conduzindo Sif para dentro da cabana. – Aqui, querida, sente-se aqui.
— Obrigada, Iduna... – Sif agradeceu se recostando no leito oferecido pela senhora.
Thor se aproximou e, mesmo sem que Sif pedisse, começou a soltar as botas dela para livrá-la do calçado. Iduna jogou um cobertor de peles sobre ela preocupada em aquecê-la.
— A temperatura cai rápido a essa hora da madrugada. Ela está gelada. Preparei um caldo quente. Será útil.
— Estou bem, Iduna. Só preciso descansar um pouco. – Sif insistiu fechando os olhos e Thor se sentou ao seu lado, acariciando seus cabelos.
— Durma um pouco, minha rainha. Vai ficar tudo bem. – e olhou para Iduna com um olhar quase de súplica pela confirmação do que acabara de dizer.
A senhora riu da inexperiência do casal. Se havia algo inalcançável para Sif naquela madrugada era o sono. Aproximou-se com o caldo quente e observou enquanto a jovem mulher se contorcia na cama. Aguardou pacientemente que a dor a deixasse e ofereceu o caldo a mulher:
— Obrigada, Iduna, mas não quero. Só preciso descansar um pouco. – Sif disse gentilmente tentando recuperar o fôlego.
—Criança, não sabemos quanto tempo isso pode durar. Esse caldo vai te fortalecer para enfrentar o que tem pela frente.
Sif respirou e sentou-se na cama pegando o caldo que começou a sorver devagar.
Iduna deixou que o casal descansassem por quase uma hora. A cada contração que vinha, Sif parecia enfrentar com mais calma. Thor, porém, foi ficando mais apreensivo. Tentava parecer calmo, mas mal conseguia se mover pela cabana sem esbarrar em algo. Num determinado momento, se aproximou da senhora aflito e sussurou:
— Isso tudo é normal, não é?
— Sim. Ela está indo muito bem.
— E... eu estou indo bem também, não estou? Quero passar segurança para ela.
Iduna olhou por cima do ombro do Deus do Trovão para encontrar o rosto de Sif distante deles pouco mais que alguns passos. Apesar dos olhos fechados, ela sorria. O espaço restrito no interior da cabana não dava privacidade suficiente mesmo com sussurros. Então, a senhora respondeu:
— Sim, meu rei, o senhor está indo bem.
— Por favor, Iduna, não me chame de rei aqui. Se tem algo que não sou nesse momento é um rei. Tudo que quero é que tudo acabe logo e que possa ver Sif e nosso bebê bem.
A senhora assentiu e se aproximou de Sif para avaliar como o trabalho de parto se encaminhava. Após observar o tempo que separava as contrações, sugeriu:
— Acho que é o momento de irmos lá para fora. A água quente do lago vai trazer-lhe algum conforto.
O casal atravessou a curta distância que os separava do lago. Já na borda, despiram-se das roupas e entraram nas águas quentes e mágicas. Thor sentou-se e Sif se acomodou entre as suas pernas. Iduna tinha razão, aquilo era reconfortante. Ali, nos braços do marido, Sif suportou o tempo que faltava para a chegada do seu bebê.
No momento em que os primeiros raios de sol cortaram a escuridão da noite trazendo a manhã, Sif levantou das águas um bebê de pele tão clara quanto a neve e cabelos brilhantes como ouro. Tomando o cuidado para deixar a criança respirar, mas sem retirá-la do aconchego do calor daquelas água, ela e Thor admiraram aquela nova vida, fruto do amor que compartilhavam. Foi mágico, intenso, perfeito.
Com luz e escuridão brigando no horizonte, o casal viu sua alegria ser coroada pela áurea de Odin e Frigga os observando no limiar as águas. Ambos sorriam, aprovando a união do casal e brindando a chegada daquela criança que daria continuidade à família.
Enfim, Sif puxou o bebê para seu peito, aconchegando-o junto ao seu corpo da melhor forma que podia. As mãos de Thor ajudaram a esquentar o bebê. Estavam tão submersos em êxtase que sequer se lembraram de olhar qual o sexo da criança. Apenas se entregaram a sentir o amor e a vida fluindo por tudo que conheciam.
Ficaram um pouco mais ali até o parto estar finalizado. Então, ele pegou Sif nos braços e a levou para dentro da cabana. Lá dentro, Iduna trouxe quentes túnicas brancas para vesti-los e perguntou:
— Quem é essa linda criança que acaba de chegar?
O casal se entreolhou e só então foram verificar o sexo da criança.
— Essa é Torunn, nossa filha amada, Iduna. Fomos presenteados com uma garotinha. – Sif disse. – Ela não é linda, Thor?
— Linda? Ela é a própria beleza, Sif. Como um ser pode ser tão perfeito? – o Deus do Trovão disse em lágrimas. – Obrigada, minha rainha. Nem mesmo nos meus sonhos mais loucos poderia alcançar a felicidade que você me deu hoje. – e beijou a testa da esposa deixando os lábios em contato com a pele dela por um tempo.
— Obrigada por ter compreendido que eu precisava que o nascimento dela fosse um momento nosso e não apenas um protocolo real.
— Fizemos a melhor escolha. Eu não sabia como seria, estava inseguro e com medo, mas eu precisava estar junto de vocês. E não me arrependo. – disse emotivo. – Se um rei tem algum poder, deve ser também poder ficar ao lado da esposa no nascimento dos filhos, não é?
Sif se acomodou nos braços do marido e ofereceu o peito à filha que começou a sugar imediatamente. O casal não se cansava de admirar sua pequena.
— Ela é esperta. – Thor disse acariciando a cabecinha da filha.
— E forte! Suga com força e também está apertando meu dedo como quem segura o Mjornir. – Sif completou.
Thor riu orgulhoso. Depois ficou pensativo:
— Até poucos anos atrás eu achava que Asgard me prendia. Queria me aventurar lá fora. Não compreendia que a jornada de me faltava devia ser dentro de mim mesmo. Agora estamos aqui. Nesse momento, eu não sou um rei, ou um herói, não estou enfrentando inimigos poderosos. Sou só um homem comum. Seu marido, pai de Torunn e, no entanto, me sinto o homem mais especial do universo. E não há nenhuma aventura lá fora que seja tão espetacular quanto estar aqui com as mulheres da minha vida.
— Nós amamos você. Não há ninguém no mundo melhor para nós. – Sif disse com o cansaço transparecendo visivelmente em sua voz. – Agora é hora dela conhecer o colo do papai.
Thor se ajeitou do seu jeito desajeitado e aguardou enquanto Sif colocava Torunn em seus braços. A pequena quase desapareceu nas mãos grandes e forte do pai orgulhoso que não conseguia mais tirar o sorriso do rosto. Após aconchegar a filha no peito, ele conseguiu liberar uma das mãos que usou para afastar os cabelos do rosto de Sif:
— Descanse agora, minha rainha. Eu estarei aqui cuidando de vocês.
Algum tempo antes de amanhecer no castelo
Loki estava sentando na sala do trono quando alguns membros do Conselho se aproximaram:
— Senhor, Thor e a Lady Sif foram vistos deixando o castelo à cavalo no início da madrugada. – o mais alto deles disse.
— Eu sei. – Loki respondeu com pouco caso e visivelmente nervoso.
— Onde eles foram? Não é seguro com o atual estado da rainha.
— Por Odin, vocês ainda não conhecem meu irmão e sua esposa. Parece que aquele teimoso levou a esposa para parir em algum canto especial de Asgard. — “Ou no meio do mato” pensou. — Ele me deixou no comando até retornarem. Por algum motivo tosco, ele acredita que isso é o melhor para sua família e que todos saberão respeitar a privacidade deles nesse momento. Espero que nenhum de vocês ouse contrariá-lo. Agora voltem para seus aposentos e aguardem!
A última frase foi proferida em tom bem ríspido, demonstrando que não toleraria discordâncias.
Quando todos deixaram a sala, Sigyn entrou e presenciou Loki desabando sobre o trono enquanto retirava o elmo.
— Você está bem?
— Disputamos esse trono a vida toda e, quando ele o cede para mim, eu não queria estar nele. Preferia estar junto com aqueles dois malucos, seja lá onde estejam. E se algo der errado? Thor só tem tamanho, não conhece antigas poções que poderiam ajudar. É a primeira criança que nasce em nossa família há séculos, essa ideia foi uma loucura.
Sigyn se aproximou e colocou a mão no ombro de Loki:
— Vai dar tudo certo. Sif e Thor carregam o peso do trono em seus ombros. Mas hoje, tudo que querem é se tornar pais dessa criança. Vamos respeitar o desejo dos dois. Estarei aqui ao seu lado até as boas notícias nos alcançarem.
Enquanto isso, na cabana às margens do Lago Eddas, Sif adormeceu. Thor, com a filha nos braços, pegou Mjornir e foi para a parte externa. Levantando o martelo, fez raios correrem por todo o céu, um sinal para todos em Asgard de que sua herdeira havia chegado.
Quando o dia amanheceu, Loki estava ainda mais aflito e resolveu observar o horizonte da sacada. Ao ver os raios cortando o céu sem nenhum sinal de chuva, ele compreendeu o sinal e comemorou abraçando Sigyn e a girando pelo ar.
O crepúsculo já estava próximo quando os portões da vila se abriram dando passagem ao Fúria que marchava devagar como quem é capaz de compreender a preciosa carga que carregava. Thor estava montado, segurando Sif que estava de lado com sua pequena princesinha nos braços. O casal não vestia trajes reais, mas roupas simples. A criança também estava envolta com mantas que qualquer criança de Asgard teria.
Aos poucos, as pessoas foram deixando suas casas e acompanhando o casal num imenso cortejo até o castelo.
Assim que chegaram, ele desmontou e ajudou Sif a descer. Subiram direto para a sacada principal onde apresentaram a criança à toda a população.
— Não queremos oferendas. Torunn crescerá como todas as crianças de Asgard. E cada uma dessas crianças será protegida e amada como nosso maior tesouro para que cresçam e desenvolvam todo o seu potencial. Nossa felicidade é imensa e tudo que desejamos é podermos viver esse momento em família. Fiquem em paz! – Thor disse ao apresentar seu pequeno tesouro.
Devolvendo a pequena à Sif, observou a reação de Loki que se aproximou da criança:
— Ela é linda. Tem os traços de nossa mãe, irmão. – Loki disse limpando os olhos das lágrimas.
— Sim, irmão. Sif e eu achamos a mesma coisa. – Thor respondeu colocando a mão no ombro do irmão antes de abraçá-lo.
— Foi um presente dos deuses para nós. Poder ver a beleza de Frigga em nossa filha. – Sif completou beijando a bebê.
Terminadas as apresentações, o casal se recolheu aos seus aposentos. Dispostos a descansar, mas logo descobriu que parecia-lhes impossível adormecer em sua cama com a bebê no bercinho. Acabaram colocando a pequena ao lado de Sif enquanto Thor se deitou do outro lado, passou o braço por cima da esposa e deu o dedo para a bebê segurar. Adormeceram exaustos e felizes.
Dois anos depois, em Midgard (Terra)
Os vingadores estava reunidos numa nova estação de monitoramento do norte da África. Suas famílias estavam com eles à espera de visitas especiais. Pouco depois, os aparelhos acusaram as distorções de energia e bem ao lado da estação, a Bifrost fez a família atingir o chão. Thor e Sif estavam sorridentes, sem suas armaduras, vestindo trajes asgardianos simples, cada um com uma criança nos braços.
Rapidamente deixaram o círculo de símbolos que os cercava fazendo a fumaça levantar do chão e foram de encontro aos amigos.
— Amigos, como é bom estar de voltar à Midgard! – Thor disse.
— Bem vindos! – Banner se antecipou batendo nas costas de Thor.
— Céus, vocês asgardianos são rápidos nisso. Pensei que tinham um filho e já são dois! – Stark comentou espantado.
Thor riu alto, feliz em apresentar sua família:
— Stark, você é engraçado. Esses são nossos filhos. Torunn, está com dois anos. Vocês viram Sif grávida quando estiveram em Asgard para o nosso casamento. E esse aqui – disse erguendo o menino ruivo em seus braços – é nosso filho Uller. Ele chegou quando Torunn tinha apenas algumas luas de vida. Tem cinco anos. – e colocou o menino no chão, Sif fazendo o mesmo com Torunn e ambos correram ao encontro das demais crianças que estavam no local — Sif o encontrou durante uma de suas rondas de seguranças pelas montanhas de Asgard.
— Algum tipo de besta atacou os pais de Uller e os matou. Cheguei a tempo de salvá-lo. Estava tão assustado que passou dias nos meus braços. Foi o que bastou para nos unir para sempre. Ele nos conquistou completamente. – Sif completou a história.
— É muito bom vê-los felizes e com a família aumentando assim. O amor faz essas coisas. – Nat colocou se aproximando para abraçar Sif.
— E, Thor, só uma coisa: suas crianças não soltam raios ou coisas parecidas, não é? – Stark disse tentando manter Morgan um pouco afastada dos filhos de Thor, mas a pequena Torunn parecia obcecada em abraçar sua filha.
Thor voltou a rir.
— Claro que não, Stark. São crianças. Tudo que fazem é brincar. Mas tenho certeza que, assim que crescerem, vão ser capazes de manipular mais que raios. Não é porque são meus filhos não, mas posso sentir o quanto são inteligentes e poderosos. Conseguem me convencer a fazer qualquer coisa que queiram.
— Sei bem como é. – Stark disse soltando a filha e vendo Morgan abraçar Torunn encantada com os longos cabelos dourados da garotinha como quem encontra a mais linda das bonecas. – Não é diferente com Morgan. Ela é inteligente, meiga e capaz de me convencer a fazer qualquer coisa por ela.
Enquanto isso, as mulheres cercaram Sif. Conversaram e riram com as atualizações.
— Estou tão feliz por estarmos aqui. A rotina com as crianças somada ao governo de Asgard tem sido exaustiva.
— Eu imagino. Mas agora poderão descansar. E nós vamos recuperar o tempo perdido. – Nat parecia eufórica exibindo a pequena barriga já no sexto mês de gestação.
— Midgard sempre foi muito importante para Thor. E, depois de tudo que aconteceu, passou a ser importante para mim também. Afinal, foi aqui que nosso namoro começou. Sempre serei grata a esse lugar.
— Ah, isso é tão romântico. Eu nunca vou me esquecer do quanto foi intenso tudo que vocês viveram aqui. – Pepper disse. — Sempre serão bem vindos. Sintam-se em casa. E, se precisarem de um momento sem as crianças, é só deixá-los conosco. Amigas são para essas coisa.
— Obrigada, Pepper. – Sif disse um pouco constrangida, mas completou – com certeza vou precisar...
Bem mais tarde, naquela noite, após o casal de visitantes ter se retirado para seus aposentos, Banner confessou:
— Sei lá, eu ainda me sinto mal com isso.
— Não sinta. Já discutimos isso várias vezes. – Stark o tranquilizou.
— Eu sinto que estou enganando os dois. E são nossos amigos. Sei lá...
Nat o abraçou tentando tranquilizá-lo:
— Pense em tudo como uma forma de precaução. Eles querem nos visitar. Nós só tomamos providências para que, caso o casal apaixonado tenha outra crise de amor, isso favoreça o planeta ao invés de criar um novo dilúvio.
— As populações ao redor desse lugar sofrem com a falta de chuvas por séculos. Se os dois se descontrolarem, sanaremos o problema. Além disso, com as péssimas condições atmosféricas, não teremos tempestades torrenciais, só uma boa chuva. – o Capitão informou bem centrado nas decisões do grupo.
No dia seguinte, Thor e Sif anunciaram aos amigos que iriam passear pelos arredores já que Pepper se prontificou a ficar com as crianças. Haviam cavernas ao sul que gostariam de explorar. Estavam vestidos como dois turistas gringos, mas a postura rígida e olhar severo não enganava ninguém.
Nat e Pepper acharam melhor intervir. Se aproximaram e fizeram algumas mudanças no look do casal, deixando suas roupas um pouco mais descoladas. A camiseta de Thor foi tirada pra fora da bermuda. A blusinha de Sif ganhou uma amarração frontal. Óculos escuros e bonés completaram o visual.
— Agora você segure com suas duas mãos na mão dele e sorria! – Nat ordenou à asgardiana.
Sif obedeceu. O resultado foi um pouco artificial e um tanto quanto assustador por ver o casal daquela forma.
— Bem, acho que é o máximo que conseguiremos. Podem ir! – Pepper liberou.
O casal saiu feliz e empolgado.
Rogers que estava confortavelmente recostado numa cadeira no canto da sala, sugeriu:
— Acho melhor soltarmos o alerta de uma possível tempestade.
— Até você, Capitão? Já fizemos todos os cálculos. Sem tempestades dessa vez.
— Sei que a matemática está a nosso favor, Stark. Mas é o cumprimento do Short que Sif está usando que me preocupa. Thor não estará sob controle.
Banner e Stark se entreolharam e concluíram:
— Melhor deixar todas as comunidades num raio de 300 quilômetros de sobreaviso.
Enquanto os amigos espalhavam o alerta e cuidavam das crianças, Thor e Sif chegaram à imensa Gruta Friouato, uma caverna situada no Parque Nacional de Taza. Ao se aproximarem da entrada, Sif assobiou e disse:
— Uau, é grande e bem íngreme.
— Já desci por lugares piores. – Thor fez questão de engrossar a voz ao falar. — Temos duas rotas. A da direita me parece mais segura.
— Engano o seu. A rota da esquerda pode ser mais íngreme, mas tem trechos muito mais rápidos. – ela disse lançando um olhar questionador para ele.
— Desafio mesmo seria descer pelo centro. Esse caminho só asgardianos ousariam trilhar.
— Hmmm, não será um bom desafio sem uma competição. – Sif disse levantando os olhos de forma provocante.
Thor riu alto fazendo o som ecoar pela garganta da caverna.
— E quem seria capaz de competir comigo, minha rainha? – e a puxou pela cintura.
— Competir eu não sei. Já que eu chegaria lá embaixo muito antes de você e essa outra pessoa estarem na metade do caminho.
Ele estreitou a distância entre os dois, colando seu corpo ao dela e disse:
— Você continua tão ousada quanto na nossa adolescência.
— E continuo sendo capaz de vencer você! – Sif continuou o provocando fechando a situação com um selinho.
— No três?
— Combinado.
Os dois se posicionaram e deram a largada. Fazendo o caminho central, começaram a descida apoiando-se em cipós e cruzando fendas com saltos sem perder o outro de vista. A cada etapa alcançada, novas provocações e desafios. Um escorregão aqui e outro ali, os dois se esbarraram um no outro, riram e continuaram a descida. Cada vez mais competitivos, arriscavam no limite do que seus corpos e a geografia do lugar permitia.
Saltaram alcançando o chão da mais profunda sala da gruta ao mesmo tempo. Se entreolharam, riram e se abraçaram. Sif o encarou. Delicadamente afastou os cabelos desgranhados que estavam sob o rosto do marido e perguntou:
— Está feliz? Sei o quanto esse mundo é especial para você.
— Se eu estou feliz, mulher? Há anos que tudo que conheço é felicidade. E você tem grande parte da culpa nisso.
Sif sorriu e buscou os lábios do marido. O beijo começou calmo, buscando degustá-lo devagar como quer recuperar lembranças de um passado que viveram em Midgard. Mas logo se tornou algo muito mais exigente e quente enquanto ela prendia as pernas musculosas ao redor do Deus do Trovão. Ele correspondeu, mas enquanto descia os beijos para o pé do ouvido dela, fez questão de perguntar:
— E você, Sif, está feliz?
— Muito... – ela respondeu e criando coragem, decidiu falar. – Thor...
Ele já suspeitava que havia algo sobre tudo aquilo que não havia sido compartilhado com ele, então parou as carícias e olhou diretamente nos olhos dela:
— Sim, minha doce Sif. O que você ainda não me disse?
— Midgard sempre foi tão especial para você. Eu pensei que talvez pudéssemos deixar que... Eu queria conceber mais um filho seu, aqui nesse mundo que você tanto ama.
Ele tomou o rosto dela entre as mãos e sem deixar que ela desviasse seus lindos olhos verdes dos seus, disse:
— Midgard foi muito importante para mim no passado, Sif. Mas eu tenho um novo lugar favorito dos Nove Mundos que formam a árvore eterna Yggdrasil e só ali aceitaria conceber um novo filho.
— E onde é este lugar para eu te levar até lá? – ela disse ofegante totalmente envolvida pelo tom emocional da voz dele.
— Esse lugar é dentro de você.
Nenhuma palavra mais precisava ser dita. Os dois se entregaram a esse novo universo que só eles conheciam e onde eram completamente um do outro.
Na manhã seguinte, uma única notícia despertava a curiosidade de todos os humanos em Midgard (Terra):
“Choveu torrencialmente em todo o Deserto do Saara”.
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