Além das Quadras
38 Arco III – 38. Conversar
Notas iniciais
Capítulo 38: Conversar
Erick nunca havia ido a um velório.
Quando seus outros avós morreram, sua mãe o impediu de ir, pois achava um clima muito pesado para alguém tão novo. Mas naquele ele quis estar presente. Tinha a escolha agora e ele optou por comparecer, tentando se redimir com seus outros avós.
Ficara sabendo da notícia pela irmã e no dia seguinte de manhã, ele e Henry estavam num avião rumo ao Rio de Janeiro para velar a avó.
Não havia conseguido dormir direito desde que recebera a notícia. Por mais que Henry tivesse lhe feito um chá de camomila para se acalmar, seu sono foi conturbado e agitado, ele acordara de hora em hora com a sensação de estar no limbo.
Henry tinha ficado o máximo de tempo acordado com ele, mas não demorou muito para o outro cair no sono em seu peito. Seu coração estava quebrado, mas pelo menos tinha seu amor ao seu lado e isso lhe servia um pouco de consolo.
Durante o voo, Henry não largou sua mão, acariciando-a com o dedão e lançando um sorriso de consolo quando Erick olhava para ele. Mesmo que não quisesse que o outro fosse, Erick se viu diante de uma teimosia que Henry não possuía, dizendo que não o deixaria sozinho de jeito nenhum, muito menos se tratando de voltar para o Rio de Janeiro e ser o velório de sua avó paterna.
Erick protestou, mas acabou cedendo ao ver a determinação do olhar alheio. Não queria envolver Henry naquela situação familiar, ainda mais que tinha quase 100% de chances de seu pai estar lá. Ele não queria submeter o outro à companhia daquele homem, mas não tinha jeito.
De qualquer forma, Erick estava determinado a enfrentar seu pai por Henry.
Se hospedaram num hotel barato e tiveram um tempo juntos antes de o velório começar. Ficaram na cama, conversando amenidades, Henry tentando ao máximo distrair a cabeça de Erick.
— Eu to com medo – confessou Erick, cortando a fala de Henry.
O outro o encarou com aqueles olhos castanhos que lhe tiravam o fôlego.
— Não precisa ter medo – disse Henry, pegando a mão de Erick e apertando-a com força. – Eu estou aqui com você.
— É justamente por isso que estou com medo. – ele soltou o ar – Tenho medo do que meu pai pode fazer… Não sei se estou pronto para encará-lo… Depois de tudo o que aconteceu.
— Você é forte, amor – Henry pegou os dois lados do rosto de Erick, obrigando-o a encará-lo. Uma batida falhou em seu coração ao seu chamado de “amor”. – Você vai conseguir passar por isso e eu vou estar do seu lado pra te apoiar e brigar por você.
Um sorriso triste apareceu nos lábios de Erick, que foram beijados com ternura. Eles trocaram um beijo calmo e doce, o coração de Erick sendo confortado pelo carinho e pelo aconchego que havia ali em Henry.
Não demoraram muito, pois tinham que almoçar e se arrumar para estarem no velório às 14h. Iriam se encontrar com Nathália e Douglas num restaurante próximo e dali seguiriam para o local.
Estavam esperando Nathy e Doug no restaurante e o coração de Erick se encheu de alegria ao ver a irmã. Fazia muito tempo que não se viam ou conversavam direito. A vida corrida de ambos impedia um contato maior e ele estava feliz em vê-la novamente, mesmo que em uma circunstância não muito alegre.
— Eu tava morrendo de saudades – ele disse pressionando o corpo contra o da irmã com força quando se aproximaram. – Você não sabe o quanto é bom te ver.
Nathália fungou e limpou as lágrimas que ameaçavam sair de seus olhos claros. Ela retribuiu o abraço do irmão e Erick sentiu-se uma criança novamente.
— Sei sim – ela disse, a voz completamente tristonha – Eu também senti sua falta. Meu Deus, como é bom ter você por perto.
Eles trocaram algumas palavras de consolo. Logo Nathy cumprimentou Henry e Douglas cumprimentou Erick. O almoço fora descontraído por mais que a aparência de Nathy e do próprio Erick fosse de derrota. Estava triste, muito triste, mesmo que a presença de Nathy e Henry amenizassem aquilo.
Ele se imaginou sozinho naquela situação. Tinha certeza que surtaria se isso acontecesse. Mas estava cercado de pessoas que amava e que amavam ele, então estava tudo bem. Iria ficar tudo bem de uma forma ou de outra. Tentava pensar ao máximo que sua avó estava num lugar melhor.
Logo que terminaram, pediram um Uber para o local onde seria o velório. Erick estava tenso, a cada minuto que se passava estava mais perto de encarar seu pai e a figura falecida da avó. Se perguntava se seria capaz de aguentar tantas emoções de uma vez só e, como se respondesse, Henry lhe deu um beijo no ombro e apertou sua mão.
Ele retribuiu o aperto e beijou a testa dele, sendo acalmado pelo carinho. Não demorou muito para chegarem. Erick logo reconheceu algumas amigas de Igreja da avó, assim como alguns parentes com os quais não tinha muito contato. Para sua sorte, o pai ainda não tinha dado as caras.
Chegaram perto do caixão, onde o corpo da avó estava sendo velado na sala específica da Igreja. Lágrimas brotaram dos olhos de Erick. Fazia muito tempo que não via a avó e vê-la a última vez daquela forma doía. Mesmo que ela parecesse estar em um sono profundo, a consciência de que ela não abriria mais os olhos pesava em seu peito.
Henry apertou sua mão, lançando um sorriso triste e consolador para ele quando Erick o olhou de lado. Ficaram ali, recebendo os cumprimentos e os pêsames das pessoas que apareciam para velar o corpo. Ficou o tempo todo abraçado a Nathy, o calor do corpo da irmã lhe acalmava como sempre acalmou e estar com ela era consolador.
Erick estranhou o fato do pai não ter aparecido, mas suspirou aliviado por não ter que encará-lo.
Após algum tempo, o caixão foi fechado e levado para o sepultamento. Erick e Henry foram ao banheiro enquanto levavam o caixão para a cova e quando voltaram, Erick estagnou.
Seu pai estava em pé do outro lado da cova, encarando-o. Erick engoliu a seco e desviou o olhar. Ficou perto de Nathy, pegando sua mão e apertando-a. Ela apenas apertou de volta, conseguia sentir a tensão que emanava dela. Iria proteger sua irmã das garras de seu pai, com todas as suas forças.
Durante todo o sepultamento, Erick não conseguiu relaxar. Não conseguia prestar atenção em mais nada a não ser na sensação de que estava sendo encarado. Não conseguia pensar em mais nada a não ser no pai ali, do outro lado, a poucos metros dele e de Nathália.
Só se tocou que o sepultamento tinha terminado quando Henry apertou seu ombro para que eles fossem embora. Erick deu uma última olhada para o pai e virou as costas, o coração martelando no peito descontroladamente.
E aquela voz chamando seu nome foi o gatilho para Erick estagnar novamente.
— Não vão falar com o pai de vocês? – Anderson estava a alguns passos deles. Se esticasse o braço, poderia tocar Henry.
Em um movimento praticamente involuntário, Erick passou a frente do namorado e percebeu Nathália fazendo o mesmo com Douglas.
— Que pai? – ela disse irônica, fuzilando o homem com os olhos.
— Não foi essa educação que eu dei pra vocês.
— Tem razão, não deu educação nenhuma. – rebateu Nathy. – O que você quer?
— Conversar – disse Anderson, ignorando as palavras ácidas da mulher. – Só conversar.
— Não temos nada para conversar – sentenciou Nathália ferozmente. – Vamos, Erick.
Nathy pegou em seu braço, mas Erick apenas ficou parado, encarando o pai. Não sabia o motivo, mas tinha a sensação que deveria conversar com ele. Sempre sentiu que a situação não estava resolvida e ele precisava colocar um ponto final nisso.
— Vão na frente – ele apenas disse, lançando um olhar significativo para a irmã, que engoliu em seco e bufou.
— Tem certeza? – perguntou ela, Erick apenas assentindo com a cabeça.
Lançando um último olhar fulminante para Anderson, Nathália virou as costas, pegando a mão de Douglas e tirando-o de lá. Henry ficou, mesmo que Erick estivesse se referindo a ele também quando pediu para irem na frente.
— Não precisa ficar – disse francamente. Henry apenas segurou sua mão e negou com a cabeça. Podia ler totalmente a expressão dele “estamos juntos nessa”.
— Então é verdade? – a voz de Anderson tinha um nojo palpável. – Queria ter certeza que era só um equívoco quando vi aquele vídeo, mas aparentemente não. Depois de tudo o que eu fiz por você, Erick…
— O que? Me espancado? Estuprado minha irmã na minha frente? – foi a vez de Erick soltar com ironia. – Eu só queria uma família normal.
Anderson pareceu realmente surpreendido com o que acabara de ouvir.
— Eu que queria um filho normal! – rebateu. – Eu fiz de tudo pra você não ser assim!
— Pois bem, pai. Não foi o melhor método.
— Como você pode… – Anderson respirou fundo, parecendo tentar se acalmar. – Isso vai ser tão ruim pra sua carreira no vôlei… Você já viu isso. Ser assim vai destruir sua vida.
Erick parecia não acreditar mesmo no que estava ouvindo. Nunca tinha visto o pai controlando a raiva daquele jeito. Era como se ele realmente tentasse fazer com que Erick acreditasse nele.
— Sua avó pediu para que conversássemos. Antes de partir. – ele olhou na direção de Henry, como se quisesse expulsá-lo dali. – Posso ter uma conversa particular com meu filho?
— O que você tem a dizer pode ser dito na frente dele – Erick disse convicto, apertando a mão de Henry, mas não o olhando. – Ele vai ficar.
Anderson pareceu um tanto contrariado, encarou Erick por alguns segundos, deixando-o um tanto impaciente.
— Então você vai pedir desculpas por tudo o que fez? – perguntou Erick.
Um silêncio caiu sobre eles. Erick sentia o olhar firme do pai sobre si e estava determinado a devolver o olhar. Sentia perfeitamente o calor da mão de Henry na sua. Sentia sua presença e sabia que era aquilo que estava mantendo-o em pé, mantendo-o forte para encarar o pai.
— Não acho que um pedido de desculpas seja apropriado, mas gostaria que você me perdoasse. – ele disse, surpreendendo Erick completamente.
— Perdoar?
— Sim. Você pode vir morar comigo. Eu estou livre das bebidas. Perder sua mãe foi difícil, filho. Eu estou disposto a te aceitar, ajudá-lo a apagar essa imagem ruim que você criou na mídia. Te ajudar no vôlei…
Erick sentia que vinha um “mas”, então ficou calado, esperando o pai continuar. Anderson olhou para Henry, dos pés a cabeça, como se avaliasse se o namorado era digno ou não de dividir o mesmo ar que ele.
— Você aceita? – perguntou Anderson – Sei que você gosta do Rio.
Erick apenas balançou a cabeça minimamente. Não sabia o que pensar sobre isso. Era tanta coisa, tanto gatilho, tanto peso… Um misto de emoções explodia em seu peito. No passado, sempre quisera agradar o pai, ter seu afeto, seu amor. Mas depois de tudo o que passou… Valeria a pena?
— E Henry? – foi a única coisa que Erick falou, deixando Anderson aparentemente confuso.
— O que tem ele?
— Você vai aceitar nosso relacionamento? –Erick nem estava acreditando que estava falando aquilo. – Vai aceitar que eu estou namorando um homem?
— Erick, seja razoável… – começou Anderson, aproximando-se dos dois. – Tem muitas mulheres bonitas que você pode se relacionar… Sei que não é isso que você quer.
Ao dizer a palavra “isso”, Erick notou o olhar lançado a Henry e o sentido pejorativo que aquilo significava. Anderson poderia parecer mais calmo e com a cabeça um pouco no lugar, mas não aceitaria Erick como ele era. Nunca aceitou e nunca aceitaria. Erick foi tolo em achar que o pai tinha mudado.
— Tenho total certeza do que eu quero – Erick levantou a voz e o rosto, convicto – Henry e eu estávamos namorando, quer você queira ou não. É o que sou. O que sempre vou ser. Você querendo ou não.
— Erick, você não pode jogar sua vida fora assim…
— Minha vida foi pro lixo quando você me bateu. Quando você espancou minha mãe. Quando tentou me matar. Seu próprio filho! – sua voz ia ficando mais alta, mas a emoção que sentia era forte demais para deixar quieta. – Eu não joguei minha vida fora. Você que tornou ela um inferno.
A raiva apareceu no semblante de Anderson. Agora parecia mais como o homem que era antes. Mas Erick não tinha mais medo. Não era mais um moleque assustado, que temia o pai.
— Você não pode falar assim comigo – rebateu Anderson. – Eu ainda sou seu pai. Você deveria ter vergonha disso!
— Você que tinha que ter vergonha do monstro que é! – Erick praticamente gritou. – Você não tem alma. Não tem amor. O que você fez que é vergonhoso, que é abominável, repugnante…
Erick poderia continuar, mas o aperto da mão de Henry fez com que parasse. Eles se encararam por um segundo, o que foi o suficiente para acalmar um pouco o coração de Erick.
— Eu não tenho pai – finalizou. – Você nunca foi um e é tarde demais pra tentar.
Então virou as costas, puxando Henry consigo. Erick pode ouvir o “você vai se arrepender disso!”, “você é um ingrato!”, mas não olhou para trás.
Pela primeira vez, sentia-se leve com relação à situação com o pai. Tinha que cortar aquele laço mal amarrado que havia entre eles. Erick precisava expor seu coração para que pudesse ter paz. Anderson realmente nunca foi um pai para si e agora tinha afirmado isso com todas as letras. O vínculo de sangue parecia ter sido quebrado.
E Erick podia se sentir finalmente livre.
[...]
Henry nunca se sentiu tão tenso na vida quanto naquela conversa.
Agora que sabia o que Anderson tinha feito, só o fato de ouvir o nome do outro uma raiva subia de seu estômago. Tinha vontade de avançar em cima do homem e fazê-lo pagar por tudo de ruim que tinha feito Erick passar. Mas obviamente não podia fazer aquilo, primeiro que estavam num lugar totalmente inapropriado, segundo que não conseguiria fazer nada contra um homem daqueles.
Mas a força e determinação de Erick lhe deixaram surpreso. O namorado enfrentou o pai de maneira tão esplendorosa, que Henry não podia ficar mais feliz por ele. Alguns vínculos eram difíceis de serem quebrados e Erick conseguiu fazer aquilo, mesmo que depois de chegarem ao hotel o outro tenha se debulhado em lágrimas.
Henry apenas o segurou, abraçou o namorado com força e ficaram assim até Erick dormir. Podia sentir a leveza do outro, como se tivesse se livrado de um fardo muito grande e pesado que passou esse tempo todo segurando. Erick disse o quão aliviado estava, mas que se sentia um pouco culpado por aquilo e não queria se sentir assim. Chorou também pela avó, chorou pela mãe, chorou por tudo. E agora parecia leve.
Ao voltarem para São Paulo, Erick andava tendo pesadelos com tudo o que tinha passado. Não era de impressionar que estivesse para baixo, então Henry ficou ao lado dele a todo momento nos dias que se seguiram.
Mas havia algo que poderia deixá-lo melhor.
— Arruma as malas, vamos viajar – disse Henry para Erick, que estava jogado no sofá assistindo alguma coisa.
— Não quero… – resmungou, sem olhar para Henry.
— Sei que quer, é um lugar que você gosta – insistiu, sentando no sofá após afastar as pernas de Erick. – Marge disse que podemos ir pra casa de praia nesse final de semana.
Aquilo pareceu despertar a atenção do namorado.
— Como nos velhos tempos? – perguntou. Henry sorriu.
— Como nos velhos tempos. Só nós três, jogando vôlei, tirando fotos e aproveitando a praia.
Não precisou insistir mais, pois Erick levantou do sofá já animado e indo para o quarto preparar as coisas. Combinaram os detalhes e horários e em poucas horas estavam na rodoviária.
— Há quanto tempo não fazemos isso? – perguntou Erick assim que se acomodaram nos bancos do ônibus.
— Acho que desde que você se mudou – disse Henry, tentando lembrar-se da última viagem deles.
De fato tinha sido antes da mudança de Erick. Desde sempre eles passavam um tempo na casa de praia da avó de Marjorie. Havia ido para lá outras vezes, mas sentia falta de Erick com eles. Apenas os três, longe dos pais e tendo a avó da garota para cuidar deles e fazer comidas maravilhosas que só avós sabem.
Henry sentia saudades dessa época. Tudo parecia tão mais simples e mais de boa. Ele não era muito de gostar de praia, mas acabou gostando de lá por conta das lembranças nostálgicas que lhe trazia. Cabo Frio era um lugar gostoso e reconfortante.
Estava fazendo de tudo para esquecer o fato de que estava, basicamente, desempregado. Mesmo que isso tivesse chances de ser resolvido em breve, ainda precisava da resposta de Erick sobre voltar para Belo Horizonte e, mesmo que tivesse dado um prazo ao namorado, não iria pressioná-lo. Ainda mais depois de todas as coisas que passaram, eles precisavam respirar um pouco.
A viagem foi bem tranquila, ainda mais por ser de madrugada. Eles dormiram num emaranhado de braços e pernas, mas estavam confortáveis. Não demorou muito para chegarem ao destino e quando chegaram à rodoviária na manhã do dia seguinte, Marge já os estava esperando.
— Caralho, eu nem acredito que estamos fazendo isso de novo! Depois de tantos anos – ela exclamou, abraçando os dois meninos juntos – Mal posso esperar pros registros fotográficos.
— Também estava com saudades – Erick sorriu para ela.
Rapidamente foram até o carro de Marge, onde passaram o percurso todo conversando, cantando e contando piadas. Henry não sabia que sentia tanta falta de ter seus dois melhores amigos juntos, que sentia falta do trio maravilha.
Chegaram ao complexo de casas com estrada de terra em poucos minutos. A fachada da casa da avó de Marge estava como viram no último carnaval que passaram ali. Entraram pelo portão e atravessaram o jardim gramado até a porta da casa.
— Meu Deus, como vocês dois cresceram! – foi a reação de dona Neusa quando viu os meninos. – Erick, meu querido! Cresceu mais do que o normal.
— Só um pouco, tia – sorriu Erick.
Dona Neusa abraçou e beijou a bochecha dos dois, dando benção a eles e chamando-os para tomar café da manhã que ela havia acabado de preparar. Sentaram à mesa para comer e conversar.
— Vózinha do céu! – exclamou Marge animada. – Esses dois finalmente tão namorando.
Dona Neusa arregalou os olhos, assim como Henry e Erick. Porém, o que veio a seguir os surpreendeu.
— Finalmente, né? – ela disse e sorriu – Marjorie fala tanto que vocês deveriam namorar que pensei que iria morrer sem ver vocês dois juntos. Meus parabéns, meus queridos.
Henry soltou o ar dos pulmões. Nunca tinha pensado no que dona Neusa acharia do namoro deles. Sabia que ela aceitava a bissexualidade de Marjorie, mas nunca se sabia.
— Obrigado, tia – disse Erick, também parecendo aliviado.
— Onde está o tio Joaquim? – perguntou Henry, tentando desviar do assunto.
— Ih, meu filho, ele ta fazendo um tratamento pra coluna e teve que ficar em Vitória com a Vivianne – dona Neusa falou. – Inclusive, Marjorie, sua mãe pediu pra você ligar pra ela.
— Posso ligar mais tarde?
— Agora, mocinha – respondeu a avó, fazendo Marge bufar e sair da mesa. – Vocês podem ficar à vontade, tenho que terminar de limpar a piscina pra vocês.
— Nós podemos ajudar – comentou Erick, mas dona Neusa apenas dispensou os dois com a mão.
— Vão descansar, viagem de ônibus é sempre muito ruim.
Então ela saiu da sala de jantar, deixando os dois sozinhos. Eles comeram e conversaram mais um pouco, fizeram a higiene matinal e depois seguiram para o quarto que dividiriam.
— Será que ela vai se importar? – perguntou Erick, um tanto preocupado.
— Com o quê? – Henry franziu o cenho na direção do outro.
— A gente dormindo junto – respondeu Erick – Quero dizer, ela sempre separou as meninas dos meninos, então sei lá…
— Bom, ela não disse nada – então Henry lançou um olhar malicioso para o namorado. – O que significa que podemos fazer isso…
Jogando Erick na parede e puxando-o para si, Henry beijou a boca do namorado com vontade, deixando-o sem fôlego. Erick pareceu um pouco surpreso, mas retribuiu o beijo com a mesma vontade.
Acabaram entrando no quarto aos tropeços, largando as mochilas em qualquer lugar e Henry empurrou Erick na cama, subindo em cima dele e lhe enchendo de beijos pelo rosto, fazendo cócegas.
— Socorro, eu vou morrer! – disse Erick rindo e tentando se desvencilhar do outro.
— Não gosta dos meus beijos! Não quer o meu amor! – dramatizou Henry, colocando o braço na testa teatralmente.
— Sempre quero seus beijos e seu amor – respondeu Erick, puxando o outro para seu lado e o abraçando.
Henry beijou o nariz de Erick e Erick beijou o queixo de Henry ao mesmo tempo. Eles riram e ficaram se encarando em silêncio. Henry só podia estar no céu.
— Eu te amo, viu? – ele disse, acariciando o rosto de Erick. – Nunca se esqueça disso.
Erick chegou mais perto, abraçando com força e sussurrou em seu ouvido que também o amava. Não precisava de muito para fazer o coração de Henry disparar. Podia ficar ali para sempre.
Quando estavam prestes a se beijar novamente, Marge apareceu no quarto e se jogou na cama em cima deles.
— Sem safadeza aqui – zoou – O que vamos fazer? Querem ir pra praia ou ficar na piscina? Tava pensando em ir pra Búzios amanhã e ficarmos por lá o dia todo. Ah, quero atualizar nosso álbum de fotos, então já sabem.
— Búzios parece uma boa – comentou Erick, pensativo.
— Fotos de casal também, por favor – ela disse – Preciso de uma dose de alegria açucarada vinda de vocês pra minha vida fazer sentido.
— Dramas amorosos? – perguntou Henry rindo.
— Dramas amorosos – bufou a garota – Bissexual não tem um segundo de paz, não é possível.
— O B de LGBT não era de biscoito? – brincou Henry apertando o nariz de Marge.
— Quem dera eu ser um biscoito, viado. Muito mais simples. – bufou ela, – Pelo menos eu seria comida.
— Marjorie! – exclamou Erick, com as bochechas levemente avermelhadas de vergonha.
Ela sentou na cama e olhou para os dois, de forma analítica.
— Você ainda não corrompeu nosso anjinho? – ela perguntou se dirigindo para Henry, que arregalou os olhos e ficou corado.
— Isso não é da sua conta – Erick deu língua pra ela, mas estava igualmente envergonhado.
— Lógico que tem, vocês são quase meus filhos – ela disse apertando ambas as bochechas. – Meus irmãos mais novos, minhas preciosidades! Eu criei vocês!
— Meu Deus – riu Henry.
— Só digo verdades – ela deu de ombros e levantou-se da cama – Enfim, se arrumem que vamos sair, preciso de um sol antes que eu fique transparente. Saímos daqui a 20 minutos.
— Queria ficar mais um pouco agarradinho com você – comentou Henry, virando-se pra Erick.
— Também, mas a patroa mandou, a gente só obedece.
Henry bufou, revirando os olhos, mas não estava irritado nem nada. Já havia se acostumado há séculos com a personalidade de Marge, então dificilmente ela conseguia tirá-lo do sério.
Então eles se levantaram e começaram a trocar de roupa. Já estavam acostumados a trocar de roupa na frente um do outro. Desde pequenos faziam isso e agora que namoravam oficialmente, não foi nenhum problema para realizarem esse ato. Às vezes Henry percebia que o outro ainda tinha um pouco de vergonha por conta das cicatrizes, mas sempre que via isso, Henry ia até o namorado e começava a beijar cada cicatriz naquele corpo.
Finalmente arrumados, eles encontraram Marge no portão e seguiram para a praia que havia ali perto. Conversaram o caminho inteiro e quando chegaram, deram a sorte de a praia estar quase vazia. Eles arrumaram uma barraca e Marge foi logo tirando a roupa e jogando protetor solar em cima de Henry.
— Quer que eu passe em você também? – ele perguntou para Erick, que permanecia um pouco desconfortável. – Estamos isolados, ninguém vai ver, amor.
Eles trocaram um olhar significativo, aquele de apoio e conforto. Erick então assentiu e tirou a blusa, deixando Henry sem fôlego. Podia vê-lo quantas vezes fosse, aquela vista era sempre de tirar a respiração de qualquer um. Henry deu um beijo na bochecha de Erick e voltou a espalhar o protetor nas costas de Marge.
Protegidos e hidratados depois de Marge enfiar uma garrafa de água na mão de cada um, eles ficaram aproveitando o sol e a brisa. Paz era a palavra perfeita que definia o sentimento de Henry naquele momento.
— Sorriam – disse Marge de repente, com a câmera na mão e apontando para os dois.
Então começaram a sessão de fotos. Henry gostava de ser modelo da amiga e estar posando junto com Erick era melhor ainda. Fizeram várias fotos incríveis, várias zoadas e outras fofas que dariam diabetes em qualquer um.
E fazia séculos que Henry não se sentia tão feliz. Era inexplicável o quanto riu até sua barriga doer. O quanto deixou seu lado criança brincar na água e enterrar Erick na areia. Quantas vezes os três rolaram na areia, rindo e brincando como se fossem crianças outra vez.
— HORA DO VÔLEI, CARALHO – Marge gritou animada, tirando a bola da bolsa.
Jogaram até cansar e aproveitaram para tirar mais algumas fotos. O moço do picolé estava passando no exato momento em que os três estavam exaustos.
— Alerta gato – Marge comentou – Sem surto.
Henry não pode confirmar o que a amiga disse, só conseguia ver uma mancha alongada vindo na direção deles. Ele espremeu os olhos para tentar enxergar alguma coisa, mas seus óculos estavam na bolsa e era impossível ver àquela distância.
— Oi! Vi que vocês estavam… – o garoto finalmente entrou na vista de Henry e também parou de falar, olhando para o namorado. – Erick?
Um silêncio constrangedor caiu sobre eles. Erick parecia um pouco em choque e Henry tentava descobrir o que estava acontecendo. Ele achava o garoto familiar, mas não se lembrava do outro. Tentou controlar um pouco do ciúmes que lhe atingiu.
— Uau, você tá bem diferente – disse o garoto com um sorriso no rosto. – Não te vejo desde… Aquilo.
— Eu… – Erick começou, mas então olhou para Henry como se pedisse ajuda. – É, faz muito tempo.
O silêncio voltou. Henry esperava que Marge fizesse alguma piadinha para quebrar o clima, mas a garota ficou calada, como se quisesse ver o circo pegar fogo. E conhecendo-a, ela queria mesmo.
— Não vai nos apresentar o seu amigo, Erick? – Henry quebrou o silêncio, tentando manter a voz neutra, mas pela cara de Erick e Marge, falhou miseravelmente.
O namorado engoliu em seco, mas conseguiu voz para falar.
— Henry, esse é o Emerson. Um… ham… Amigo do Rio.
Aquele nome também lhe era familiar e tudo fez mais sentido ainda quando Emerson arregalou os olhos para Henry.
— Aaah, nós já nos conhecemos – ele disse – Não te reconheci sem óculos.
Tentou puxar da mente onde conhecia aquele garoto e deveria estar fazendo careta para isso, mas Emerson foi logo se pronunciando.
— Eu meio que dei em cima de você numa festa aqui em Cabo Frio – por mais sem graça que ele parecesse, continuou – E conversamos sobre Erick quando você falou seu nome e eu soube quem você era.
Henry se lembrou imediatamente e foi a vez de Erick arregalar os olhos em surpresa.
— Isso é bem estranho – confessou Erick.
Ele imediatamente lembrou-se do dia que acabou jogando muita coisa na cara de Erick. Se arrependeu novamente daquilo, mas tentou deixar de lado e concentrar-se no que estava acontecendo.
— Estão finalmente namorando? – Emerson perguntou.
— Sim – respondeu Erick com a voz meio tensa.
Henry sentiu o quanto o namorado estava um tanto quanto paralisado e ficou ainda mais quando Emerson começou a analisar o corpo do outro, com certeza percebendo as cicatrizes.
— Isso é legal – ele disse, desviando o olhar de Erick e sorrindo – Fico feliz por vocês dois.
— Obrigado – Henry agradeceu, mesmo sentindo-se um pouco estranho com aquilo.
O silêncio caiu novamente sobre eles, deixando o clima ainda mais esquisito.
— Bom, iria perguntar se podia jogar com vocês, mas não sei se é uma boa ideia… Foi bom ver vocês de novo – Emerson disse, acenou e se virou para ir embora.
Antes mesmo que ele pudesse se afastar muito, Erick levantou-se e chamou o garoto, perguntando se podiam conversar.
— Tudo bem pra você? – perguntou Emerson na direção de Henry.
Erick lhe lançou um olhar como se pedisse permissão para terem uma conversa privada. Por mais que quisesse estar presente e estivesse sentindo um pouco de ciúmes, Henry apenas assentiu. Não era problema dele e sabia que Erick lhe contaria depois.
Então eles se afastaram depois de Erick vestir sua camiseta, deixando Henry e Marge sentados na canga da garota.
— Isso foi beeeeem surpreendente – comentou ela, depois de ficar o tempo todo apenas observando a situação.
— Ah, agora a bonita tem voz – ele disse ironicamente, tentando conter o sentimento de ciúmes dentro de si.
— Eu é que não vou me meter nesses rolês, prefiro ficar só de espectadora – ela deu de ombros.
Henry ignorou a amiga, vendo seu namorado à distância, imaginando o que estaria conversando e que tipo de sentimento ele tinha por Emerson. Fez o máximo que pôde para deixar a insegurança de lado, mas era inevitável. Tinha que admitir o quanto Emerson era bonito e simpático.
— Vou pegar uma água de coco – ele disse, levantando rapidamente e se afastando, tentando ao máximo conter aqueles sentimentos ruins.
Caminhando até o quiosque, Henry ficou pensando o que eles estavam conversando. E se Emerson agarrasse Erick? E se Erick tivesse sentimentos pelo garoto? Não tinha motivo para pensar dessa forma, mas sua insegurança falava mais alto. Sentir ciúmes era uma sensação horrível e ele não queria se sentir assim.
Porém, já era tarde demais.
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