Além das Quadras

29 Arco III – 29. Vai ficar tudo bem


Notas iniciais
Olá amores e amores! Como cês tão? Finalmente entramos no terceiro e provável último arco da história Espero que vocês gostem desse novo arco! Então deixem nos comentários o que acharam! To me organizando para responder todos vocês Enfim, espero que gostem! Boa leitura Ghost Kisses ~Marceline

Capítulo 29: Vai ficar tudo bem

— Você... Ahm... Não deveria se vestir? – Henry perguntou depois de um tempo em silêncio.

A verdade era que não aguentava mais olhar para aquela perdição que era o corpo de Erick. Mesmo com todas as cicatrizes, seu corpo era tudo o que Henry desejava. E já que iriam morar juntos, ele não podia ficar tendo aquele tipo de pensamentos.

— Ah, sim – Erick disse meio sem graça, coçando a nuca, mas não saindo do lugar.

Mais um momento de silêncio.

E de constrangimento por parte de Henry, que sentia suas bochechas ficarem quentes.

— Então?

— Sim, certo... Roupas – Erick balançou a cabeça devagar, virou-se e entrou em seu quarto.

Henry soltou o ar que estava segurando. Sua primeira reação após isso foi passar uma das mãos no rosto, como se aquilo fosse lhe dar algum tipo de luz para resolver o problema.

Não que morar com Erick fosse um grande problema... Okay, poderia não ser um problema para o outro, mas para Henry não era algo que estava exatamente preparado.

Sem pensar muito, procurou o número da mãe na lista do WhatsApp e ligou para ela, esperando que a mulher atendesse. Enquanto o celular tocava, Henry entrou em seu quarto e jogou-se na cama.

— Surpreeeeeeesa! – a mãe atendeu com empolgação.

— Surpresa, mãe? – ele respondeu indignado. – Por que você não me contou que faria uma coisa dessas?

— Uai, porque senão não seria surpresa, né cabeção? – respondeu Cassandra com aquele tom de “você é burro?” que só o “uai” tinha. – Achei que você ia gostar de morar com seu melhor amigo.

Aquilo calou Henry por alguns segundos. Não que desgostasse da ideia, até porque já se imaginara muitas vezes morando com o outro diante de tantos planos que tinham juntos quando eram mais novos. Mas naquela época tudo era diferente e no presente, Henry não tinha certeza se aquilo era realmente uma boa ideia.

— Eu não sei o que sentir a respeito – confessou ele rodando o anel em seu dedo. – Só... Não é mais a mesma coisa, mãe.

— Eu sei, eu sei... Vocês ficaram muito tempo separados e isso afetou a amizade de vocês – Henry queria mesmo que fosse apenas o tempo ou a distância – Mas essa é uma oportunidade de vocês recuperarem a amizade linda que tinham.

Aquilo era verdade. Debaixo do mesmo teto, não tinha como não conversarem e acabarem formando algum tipo de ligação, fosse ela boa ou ruim. Mas Henry não estava psicologicamente preparado para aquilo.

— Eu sei... Mas você poderia ter me contado, sabe? – ele disse meio triste – Eu só queria ter me preparado psicologicamente pra isso.

— Tudo bem, talvez eu tenha errado em não te contar – apesar das palavras, a voz da outra não parecia culpada. – Eu só queria ajudar a Dri. O Erick foi contratado pro mesmo clube que você, mas ele não poderia ir por conta de dinheiro. Então eu ofereci para ajudar nas despesas e sugeri que vocês dividissem o apartamento, assim podem dividir as contas com os salários de vocês.

Henry não prestou muita atenção após as palavras “contratado pro mesmo clube que você”. Aquilo fez seu coração falhar uma batida e perceber que estaria mais em contato com Erick do que imaginava. Ele nem precisava mais se questionar porque o outro estava em São Paulo.

Além de estarem no mesmo teto, estavam no mesmo time de vôlei.

— Você é tão boazinha... – disse Henry sendo sincero.

— Não sou? – Henry podia ver o sorriso de convencimento da mãe. – Bom, vou deixar você descansar. A viagem foi tranquila? Nós devemos ir ai mês que vem ou no próximo.

Então começaram a conversar sobre a viagem, o que não durou muito, já que Henry estava verdadeiramente cansado. Dando um tchau para a mãe, Henry largou o braço com o celular na cama com um suspiro.

Ficou olhando para o teto branco por algum tempo até Erick bater na porta.

— Ahm... Eu vou pedir uma pizza – comentou no batente da porta – Você quer qual sabor?

— Ah, não se preocupa – Henry levantou o tronco e olhou para o outro – Eu me viro com outra coisa, pode pedir o que quiser.

— Tem certeza? Eu não vou comer a pizza sozinho e também eu já vou pedir mesmo – deu de ombros e lançou um sorriso que matou Henry por dentro – Amanhã podemos fazer compras.

— Compras... – repetiu Henry. Não estava muito acostumado com aquele tipo de coisa, mas se quisesse não viver apenas de fast food, teria que fazer compras. – Não sou muito bom nisso, mas...

— Ah, que isso! Não é tão difícil assim, você vai ver – Erick sorriu de novo.

Então o silêncio caiu sobre eles, sendo quebrado, segundos depois, por Erick.

— Bom, se me lembro bem, frango com catupiry, certo? – por algum motivo, Henry sentia uma animação na voz do outro, como se ele tivesse muito empolgado com a ideia de eles morarem juntos.

Deixou o pensamento pra lá, não era muito de confiar nas suas paranoias. Mas foi um pouco difícil, pois ele ficou um tanto quanto impressionado com o fato de Erick lembrar-se do seu sabor de pizza favorito.

— Desde sempre – confirmou Henry sorrindo de lado, mas logo tratou de tirá-lo do rosto. – Mas você realmente não precisa pedir nada pra mim.

— Ei, eu to oferecendo – Erick respondeu calmamente – Tá tudo bem, de verdade.

Henry maneou a cabeça lentamente, aceitando a pizza. Então Erick disse que iria pedir e saiu da porta do quarto. Ele jogou-se novamente na cama, cobrindo o rosto com as mãos, sufocando o pequeno ataque de fofura que estava tendo. Nunca imaginou que poderia estar numa situação daquelas.

Mas estava e precisaria de todas as suas forças para que tudo ficasse bem.

[...]

Erick não queria admitir, mas assim que contou tudo o que estava acontecendo para Amanda, ele surtou de felicidade.

Sua carreira no vôlei estava indo pra frente e ele estava conseguindo seguir o sonho que há muito tempo tinha em mente. Ele havia pensado em desistir de tudo quando as coisas ruins começaram a acontecer em sua vida, mas o vôlei, de certa forma, era seu porto seguro. Jogar aliviava toda a tensão, angustia, medo, estresse... Tudo era aliviado quando jogava e ele sentia-se nas nuvens, como se nada de ruim pudesse tocá-lo.

E por mais que fosse sempre doloroso voltar para a vida real, ele seguiu em frente. Tirou forças de Amanda, Danilo, sua mãe e de Nathália para continuar, pois nenhum deles deixou ele desistir. Mesmo nos piores momentos.

Lá estava ele. Mesmo que ainda fosse reserva do time profissional, estava em um time profissional. Agora só precisava mostrar suas capacidades e habilidades para se provar bom o suficiente para ocupar o posto de titular.

Teria uma longa caminhada pela frente e por uns minutos, pensou que estava sozinho nessa. Mas quando Henry apareceu em seu campo de visão e trombou em si, ele soube que esse seria o momento de seu auge. Ou pelo menos era o que ele queria.

Os primeiros dias foram meio bizarros. Era como se fossem estranhos morando na mesma casa. Bom, levando em consideração tudo o que tinha acontecido, poderiam considerar-se estranhos, mas quando Henry foi mostrando que ainda mantinha alguns gostos, como jogar videogame até tarde ou então reler Alice no País das Maravilhas todas as noites, Erick percebeu que o outro não era tão estranho assim para si.

Bastava saber se a recíproca era verdadeira. Mas ele sentia que não, pois percebia que Henry o evitava o máximo possível.

Parecia que Henry fazia questão de sair sempre que Erick estava em casa, sem avisar para onde iria ou que horas voltaria. Não que dissesse respeito a Erick, mas ele estava começando a ficar preocupado.

Sempre que ambos estavam em casa, Henry ficava muito tempo no quarto com a porta fechada, ao passo que Erick deixava a porta aberta para ver alguma movimentação, já que os quartos eram um de frente para o outro. Talvez fosse um pouco stalker da sua parte, mas ele estava preocupado com Henry de verdade.

Percebia que Henry mal se alimentava. Ele comia, porém era sempre alguma comida pronta e processada. Erick tentava oferecer o que fazia para o outro, mas quando terminava de cozinhar, Henry já estava enfurnado no quarto ou então tinha saído.

Podia parecer bobeira, mas Erick queria que Henry comesse o que ele preparava. Gostava de cozinhar e com isso vinha o prazer de ver a reação das pessoas ao provar sua comida, coisa que nunca vira no rosto de Henry. E ele queria ver.

Erick fez algumas tentativas de oferecer algo a ele, mas sempre que ia no quarto do outro era a mesma coisa:

— Eu to jogando LoL, depois a gente se fala

Erick nunca detestou tanto League of Legends como passou a detestar naquelas semanas.

Quando entraram na segunda semana morando juntos, Erick simplesmente deu um basta no respeito a privacidade de Henry que estava tendo até então.

Ele bateu na porta do quarto de Henry, recebendo a mesma resposta. Mas dessa vez ele não ligou, abriu a porta do quarto e vendo que o outro estava jogado na cama mexendo no celular.

— Jogando LoL, né? – Erick disse com certo deboche.

Henry levantou os olhos para sua direção e Erick pode ver perfeitamente o quanto aquilo não o agradou.

— Ei! Isso é invasão de privacidade!

— Você anda mentindo pra mim por todos esses dias? – perguntou Erick ignorando completamente o que o outro havia dito.

— Você pode por favor sair do meu quarto, Erick? – Henry ficou de pé, caminhando apressado até a porta, pronto para fechá-la.

— Por que você tem agido assim? Por que me ignora e finge que eu não existo? – enquanto Henry tentava fechar a porta, Erick tentava mantê-la aberta. – Hein?

— Eu não sei! – respondeu Henry tão alto quanto Erick havia perguntado. – Eu não sei!

— Como assim não sabe? Alguém por um acaso está te obrigando a me ignorar?

— Não é isso, Erick

— Então é o quê? – ele já estava ficando chateado com aquela situação. Queria entender o que estava acontecendo. – Eu achei que iríamos voltar a ser amigos e tudo ia ficar bem, mas parece que você não quer isso!

Henry ficou em silêncio olhando para o chão. Eles tinham parado de disputar a porta e agora estavam frente a frente.

— Eu só queria entender o que está acontecendo – Erick quebrou o silêncio, fazendo Henry encará-lo com indignação.

— Ah, então agora você entende o que eu senti por todos esses anos – ele deu as costas, voltando a sentar-se na cama, mas de forma desconfortável.

Aquilo atingiu Erick de uma forma que ele não soube descrever. Henry tinha razão. Tinha deixado ele no escuro por tanto tempo... Não tinha o direito de pressioná-lo para falar qualquer coisa.

— Olha, me desculpa – ele disse com sinceridade, pois nunca quis realmente pressionar o outro. Sabia o quão ruim isso podia ser para ele. – É que eu estou mesmo preocupado com você... Eu só queria ajudar.

O silêncio caiu sobre eles mais uma vez. O clima era de tensão completa, como se nenhum dos dois conseguisse respirar.

— Eu realmente não sei, Erick – Henry quebrou o silêncio sem olhá-lo nos olhos. – Tudo que aconteceu entre a gente me marcou. Acho que estou só me protegendo de me magoar ainda mais. Não me culpe por isso.

Foi um baque. Ele sabia o quanto tinha feito Henry sofrer. Se odiava muito por tudo que fez com ele e com qualquer outra pessoa. Mas ele queria se redimir e precisava de algum modo para fazer aquilo.

Erick caminhou até a cama, sentando-se ao lado de Henry, que abraçava os joelhos e encarava o chão. Ele colocou a mão no ombro do amigo, o que o fez levantar a cabeça e olhá-lo.

— Eu sei que fui a pior pessoa do mundo pra ti – as palavras amargavam em sua boca, pois era verdade e nada podia desfazer aquilo – Mas eu quero que as coisas fiquem bem entre a gente. Eu quero me desculpar, me redimir, consertar a merda que eu fiz... Eu só preciso que você me dê uma chance.

Erick conseguiu ver o modo receoso que Henry lhe encarava, como se tivesse medo de dar uma chance a ele. Então Erick pegou a mão de Henry, a que tinha a pulseira da amizade deles.

— Eu não estava mentindo quando disse que você ainda é minha paz – ele disse convicto, mostrando ambas as pulseiras próximas. – Quero que as coisas voltem ao normal.

— As coisas não vão voltar ao normal, Erick – Henry respondeu, com um semblante triste, mas que logo desapareceu, dando lugar a algo mais compreensivo – Mas podemos ter um novo começo...

Por um segundo, o coração de Erick se partiu, mas ele logo se juntou ao ouvir aquelas palavras. Um sorriso enorme brotou de seus lábios e ele segurou as duas mãos de Henry, tendo a certeza que o outro o olhava.

— Então você vai me dar uma segunda chance?

— Quando eu não dou uma segunda chance pra você? – Henry riu e retribuiu o sorriso.

— Isso! Ai cara, você é demais – Erick empolgou-se e abraçou Henry apertado.

Queria gritar para os sete ventos que amava aquele garoto. Que faria de tudo para vê-lo feliz e bem. Mas tinha que se conter. Tudo era muito novo ainda, para os dois, então precisava ir com calma para não assustar Henry.

De forma desengonçada, Henry retribuiu o abraço de Erick, dando tapinhas em suas costas. Ele se afastou do amigo depois de um tempo.

— Então, o que veio falar comigo antes... Bom, antes dessa coisa toda.

— Ah sim! – Erick lembrou-se o que iria fazer – Vim te obrigar a comer.

— Mas eu to comendo.

— Não uma comida decente – argumentou Erick – Você está vivendo de fast food e comida industrializada! Isso não faz bem, ainda mais pra um atleta.

A reação de Henry foi um tanto inesperada para Erick, ele virou o rosto, como se tivesse com vergonha.

— Eu sei disso... Mas...

— Mas? – incentivou Erick.

— Eu não sei cozinhar, está bem? – resmungou Henry. – Fico surpreso de estar conseguindo fazer um miojo.

— Como assim?

— Não ria de mim, mas uma vez eu queimei o miojo

Erick se esforçou mesmo para não rir.

— Qual é! Eu lá sabia que era pra colocar a água primeiro?

— Meu Deus, Henry! Tá nas instruções – Erick não aguentou e acabou soltando uma risada, que fez Henry revirar os olhos e cruzar os braços como uma criança mimada.

— Eu não preciso de instruções – resmungou mal-humorado.

— Aparentemente precisa – Erick riu cutucando a bochecha inflada de Henry – Para a sua sorte eu sei cozinhar.

— Vai cozinhar pra mim? – os olhinhos de Henry brilharam.

— Com uma condição – Erick disse levantando-se da cama

— Que seria? – Henry perguntou.

— A louça é sua.

Henry não pareceu muito feliz com aquilo, mas acabou aceitando.

— É o mínimo que eu posso fazer né?

Então Erick saiu do quarto com um sorriso, dizendo que o chamaria quando a comida estivesse pronta.

Lembrando-se que o melhor amigo amava macarrão, Erick resolveu fazer um bem caprichado. Depois de quase uma hora, a comida estava finalmente pronta e Erick chamou Henry, que, para sua surpresa, tinha deixado a porta aberta.

— Aparentemente você não se esqueceu de nada a meu respeito – comentou Henry enquanto se servia do macarrão.

— É uma das minhas especialidades, espero que goste.

— Ui ui, chef Erick – Henry zombou com um sotaque francês falso.

— Quem é Erick Jacquin perto de Erick Moreira? – Erick entrou na brincadeira, servindo-se também.

— Idiota – riu Henry.

Eles se sentaram a mesa de granito que ficava na cozinha, Erick apenas esperando ver a reação de Henry.

— Não me encara assim, sou tímido

— Eu quero ver sua reação

— Você leva isso muito a sério hein?

— Pode ter certeza.

Falando um “ok, vamos lá”, Henry enrolou a massa no garfo e levou a primeira garfada a boca. Os olhos de Erick estavam vidrados no rosto de Henry e ele pode relaxar ao ver a expressão de prazer que o outro tinha.

— Caralho, isso é muito bom! – ele exclamou, partindo logo para a segunda garfada.

— Disponha – brincou Erick, sentindo-se muito bem.

Podia parecer coisa pouca, mas o fato de Henry ter gostado de sua comida, fazia com que Erick ficasse extremamente feliz. Talvez não tão feliz quanto quando soube que os dois iam dividir um apartamento, mas chegava perto. E após aquela conversa, as coisas estavam mais leves entre eles.

A tensão da primeira semana tinha sumido completamente. Agora estavam conversando bobagens enquanto saboreavam a comida de Erick. Parecia que nem tinham discutido horas antes.

Erick não queria admitir, mas, por mais que fosse algo bobo, aquilo aumentava as esperanças em seu coração.

[...]

Como não podia ser diferente, Henry não conseguia dormir por conta da ansiedade.

Tinha ido deitar cedo, por volta das 22h e estava rolando na cama fazia 3 horas. Ele já estava acostumado com isso, já que a ansiedade atacava toda vez que algo novo estava para vir. Mas naquele dia era o que ele não poderia ter uma crise ou algo do tipo, já que no dia seguinte seria seu primeiro treino no time novo.

Mesmo tomando um remédio para dormir, o nervosismo e pensamentos de que tudo podia dar errado naquele treino invadiam sua mente, fazendo com que ficasse acordado por muito tempo.

Quando finalmente não aguentava mais, desistiu de tentar dormir, pegou seu travesseiro e sua coberta e foi para a sala, ligando a televisão num volume baixo. Ver alguma coisa nessa situação ajudava um pouco, pelo menos distraía sua mente dos pensamentos desastrosos.

Acessou rapidamente a Netflix da TV, colocando o primeiro episódio de Teen Wolf para reproduzir. Henry não era muito de assistir séries, mas de longe sua preferida era Teen Wolf e assistiria a ela quantas vezes sentisse vontade.

Stiles e Derek eram seus crushs supremos e nada tiraria isso dele.

Enrolou-se no lençol, já que fazia um pouco frio por conta da janela aberta e ficou aconchegado no sofá assistindo à série. Sentia muita a falta de Cheshire. Ele era seu companheiro nessas horas de ansiedade. Fazer carinho em seu pelo comprido lhe acalmava e o gato estava sempre lhe acompanhando em qualquer canto, fazendo com que nunca se sentisse sozinho.

Já estava na metade do terceiro episódio quando uma voz rouca atrás de si fez com que pulasse do sofá e caísse no chão por conta do lençol enrolado em seu corpo.

— Pelo amor de Deus, Erick! Vai assustar a mãe – Henry xingou vendo o garoto de cabelos loiros esfregando os olhos sonolento.

— Desculpa – ele bocejou e levou alguns segundos para ele perceber que o outro estava no chão – Ai meu Deus, me desculpa Henry!

Erick correu para o lado de Henry, ajudando-o a levantar.

— Tudo bem – ele disse passando a mão na bunda dolorida – Eu te acordei?

— Não, não – agora ele parecia desperto – Eu acordei pra tomar água e vi você aqui.

— Ah sim.

Os dois ficaram alguns segundos em silêncio, Henry sem saber muito bem o que dizer.

— Ansioso com o treino de amanhã? – Erick perguntou calmamente.

Henry apenas assentiu com a cabeça, revelando que os remédios pra dormir não tinham feito o efeito desejado.

— Eu entendo – comentou Erick – Quer dizer, não do jeito que você se sente, mas também estou um pouco nervoso por amanhã.

Mesmo sabendo que a ansiedade dos dois era diferente, Henry ficou consolado em saber que não era o único a ficar nervoso e ansioso com o treino.

— O que tá assistindo? – perguntou sentando-se no sofá. – Teen Wolf?

— Me deixa com meu guilty pleasure — Henry respondeu sentando-se ao lado de Erick.

— Que nada, eu amo Teen Wolf – Erick parecia animado – Claro, os efeitos especiais são uma bosta, mas a história, os personagens... Aff, eu amo.

— Entendo o sentimento perfeitamente – Henry sorriu para o amigo.

Então Erick ficou fazendo companhia para Henry. Conversavam sobre a série de vez em quando. Henry sentia o sono vir, mas logo despertou quando sentiu a cabeça de Erick encostada em seu ombro. Os cachos loiros faziam cosquinha em seu nariz. A respiração de Erick era calma e constante, mostrando que tinha dormido mesmo.

Henry não quis acordá-lo, então ficou ali, assistindo Teen Wolf até encostar sua cabeça na de Erick e cair no sono.

[...]

O sol da janela acordou Erick com um resmungo. Ele tentou levantar, mas um corpo pequeno estava em cima de si e lhe impedia de sair dali.

Quando se deu conta, estava deitado no sofá com Henry deitado parcialmente em cima dele. O sofá não era tão grande, então pelo visto a única forma que arranjaram de ficarem confortável foi aquela.

Seu coração acelerou. Nunca esteve tão perto de Henry como estava naquele momento. Ele conseguia ver com perfeição algumas pintinhas que o outro tinha no rosto. Ele ainda estava dormindo quando franziu o nariz de forma fofa e levantou a cabeça um pouco para passar a mão no nariz. Logo voltou a se acomodar no peito de Erick, com uma expressão de paz no rosto.

Erick estava apenas hipnotizado com o que via. Qualquer coisa em Henry o fascinava. Poderia ficar naquela posição para sempre, mesmo que a circulação de seu braço estivesse prejudicada pelo peso alheio.

Deu um jeito de tirar o braço sem que o outro acordasse, acomodando-o mais em cima de si e abraçando-o. Realmente não queria mais sair dali, então fechou os olhos novamente na esperança de adormecer mais uma vez.

Enquanto o sono não vinha, Erick apenas sentiu. Sentiu o corpo quente de Henry sobre o dele. Sentiu sua respiração constante e calma em seu peito. Sentiu o cabelo macio roçando em seu queixo. Sentiu a mão de Henry sobre seu peito.

Se o outro tivesse acordado, com certeza escutaria as batidas rápidas e fortes de seu coração contra o peito. Uma felicidade encheu o interior de Erick, fazendo-o se sentir a pessoa mais feliz do mundo.

E com aquela calmaria que Henry lhe dava, ele adormeceu mais uma vez, mas com um sorriso no rosto.

[...]

Henry acordou com o seu despertador tocando alto em seu quarto.

Ele queria dormir mais, estava tão confortável que não queria se levantar de jeito nenhum. Já estava acordado havia alguns minutos, mas quando o despertador começou a irritá-lo, ele cedeu a preguiça e finalmente abriu os olhos.

E tentou não entrar em pânico quando percebeu que dormia em cima de Erick e que ele o estava abraçando.

“Calma, Henry” pensou tentando conter a respiração rápida “Isso não é nada”.

Não estava acreditando que tinha caído no sono ali. Lembrava-se de que Erick havia dormido em seu ombro, mas não sabia em que momento da noite ele havia dormido, muito menos que haviam se posicionado daquela forma um tanto quanto íntima.

Ele tentou manter-se calmo, mesmo que seu coração martelasse forte contra o peito pelo nervosismo e o fato de estarem tão próximos.

Impulsionou seu corpo delicadamente pra cima, tentando tirar os braços de Erick de cima de si, mas aquilo só fez com que o outro apertasse mais os braços ao seu redor, o que fazia com que voltasse a deitar sobre o corpo alheio.

”Só pode estar brincando...”

Ele pensou em outras possibilidades pra tentar sair sem que acordasse Erick, mas todas as formas em que pensava não eram eficientes. Erick sempre o apertava mais contra seu corpo e mesmo com o despertador berrando no quarto, ele não acordava.

Henry já estava ficando bastante irritado, então decidiu por acordá-lo.

— Erick – disse baixinho, um pouco com vergonha da posição que se encontravam. – Erick.

O outro sempre tivera um sono um tanto quanto pesado, então Henry não se admirou quando ele não respondeu.

— Erick! – ele disse mais alto cutucando o peito do outro.

— Humm... – resmungou Erick – Me deixa.

Henry revirou os olhos.

— Eu quero sair. Levanta logo.

Com mais alguns chamados e cutucões, Erick finalmente acordou, piscando os olhos sonolentos na direção de Henry. Ele franziu o cenho, como se perguntasse o que Henry estava fazendo ali, mas não pareceu muito surpreso.

— Bom dia pra você também – resmungou ele tirando os braços de cima de Henry, libertando-o.

Ele não demorou muito para levantar e se colocar de pé.

— Ah, não vem com essa – foi a vez de Henry resmungar.

— Eu não vou morder, Henry – Erick disse sentando-se no sofá e espreguiçando.

Henry não queria admitir, mas queria ficar ali deitado mais um pouco. Estava tão confortável... E nunca tinha dormido tão bem antes de algum evento importante como dormira naquela noite.

— Deixa de gracinha, nós temos compromisso – ele tentou manter-se centrado, mas a sensação de vergonha ainda tomava conta de seu ser apesar de tudo.

Sem deixar Erick falar, ele saiu da sala rapidamente, tomado pela vergonha e pela irritação de seu despertador que ainda tocava em seu quarto. Desligou o alarme com ódio, sentindo um pouco de paz, mesmo que o som ainda ecoasse um pouco em sua mente.

Já eram 11h e eles precisavam estar no treino às 13h. Pegou uma muda de roupas e foi para o banheiro. Tomar um banho ajudava um pouco na ansiedade, mesmo que fosse a hora perfeita para pensar em como tudo podia dar errado.

Sua psicóloga dizia para se concentrar na água quando isso acontecia e foi isso que ele fez. Fechou os olhos, deixando a água morna cair sobre seu corpo e concentrou-se em todos os pontos em que ela lhe tocava. A sensação era boa e imaginar as coisas ruins descendo pelo ralo aliviava um pouco suas preocupações.

Aquele era seu momento e gostava daquilo.

Depois de um tempo, fez sua higiene e saiu do chuveiro se enxugando. Colocou a roupa rapidamente e saiu do banheiro, sentindo o cheiro de comida fresca vindo da cozinha.

— Fiz o almoço – disse Erick sorrindo quando Henry apareceu no batente da porta da cozinha.

Ele tinha que admitir que amava o fato de Erick cozinhar, principalmente porque ele ficava muito sexy em frente ao fogão. Mas não só isso, Henry via que ele gostava bastante e isso era uma coisa que nunca imaginou que veria do outro.

Enquanto Erick conhecia tudo sobre si, Henry sentia que aquele Erick era uma pessoa completamente diferente da que ele tinha como melhor amigo. Não que fosse algo ruim, mas sentiu-se mal por não conhecer o outro tanto quanto o contrário.

“Tempos difíceis” pensou, o que era uma justificativa plausível para aquilo tudo.

Henry se serviu com o arroz, feijão e peito de frango que o outro havia feito e sentou-se a mesa, sendo seguido por Erick. Eles ficaram em silêncio durante o almoço, nenhum dos dois querendo comentar o acontecimento daquela noite.

Quando terminaram, Henry foi lavar a louça enquanto Erick tomava banho para que eles pudessem ir para o treino.

Faltando meia hora para estarem lá, eles saíram do condomínio no carro dos pais de Henry. Ele deu a liberdade para Erick colocar alguma música para escutarem durante o percurso.

Henry estava concentrado no caminho, checando o GPS toda hora para ter certeza que estavam seguindo pelo caminho certo. Ele não sabia se Erick tinha percebido sua concentração ou se simplesmente não queria falar, pois ficou calado até chegarem ao clube.

Entraram rapidamente e Henry começou a sentir o peso que era tudo aquilo. Estava em um time profissional. Apareceria na televisão com frequência. Várias pessoas estariam nos locais dos jogos para assistir seu novo time jogando e ele estaria lá. Pensar naquilo lhe deixava aflito. A última coisa que queria era fazer besteira na frente de dezenas, talvez milhares, de pessoas.

Não pensou duas vezes antes de tirar seu cubo mágico da mochila e começar a montar e desmontar o objeto para tentar se acalmar.

— Vai ficar tudo bem – disse Erick notando que ele estava nervoso. – Eu to aqui com você.

Henry apenas assentiu, respirando fundo e tentando se acalmar. Sentiu-se um pouco melhor, pois percebeu a sinceridade na fala dele quando disse aquilo. Respirando fundo, eles caminharam até o lugar.

Não prestou muita atenção nos detalhes do clube, apenas seguiu o porteiro até o local. Quando entraram, não viu nada de novo. A quadra de vôlei era a única que tinha naquele local em específico e era parecida com praticamente todas em que Henry já havia treinado.

Apesar disso, as pessoas não eram as mesmas, o que realmente deixava tudo péssimo pra ele. E sempre era a mesma coisa. Podia passar por aquilo mil vezes. Ele ficava tenso e nervoso como se fosse a primeira vez.

Porém ele se sentia pior naquele momento. O peso de ser um time profissional lhe fazia se sentir sem ar. Seu coração estava acelerado no peito, principalmente quando foi chamado para se apresentar diante do time inteiro.

— É... Meu... Meu nome... – as palavras tinham sido apagadas de sua mente. As coisas começaram a ficar turvas e suas mãos suavam enquanto ele as apertava uma contra a outra. – Meu nome...

Ele soltou a respiração, pois estava prendendo-a até o momento. Todas as coisas que havia aprendido na psicóloga para ajudar a se manter tinham sido apagadas. As palavras foram apagadas. Tudo foi apagado se sua mente e ele só conseguia ouvir seu coração batendo em seus ouvidos.

Olhando para os seus novos colegas de equipe, Henry percebeu que estavam se perguntando o que estava se passando. Alguns cochichavam com outros, o que deixou Henry a ponto de ter uma crise.

Mas então seus olhos pausaram em Erick.

“Vai ficar tudo bem” Henry conseguiu ler seus lábios. Depois ele apontou pra si e depois para Henry e disse “Eu to aqui com você”. Então ele sorriu e fez um joinha com as duas mãos. “Olha pra mim”

Aquilo o acalmou de uma forma impressionante. Ele fez o que o outro disse, ficou olhando para aqueles olhos castanhos claros que lhe transmitiam paz. Sem tirar os olhos de Erick, Henry conseguiu se acalmar e continuar a frase.

— Meu nome é Henrique e jogo como líbero – ele soltou o ar e inspirou – É um prazer conhecer e jogar com vocês.

O time e o treinador o cumprimentaram e ele sentou-se ao lado de Erick. Quando não estava sendo o foco, ele sentiu-se relaxar um pouco. Erick levantou-se e foi até a frente do time para se apresentar antes que Henry pudesse dizer alguma coisa.

— Eu sou Erick e vou jogar como levantador para vocês – ele sorriu confiante. – É um prazer conhecer todos vocês.

Henry sentiu um pouco de inveja ao ver o quão tranquilo ele ficava numa situação dessas. Queria tanto ser assim, mas infelizmente não era algo que mudaria da noite pro dia e Henry temia que nunca mudasse. Porém, ficava feliz por Erick não ter algo tão ruim em sua vida como ansiedade crônica.

Erick voltou para seu lado com um sorriso radiante. Henry sentia o quanto o outro estava feliz por estar ali e acabou ficando feliz também, pelos dois.

— Você foi muito bem – disse Erick lhe dando um soquinho no ombro – Eu disse que ia ficar tudo bem.

— Obrigado, Erick – agradeceu sorrindo levemente.

— Nada... Eu vou estar do seu lado, independente de qualquer coisa.

Henry maneou a cabeça em concordância, mesmo que aquela frase lhe afetasse um pouco. Eles passaram por muita coisa. Juntos e separados. E tudo tinha mudado.

Exceto uma coisa.

Uma coisa que Henry temia e adorava ao mesmo tempo. Uma coisa tão antiga, mas que, a cada contato deles, parecia ser um sentimento novo.

Tudo havia mudado, exceto o fato que Henry sempre amaria Erick.

Notas finais
Bom, as coisas estão ficando cada vez mais fofas entre eles haha Tenho a pretensão de terminar essa história esse ano, então me deem forças, pois sei que vocês querem saber o final dela tanto quanto eu quero escrevê-lo haha Mandem comentários! Só assim eu sei se vocês estão curtindo ou não a história! DATA PARA O PRÓXIMO CAPÍTULO: 25/02 Espero que tenham gostado! Nos vemos daqui a alguns dias Ghost Kisses ~Marceline