Além das Quadras

25 Arco II – 25. Não é apenas sobre você


Notas iniciais
Olá amores e amoras! Como cês tão? Serei rápida fazendo uma síntese dos motivos para eu estar sumida: 1) Eu to estudando pro Enem de novo 2) Saí da faculdade e to tendo que fazer Enem de novo 3) Passo o dia todo estudando e final de semana às vezes também 4) Não to com muito tempo 5) Quando eu tenho tempo, eu tento escrever, mas com certeza demora pra caralho 6) Eu to tendo que planejar tudo de novo Esses também são os motivos para eu não estar respondendo os comentários de vocês. Tenham paciência comigo, pq esse ano tá sendo punk pra mim. Espero que sejam compreensivos ♥ É isto! Espero que gostem do capítulo, pq eu particularmente gostei bastante! Boa leitura Ghost Kisses ~Marceline

Capítulo 25: Não é apenas sobre você

Henry tinha perdido completamente o controle de seu ser naquela festa de aniversário. E era por isso que os dias seguintes a ela foram definitivamente uma merda.

Lembrava-se das coisas que tinha feito. Lembrava-se das coisas que tinha dito. Havia deixado aparecer uma parte de si que ele detestava. Ele sempre lutou para deixar seu egocentrismo e narcisismo trancados em seu ser, mas, naquela noite, falando que era inadmissível alguém lhe dar o fora, tinha deixado esse seu lado escapar e estava se martirizando por aquilo.

Também estava se martirizando por ter se declarado para Erick daquela forma. Por tê-lo arrastado para o quarto, por tê-lo beijado sem permissão e principalmente por ter sido tão duro com as palavras. Não queria machucar Erick de forma alguma e não saiu de sua cabeça que poderia ter piorado a situação entre eles por causa daquela merda toda.

Porém ainda estava com raiva, principalmente por Erick ter mentido sobre não se lembrar do beijo. Aquilo tinha sido demais, pois só ele sabia o quanto tinha sofrido com aquela situação.

Como se já não bastasse essa droga toda, tinha encontrado com Erick no primeiro jogo do Campeonato Mineiro Feminino que Marge participara. Ele já esperava que isso fosse acontecer, mas deu graças a Deus por ela ter chamado Bruno, Dani e Luiz para verem o jogo também. A partida inteira ficou aquele clima pesado e estranho, com olhares de relance por parte de ambos, mas nenhuma palavra trocada.

Henry preferiu que fosse daquele jeito. Se Erick não iria colaborar para que pudesse ajudá-lo, Henry também não correria atrás. Ele sempre tinha esse pensamento. Sempre queria afastar Erick de alguma forma, já que as coisas não estavam caminhando para frente. Mas no fundo ele sabia que não iria desistir. Porém tinha que tentar, pois aquela situação toda já estava lhe desgastando psicologicamente e emocionalmente.

Às vezes, temos que nos afastar das pessoas que nos fazem mal. Por mais que elas sejam importantes para nós.

Para completar toda sua desgraça, discutira com Chris durante do jogo. Obviamente Marge não tinha o convidado, mas Henry falou que iria para o jogo e provavelmente voltaria tarde.

Chris: Vc n vai voltar tarde ne?

Henry: Não pretendo, mas possivelmente vou.

Chris: Cm qm vc vai voltar? Sua mãe vai te buscar?

Henry: Ainda n sei, mas quando eu tiver saindo eu te falo.

Chris: Henry...

Henry: Oq?

Chris: O Erick tá ai, n tá?

Nesse momento, Henry teve que fechar os olhos para não perder a paciência. Naquela altura do campeonato, Chris ficara sabendo que o outro tinha voltado para Belo Horizonte. Em primeira instância, não tinha comentado nada a respeito do assunto e Henry até que ficou surpreso. Porém, depois da festa de Marge, as coisas ficaram mais complicadas e parecia que a todo lugar que Henry ia, Chris temia que ele fosse encontrar Erick.

Chris: Henry?

Henry: Sim, ele tá.

Houve um momento de espera. Passaram-se 10 minutos e Chris não tinha lhe respondido. Estava ficando aflito com a situação, mas quando ia mandar mensagem, recebeu uma resposta.

Chris: Volta para casa, por favor.

Henry franziu o cenho para a mensagem.

Henry: Eu não vou sair até o jogo acabar, Chris

Chris: Volta pra casa agora, Henry. Eu n quero vc perto desse guri.

Henry: Vc sabe q eu n vou voltar né? N sei por que ainda insiste.

Chris: Eu quero o melhor pra ti! Esse guri é tóxico pra ti, Henry. Só você n enxerga isso.

Henry: MDS… Agr você vai ficar me controlando? É isso?

Chris: É pro seu bem, Henry.

Henry: Meu caralho q é pro meu bem! Eu n vou parar de frequentar os lugares só porque corre o risco de ele aparecer.

Chris :Vc quer se fuder n é msmo? Vc n se importa com minha preocupação. Vc n liga pra nd q eu faça por ti!

Henry: Ah, mano… Sério isso?

Chris: Aposto q é a megera da Marjorie querendo te colocar contra mim. Ela nunca aprovou nosso relacionamento e nem nunca vai aprovar. Do jeito q ela é vai fazer a gente se separar. Vc n pode confiar nela.

Henry: Mano, você tem ideia do q tá falando? Para de ser babaca

Chris: Ah, eu me preocupo e sou babaca agr? Sou o vilão da história. Já entendi.

Henry: Meu Deus… Se tem uma coisa que vc n fez foi entender

Chris: Entendi mto bem q vc prefere ela e o Erick

Henry: Tá bom, Christian.

Então largou o celular e voltou sua atenção para o jogo. Estava com raiva, triste e confuso. Tudo ao mesmo tempo. Ele sentia que poderia chorar a qualquer momento. Deu graças a Deus que as meninas ganharam aquele set e teve um intervalo entre os sets. Henry saiu quase correndo para fora do ginásio, precisando tomar um ar.

No fundo, queria que Erick fosse atrás perguntar o que tinha acontecido e lhe dar um abraço. Porém, quem veio atrás foi Bruno. Meio que Henry já esperava aquilo. O garoto alto de cabelos negros tinha virado uma das melhores companhias que Henry poderia ter em situações complicadas. E em todo o resto.

— Eu não quero conversar – disse Henry rapidamente.

— Tudo bem – disse Bruno, mas continuou onde estava, com os braços cruzados.

Ficaram um tempinho em silêncio. A presença de Bruno lhe reconfortava mesmo que estivesse longe do garoto. Respirando um pouco e se recompondo, Henry decidiu voltar, lançando um olhar de que estava melhor para Bruno, que lhe acompanhou de volta aos seus lugares.

Ficou feliz por Marge ter ganhado o primeiro jogo. Aquilo lhe deixou ansioso para o seu, que ocorreria dali a alguns dias. Seria sua estreia no time profissional do Arsenal e estava bem empolgado apesar de temeroso com a situação.

Para sua sorte, Marge tinha se disponibilizado a levá-lo para casa. Para o seu azar, ela fez o mesmo com Erick, Bruno, Dani e Luiz. A garota tomou o banco da frente, fazendo com que os meninos tivessem que ir atrás.

— Henry, vai no colo de alguém – disse Marge.

Ele entendeu onde a melhor amiga quis chegar, mas não deu o braço a torcer.

— Bruno, posso ir no seu colo? – ele perguntou rapidamente.

— Pode sim.

Iria matar Marjorie em algum momento de sua vida.

A viagem transcorreu tranquila. Comentaram do jogo e de várias outras coisas. Henry notou que Erick ficou quase o percurso todo calado, como se algo tivesse lhe incomodando. Quando finalmente chegou em casa, a primeira coisa que fez foi tomar um banho. Depois se deitou na cama e apagou, esquecendo-se de mandar mensagem para Chris dizendo que havia chegado.

Acordou no outro dia com uma enxurrada de mensagens e alguns telefonemas perdidos do garoto. Porém, ao invés de responder e dizer que estava tudo bem, simplesmente preferiu se afastar do celular naquele dia. Talvez se arrependesse depois, mas naquele momento isso não vinha ao caso.

Além dessa situação toda, estava se aproximando do final do período na faculdade e a cada dia brotava mais trabalhos e professores marcando as últimas provas. Quando ele pensava que iria se livrar de alguma prova ou trabalho, vinham mais trezentas outras tarefas pra próxima semana. Estava sendo bastante exaustivo conciliar os estudos com os treinos, tanto do time da UFMG quanto dos do Arsenal.

Mas para o seu alívio, o Campeonato Mineiro iria começar quando entrasse de férias, então não estaria mais naquela correria toda para fazer tudo o que tinha que fazer.

Era um sábado a tarde, Henry estava quebrando a cabeça para decorar todas as articulações que tinha no corpo para a prova de anatomia que seria na sexta. Estava com fones de ouvido tocando música clássica, então não ouviu a campainha tocando, muito menos quando entraram em seu quarto. Só se deu conta de que tinha visita quando uma mão grande lhe tocou o ombro e ele pulou de susto.

— Pelos deuses, Christian! Você quer me matar do coração? – Henry havia virado na direção do garoto alto, o coração acelerado pelo susto.

— Desculpa, mas eu te chamei e você não escutou. – Chris deu de ombros.

— Fones de ouvido – ele disse apontando pro objeto que tinha tirado de sua cabeça.

Chris balançou a cabeça afirmando, Henry já percebendo o clima estranho que tinha se instalado ali.

— Sua mãe me deixou entrar – Chris comentou, colocando as mãos nos bolsos do casaco e olhando na direção oposta de Henry.

— Eu percebi…

Ficaram algum tempo em silêncio. Henry não sabia como agir depois de ter dado um gelo de uma semana no garoto.

— Não vamos conversar? – perguntou Chris depois de um tempo.

— Nós temos? – perguntou Henry com uma sobrancelha arqueada. – Olha, eu estou estudando e…

— Claro que temos, Henry – interrompeu Chris – Você não conversa comigo tem uma semana. Desde aquele maldito jogo a gente não se fala. Eu tentei levar numa boa, dar um espaço pra você, mas eu simplesmente não consigo.

Foi nesse momento que Henry se viu num déjà vu, porém, ele estava do lado oposto agora. Lembrou-se da conversa que teve com Erick no dia do amistoso. Estava fazendo igual a ele, naquele momento, com Chris. Então ficou bastante claro para ele o que Erick sentiu naquele momento.

Não queria que fosse daquela forma.

— Eu tenho passado por momentos difíceis… Você sabe – comentou Henry, ainda meio receoso em falar. Por algum motivo, não queria compartilhar esse tipo de sentimento com Chris.

— Eu entendo perfeitamente pelo o que tu tá passando, meu amor – Chris se aproximou, ajoelhando na frente de Henry, que ainda estava sentado a mesa e lhe pegou pelo rosto – Eu sei a questão da faculdade. Eu amo te ver dedicado assim. Eu entendo o lance dos treinos. Até entendo o rolê do Erick, mas tu não precisa passar por isso sozinho, sabe? Eu to aqui pra te apoiar, pra ser a pessoa que tu possa contar teus problemas. Eu vou te ajudar dentro do meu alcance sempre, tu sabe disso.

Aquelas palavras atingiram Henry em cheio. Como podia ser uma pessoa tão estúpida com alguém que só queria seu bem? Como poderia negligenciar a preocupação e o carinho de alguém assim? Henry sempre se questionou sobre o que sentia por Chris. Até perguntara para algumas pessoas se era possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo e recebera várias respostas, porém a maioria consistia num belo “não”. Era fato que o que sentia por Erick era diferente, mas podia realmente comparar os dois sentimentos?

Geralmente, quando alguém se apegava a Henry, ele tratava de dispensar a pessoa ou afastá-la de alguma forma. Mas com Chris era diferente. Por mais que brigassem e ele visse nitidamente que o outro estava completamente apaixonado, Henry não conseguia se afastar dele. Seria esse um sinal de que estava gostando de verdade de Chris?

— Eu fui meio babaca, não fui? – perguntou Henry meio sem graça.

Chris sorriu de leve, acariciando a bochecha macia de Henry.

— Um pouco, mas eu também não colaborei muito. Eu não deveria ficar tão neurótico com a presença de Erick. Também não deveria ter chamado a Marge de vaca sabendo que ela é sua amiga e tal. – ele deu de ombros – Apesar de ela não ter o mesmo respeito… Enfim… Desculpa por ser tão protetor. Eu só estava preocupado com ti.

— Desculpa também... – Henry falou baixinho. – É só que às vezes você me sufoca um pouco.

— Henry, tu poderia ter chegado e falado… Nós combinamos isso, lembra? Sermos totalmente sinceros um com o outro.

— Sim, eu lembro…

Chris então lhe abraçou apertado. Henry conseguia sentir todo o carinho que o outro sentia por si. Conseguia ver que ele estava realmente preocupado e, dadas as circunstâncias da vida de ambos, era de se esperar que ele fosse assim. Afinal, era o primeiro relacionamento homoafetivo da vida de Chris.

— Estamos bem agora? – perguntou Chris. Henry apenas assentiu com a cabeça, dando um beijo nos lábios de Chris por alguns segundos. – Não deixa de compartilhar teus problemas comigo, to aqui pra ti.

Henry mais uma vez apenas assentiu, abraçando o outro novamente.

Ficaram alguns segundos em silêncio, apenas abraçados. Henry sentia-se confortável nos braços de Chris. Era bom sentir seu calor, assim como era bom ouvir as batidas de seu coração que sempre aceleravam quando estavam perto. Essa era uma das coisas de que gostava em ser baixinho.

Depois de um tempo, Chris se desvencilhou de Henry, abrindo um sorriso para ele.

— Falando em compartilhar, tenho duas novidades pra ti!

— Prossiga – sorriu Henry. Ele gostava muito de ver o outro animado.

— Eu passei pra faculdade de administração no meio do ano – disse animado – Vamos estudar na mesma universidade! Isso não é foda?

Henry ficou verdadeiramente surpreso com aquilo. Não sabia que o outro estava planejando entrar pra faculdade logo assim, ainda mais que nem tinha terminado o ensino médio.

— Você vai mesmo pegar avanço? – perguntou Henry. – Eu te disse que era melhor você aproveitar seu último ano no Colégio.

— Puff, eu sei – Chris deu de ombros – Mas eu detesto grande parte da minha turma, não vai fazer falta de qualquer forma. Sem contar que meus pais insistiram pra eu entrar logo, já que tinha passado e podia pedir avanço.

Henry lembrou-se de seu terceiro ano. Se você conseguisse passar em alguma faculdade no meio do ano, e tivesse notas boas, você tinha a opção de pedir avanço, que consistia em pegar o diploma de ensino médio concluído mais cedo. Muitas pessoas pegavam o avanço para se dedicarem ao cursinho pré-vestibular, passando em qualquer universidade particular apenas para provar que tinha passado em alguma e conseguir essa condição.

Ele mesmo teve a opção de pegar. Ficou muito tempo pensando a respeito disso, não sabendo se conseguiria ou não. Então acabou seguindo o conselho de Marge de não pegar, ficando até o final. E não se arrependera em nenhum momento, pois todos os alunos chatos e metidos de sua turma tinham saído e ficaram só os legais e os amigos de Henry. Aprontaram tanto naqueles últimos seis meses que Henry guardava no coração cada momento passado com seus amigos.

— Bom, se você acha que é a melhor decisão, parabéns! – ele disse abraçando Chris e lhe dirigindo um sorriso. – E qual é a outra novidade?

Chris abriu um sorriso maior que o rosto e disse:

— Vou entrar pro Arsenal. Vamos ser companheiros de time de novo!

Henry não soube muito bem como reagir aquilo. Pela expressão de Chris, ele estava esperando que Henry provavelmente pulasse de alegria e animação pela notícia. Mas ele só conseguia pensar que as coisas em quadra iriam ficar tensas. Afinal, Erick e Chris não se bicavam e estavam em times opostos novamente. Uma torta de climão lindamente servida.

— Nossa… Parabéns, Chris! – Henry tentou parecer animado – Vamos mandar bem nesse time.

— Vamos sim – Chris encarou Henry – Não to sentindo que tu tá animado… O que houve? Não quer que eu faça parte do time?

— Não! Não é isso – Henry tratou logo de negar. Parou uns segundos, pensando se falaria ou não. Resolveu falar. Já estava tendo problemas demais com comunicação e não queria ter mais – Só que… Bem, você sabe que o Erick voltou. E ele tá jogando pelo Argos.

— Ah… Entendi – comentou, meio desgostoso com a menção do outro garoto – Não se preocupa com isso. Essa situação só me motiva ainda mais a dar meu melhor e derrotar aquele babaca.

Henry claramente não conseguiu fingir que estava animado.

— Tu não quer derrotar ele, meu bem?

— Quero, mas…

— Sem “mas”. Não vamos falar mais desse cara. Até porque, só vamos encontrá-lo nessa situação. Vamos evitar contato com ele que tudo vai ficar bem.

Henry maneou com a cabeça, um tanto incerto sobre aquilo. De qualquer forma, precisava pensar positivo.

[…]

Erick queria dizer que as palavras de Henry não tinham lhe atingindo por conta do outro estar bêbado.

Mas o fato de Henry está bêbado só machucava ainda mais, pois no fundo Erick sentia que ele queria dizer aquelas coisas, mas sóbrio nunca teria coragem de falar.

Então era óbvio que aquilo tinha lhe machucado. Era óbvio que sua tristeza nos dias posteriores era em decorrência daquilo. Mas, no final, Erick não culpava Henry, pois sabia que uma parcela da culpa era sua. Ele não conseguia falar com Henry, então o outro ficava no escuro. Ele não conseguia se abrir por conta do medo, então era impossível o outro entender sua situação.

E Erick sabia muito bem disso. Sabia que essa situação só estava sendo prolongada por que ele não falava. Ele sabia de tudo. Sabia o que tinha que fazer, mas simplesmente não conseguia.

Ele havia falado isso para sua psicóloga. Ela tinha lhe dito que o medo poderia estar estagnando-o, então Erick tinha que arrumar um modo de contornar esse medo que sentia. Ele também havia comentado com ela sobre as várias pessoas que tinham lhe dito que era só parar, sentar e conversar. Em troca, ela tinha falado que a situação dele funcionava parecido com alguém em depressão. A pessoa sabe que precisa de ajuda, mas simplesmente não consegue forças pra mudar sua situação. Não adiantava as inúmeras vezes que falassem para a pessoa sair daquilo. Não era tão simples.

E para Erick realmente não era tão simples assim.

Danilo havia lhe dado o conselho de tentar escrever seus sentimentos em uma carta e mandar para Henry. Havia escrito várias, mas todas pareciam insuficientes. A partir desse momento, conseguiu se sentir melhor escrevendo. Colocando seus sentimentos num caderno, deixando que as palavras fluíssem para o papel o melhor que podia. Às vezes dava para a psicóloga ler e ela disse que aquilo poderia ajudá-lo bastante a contornar seus problemas.

Seguiria o conselho de Marge de deixar as coisas acontecerem em seu tempo. Ele não queria forçar nada, não queria fazer nada de errado, pois já tinha feito declarações reveladoras para Henry no dia em que estava bêbado e Ray o levara para a casa dele. Apesar de arrependido, ele esperava que Henry entendesse um pouco, mesmo sendo impossível compreender a dimensão verdadeira da situação.

Mas estava tentando pensar nas coisas positivas que estavam acontecendo em sua vida.

Apesar de saber que era uma escolha arriscada, ele tinha decidido não ir para a UEMG fazer faculdade, na esperança de conseguir entrar no meio do ano para a UFMG. E ele deu graças a todos os deuses possíveis por ter passado no segundo semestre. Iria começar a faculdade em agosto e estava bastante empolgado. Porém sabia que seria um problema, já que iria cursar o mesmo que Henry. Ele torcia para que não se vissem muito, mas de qualquer forma seria inevitável.

Ele tentava pensar que essa podia ser uma chance de eles se aproximarem mais, mas não estava muito na esperança. Sempre travava na presença de Henry e acabavam caindo na mesma velha situação. Podia ser bem desgastante, Erick tinha ciência disso, mas era algo que possivelmente não seria revertido com tanta facilidade.

Enquanto isso, o Campeonato Mineiro havia começado. O feminino antes do masculino, então tinha sido convidado por Marge para assistir ao jogo de estreia dela. Tinha sido um desastre no que diz respeito à situação dele com Henry. Queria ter ido atrás quando ele saiu do ginásio. Queria que ele tivesse sentado em seu colo ao invés de no daquele garoto, do qual Erick tinha pegado um leve ranço.

Ele tinha que admitir que sentiu um puta ciúme naquele momento, mas não era como se tivesse em posição de falar ou fazer alguma coisa.

Então o masculino começou e seu primeiro jogo foi contra um time de Montes Claros. O jogo seria lá, então tiveram que fazer uma viagem para poder realizá-lo. Ficaram em um hotel perto do ginásio, no qual acabou por dividir um quarto com Gabriel. Naquela altura do campeonato, eles até que estavam se dando bem, num nível que Erick realmente não esperava. Num nível em que Gabriel até havia o chamado para beber após um dos treinos junto com o resto do time, o que geralmente não acontecia.

Por fim, estavam naquela situação meio estranha. Erick não sabia se eram amigos, colegas ou apenas companheiros de time. Mas foi na primeira noite que passaram em Montes Claros que Erick sentiu que tinham dado um passo além nessa relação estranha deles.

Havia um tempo que Erick não tinha pesadelos com seu pai. Havia tempo que as lembranças não vinham à noite para lhe assombrar. Mas, por alguma razão, elas vieram. Todas de uma vez. Uma sequência de horrores, dor, raiva, tristeza, ódio… Tudo de uma vez, tudo misturado. Era a primeira vez que acontecia algo assim.

Mas ele sentia que estava preso àquilo. Não conseguia acordar daquelas atrocidades por mais que tentasse. Parecia que algo lhe prendia novamente àquelas situações, como se fosse uma punição para Erick. As sensações eram tão reais, tão vívidas, que ele não conseguiu distinguir se estava realmente sendo tocado dentro do sonho ou fora dele.

Ele acordou de supetão, levantando rapidamente, o que fez com que ficasse tonto. Seu corpo estava completamente suado. A respiração era ofegante e descompassada. Seus olhos ficaram sem foco por alguns segundos, mas a visão foi voltando aos pontos. Ainda estava preso às sensações do pesadelo. Parecia que cada toque, cada soco, tapa eram sentidos. Erick se encolheu na cama, tentando conter o choro e a agonia que se instalavam em seu ser.

— O que aconteceu? – uma voz masculina soou do seu lado.

Erick não identificou a voz de imediato, apenas balançou a cabeça como se não quisesse falar. Logo sentiu a cama afundar ao seu lado, o que foi suficiente para ele levantar a cabeça dos joelhos e olhar para o indivíduo com uma expressão de curiosidade que logo se transformou em surpresa.

Gabriel estava ao seu lado, mas o que lhe surpreendeu e logo lhe deixou com um sentimento horrível de culpa foi o sangue que escorria pelo seu nariz, que ele tentava estancar com as mãos, mas não conseguia.

— Por favor, diz que você tem sangramento nasal de vez em quando – Erick conseguiu dizer após uns segundos.

— Não, mas tá tudo bem… – respondeu Gabriel com a voz levemente anasalada por causa da pancada.

— Ai meu Deus, me desculpa, Gabriel – Erick se desesperou levemente. Não era uma pessoa da violência.

Ele pulou da cama rapidamente, indo até o banheiro e voltando com um rolo de papel higiênico. Tentou ajudar Gabriel estancar o sangue, mas o outro o descartou com um aceno de mão e disse para não se preocupar.

— O que aconteceu?

— Você estava agitado. Gritando… – contou Gabriel, fazendo uma careta após pressionar o papel contra o nariz. – Tentei te acordar, parece que isso só fez você se mexer mais e bem… Acabou me acertando um soco certeiro no nariz.

Erick sentiu-se completamente culpado com aquilo. Ele não queria envolver mais pessoas em seus problemas. Aquilo já estava saindo um pouco do controle.

— Cê tá bem? – perguntou Gabriel após alguns minutos de silêncio.

Erick tinha sentado ao seu lado com o rolo em mãos, olhando para as folhas brancas como se fossem a coisa mais interessante do mundo.

— Vou ficar… – murmurou.

— Não quer contar… Entendi…

Aquilo fez Erick sentir-se mais culpado ainda. Por algum motivo, sentia que devia alguma explicação para Gabriel após tê-lo acertado com tanta força. Nunca havia acontecido algo assim e ele deu graças a Deus que nunca acertara Nathy ou Amanda daquela forma.

— Eu tive um pesadelo… – começou Erick baixinho, após um tempo. – Coisas que aconteceram minha mãe, irmã e comigo no passado… Meu pai não é uma pessoa muito legal e…

— Pais sempre fodem a porra toda – disse Gabriel quando Erick parou de falar. Ele sentiu uma raiva e amargura na voz do garoto quando falou aquilo.

Erick virou o olhar pra Gabriel, vendo que o outro apertava o papel em seu nariz com força, como se tivesse com raiva.

— Seu pai fez alguma coisa de ruim? – perguntou curioso.

— Considerando coisas envolvendo a morte da minha mãe e o assassino dela… Então sim.

Erick ficou surpreso ao ouvir aquilo. Realmente não esperava que o outro fosse falar de forma tão aberta e simples como acabara de fazer. Ele imaginou que Gabriel fosse mandá-lo se foder e não se meter em sua vida, mas ao invés disso recebeu uma resposta para sua pergunta.

— Uau… Não sei o que dizer – Erick disse com sinceridade.

— Não tem muito o que dizer a respeito disso. Eu só o odeio e não quero contado. Fim.

Erick maneou a cabeça, compreendendo que não obteria mais respostas de Gabriel. Eles ficaram mais uma vez em silêncio. Gabriel levantou-se para jogar as folhas de papel manchadas de sangue fora e Erick observou suas costas. Estavam tensas, como se falar daquele assunto o deixasse desconfortável.

Não soube o motivo, mas sentiu vontade de retribuir a resposta.

— Meus pais estão se divorciando. Ele espancava minha mãe e eu sempre que podia, sempre que um de nós estava ao seu alcance. Minha irmã conseguiu escapar e depois que minha mãe enfrentou meu pai e ele quase me matou, conseguimos escapar também… Mas eu não sei por quanto tempo.

Apesar de não ter entrado em detalhes, Erick sentiu-se aliviado por ter dito aquelas palavras. Ele havia contado aquilo para Amanda, Danilo e para sua psicóloga. Marge sabia o início da história, mas não ela por completo e Henry não fazia a menor ideia de nada. Queria juntar coragem para contar aos dois todos os detalhes dos anos que passou no Rio.

Ele tinha problemas em reviver a história, mas esse não era o ponto principal. Erick sentia que, se contasse para eles, coisas horríveis iriam acontecer, ainda mais por Anderson conhecê-los e principalmente por culpar Henry pela sua orientação sexual. Seu maior entrave era esse fato, pois tinha a sensação que Henry não ficaria calado diante disso. Se Henry soubesse e encontrasse com Anderson por algum acaso do destino… Pelos deuses, Erick não gostava nem de pensar.

— Agora muita coisa faz sentido – comentou Gabriel.

— Tipo? – Erick franziu o cenho, olhando para o outro.

— Você não troca de roupa perto das outras pessoas, já percebi que bebe exageradamente…

— É… Você tá certo…

Mais uma vez o silêncio caiu entre os dois para ser quebrado por Gabriel.

— Posso ver?

— Ver o que? – Erick perguntou, sendo surpreendido pela pergunta.

— As cicatrizes.

Erick ficou realmente surpreso com aquilo. Logo ele balançou a cabeça negativamente.

— Eu detesto elas… Não gosto do que elas me lembram.

O garoto de cabelos negros assentiu.

— Eu sei que é foda… Pensa que elas têm um significado bom por trás de toda a dor e raiva. Cicatrizes são levadas para a vida, então é bom não pensar nelas apenas negativamente. Dê um novo significado. Um significado para te motivar a seguir em frente.

— Uau, você sabe falar palavras bonitas… – brincou Erick. Gabriel deu de ombros.

— A vida nos ensina bastante coisa e bom… As coisas podem melhorar e, se não melhorarem, pior que tá, não fica.

— Verdade… – mas Erick não tinha certeza disso. Temia que as coisas piorassem e via vários modos de isso acontecer.

Dessa vez, o silêncio não foi quebrado. Gabriel voltou para sua cama, apagando a luz e voltando a dormir. Já Erick, com um pouco de receio de dormir novamente e voltar a ter os mesmos pesadelos, ficou um tempo acordado pensando sobre o que o outro havia falado.

Um novo significado.

Precisava de um novo significado para sua vida.

[…]

Tudo o que Henry precisava era realmente tirar férias.

Então ficou bastante aliviado quando passou em todas as matérias e finalmente pode tirar um tempo para fazer vários nadas. Treinava, fazia academia, jogava, saía de vez em quando com o pessoal ou Chris e dormia. Basicamente estavam sendo assim suas férias.

Mas o que mais lhe animava eram as viagens para outras cidades de Minas por conta dos jogos do Campeonato Mineiro. Tinham ganhado todos os jogos fora de casa, mas, mais uma vez, perderam para o time do Argos dentro de casa. Por mais que Henry não fosse tão competitivo assim, perder para Erick já estava lhe deixando puto.

Dessa vez não trocaram uma palavra, até porque Chris impediu que isso acontecesse. Sem contar que Erick parecia mais próximo de Gabriel, fazendo com que o capitão lhe puxasse para comemorar ou qualquer outra coisa que seja. Diferente do amistoso, Erick estava com aquele ar de superioridade, mas Henry percebeu que claramente não era direcionado a si. Óbvio, a única coisa de diferente desde aquela vez era a presença de Chris, o que aparentemente não agradara Erick nem um pouco.

Eles se provocavam de vez em quando perto da rede. Chris também não colaborava lançando olhares de deboche para o outro toda vez que ele fazia um ponto de bloqueio. Mas claramente o time de Erick levou a melhor e ele não deixou de estampar uma expressão vitoriosa e debochada para Chris. Teve que aturar Chris falando mal de Erick durante alguns dias, mas tentou não deixar isso afetar sua paz.

Apesar disso, Henry estava feliz também por ter se aproximado mais ainda de Leo. O garoto era extremamente animado e dedicado e parecia que a cada jogo ele queria se empenhar mais ainda. Algumas vezes, eles dois eram colocados no mesmo quarto (para a insatisfação de Chris) e passavam bastante tempo conversando e trocando experiências.

Porém, o que deu uma confirmação para Henry de que a amizade deles era preciosa foi quando estavam em Belo Horizonte.

Era uma quinta-feira à noite. Henry estava jogando videogame com Jules e Rach quando seu celular começou a vibrar loucamente ao seu lado. Ele rapidamente pausou o jogo, franzindo o cenho quando viu que era Leo quem estava ligando. Leo odiava ligações, sempre preferia conversar por mensagem.

— Oi, Leo – atendeu o aparelho – Tudo bem?

Cap…— a voz de Leo estava um pouco trêmula e baixa – Cê tá em casa?

— To sim… Aconteceu alguma coisa? – perguntou Henry levantando-se da cama.

Eu posso ir aí?

— Claro, venha… Mas pode me dizer o que aconteceu?

Te falo quando chegar aí.

Então Leo desligou o celular, deixando Henry completamente sem entender. Aquilo o deixou bastante pensativo e apreensivo. Nunca vira o ponteiro daquela forma. Alguma coisa definitivamente estava errada.

— Muito bem, crianças – ele disse virando-se para os irmãos – Vamos parar por aqui, okay? Vamos receber visita.

— O Chris vem aqui? – perguntou Jules empolgado.

— A Marge vem aqui? – perguntou Rach em seu tom inexpressivo de sempre.

Ele explicou rapidamente que não era nenhum dos dois, o que não deixou os dois tão contentes assim, mas, mesmo assim, eles não falaram nada, apenas saíram do quarto de Henry. Ele acompanhou os irmãos para fora, indo para a sala onde seus pais assistiam a uma série juntos.

— Mãe, pai, o Leo tá vindo aqui. – comunicou.

— Tão tarde assim? – perguntou seu pai. – Aconteceu alguma coisa?

— Eu não sei… – respondeu apreensivo – Vou descobrir quando ele chegar aqui. Mas ele parecia bastante estranho no telefone.

— Tudo bem, meu anjo. Quer que seu pai faça alguma coisa pra vocês comerem? – perguntou Cassandra aos gêmeos e a Henry, fazendo Fábio olhá-la com uma sobrancelha arqueada em divertimento. – Você sabe que eu não piso mais naquela cozinha hoje.

— Tá vendo como sua mãe me vende? – brincou Fábio.

— Até parece – resmungou Cassandra. Fábio soltou uma risada, abraçando-a de lado e lhe dando um beijo carinhoso na bochecha antes de se levantar.

— O que vocês querem?

— MISTO! – exclamou Cassandra como fosse uma criança.

Henry soltou uma risada, agradecendo seus pais e indo para o quarto. Mas antes de entrar no corredor, a campainha tocou. Ele saiu correndo em direção à porta, abrindo-a rapidamente e sendo surpreendido por um abraço forte de Leo.

Ele ficou alguns segundos imóvel. Não soube bem como reagir àquela situação. Então ele pousou os braços ao redor do corpo de Leo, sem saber muito bem o que fazer a seguir.

— Tá tudo bem? – perguntou Henry para logo em seguida se repreender. Era óbvio que ele não estava bem.

Leo não disse nada, apenas negou com a cabeça, apertando ainda mais Henry.

— Okay, vamos para o meu quarto. – Henry disse desvencilhando-se delicadamente de Leo.

Assim pode ver mais as feições do outro garoto. Os cabelos loiros estavam desgrenhados. Seus olhos estavam opacos e seu rosto estava contraído numa expressão deprimida e arrasada. Aquilo quebrou Henry de uma tal forma que ele não soube explicar.

Cassandra tinha ido para a cozinha, provavelmente vendo o estado de Leo e o poupando de tentar fingir que tá tudo bem para ela e Fábio. Então os dois passaram direto para o quarto de Henry, que fechou a porta assim que entraram.

— Pode sentar na cama – disse Henry sentando-se na cadeira de rodinha da escrivaninha e arrastando-a na direção de Leo.

Quando ele ia falar alguma coisa, Leo começou a chorar. Um choro agoniante, pois ele parecia que estava tentando ao máximo segurá-lo de todos os jeitos possíveis. Ele fungava e limpava rapidamente as lágrimas que escorriam pelo seu rosto, mas logo mais delas vinham. Ele respirava com dificuldade, como se prender a respiração fosse impedir as lágrimas de saírem.

Aquilo estava deixando Henry ligeiramente aflito. Ele não sabia o que fazer.

Tentou buscar em sua mente as vezes que tinha passado por algo desse gênero. Foi então percebeu que nunca tinha passado por isso. Sempre ele que era o amparado, o que contava seus problemas, o que era ajudado pelos outros. Não se lembrava de momentos em que seus amigos vinham lhe pedir ajuda ou então chorar daquela forma para ele.

— Leo… – murmurou – Se acalma um pouco e me conta o que aconteceu.

O garoto fungou algumas vezes. Puxou o ar para os pulmões e soltou-o rapidamente.

— Meu pai morreu… – respondeu Leo depois de um tempo.

Henry ficou levemente chocado com a notícia, saindo rapidamente da cadeira e sentando-se ao lado de Leo. Ele pegou sua mão, apertando-a com força.

— O que aconteceu?

— Tsc – Leo estalou a língua no céu da boca com certa raiva – Ele não era meu pai… Mas eu o considerava como um… Digo, ele me ajudou tanto, foi uma pessoa presente quando eu mais precisei. Me apoiou, me deu um teto… Mano… Puta que pariu.

As lágrimas voltaram e Leo começou a soluçar desesperadamente. Henry o olhava sem saber o que fazer. Queria ajudá-lo, mas nunca tinha passado por aquilo para saber o que falar ou fazer. Bruno saberia o que fazer. Marge saberia o que fazer. Chris saberia o que fazer.

“Meu Deus, eu sou um inútil…” o pensamento veio rápido em sua mente.

Ele tentou jogá-lo para o fundo de sua mente aquilo. Não precisava de gatilhos para ter uma crise de ansiedade naquele momento. Não quando um amigo precisava tanto dele.

— Ele era policial, sabe? – continuou Leo quando Henry não disse mais nada. – Eu sabia que ele corria riscos e tudo o mais, mas o modo como ele foi morto… Meu Deus, Henry…

Ele sentiu que Leo queria dizer mais alguma coisa, mas ele se interrompeu, como se não pudesse falar ou coisa parecida. Henry pensou em insistir para saber mais detalhes. Sua curiosidade para saber todos os detalhes de todas as coisas lhe consumia naquele momento. Porém não podia ser assim. Não podia forçá-lo a falar as coisas, não se isso o fizesse reviver ainda mais o que quer que tivesse acontecido. O que quer que ele tivesse visto.

Foi então que percebeu que estava fazendo exatamente o oposto com Erick. Sempre que se encontravam, basicamente ele só insistia e insistia e gritava e xingava. Henry nunca pensou o quão doloroso poderia ser para Erick relembrar as coisas pelas quais poderia ter passado, afinal, ele não sabia a gravidade do problema naquela época. Agora tinha uma ideia após a declaração de Erick enquanto estava bêbado. Mas de qualquer forma, não sabia o quanto aquilo quebrava o melhor amigo por dentro.

Ele não tinha noção da densidade da dor de Erick.

E forçá-lo do modo como ele estava forçando só piorava as coisas.

Rapidamente tentou tirar aqueles pensamentos da cabeça. Não era hora de ficar pensando em Erick ou em si.

— Ele foi a única pessoa que eu pude contar durante muito tempo… Eu realmente não sei o que seria de mim sem ele, cara…

Henry então partiu para a única coisa que poderia fazer naquele momento, deu um abraço em Leo, que retribuiu rapidamente. Ele começou a chorar no ombro dele.

— Vai ficar tudo bem – disse Henry, sentindo que não era a melhor coisa a ser dita, mas quando se tocou, já era tarte. Acariciou os cabelos de Leo com uma das mãos. – Pensa que agora ele está num lugar melhor.

— Cara… É impossível pensar nisso… Ainda mais por eu ter uma suspeita de quem o matou.

— Pera, foi um assassinato? – perguntou Henry arregalando os olhos e afastando-se de Leo.

Leo respirou fundo e Henry viu em sua expressão que tinha falado demais, que não era para ter soltado aquela frase.

— Ele foi encontrado esquartejado na casa dele… Se isso não for assassinato, eu realmente não sei o que é – o tom ácido e cheio de ódio assustou Henry. Nunca pensou que Leo pudesse esboçar aquela expressão.

Henry estava bastante em choque naquele momento. Como alguém poderia matar uma pessoa de uma forma tão cruel? Não que outras formas fossem melhores, mas esquartejar?

— E eu o encontrei… – continuou baixinho – Eu ia jantar na casa dele… Como fazemos todas as quintas… Quando eu cheguei lá me deparei com pedaços dele… Por toda parte… Caralho…

Leo desabou em lágrimas mais uma vez.

Henry imaginou a cena. Engoliu em seco. Precisava distrair a mente de Leo para que ele parasse de pensar a respeito do que viu, por mais que fosse difícil. Estava curioso para saber quem ele suspeitava que tinha matado o seu “pai”, mas preferiu não tocar mais no assunto.

— Vamos distrair a mente, okay? – disse Henry se levantando. – Ver algum filme, jogar videogame… Você quem manda. Meu pai fez comida, vou trazer. Já volto.

Henry entregou o controle da TV para Leo e saiu do quarto rapidamente, o coração completamente acelerado e a respiração ofegante. Não sabia que estava com dificuldade de respirar até aquele momento. Correu para a cozinha, pegando os mistos quentes, uma garrafa de refri e copos. Voltou rapidamente, vendo que Leo nem tinha saído daquela posição.

— Aqui, coma um pouco… Você precisa comer – disse Henry lhe entregando o prato com o alimento.

— Obrigado… – murmurou Leo cabisbaixo.

Comeram em silêncio, Henry sem saber direito o que fazer a seguir. Leo não tinha falado mais nada depois de tudo aquilo e ele não queria que o outro ficasse pior caso insistisse.

— Ei – Henry quebrou o silêncio – Você pode dormir aqui… Já está bem tarde e não é bom andar por ai a essa hora.

Leo apenas maneou a cabeça confirmando.

Sem dizer mais nenhuma palavra, Henry providenciou um lugar para Leo dormir. Puxou a cama reserva que havia debaixo da sua, forrou-a rapidamente e deixou tudo pronto. Emprestou suas roupas mais largas para Leo, que agradeceu e foi para o banheiro tomar banho.

Enquanto Leo estava no banheiro, Henry correu para o celular, mandando mensagem para Marge e Bruno, perguntando o que mais ele podia fazer numa situação daquelas. Ambas as respostas foram que ele fez o que tinha que ser feito, que agora era só mostrar apoio para o outro num momento difícil daqueles. Porém, Henry sentia que não tinha feito o suficiente pelo seu amigo. Sentia que poderia fazer mais, que não estava dando seu melhor.

Passiva do Henry: Henry, você fez o que precisava ser feito. Vai ser pior se você ficar pensando dessa forma. Tem coisas que n tem o que dizer, apenas se mostrar presente e dar apoio, o q tu já tá fazendo. Então para de pensar nisso e foca em distrai-lo.

Bruno: Vc tem que se manter calmo e paciente com ele. N adianta forçar ele a falar mais nada. Eu sei que o sentimento de impotência é péssimo, mas n tem muito o que fazer numa situação dessas, Henry.

Ele tentou colocar aquilo na cabeça. Respirou fundo e acessou a Netflix no exato momento em que Leo apareceu no quarto.

— Vamos ver algum filme? Você quem manda – disse Henry tentando manter-se calmo.

— Eu acho que prefiro ir dormir… Eu to exausto.

— Pelo menos se sente um pouco melhor? – perguntou Henry no impulso, se arrependendo logo em seguida mais um vez.

— Não muito… Mas vou ficar bem – respondeu Leo – Já passei por coisas piores… Vou sobreviver…

Henry assentiu, controlando mais uma vez sua curiosidade. Ele foi se aprontar para dormir, já que não estava no clima de fazer outra coisa. Iria fazer o que Leo fizesse naquele momento. Quando voltou para o quarto, depois de ter tomado banho e escovado os dentes, Henry apagou as luzes e se acomodou em sua cama.

— Muito obrigado, Henry – disse Leo depois de alguns minutos em silêncio. – Eu não sabia para quem mais recorrer… Você foi a primeira pessoa que me passou pela mente. E não me arrependo nem um pouco.

Os lábios de Henry formaram um leve sorriso.

— Não precisa agradecer… Amigos são para isso mesmo.

— Lógico que preciso… – a voz de Leo era baixa – E preciso agradecer também por você não dizer que sente muito. Eu simplesmente detesto quando as pessoas falam isso.

— Por quê?

— Acho que é uma das coisas mais falsas que uma pessoa pode dizer. Não vejo isso como algo sincero – respondeu Leo.

— Pensando bem, você tem razão…

— É foda…

— Demais…

Então caíram mais uma vez no silêncio, que não era desconfortável. Na verdade, era estranhamente confortável dada a situação atual.

— Boa noite, Henry… E obrigado mais uma vez.

— Boa noite, Leo.

Alguns minutos depois, Henry pode ouvir a respiração regular de Leo, indicando que ele tinha caído no sono. Ficou aliviado e esperava que o amigo melhorasse logo. Não gostava de ver os outros sofrendo, principalmente pessoas que ele amava.

Ele não conseguiu dormir naquela noite. Ficara pensando em Leo, no que tinha acontecido e no quanto era extremamente egoísta. Marge já havia falado que o mundo não girava ao redor dele. Que não era só ele que tinha problemas e que ele só se importava com o próprio sentimento. Talvez fosse exatamente por isso que ela não compartilhava tanto seus problemas com ele. Talvez fosse por isso que ninguém confiava nele para aquele tipo de coisa que amizade também tem.

Sentiu-se extremamente culpado por causa daquilo. Aquela experiência com Leo lhe mostrou que as pessoas ao seu redor também tinham problemas, que também passavam por coisas horríveis. Era verdade. Mesmo que inconscientemente, Henry focou sempre em si mesmo. Suas crises eram tão intensas e o engoliam com tanta força que todo o resto era menor. Mas não é certo se fechar para o mundo e para os outros assim.

Se odiou por causa daquilo. Se odiou por fracassar num ponto tão importante do que ele chamava de amizade. Talvez fosse isso que estava faltando para que ele se resolvesse com Erick. Talvez fosse esse clique repentino que pudesse mudar a relação deles.

E Henry estava disposto tentar ver por outras perspectivas para mudar a forma como via o mundo.

Estava disposto a ser um amigo melhor, não só para Erick, mas para todos aqueles com que ele se importava e amava.

Notas finais
Quero agradecer a todos que comentaram até agor e me encheram o saco para postar UHSUAHUSH Amo demais vocês ♥ Temos um grupo da história no Whatsapp! Se quiser entrar me mande por MP o número do seu celular com o DDD u.u Espero que tenham gostado e já vou avisando que a partir do próximo capítulo teremos bastante interação entre esses dois queridos u.u É isto! Sem previsão para o próximo capítulo, mas tentarei escrevê-lo rápido! NÃO DEIXEM DE COMENTAR! SEU COMENTÁRIO É MUITO IMPORTANTE PARA MIM E PARA A HISTÓRIA! Ghost Kisses ~Marceline