Além das Quadras

17 Arco II – 17. Mais perverso pesadelo – Parte 1


Notas iniciais
Olaar! Olha quem está de volta antes da data prevista! Tudo bom com vcs? Nada muito a declarar. Só meu pc voltou lindo e belo e agr vou responder os comentários pendentes. Não desistam de mim, por favorzinho :') Esse capítulo foi baseado em fatos reais (as cenas finais) Quero dedicar esse capítulo a YbCruz que deixou uma recomendação maravilinda para a história *-* Eu choro de emoção com esse reconhecimento! Muito obrigada de verdade ♥ Então vamos ao capítulo u.u Nos vemos nos comentários Ghost Kisses ~Marceline

Erick estava em uma confusão de sentimentos e pensamentos e não estava conseguindo lidar com aquilo de jeito nenhum.

Esperava que aquela viagem à Belo Horizonte fosse uma das melhores coisas que poderia acontecer em sua vida. Esperava que pudesse ver Henry novamente e ficar com ele até serem obrigados a se separarem novamente. Esperava que Henry desse atenção exclusiva para ele. Esperava um monte de coisas, mas aparentemente nenhuma delas se tornou real.

Estava confuso. Tinha visto o melhor amigo beijando outro homem. Nunca tinham falado sobre sexualidade, nenhuma vez, em todos os anos que passaram juntos. Erick nunca achou aquilo relevante e de fato não era. Mas era normal sentir um aperto no peito? Era normal sentir certa raiva consumir seus ossos? Era normal querer separar aquele garoto esquisito de seu melhor amigo e escondê-lo para que ninguém mais pudesse lhe tocar?

Erick sabia que sentimento era aquele, afinal, sentia aquilo apenas com Henry e com Marge. Ciúmes. Não precisou de muito para ele constatar que aquele beijo tinha lhe deixado com ciúmes. Porém, não era o ciúme que ele estava acostumado a sentir, aquele sentimento chato de quando via Henry e Marge brincando juntos sem ele, aquele sentimento incômodo de quando via a garota os trocando por alguma de suas amigas. Aqueles ciúmes de amigo que só quem gosta mesmo da pessoa sabe como é. O medo de ser trocado por outro, o medo de seu amigo encontrar um amigo melhor.

Mas aquilo era diferente. Era um tipo de ciúme que ele nunca sentiu e não sabia exatamente por que que era.

Voltou para o Rio de Janeiro sem conversar com Henry. Não sabia se aquilo era a melhor decisão, mas claramente não conseguiria encarar o melhor amigo sentindo aquela coisa estranha que ele não sabia dizer exatamente o que era.

A primeira coisa que fez quando chegou ao Rio foi ir para a casa de Amanda. Ele precisava tirar aquilo do peito. Precisava contar para ela o que tinha sentido.

— Você está com ciúmes porque gosta dele – ela disse dando de ombros, como se ele não tivesse dito nada que ela já não soubesse.

— Lógico que eu gosto dele, é praticamente meu irmão – resmungou Erick, pois ela não tinha dito nada de novo.

Amanda o olhou com o cenho levemente franzido e quando pareceu se dar conta do que ele tinha acabado de dizer, ela soltou um “Aaaaaaah” e depois riu um pouco.

— Não é esse tipo de gostar que eu estou falando, Erick – ela disse sorrindo. Estava claramente se divertindo com aquilo.

— Então você quer dizer o que, sabichona?

— Quero dizer que você gosta dele mais do que como amigo.

Foi a vez de Erick de franzir o cenho.

— Mas nós já somos melhores amigos. – ele disse.

— Eu quero dizer mais que melhores amigos.

— Super melhores amigos?

— Meu Deus... – Amanda deu um tapa na própria testa, não acreditando na inocência de Erick. – Estou dizer que você gosta dele como... Como o Danilo gosta da Karine.

— Mas ele são namorados, Amanda.

— Exatamente! – ela exclamou. Erick franziu mais ainda o cenho, claramente não entendendo o que a amiga estava dizendo.

— Ainda não entendi...

— Meu Deus, não acredito que essa cabecinha seja tão inocente assim – ela disse batendo na cabeça de Erick como quando se bate em uma porta. – Você quer o Henry como seu namorado. Você gosta dele como namorado. Você sentiu ciúmes dele porque quer que ele seja seu dessa forma romântica. Deu pra entender agora?

Erick ficou em silêncio por alguns minutos, absorvendo o que tinha acabado de ouvir. Fazia um pouco de sentindo, uma vez que aquele ciúme todo era estranho. Uma vez que só pensava em Henry o tempo todo. Uma vez que só falava dele. E uma vez que tinha sonhos estranhos com o melhor amigo.

— Isso quer dizer que eu sou gay? – ele perguntou.

Amanda deu de ombros.

— Você sente atração por outros homens? – ela perguntou sentando-se na cama ao lado dele.

— Não.

— Você sente atração por mulheres? – ela tentou. Ele pareceu pensar um pouco.

— Não.

— Você sente atração por alguma coisa? – ela riu.

— Não... Nunca pensei nisso na verdade – ele disse dando de ombros. – São só... Pessoas... Sei lá, Amanda.

A confusão em sua cabeça estava clara. Nunca se importou com essas coisas. Nunca parou pra pensar nisso. Até aquele momento em que se pegou sentindo coisas estranhas pelo melhor amigo. Nunca havia se apaixonado, nunca havia prestado atenção em outras pessoas. Era estranho se fosse parar para pensar naquele momento. Ele deveria sentir-se atraído, não?

— Eu nunca beijei ninguém – ele refletiu – Isso deveria influenciar em alguma coisa?

— Você nunca beijou? Ninguém? – ela perguntou, incrédula.

— Não – ele deu de ombros – Isso deveria ser algo sério?

— Bom, se você nunca beijou, não dá pra saber do que você gosta – ela disse pensativa. – Eu acho... Não tenho certeza.

— Eu to realmente confuso.

— Vem cá, vamos fazer um teste.

Franzindo o cenho, ele virou-se para Amanda quando ela o puxou para que virasse. Eles se olharam rapidamente antes de ela aproximar seu rosto do dele, encostando os lábios nos de Erick. Ele ficou levemente espantado, não sabendo muito bem o que fazer. Via os olhos de Amanda fechados, deveria fechar os seus também? Ele não se moveu, ao passo que ela também não fez menção de se mover também. Passados alguns segundos, ela se separou dele, olhando-o com expectativa.

— E ae? O que você sentiu? – ela perguntou.

— Eu deveria sentir alguma coisa? – ele perguntou confuso.

— Aff... – ela pareceu frustrada com a falha de seu plano. – Bom, isso prova mesmo que você não se sente atraído por mulheres.

— Então eu não sou hétero... – ele botou a mão no queixo pensativo. – Então eu sou gay?

— Talvez você seja... Sei lá, assexual.

— E isso seria? – ele perguntou.

— Vamos para o Google! – ela disse animada e foram para frente do seu notebook.

Fizeram várias pesquisas. Amanda falando alguns termos para ele e Erick simplesmente balançando a cabeça, não se identificando com nada do que ela falava. Na verdade, aquilo estava deixando-o mais confuso ainda.

Naquele dia acabaram por ver série na Netflix. Não acharam nada de interessante, mas Amanda disse que não ia desistir de sanar a dúvida do amigo.

Aquilo ficou na cabeça de Erick por muito tempo. Uma semana pensando naquilo, martelando aquele troço na sua cabeça, várias e várias vezes.

“Se eu beijar um cara, eu vou saber se sou gay?”, ele pensou. “Não custa tentar. Nunca beijei ninguém mesmo.”

A única pessoa que lhe veio a mente sobre aquele assunto era Emerson. Ele sabia que o garoto era gay, já que vivia se gabando por ter um encontro marcado com algum garoto desconhecido. Erick apenas dizia para o outro se divertir, o que o deixava meio contrariado.

Talvez ele pudesse ajudá-lo de alguma forma.

Com essa decisão fixa na mente, Erick disse, no início do treino, que precisava falar com Emerson depois que fossem liberados. O garoto pareceu animado, dizendo que eles podiam passear pelo clube enquanto conversavam.

O treino passou-se normalmente, Roní implicando com os dois como sempre e os dois apenas ignorando. Erick descobriu que, quanto mais ignorasse, menos ele o importunava, vendo que não estava conseguindo atingir os dois. Logo que o treinador liberou o time, Emerson foi para perto de Erick com um sorriso no rosto, caminhando ao lado do levantador para fora do ginásio.

— Vem, tenho um lugar perfeito para conversarmos. – ele disse pegando Erick pela mão e o puxando até uma área um pouco deserta e arborizada ali perto.

— Nossa, aqui é lindo – comentou Erick admirando as árvores e os canteiros com flores e arbustos.

Sentaram-se perto das flores, Emerson analisando o rosto de Erick enquanto este admirava a beleza das flores multicoloridas.

— O que você queria falar comigo? – ele começou, vendo que Erick estava distraído demais com as plantas.

— Ah sim – ele disse voltando o olhar para Emerson – Você é gay, não é?

Emerson pareceu um pouco ofendido, pois franziu o cenho com certa raiva e afastou-se um pouco de Erick.

— O que isso tem a ver? – Emerson perguntou da defensiva.

— Bom – começou Erick, coçando a nuca, pois não sabia muito bem quais as melhores palavras para utilizar naquele momento. – Eu to um pouco confuso sobre a minha sexualidade. Pensei que você pudesse me ajudar.

A expressão de Emerson se suavizou ao escutar as palavras de Erick. Ele se ajeitou no banquinho e encarou Erick de volta.

— O que você quer saber exatamente? – perguntou ele.

Erick levou a mão ao queixo, pensativo.

— Bom, eu não me sinto atraído por garotas – ele disse dando de ombros – Então achei que... Sei lá, se eu beijasse um menino eu pudesse sentir alguma coisa.

— E você já beijou uma garota? – Emerson perguntou curioso.

— É... – ele deu de ombros – Amanda me beijou uma semana atrás, mas não senti nada demais.

— Hmm... – Emerson soltou – Então você quer me beijar?

— Se não for muito incômodo... – Erick disse um pouco sem graça.

— Não é... – Emerson disse sorrindo, parecendo conter a felicidade – Eu adoraria ajudar. Quando você quiser.

— Okay... – Erick confirmou, assentindo com a cabeça e olhando para baixo.

Tinha que se preparar, pois estava morrendo de vergonha por ter pedido aquilo. Naquele momento ele só queria enfiar sua cabeça debaixo da terra, igual avestruzes. Nunca se sentiu tão desconfortável como se sentia naquele momento. Era tão estranha a ideia de beijar alguém que aquilo fazia seu coração acelerar.

— Eu... É... – começou Erick, mais vermelho que um pimentão. – Acho melhor...

Antes mesmo que Erick pudesse amarelar, Emerson aproximou-se rapidamente, tocando os lábios nos de Erick com urgência. Ele não ficou espantado e dessa vez, agora sabendo, fechou os olhos para poder aproveitar o beijo.

Diferente de Amanda, Emerson começou a mover os lábios, fazendo com que Erick ficasse levemente perdido. Não se separou de Emerson, decidindo por acompanhar o garoto da melhor forma que podia. Segundos se passaram e Erick se espantou quando Emerson abriu a boca e forçou a língua contra seus lábios. De maneira automática, Erick abriu a boca também, fazendo com que a língua de Emerson invadisse sua boca.

Não demorou muito para o outro começar a acariciar a língua de Erick com a própria. Sem saber muito bem o que fazer, Erick começou a movimentar a língua também, tentando imitar os movimentos de Emerson.

Depois de alguns minutos, Erick não soube dizer quantos, eles se separaram. Emerson tinha um sorriso imenso no rosto, ao passo que Erick estava analisando o que tinha sentido naquele momento.

— Então? – Emerson perguntou na expectativa.

— Eu não sei... – ele murmurou – Foi bem diferente do que a Amanda me deu.

— Melhor?

— Não sei, mas foi bem diferente.

— Você gostou? Acha que te ajudei?

— Eu acho que foi bom... Não sei.

— Bom, quando você se decidir, me fale – Emerson disse, não muito contente – Eu tenho que ir. Tchau, Erick.

— Obrigado pelo ajuda. – Erick agradeceu com um sorriso sem graça.

— Nada...

— Até o próximo treino.

— Até

Então ficou sozinho. Os pensamentos sobre o beijo rondando sua cabeça. Não tinha sentido nada de diferente apesar de o beijo em si ter sido diferente. Esperava que fosse sentir alguma coisa, mas foi apenas uma troca de saliva. Aquela conclusão o deixou mais confuso ainda.

Mais tarde, naquele mesmo dia, recebeu uma ligação de Amanda, toda animada. Havia ligado para ela logo depois de treino, contando para a amiga a experiência que teve com Emerson.

— Acho que descobri o que você pode ser – ela disse eufórica. – Acho que você é demissexual.

— Fale português, Amanda, português. – ele pediu rindo da euforia da amiga.

— Demissexual é a pessoa que só sente atração, física ou emocional, quando tem algum vinculo com a pessoa. Vínculo emocional, psicológico ou intelectual. Aqui diz que a pessoa tem que conhecer muito bem a outra pra poder ter algum tipo de atração, principalmente sexual. Não é igual a maioria das pessoas, que se sente atraído pela beleza primeiramente. Acho que, por você conhecer o Henry de séculos, você acabou desenvolvendo algum sentimento por ele.

— Mas eu não me sinto atraído por ele... – Erick disse, mas parou para pensar um pouco. – Eu acho que não.

Ele ouviu a amiga bufar do outro lado da linha.

— Você vive falando dele. Aposto que ele não sai da sua cabeça. Você se apaixonou pelo Henry em algum momento da sua vida, mas nunca relacionou isso ao sentimento de gostar romanticamente falando. – ela discursou – Você pode ter confundido amizade com gostar e quando o viu beijando aquele menino, não se sentiu bem. Aquele beijo foi o gatilho para você descobrir o que sente por ele.

Erick ficou em silêncio, pensando que aquilo realmente poderia fazer sentido em algum grau.

— Eu vou te mandar uns sites que eu achei para você dar uma olhada. Talvez te esclareça melhor as coisas. – ela disse depois de um tempo.

— Okay.

Eles desligaram e ele abriu o WhastApp no computador para pegar os links. Passou muito tempo lendo sobre aquilo. Leu todos os links que Amanda lhe mandou e também pesquisou mais alguns pelo Google. As coisas ficaram um pouco mais claras na sua cabeça, uma vez que tudo o que lia sobre demissexualidade se encaixava perfeitamente em sua vida.

Era bom poder se encaixar em algum lugar, saber que não estava sozinho diante daquela situação. Estava perdido, mas depois do que lera, fazia realmente sentido ele ser demissexual. Deveria falar com Henry, não deveria? Declarar que estava sentindo algo que nunca sentira antes.

Porém, aquilo podia estragar a amizade deles. Claro que podia. Estar apaixonado pelo melhor amigo não era uma coisa nada boa, ainda mais sabendo que o outro poderia recusar, poderia afastá-lo. Também, nem sabia mesmo se Henry era gay. Talvez aquele beijo com aquele cara fora apenas uma curiosidade, afinal, Henry era apaixonado por Marge até pouco tempo atrás. Ou até onde Erick sabia, pois não se lembrava de ter conversado a respeito disso com o outro.

Decidindo que não iria falar nada, Erick foi dormir, pois tinha aula no dia seguinte. Ele realmente não esperava que aquilo fosse acontecer, mas infelizmente aconteceu.

Quando chegou ao Colégio, viu que vários alunos apontavam para ele e fofocavam, dizendo coisas que Erick não conseguia ouvir. Ele viu alguns olhares indiferentes direcionados a si, mas também via olhares de escárnio e de nojo estampado nas caras dos alunos. Erick não entendeu nada, então tratou de procurar Amanda para ficar sabendo do que as pessoas estavam falando a respeito de si.

Não precisou procurar a garota, pois ela o interceptou no momento que estava indo para o prédio das Comunicações. A cara da garota era uma mistura de raiva e de pena, expressão essa que Erick não entendeu muito bem.

— Como você tá? – ela perguntou receosa.

— Deveria estar mal? – ele perguntou franzindo o cenho – Por que que tá todo mundo olhando para mim? Virei algum tipo de celebridade?

— Você não tá sabendo? – ela perguntou confusa.

— Deveria?

Amanda não disse nada, apenas sacou o celular, mexendo no aparelho rapidamente e o entregou para Erick.

— Passa para o lado – ela disse mordendo o lábio inferior em expectativa.

Erick arregalou os olhos. Ali estava o motivo para todos estarem rindo de sua cara e falando de si. Eram fotos. Fotos do beijo que ele havia dado em Emerson no dia anterior. Não havia uma foto, mas no mínimo umas oito, de ângulos e distância diferentes.

Ele entregou o celular para Amanda rapidamente, correndo para o banheiro o mais rápido que podia, ouvindo as risadas e o tom de deboche de alguns alunos que estavam por perto.

— Já temos a bichinha do ano! – debochou um dos alunos.

— Não fica perto, vai que é doença – riu outro – Deus me livre começar a querer dar o cu igual ele.

— Sempre soube que vôlei é esporte de gay, não me admira que ele seja.

Ele ouviu as coisas horríveis vindas dos alunos. Ouviu coisas que nunca pensou que seriam direcionadas a ele. Chegou ao banheiro do prédio de Comunicações e deu graças a Deus que ele estava vazio. Agarrou a pia com força. Não iria chorar. Não iria dar o gostinho de aqueles babacas verem que aquilo o atingiu.

“Eu não vou me importar com isso”, ele pensava. “Eu sei o que sou, eles que se fodam.”

Lavou o rosto, tentando se acalmar. Porém, sentiu a raiva de Emerson subir. Erick não sabia o que tinha acontecido, mas apenas ele e Emerson sabiam sobre o beijo. Amanda não estava lá e nunca faria algo daquele porte. A culpa só podia ser de Emerson. De algum jeito, ele era o culpado pelas fotos.

Saiu do banheiro, determinado a não se importar com as ofensas e xingamentos dos outros alunos.

— E se eu for gay mesmo? – ele rosnou quando não aguentou mais as ofensas. – O caralho do problema é meu e não de vocês, suas escórias.

Os alunos que o ofendiam ficaram calados, espantados com a atitude de Erick. Antes mesmo que algum engraçadinho pudesse falar alguma coisa, o sargento monitor despachou todo mundo para a sala de aula.

Erick ficou de boas nos próximos dias, apenas ignorando as investidas de alguns de tentar lhe machucar. Ele descobriu que realmente ignorar era a melhor saída e aquilo passou a não atingi-lo mais. Estava pouco se fudendo. Nesse momento soube quem eram seus amigos de verdade, pois os que diziam isso se viraram contra ele e o afastaram.

O que chocou mesmo Erick foi o fato de Danilo não o fazer. Na verdade, Danilo estava até um pouco mais amigável, perguntando se Erick estava bem e até ameaçando bater em alguns garotos da Cavalaria que estavam enchendo seu saco.

Porém, aquilo não adiantou muito quando a situação toda tomou um novo patamar.

Depois de uns três dias daquilo, Erick teve uma surpresa ao chegar em casa.

A princípio, as coisas estavam normais. Ele chegou em casa um pouco mais tarde, pois tinha ido no Shopping Tijuca tomar café na Starkbucks com Amanda depois das aulas de recuperação. Então quando chegou já tinha passado um pouco da hora do jantar.

Ele foi para o quarto, trocou suas roupas, ficando apenas com um shorts confortável e foi para a cozinha, onde sua mãe estava fazendo arroz, Nathália estava lendo algum livro da faculdade e seu pai estava à mesa jantando. Erick notou um copo de Whiskey ao lado do prato do pai, mas preferiu não perguntar nada.

Ele sabia que o pai tivera alguns problemas com bebida e que sua mãe o tinha tirado daquele mundo. Então achava estranho o pai estar bebendo whiskey, ainda mais no jantar. Talvez tenha lhe dado vontade... Erick que não iria se meter nos gostos e vontades do pai.

— Boa noite, família – ele disse sorrindo. – O que tem para comer, mãe?

— Ah, seu pai comeu o restinho da comida que tinha. – Adriana falou – O que você quer? Estou fazendo arroz.

— Tem a linguiça de ontem? – ele perguntou abrindo a geladeira. – Pode fazer pra mim?

— Claro, querido.

— Obrigado, mãe.

Erick sentou-se à mesa, pegando seu celular e começando a mexer no aparelho enquanto esperava a comida. Estava sentindo-se desconfortável, pois sentia perfeitamente que seu pai estava com os olhos verdes pregados em si.

— Quer dizer que você gosta de linguiça, Erick? – Anderson disse com deboche.

Erick franziu o cenho, confuso.

— Sempre gostei... Por que, pai?

Anderson levantou da cadeira de supetão, fazendo com que o objeto caísse para trás. Ele bateu com as mãos na mesa com força, sem deixar de encarar Erick um só minuto.

— É linguiça que você quer? – ele perguntou com escárnio, indo até a pia onde a mãe estava e pegando o alimento. – Então é linguiça que você vai ter.

— O que? Pai!

Anderson caminhou pesado até Erick, que encarava o outro ainda sem entender o que estava acontecendo. Sem ao menos falar nada, Anderson enfiou a linguiça na boca de Erick, fazendo-o engasgar com o alimento sendo forçado em sua boca.

— É isso que você gosta, sua bichinha? – ele gritou com raiva, forçando a linguiça na goela de Erick, que tentava inutilmente se livrar das mãos de Anderson – Vai comer essa porra na puta que o pariu.

— Anderson! – Adriana exclamou incrédula, indo até o marido para tirá-lo de cima do filho.

— Pai, larga ele! – Nathália gritou, levantando-se e indo até o pai também.

— Cala a boca, suas vadias. – Anderson virou-se e deu um tapa no rosto de Adriana e um empurrão em Nathália. – Essa porrinha tem que aprender a ser homem! Eu vi as porras das fotos, Erick! Eu sabia...

Erick não entendia nada, mas não importava. O que importava naquele momento era ele livrar-se de seu pai, que lhe deu um soco no rosto. Ele chorava, as lágrimas entrando em sua boca, se misturando com o sabor da linguiça crua.

— Aquele gayzinho de merda do seu amigo sempre arrastou asinhas para cima de você! – cuspiu Anderson – Eu sabia que você era gay igual àquele merda, mas eu tive esperanças de que era mentira. – seu pai estava claramente descontrolado – Isso é tudo culpa dele. Eu falei para Adriana não deixar você perto daquele Henrique. Eu avisei, mas ela não me escutou. Agora você é esse merda por causa dele! A culpa é toda dele por você ser assim!

Adriana e Nathália tentaram mais uma vez tirar Anderson de cima de Erick, mas o homem bateu nas duas mais uma vez. Nathália caiu para trás, batendo a cabeça no batente da porta e permanecendo desacordada.

Erick arregalou os olhos ao ver a irmã caída no chão, então lutou com mais forças para se livrar de Anderson, conseguindo quando este voltou sua atenção para bater em Adriana, que insistia em tirá-lo de cima de Erick.

— Erick, corre! – ela gritou.

Anderson tinha tirado o cinto e avançava para cima de Adriana. Erick deveria ter escutado o grito da mãe, mas ir até Nathália parecia mais importante naquele momento. Ele cuspiu a linguiça de sua boca e correu até a irmã, vendo que ainda estava viva.

Não demorou muito para sentir o couro em suas costas.

— Eu vou te ensinar a ser homem. – Anderson pegou Erick pelo pescoço e o arrastou até a sala. – Porra de filho meu não vai dar o cu não.

Anderson jogou Erick no chão, batendo com a fivela do cinto em sua coxa. Erick sufocou o grito de dor e agonia, deixando as lágrimas escorrerem livremente pelo seu rosto. Não estava entendendo. Como seu pai havia sabido das fotos? Como ele poderia ter uma reação tão agressiva assim? Erick não era gay! Isso era um fato, mas ele não conseguia verbalizar aquilo, não quando o couro do cinto batia em sua pele enquanto Anderson dizia que a culpa era toda de Henry.

“Henry não tem nada a ver com isso”, ele pensou.

— Me diga uma coisa – Anderson parou, pegando Erick pelo pescoço e o apertando. – Você já fodeu aquela sua amiguinha negra né?

Erick demorou uns segundos para perceber que ele estava falando de Amanda. A dor em seu pescoço e pelo o seu corpo era tão grande que aquilo estava falhando seu cérebro.

— Responde! – gritou ele, apertando ainda mais o pescoço de Erick.

— Não... Não... – ele respondeu fraco.

— Tsc, não acredito – Anderson disse e começou a bater em Erick novamente, lhe dando chutes também, já que o outro estava no chão. – Você é uma desgraça! Uma desonra para essa merda de família! Nunca te ensinei a ser homem não? Mudou de lado por causa daquele merdinha do Henrique.

— Não fala dele assim! – Erick teve forças para gritar.

— Cala a boca, filho da puta!

Erick ficou calado, concentrando em não gritar com as porradas que estava levando. Sentia sangue escorrendo em alguns lugares de seu corpo. Ouvia a mãe gritando e tentando fazer Anderson parar, mas sempre que ela se aproximava muito, ele batia nela também. Doía muito. Cada soco, cada chute, cada cintada. Porém, doía mais saber que era seu pai que estava lhe espancando daquele jeito.

Doía saber que o homem que lhe dera a vida e que sempre se mostrou equilibrado estava completamente descontrolado. Doía ver que ele também era capaz de bater em sua mãe e em Nathália. Erick queria que sua mãe ligasse para uma ambulância para levar Nathália para um hospital, mas a mulher parecia empenhada em tentar separar Anderson de Erick.

Ele tentou dizer alguma coisa. Tentou dizer para que Anderson parasse. Não estava aguentando mais. Não queria mais sentir aquela dor intensa. Ele só queria que tudo parasse.

Então tudo parou. Não sentia mais nada ao passo que sua visão escureceu e ele desmaiou.

[…]

Marge encarava Erick perplexa.

Ela mantinha a mesma expressão que Amanda manteve quando ele contou aquilo para ela. Lágrimas saiam dos olhos da garota, ao passo que saiam dos seus também. Relembrar aquela merda sempre era difícil para ele, mas tinha que explicar. Tinha que botar para fora, pois, ao mesmo tempo em que doía, fazia com que ele se sentisse livre daquilo. Era como se, se contasse, aquilo saísse de si, como se não tivesse acontecido ou acontecido com outra pessoa.

— Erick... – murmurou Marge, limpando as próprias lágrimas e depois as do amigo. – Eu não sabia... Por que não denunciaram? Por que não contou para alguém?

— Minha mãe não quis envolver a polícia – ele disse vagamente, sem olhar para ela – Envolver a polícia do exército era a última coisa que ela queria. Então ela aguentou.

— Como assim?

Erick suspirou, soltando o ar pesadamente.

— Ele batia nela. Culpava minha mãe por ter me feito. Além de culpar Henry, ele a culpava. Ele batia nela sempre que ela estava em casa. Batia em mim sempre que podia, tentando “me fazer homem”. Ele fez mais coisas horríveis que realmente não estou preparado para contar, me desculpe...

— Tudo bem... Relembrar essas merdas já foi o suficiente, não precisa me contar mais nada.

Erick assentiu. Mesmo que não fosse contar mais coisas pesadas, ele decidiu se explicar mais um pouco.

— Ele batia em Nathy também – ele murmurou – Depois de tanto tempo, ela não aguentou. Juntou suas coisas e foi embora. Eu dei graças a Deus que ela o fez, pois se ela ficasse, seria muito pior.

“Eu apanhava pela minha mãe sempre que podia. Ela chegou a ter que me trancar no quarto um dia para que eu não interviesse. Foi horrível vê-la sangrando e completamente machucada. Eu me sinto culpado até hoje por isso tudo, pois eu comecei com isso tudo. Meu pai disse tanto que era culpa de Henry que eu acabei me convencendo disso. Depois de ter apanhado todos os dias durante uma semana, analisei melhor a situação. Se Henry não tivesse beijado aquele menino e eu não tivesse visto, eu não teria me perguntado se era gay e teria corrido atrás de me descobrir. Eu me convenci disso. Me convenci de que Henry era culpado de tudo. Mas...”

Ele fez uma pausa, um nó na garganta. Respirou fundo e prosseguiu.

— Mas agora eu vejo que ele não fez nada. Ele estava só se divertindo – Erick deu de ombros. – Eu fui um puta babaca, mas foi inevitável depois de tudo o que me aconteceu. Eu ainda apanhei muito do meu pai depois de ter encontrado Henry nesses últimos Jogos. Agora eu quero consertar as coisas, mas tenho medo de meu pai surtar e aparecer aqui e acabar fazendo merda com o Henry. Por isso que eu não posso falar com ele agora. Não até ter certeza que meu pai ainda está a quilômetros de distância. Por isso que eu te imploro, Marge, te imploro mesmo... Não conte ao Henry.

Marge ficou uns segundos olhando para a cara desolada de Erick. Ela não tinha interrompido o outro em nenhum momento de sua narrativa triste e deprimente. Ela tinha reações que ele já esperava e Erick deu graças a Deus por ela ser uma excelente ouvinte.

Ela acabou com a distância entre os dois, dando um abraço superapertado em Erick. Ele se permitiu o toque, sabendo que era Marge, sabendo que ela iria apoiá-lo e manter sua mudança para Belo Horizonte em segredo, mesmo que, quando mais nova, ela não fosse boa em guardar segredos.

— Não vou contar – ela disse, apertando ainda mais Erick – E vai ficar tudo bem, okay? Vai ficar tudo bem.

— Eu espero, Marge... Eu espero...

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Notas finais
Eu sei que esse capítulo foi meio pesado, mas faz parte da história. Lembrando que o Erick ainda era bem novinho nessa época que aconteceu essas coisas, então né? Não tenho muitas considerações. O próximo capítulo será um pouco maior, não se preocupem. Vou começar a responder os comentários pendentes, então não esqueçam de comentar! Isso me motiva mais a continuar com a história :) Ps: eu tenho coração, okay? Beijos PREVISÃO PARA O PRÓXIMO CAPÍTULO: 19/08 Ghost Kisses ~Marceline