Além das Quadras
12 Arco I – 12. Especial para você
Notas iniciais

Dias atuais – Alguns meses para 2017
O final do ano estava mais corrido do que Henry podia imaginar.
Em um piscar de olhos, tinha feito o ENEM, as últimas provas tinham chegado e dali a algumas semanas seria sua colação de grau e seu baile de formatura.
O tempo tinha passado rápido demais e ele mal podia acreditar que estava finalmente se formando no ensino médio. Estava ansioso para isso, queria se livrar logo da escola e de toda a aporrinhação que tinha por ser coronel-aluno do colégio. Formaturas e desfiles em destaque e ainda teria que fazer discurso na colação e na formatura de encerramento do ano letivo. Malditas notas altas que o colocaram naquela posição.
Ele tentava não pensar muito naquilo, afinal, as coisas iam correndo no vôlei também. Parecia que campeonatos das categorias sub 19 e sub 23, tanto oficiais quanto amistosos, tinham brotado do chão e ele participava de todos que podia.
Diziam que ele era um dos melhores líberos que já tinha pisado no Arsenal, então o colocavam em todas as equipes de base que lhes convinham. Henry não gostava muito disso, ser destaque sempre foi um problema gigante para ele. Mas era algo que tinha que simplesmente aceitar. Achava-se um bom líbero, mas um dos melhores? Não, não mesmo. Talvez as pessoas vissem um potencial nele que o próprio não enxergava.
Mas isso era apenas uma parte dos problemas de Henry.
Desde que tinha feito sexo com Chris, este não falava consigo. Ele era ignorado na escola, nos treinos e até pelo WhatsApp, às vezes recebendo respostas breves que Henry sabia que não eram características de Chris. Não sabia o que estava acontecendo com o ficante, mas também não estava com tanto tempo para resolver aquela questão, muito menos ficar sofrendo pelo assunto. Quando as coisas se acalmassem, ele conversaria com o outro.
Claro que aquilo o incomodava. Pelas suas contas, teve umas três crises por pensar demais naquilo, mas Chris não parecia que daria o braço a torcer e falaria o que o estava incomodando. Henry teve que se ocupar com outras coisas para não surtar mais do que já estava surtando.
A correria de final de ano era inevitável, mas Henry sempre tirava alguns dias para ficar com Marge. Inclusive ficou aliviado quando a garota comunicou que o pai viajaria a trabalho por uns dias. Como ela não gostava de ficar sozinha, Henry a chamou para passar alguns dias em sua casa. Era sempre bom ter a melhor amiga por perto por uns 3 ou 4 dias. Eles conversavam, jogavam videogame, brincavam com os gêmeos e faziam besteiras pra comer.
Já tinha anos que queria fazer uma tatuagem juntos, então tinham marcado para fazê-las naquele dia. Ambos estavam ansiosos com aquilo. Tinham ficado vários meses escolhendo o que poderiam fazer. Procuraram várias imagens na internet, mas nenhuma parecia boa o suficiente para expressar a amizade dos dois.
— A gente tem que fazer algo original e não copiado da internet – reclamara Marge algumas semanas antes.
Estavam jogados na cama de Henry, ambos deitados de forma que ficassem de cabeça para baixo na beirada da cama. Cheshire estava entre os dois, sendo acariciado pela mão de Marge, que olhava fixamente para a televisão ligada no Cartoon Network.
— Eu sei, mas você sabe que minha criatividade é péssima – respondera Henry. Tinha tirado os óculos, já que ficavam caindo em sua testa por estar naquela posição, então simplesmente olhava para o nada, as coisas meio embaçadas a sua frente.
— Uhum – concordara Marge – A mente criativa desse relacionamento sou eu.
— Nunca neguei isso.
Marge soltou uma risada e caíram em um silêncio, ambos pensando o que poderiam fazer de tatuagem.
— Que horas são? – perguntara Henry de repente, sem conseguir enxergar o relógio na cabeceira da cama.
— Hora de aventura.
Eles pararam por um segundo e levantaram-se ao mesmo tempo.
— Você tá pensando o mesmo que eu? – perguntara Marge animada.
— Eu vou fazer do Jake.
— Sempre gostei mais do Finn mesmo.
Henry soltou uma risada com a lembrança de como tinham decidido fazer a tatuagem. Combinava com eles, ainda mais que os dois amavam o desenho. Era simplesmente a ideia perfeita.
Tinham acabado de almoçar e Henry estava esperando Marge terminar seu banho quando Jules entrou em seu quarto.
— Henry! Henry! Você e a Marge vão sair? – perguntou Jules com um boneco na mão.
— Vamos sim, campeão – respondeu Henry escolhendo uma roupa para vestir. – Você quer alguma coisa?
— Sim, quero ir junto.
— Nós vamos num lugar pra adultos, o bonitinho não pode ir – disse pegando uma camisa e vestindo-a.
— Mas eu quero ir! O que vocês vão fazer? Parece divertido.
Henry virou-se para o irmão, encarando os olhinhos azuis brilhantes do outro. Jules conseguia ser bem teimoso quando queria, algo que acontecia com uma frequência impressionante.
— Jules, não. – disse Henry tentando não parecer muito rude – Nós não vamos pra um lugar de criança. Além do mais, quem vai ficar com a Rach hein?
— A mamãe vai ficar com ela.
— Eu já disse que não, Jules!
— Mas, Henry...
— Não, Júlio! – Henry levantou a voz, irritando-se.
Jules arregalou os olhos, mas Henry não se arrependeu de ter falado daquela forma com o irmão. Os olhinhos do outro começaram a se encher de lágrimas e, antes que Henry pudesse falar ou fazer alguma coisa, Jules virou-se e saiu do quarto sem falar nada.
Ao mesmo tempo em que Júlio saia do quarto, Marge aparecia com uma toalha preta ao redor do corpo, olhando para Henry com um olhar interrogativo.
— O que aconteceu? – ela perguntou entrando definitivamente no quarto e indo para sua mochila, o cabelo loiro pingando nos ombros.
— Jules sendo irritante e querendo ir com a gente – respondeu Henry com uma careta.
— Uai, qual o problema de ele ir?
— Marjorie, estúdio de tatuagem não é lugar de criança.
— Não vejo problema – ela deu de ombros, pegando uma calcinha e vestindo-a sem tirar a toalha.
— Você nunca vê problema nas coisas, garota – Henry resmungou desviando o olhar dela.
— Iiihh, tá estressadinho hoje por quê?
— Não enche, Marjorie.
— Não acredito que você vai ficar putinho justo no dia que vamos fazer nossa linda tatuagem.
Henry voltou a olhar para a garota, vendo que ela estava de costas e procurava um sutiã na mochila. Ele deveria ter se acostumado com aquilo há séculos, mas não era tão fácil uma vez que Marjorie fora sua primeira paixão. Henry reconhecia que a garota ela linda e ainda a achava gostosa mesmo que fosse levemente desprovida de seios, então ainda sentia uma pontada nas partes baixas toda vez que Marge inventava de trocar de roupa na sua frente.
Ele havia falado isso com ela e, como várias outras coisas, ela não deu a mínima e simplesmente continuou se trocando na frente de Henry. O máximo que ele podia fazer era desviar os olhos até que ela terminasse de se trocar.
— Não sei... Tem algo me incomodando – comentou Henry pegando um par de meias. – Sabe o sentimento de que tá tudo uma merda? E você não pode fazer nada a respeito? Então, to tipo assim.
— Lá vem você com essas suas crises – disse Marge colocando um vestido soltinho e virando-se para Henry – Apenas relaxe, Henrique.
Henry soltou um suspiro. Marge tinha razão, ele tinha que relaxar, mesmo que não fosse tão fácil assim. Sempre teve esse problema. Às vezes a vida perdia o sentido, nada que ele fazia estava bom o bastante e muitas vezes queria simplesmente desistir de tudo. A ansiedade fazia isso com ele com frequência. Muitas coisas na cabeça o fazia ter esse sentimento de imponência, principalmente quando ficava focado demais em atingir as expectativas das pessoas. Decepcionar os outros era a última coisa que Henry queria.
Odiava sentir-se assim, mas era inevitável. Até as coisas que mais gostava ele perdia a vontade de fazer, como jogar videogame ou vôlei. Às vezes até tinha vontade, mas simplesmente não fluía. Acabava que se estressava por conta de coisas bobas e dava patadas desnecessárias nas pessoas, irritando-se e sendo rude, como acabara de acontecer com Jules.
— Vamos logo, o estúdio é um pouco longe. – disse Marge pegando as chaves do carro do pai e uma bolsa com seus pertences.
Henry apenas assentiu, pegando sua carteira, celular e chaves, dando-os para Marge colocar em sua bolsa. Atravessaram o corredor do apartamento, Henry passando os olhos pelo quarto dos irmãos, vendo que nem um dos dois estavam lá. Soltou um suspiro. Sabia que Jules não ia perdoá-lo se falasse com ele agora e também não estava com a mínima vontade de aturar a birra do irmão.
Definitivamente não estava de bom humor.
Saíram de casa, Henry gritando para a mãe dizendo que já estavam saindo. Ficaram conversando até chegarem ao Corolla cinza que estava estacionado na frente do prédio. Tinham sorte que o pai de Marge tinha viajado de avião e deixado o carro com ela. Entraram no automóvel e Marge deu partida.
— Quando você vai tirar carteira? – perguntou Marge após colocar música no som do carro.
— Quando eu entrar de férias – respondeu Henry dando de ombros – To pensando seriamente em tirar a de moto primeiro. Mais prático e barato.
— Pelo amor de Deus, só tira – falou ela animada – Vamos dar muitos rolés de moto.
Henry soltou uma risada. Sabia muito bem do amor por moto que a amiga tinha, mas também sabia o quão o pai dela era contra ela andar de moto. Já Henry não tinha esse problema, até porque seria uma hipocrisia da parte dos pais dele uma vez que ambos tinham carteira de moto e ainda possuíam uma.
— Vai ganhar uma?
— Mas é claro que não – Henry soltou uma risada – Vou usar a do meu pai mesmo.
Marge assentiu, parando num sinal vermelho.
— Você sabe se esse estúdio é bom mesmo? – perguntou Henry.
— Uhum. A Pamy é a melhor! Acredite – respondeu Marge. – Todas as meninas do time que têm tatuagem tatuam com ela. Então indicação é o que não falta. Sem contar que ela foi uma das modelos mais fabulosas que eu tive para o meu portfólio.
Continuaram a conversar sobre aquele assunto até chegarem ao estúdio. Demorou mais ou menos 30 minutos para chegarem, Marge estacionando em frente ao estúdio. A faixada era de tijolos, um letreiro colorido e luminoso escrito “Tattoo” estava em cima da porta de vidro.
Adentraram o local, Henry olhando a linda decoração de rock no ambiente. Uma parede era revestida por papel de parede de tijolos laranja, com vários posters de rockeiros e bandas de rock dos anos 70 e 80. O resto das paredes era pintado de preto fosco, onde havia vários desenhos feitos em giz de quadro negro colorido. Não era muito grande, mas era bastante acolhedor.
Um balcão de madeira escura estava bem na entrada com uma garota de cabelo laranja, cheia de tatuagens e piercings, que mascava chiclete e mexia em seu celular.
— Boa tarde, temos hora marcada com a Pamela – Marge tomou a dianteira, Henry ainda apreciando os detalhes do local.
— Podem sentar, ela já vai aparecer – respondeu a garota sem muito ânimo, apontando para um sofá de estofado vermelho do outro lado do local.
Marge assentiu, se encaminhando para o sofá. Henry rapidamente a acompanhou, sentando-se ao lado dela. Foi assim que percebeu, logo atrás do balcão, um garotinho, mais ou menos na idade de Jules e Rach, com cachos castanhos claros ao redor da cabeça estava sentado em um tapete emborrachado, desenhando na parede com giz.
— Eu disse que... – começou Marge com um sorriso desdenhoso apontando para o garotinho.
— Cale a boca, Marjorie – resmungou Henry revirando os olhos.
— Como eu amo te ver irritadinho – Marge chegou o rosto próximo do de Henry e lhe deu um beijo estalado no rosto. – Você fica muito fofinho com raiva.
— Meu Deus, me erra, garota. – reclamou ele passando a mão do rosto onde a amiga lhe tinha beijado.
Antes mesmo que Marge pudesse fazer mais alguma brincadeira com Henry, uma mulher entrou no local através de uma porta de madeira preta que ele não tinha reparado.
— Hello, bitch! – exclamou a moça abrindo os braços tatuados e se direcionando para Marjorie.
Henry observou enquanto as duas se abraçavam e se cumprimentavam. Pamela era relativamente alta, com certeza mais alta que ele. Tinha os cabelos escuros raspados nas laterais, a parte de cima cortada curta e jogada para trás. A tatuadora possuía lindos olhos verdes, que combinavam com sua pele bronzeada.
— Você deve ser o Henry – ela disse sorrindo após largar Marge. – A Mar falou muito de você.
Henry arqueou uma sobrancelha na direção de Marge antes de estender a mão e cumprimentar Pamela, que o puxou e lhe deu um abraço apertado. Meio surpreso, Henry retribuiu o abraço desajeitado, já que não gostava muito de ser tocado por pessoas que não conhecia. Eles se separaram, Pamela olhando para ele de cima abaixo com um sorriso no rosto.
— Eu já estava há séculos querendo colocar minhas garrinhas na pele dessa menina – ela disse apertando a bochecha de Marge. Pamela virou-se para Henry e lhe lançou um sorriso malicioso – Aparentemente também vou amar botá-las em você.
— Eu disse que você ia amar a pele dele – riu Marge. Ela deu uma olhada para o garotinho brincando na parede e apontou discretamente, olhando para Pam. – Filho?
— Ah não – ela disse olhando para o menino com um sorriso – Otávio é sobrinho do meu melhor amigo. Às vezes fico com ele quando Alex não pode. Ele é um amorzinho.
Ao olhar Otávio, Henry rapidamente lembrou-se de Jules e do que tinha feito com o irmão mais cedo. Porém, antes de chegar alguma conclusão, Pamela o tirou de seus devaneios.
— Então vamos lá?
Os dois assentiram e seguiram a mulher até a porta preta pela qual era apareceu. O local era todo branco, com uma cadeira de tatuagem no centro e uma mesa ali próxima. Pamela sentou-se em outra cadeira com rodinhas e encarou os dois.
— Mar me disse que vocês querem fazer uma tatuagem de amizade – ela começou, depois virou-se para Henry – E que você quer fazer outra além dessa. O que você quer? Podemos começar por você.
[…]
Estavam em uma cafeteria perto da casa de Marge, a garota alegando que estava morrendo de fome depois de terem passado quase a tarde inteira no estúdio de tatuagem. Henry não parava de olhar para o contorno da tatuagem de Alice no País das Maravilhas que adornava seu antebraço.
A ideia de Henry era fechar o braço direito com tatuagens só de Alice no País das Maravilhas. Ele era tão apaixonado pelo livro, pelo mundo e pelos desenhos que Marge fazia para ele, que precisava ter aquilo no corpo. Mesmo que a tatuagem não tivesse quase nenhum detalhe, ele estava apaixonado com o Cheshire Cat, o Chapeleiro Maluco, a Alice e vários outros elementos da obra em seu braço. A maioria dos desenhos fora feita por Marge, alguns eram de Pamela e outros pegou inspiração na internet. Como a tatuagem era muito grande e detalhada, ele não se importou em fazer mais de uma sessão para finalizá-la. Queria que fosse a tatuagem mais perfeita em seu corpo.
Também estava apaixonado pelo desenho completo e lindo que estava em sua panturrilha esquerda. Pamela tinha mostrado a eles um desenho de Hora de Aventura muito mais legal do que aquele que eles queriam. A tatuagem de Henry era basicamente um espelho com Finn e Jake virados para a esquerda, enquanto a de Marge era o mesmo espelho, porém com Fionna e Cake viradas para a direita. Se colocassem as pernas uma do lado da outra, dava a impressão que eles estavam vendo suas versões opostas.
— Ei, dá pra parar de babar e falar comigo? – Marge estalou os dedos na frente do rosto de Henry, que analisava atentamente a tatuagem. – Eu sei que você amou, mas você vai poder ficar olhando pra ela pro resto da sua vida, então me dê atenção.
— Também pretendo ficar olhando pra você pro resto da minha vida, idiota – ele disse sorrindo para a amiga.
— Eu sei que sou fabulosa e você precisa intensamente da minha presença, mas não posso estar 24h por dia contigo. Eu queria muito, mas né? A vida não facilita.
— Uhum – ele concordou, voltado seu olhar para o cardápio da cafeteria – Amei a Pamela, ela é um amor.
— Não é? – ela disse se aproximando de Henry perto o suficiente para que pudesse olhar o cardápio com o amigo. – Ela é maravilhosa. Nem acreditei que consegui encontrá-la para o meu portfólio de visibilidade trans.
Henry desviou o olhar do cardápio, esbarrando o nariz na bochecha de Marge ao fazê-lo, ele a encarando com o cenho franzido.
— Ela é trans? – perguntou. Marge apenas assentiu.
— Tivemos que fazer um trabalho na faculdade sobre minorias e a visibilidade delas na sociedade. – ela disse dando de ombros e se afastando de Henry. – Escolhi os transexuais. Nossa, a entrevista que tive que fazer com ela foi sensacional. Ela passou pela redesignação de sexo há alguns anos e nossa... Ela sofreu muito.
Marge tinha começado a faculdade de jornalismo há mais ou menos um ano e meio. Ela dizia que odiava e amava a faculdade, mas o ódio estava pesando mais que o amor. Ela sempre fora uma viciada em fotografia, Henry não sabia exatamente por que ela não tinha escolhido essa faculdade. Além do mais, o fato de ela estar numa equipe profissional de voleibol também não ajudava muito. Sempre tendo que viajar para competições, acabava faltando aulas e provas. Ele sabia que mais cedo ou mais tarde ela desistiria da faculdade e focaria apenas no vôlei.
— Mas, gente... – foi o que ele conseguiu dizer – Se você não tivesse falado, eu nunca teria descoberto.
— Eu só soube por que as meninas do time me falaram. Agora, não me perguntem como elas descobriram. – ela deu de ombros – Enfim, o que você vai querer? Acho que vou pedir um croissant e um café.
— Eca, café – Henry fez uma careta. – Sei lá, pede a mesma coisa, mas com chocolate quente.
Marge assentiu e abriu um sorriso.
— Tem um garçom muito gato aqui olhando para cá – ela disse, o sorriso malicioso no rosto. – Agora basta descobrirmos se é contigo ou comigo.
Henry revirou os olhos com um sorriso no rosto.
— Quando ele vier aqui, a gente descobre. – ela disse maliciosa e levantou a mão, chamando o garçom.
Henry não tinha reparado do cara, mas assim que ele chegou... Uau. Como ele não tinha notado a presença de um cara daqueles? Os cabelos loiros escuro eram relativamente curtos, alguns cachos se formando ao redor de sua cabeça. Os olhos azuis tinham um tom de malícia e deboche que Henry achava bem sexy. A pele branca era adornada por várias tatuagens, algumas que eram escondidas parcialmente pelas mangas da camisa amarela do uniforme de garçom.
— Boa tarde, em que posso servi-los? – o garçom perguntou, lançando um sorriso branco e levemente malicioso para Henry, que não perdeu tempo em retribuir.
Marge fez o pedido deles, sorrindo de maneira debochada pra Henry, que ainda não tirava os olhos de cima do garçom gostoso.
— Volto com o pedido de vocês daqui a pouco – disse ele sorrindo e piscando para Henry enquanto saia.
Henry acompanhou o cara com o olhar inconscientemente, sendo tirado de seus pensamentos um tanto pecaminosos por conta de um pigarro de Marge.
— Eu não sei como até agora a gente não brigou por causa de homem – ela disse rindo e completou – Ou por mulher.
Henry soltou uma risada.
— Talvez seja por que eu sou maduro o suficiente pra não brigar com minha melhor amiga por causa de pessoas, né? Por que, se dependesse de você, a gente estaria sempre em pé de guerra por causa disso.
Marge fez uma cara de ofendida muito convincente. Se Henry não a conhecesse bem, ele teria acreditado.
— Estou ultrajada, Henrique – a mão dela estava no peito, dando ainda mais ênfase em sua atuação.
— E eu não estou mentindo – ele rebateu sorrindo convencido.
— A culpa é do meu signo – ela disse sorrindo de maneira falsa.
— Anram – concordou ironicamente – Ser geminiana deve ser uma merda, né?
— Ah, cale a boca.
Henry riu e mudou de assunto, um que eles tinham muito em comum e amavam ficar horas e horas conversando sobre: voleibol. Marge tinha voltado de um campeonato sub 23 em Saquarema e ela não tinha contado nada da viagem para ele ainda.
— Eu fiquei muito puta, cara – ela disse – Eu nunca tinha ficado tão nervosa na minha vida. Errei um tanto de passes e meus ataques estavam uma merda. O treinador teve que me colocar no banco, eu não tava conseguindo me concentrar.
Henry franziu o cenho. Marge não era do tipo de se desconcentrar em uma partida de vôlei. Ela sempre fora muito focada, então aquilo realmente espantou Henry.
— Isso tudo só por ser seu primeiro jogo na seleção brasileira? – ele perguntou, encarando Marge.
— Eu não sei – ela confessou fazendo uma careta. – Mas provavelmente sim. No Arsenal eu nunca tive esse problema... Não sei, cara... O clima é diferente. Mesmo que a gente tenha ficado treinando por quase um mês, eu acho que não consegui me adaptar direito à equipe nova. Sem contar que aquela líbero é nojenta.
Henry soltou uma risada. Tinha ficado sabendo dessa história por alto.
— A cada vez que ela xingava alguma menina por ter errado o passe ou o ataque eu ficava com raiva e com vontade de bater nela – dizia Marge, Henry percebendo a irritação da amiga ao falar aquilo – Pelo amor de Deus! Ela entrou na minha frente umas mil vezes pra pegar as bolas atacadas e ainda tem a pachorra de dizer que era por que eu não ia conseguir pegar. Aaaah, me respeita.
Henry soltou mais uma risada. Adorava ver Marge irritada.
— Só faltou eu pisar na cara dela quando ela se jogava no chão pra salvar uma bola. A vontade não me faltou nem um pouco.
— Ai, meu Deus, que violenta – ele riu.
— Aaah, sou mesmo! Não tenho paciência pra líberozinha que se acha a última Coca-Cola do deserto. Nos próximos treinos vou fazer dupla com ela pra encher aquela cara de marmota de bolada.
Henry riu e quando ia comentar alguma coisa, o garçom apareceu com os seus pedidos.
— Líberos podem ser bem metidos mesmo – comentou o garçom colocando a comida na frente de Marge e Henry, que o olharam curiosos – Ainda não joguei em um time que o líbero não se achasse o melhor.
— É, alguns líberos podem ser bem metidos mesmo – disse Marge olhando para Henry , que arqueou uma sobrancelha e revirou os olhos – Você joga de quê?
— Sou ponteiro passador – respondeu o garçom. Ele olhou para todos os lados, vendo que o movimento não estava muito grande e se sentou a mesa com os dois. – E você?
— Também – ela sorriu. – Consegue conciliar trabalho e as competições?
O garoto olhou ao redor rapidamente e voltou seu olhar para Marge, dando de ombros.
— Mais ou menos. Também, ainda não estou em um time federado, mas pretendo fazer teste pras categorias de base do Arsenal esse ano.
Marge olhou para Henry imediatamente, abrindo um sorrisinho malicioso.
— Isso vai ser interessante – ela disse e voltou o olhar para o garçom.
— Com certeza vai – ele falou sorrindo – Espero que o líbero não seja um mala.
Henry engasgou com seu chocolate quente, fazendo Marge dar uma risada. O garçom franziu o cenho, não entendo muito bem qual era a graça da situação, mas apenas deu de ombros e lançou um sorriso para Henry.
Henry não sabia se ficava ofendido ou não pelo garçom nem sequer cogitar a ideia de ele ser jogador de vôlei. Já estava acostumado às pessoas olharem estranho pra ele quando dizia que jogava, então não deveria estar surpreso com aquilo. Também não fez questão de falar nada a respeito.
Antes que a conversa pudesse ser prolongada, uma mulher de cabelos castanhos apareceu olhando para o garçom mortalmente. Ele apenas deu de ombros, lançou um sorriso cafajeste para a mulher e se levantou.
— Muito bem, tenho trabalho pra fazer – ele disse – Quem sabe não nos esbarramos outra vez?
— Seria um prazer – Marge disse com um tom malicioso. – O garçom gato tem nome?
Ele soltou uma risada e Henry revirou os olhos com um sorriso, achando graça da maneira de flertar da amiga.
— Leonardo – ele respondeu e lançou uma piscadela para Henry antes de sair definitivamente.
O silêncio caiu sobre os dois, Henry ainda olhando as costas daquele cara que lhe despertou certa curiosidade.
— De nada – comentou Marge de repente, dando de ombros e bebendo um gole de seu café. – Por ter perguntado o nome dele pra você, agora só stalkear no Facebook.
— Eu não faço isso, essa mania é você que tem.
— Ai, que mentiroso! Você acha mesmo que eu não sei que você fica sempre entrando no Facebook do Erick mesmo sabendo que ele é bloqueado? E que você não toma coragem em mandar solicitação de amizade?
— Ai, meu Deus, como eu te odeio... – ele revirou os olhos e olhou para o outro lado, não querendo encarar Marjorie.
— Só estou dizendo que – ela começou, pegando o rosto de Henry com uma mão e virando-o para que ele pudesse olhá-la. – Seja homem e tome uma atitude.
Ele se desvencilhou do aperto dela e suspirou.
— Não quero mais saber desse assunto.
— Uhum. E eu odeio transar – ela disse irônica – Vamos ser realistas, você está louco para conversar com ele.
— Na verdade, quero saber por que o Chris está me ignorando, só isso.
Marge revirou os olhos.
— Larga mão desse cara! Ele é mais pentelho que os irmãos da Rayssa. – resmungou ela – Olha, eu sei que ele fez muita babaquice com você. Eu quero matá-lo por isso, mas garanto que tem uma explicação. Erick não faria nada disso se não tivesse um bom motivo.
Marge falava aquilo, mas nem ela própria sabia se era verdade. O garoto que costumava a ser alegre a animado parecia ter mudado radicalmente. Mas ela mesma queria se agarrar àquela esperança, não apenas por Henry, mas por ela também.
— Não quero passar por aquilo de novo, Marge...
Ela soltou um suspiro e apertou a mão de Henry.
— Eu sei, mas uma hora ou outra você vai ter que lidar com isso. Sei que não vai aguentar ficar muito tempo com esse peso nas costas.
Ele a encarou por alguns segundos e disse para mudarem de assunto.
O que mais lhe doía era saber que ela tinha razão.
[…]
Em um piscar de olhos, já estavam em dezembro.
Era o dia do baile de formatura de Henry e ele estava bastante empolgado. Depois do chororô que teve na colação de grau, que foi emocionante para muitos, mas não tanto pra ele, a única coisa que o ainda prendia àquelas pessoas era o baile de formatura. Ele tinha que admitir que detestava mais da metade de sua série e, mesmo que tenha se livrado de muitos por conta do avanço, teve que vê-los novamente na colação e os veria no baile.
Estava animado e ansioso, apesar de tudo. Por causa do baile, foi a única vez desde outubro que conseguiu uma resposta mais ou menos decente de Chris. Ok, talvez o “eu paguei, né? Vou ter que ir” não fosse tão decente, mas Henry estava feliz por não ter recebido um “hm” ou “tá” de maneira fria. Com Chris no mesmo ambiente que ele, mesmo que por obrigação, Henry o pressionaria a falar o que estava acontecendo.
— Henrique, nós estamos indo – disse Fábio aparecendo na porta do quarto de Henry, vendo que o outro estava com dificuldades em fazer um nó de gravata. – Venha cá, deixa eu te ajudar com isso.
Com um suspiro, Henry soltou a gravata roxa e caminhou até o pai. Não gostava muito de usar terno, mas era seu baile de formatura, tinha que estar vestido formalmente para a festa. Fábio fazia o nó na gravata de Henry em silêncio, enquanto o outro o olhava. O pai era alguns centímetros mais alto e, tirando os cabelos negros, Henry era muito parecido com ele.
— Eu sei que não falo isso muito – começou Fábio, quebrando o silêncio – Mas eu estou muito orgulhoso de você, filho.
Henry sorriu, alguma coisa comprimindo seu peito. Amava o pai, mas nunca foram muito próximos. Fábio era bastante reservado e às vezes Henry não se sentia muito a vontade de compartilhar certas coisas com ele, como fazia com a mãe. Mesmo assim, foi maravilhoso quando ele se “assumiu”. Lembrava perfeitamente das palavras do pai: “Não importa quem você ame, o importante é continuar sendo uma boa pessoa”.
— Obrigado, pai – respondeu Henry ainda sorrindo.
— Continue sendo essa pessoa maravilhosa, ouviu? – Fábio disse, também com um sorriso e abraçou o filho – Eu te amo, Henrique.
Henry ficou levemente espantado com aquilo, seu pai nunca foi de demostrar afeto daquela forma e raramente falava que o amava. Talvez os gêmeos tenham amolecido o coração de pedra de Fábio. Henry retribuiu o abraço, apertando o pai mais forte ainda.
— Vamos logo, não podemos nos atrasar. – a voz de Cassandra soou atrás deles. – Ora, ora! Fábio Lima demonstrando afeição, essa é nova.
— Não fale besteiras, Cassie – ele disse soltando o filho e caminhando até a mulher. – Eu sou um poço de afeição.
— E eu sou um poço de santidade – rebateu ela com um sorriso no rosto.
Fábio revirou os olhos e abraçou Cassandra pela cintura, lhe dando um beijo. Sem se importar com o filho a poucos metros de distância, Cassie passou os braços ao redor de Fábio, beijando-o com mais intensidade.
— Não estamos atrasados? – perguntou Henry rindo.
— Ah, sim... Claro – ela soltou-se rapidamente do marido e sorriu maliciosa para o filho. – Vamos.
Henry soltou uma risada pelo nariz e acompanhou os pais até a sala, onde a vizinha deles estava brincando com os gêmeos. Henry preferia que os gêmeos fossem também, mas seus pais queriam curtir a festa tranquilos, então tiveram que chamar alguém para ficar de babá. O bom era que eles conheciam bem a garota.
Cassie deu as últimas instruções a ela e logo estavam no carro a caminho do Clube Jaraguá, onde seria o baile. Passaram o caminho conversando e ouvindo música, o que fez o tempo passar mais rápido. Logo estavam no clube, Henry vendo os seus colegas, professores e alguns desconhecidos em roupas formais.
Cassandra estacionou o carro, já que seu pai não gostava muito de dirigir, e saíram, indo até o grande salão decorado com algumas flores. Henry cumprimentava alguns colegas que falavam com ele. Entraram no salão e foram direcionados por uma hostess até a mesa designada para a família dele.
O local estava bem decorado e, por ser ainda o início da festa, estava um pouco vazia. Deixou seus pais na mesa quando Ricardo apareceu e o cumprimentou, tirando-o dali para que pudessem beber alguma coisa. Ficaram conversando enquanto esperavam o restante do time, pelo menos alguns, e Henry esperava por Marge, Rayssa e, especialmente, Chris.
Aos poucos a festa foi enchendo, alguns meninos do time que estavam no terceiro ano se juntaram a Henry e Rick, que estavam conversando e bebendo em um canto do enorme salão. Finalmente, Rayssa e Marge chegaram, esta explicando que tiveram que pegar um táxi por que o pai precisou do carro de última hora.
— Nem acredito que você está se formando! – exclamou Ray abraçando Henry apertado – Meus parabéns!
— Eu não acredito é que essa é a terceira turma que forma depois da gente, isso sim – resmungou Marge, mas abriu um sorriso e abraçou o melhor amigo. – Parabéns por se livrar dessa gente babaca da sua série.
— Marjorie! – exclamou Ray batendo no braço da amiga – Não é pra tanto.
— Não... Imagina – disse Henry vagamente – Onde está o seu namorado?
Por um segundo, ele a viu ficar tensa, mas ela logo tentou relaxar.
— Nós brigamos ontem e ele disse que não viria, então tive que vender o convite dele pra outra pessoa. – ela resmungou meio irritada, mas dava pra ver que não estava bem por ter brigado com o namorado.
— Entendi, é uma pena...
— É...
— Não vamos ficar nessa bad, não é mesmo? – Marge interrompeu o silêncio que se seguiu, passando o braço ao redor dos ombros de Rayssa. – Vamos, você precisa beber.
Ray soltou uma risada pelo nariz e deixou ser arrastada até o bar que tinha perto da entrada do local. A banda contratada tocava alguma música MPB, fazendo com que um bando de gente se postasse a frente do palco, que estranhamente ficava no meio do salão.
O tempo ia passando e Henry tentava não pensar em Chris, que não havia aparecido até agora. Marge tentava mantê-lo ocupado, dançando, bebendo ou até mesmo tirando fotos na cabine fotográfica ou num espaço com acessórios, mas nada disso parecia adiantar. Só o fato de Chris poder estar ali e não ter sequer ido falar com Henry já deixava o garoto ansioso e nervoso.
— Você está tão nervoso que não está se divertindo, vamos dar um tempo nessa coisa aí? – comentou Marge depois de um tempo em que estavam sentados à mesa comendo. Henry tinha passado um tempão tirando fotos com seus familiares e estava morrendo de fome.
— Eu tenho que resolver esse problema – ele respondeu, olhando ao redor a procura de Chris – Isso está me matando desde outubro.
— Eu sei que está, te ajudei com umas quatro crises por causa disso, esqueceu?
— Não seja exagerada – ele revirou os olhos.
— Nunca sou – ela deu de ombros. – Vamos, termina de comer pra gente dançar.
Ele apenas assentiu e mudou de assunto enquanto comia. Quando ele terminou, saíram da mesa e foram dançar, Henry sem muita animação, constatando que Chris tinha realmente furado com ele.
Marge tentava a todo custo fazê-lo sentir-se melhor, mas parecia que, quanto mais ela tentava, mais ele ficava mal. Ela sentiu vontade de matar Chris naquele momento (e talvez em outros durante esses dois meses que eles ficaram brigados). Mas a vontade estava maior do que nunca.
— Henry, viemos aqui para nos divertir e não para... – ela começou, segurando os ombros de Henry, mas parou imediatamente quando viu Chris se aproximando deles. Marge soltou um suspiro e largou o amigo. – Deixa pra lá.
— O quê? Agora você fala – ele disse e avançou na intenção de segurá-la pelo braço, mas foi tocado no ombro antes que pudesse segurar a amiga.
Henry virou rapidamente para ver quem era e congelou ao ver Christian ali parado a sua frente. Seus quase dois metros eram bastante intimidadores, mas Henry nunca se sentiu intimidado por Chris, pelo menos não depois que eles se conheceram melhor. O garoto estava bonito com um terno cinza e gravata vermelha, mas a expressão que esboçava não era nada agradável.
— Nós precisamos conversar – disse Chris, a voz não tão alta por conta da música lenta que tocava.
Um arrepio correu pelo corpo de Henry. Ouvir a voz grave de Chris depois de certo tempo era bom, mas de certa forma agoniante, já que não sabia que palavras viriam depois daquilo. Um bando de coisas passou pela sua cabeça, imaginando o que eles iriam conversar.
— Tudo bem – Henry disse torcendo os lábios. – Você quer se sentar ou...
— Não, vamos lá pra fora.
Henry assentiu e seguiu Chris até o lado de fora do salão, onde puderam ficar mais a vontade. Foram para a parte de trás, o lugar estava vazio e era distante, mas a música ainda podia ser ouvida de onde estavam. Chris, que até então estava à frente de Henry, virou-se e encarou o outro.
— Olha, eu não sei o que aconteceu, mas eu... – Henry começou a falar, mas Chris o interrompeu colocando as mãos do outro na própria cintura e depois colocando as suas mãos nos ombros de Henry.
Ele franziu o cenho, estranhando a atitude de Chris, mas não tirou as mãos de onde foram colocadas. Também não falou nada, apenas seguiu o ritmo quando Chris começou a balançar de um lado para o outro, acompanhando a música lenta. Ficaram alguns segundos em silêncio, os olhos se encarando, Henry com uma cara curiosa e Chris com uma expressão neutra.
Henry foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— O que foi que eu fiz pra...
— Shiiii – soltou Chris, depois suspirou – Estou tomando coragem pra dizer.
— Ah – disse Henry, franzindo ainda mais o cenho – Sim, tudo bem...
Ficaram mais alguns segundos em silêncio, que mais pareceram séculos para Henry. Era simplesmente ridículo aquilo. Estavam próximos, poderiam conversar, esclarecer o que estava acontecendo, mas mesmo assim tinham que ficar em silêncio. Ele estava sendo sufocado por aquilo.
— Eu pensei muito durante esses meses – começou Chris, Henry o encarando atenciosamente. – Foram muitas coisas para serem consideradas, mas eu finalmente decidi.
Henry o encarou confuso.
— Decidiu o que?
Chris suspirou.
— Eu não sei o que exatamente você sente por aquele idiota. Mas eu estou disposto a fazer você esquecer ele de uma vez por todas.
Henry parou de se mover, piscando os olhos castanhos, tentando absorver o que Chris tinha acabado de dizer.
— Espera, de quem estamos falando mesmo? – perguntou Henry, ainda sem saber muito bem como reagir. Ele sabia muito bem de quem Chris estava falando.
O outro revirou os olhos.
— Não se faça de idiota – reclamou Chris e apertou o ombro direito de Henry – Eu vi como você olha pra ele. Vi como você se comporta perto dele. Você ainda sente algo por aquele imbecil, algo que eu nunca vou entender. Mas ele não está aqui para você. Então nada me impede de tentar fazer com que você sinta o mesmo por mim e esqueça o Erick.
“Eu nunca vou esquecer ele”, o pensamento cruzou a mente de Henry sem que ele pudesse ao menos impedir. E, infelizmente, ele sabia que era verdade. Ele podia tentar de todas as formas esquecê-lo, mas ele ainda continuaria sendo seu primeiro amor. Continuaria sendo a pessoa que lhe deu um objetivo na vida, que esteve ao seu lado nos piores e melhores momentos. A ideia de esquecer Erick parecia absurda e impossível demais.
Mas ele não disse nada disso. Obviamente que não iria dizer. O sentimento que tinha por Erick ainda era real, verdadeiro. Mas Henry não via como poderia ter uma reciprocidade do que sentia. O fato de Erick estar longe ajudava a manter os sentimentos sob controle. E agora, depois de tudo o que Henry ouviu e presenciou, sabia que sentir algo por Erick só o faria sofrer. Podia gostar o tanto que fosse do outro, mas não achava justo se prender por conta de sentimentos que nunca seriam correspondidos.
— Então eu quero uma chance – continuou Chris – Uma chance pra mostrar que posso ser melhor pra você do que ele jamais foi ou será.
Henry soltou o ar que não sabia que estava segurando. Talvez achasse um pouco de presunção da parte de Chris, mas ele também podia ver o olhar determinado que o outro tinha.
— Você é especial pra mim, cara. Nunca tive ou senti algo parecido, então eu te peço que me deixe pelo menos tentar fazer com que eu seja especial para você também.
O silêncio caiu sobre eles novamente. Ele queria dizer que Chris era especial também, mas não conseguiu verbalizar. Não sabia se queria falar aquilo apenas por obrigação ou se sentia que o outro era verdadeiramente especial para si.
— Tudo bem... Podemos fazer do seu jeito – falou Henry finalmente, quebrando o silêncio e fazendo Chris dar um sorriso mínimo, porém sincero.
— Obrigado por isso, Chibi – ele disse abraçando o outro com força e lhe dando um selinho. – Só dá próxima vez que a gente... Você sabe, fizer aquilo... Você não fale o nome daquele babaca.
Henry se afastou, a expressão uma mistura de incredulidade e confusão.
— Como é?
— Pois é... Por isso que fiquei puto contigo – disse Chris, chegando numa parte que não queria chegar – Depois de fazermos... Eu dei boa noite pra você e você me chamou de Erick. Nunca fiquei tão puto na minha vida e, depois de tanto pensar, vi que não era completamente culpa sua.
— Ai meu Deus... Me desculpa, Chris! Eu não queria, eu... Meu Deus, eu só faço merda... – Henry se afastou do outro completamente, cobrindo o rosto com as mãos e sentindo a respiração ficar ofegante.
Um aperto no coração foi sentido e ele começou a ficar com dificuldade para respirar, as coisas ruins que fizera ou que fazia vieram em sua mente. Logo suas mãos foram tiradas de seu rosto e Chris apareceu no seu campo de visão.
— Está tudo bem, Chibi – ele disse tentando manter a voz calma – Eu entendo, não precisa ficar assim. Eu te desculpo, agora relaxa, okay? Está tudo bem, tudo bem.
Henry apenas balançou a cabeça afirmando, a voz de Chris lhe acalmando aos poucos. Chris abriu um sorriso e beijou Henry novamente para logo depois abraçá-lo.
— Eu sinto muito por não ter falado com você no início da festa ou pelas respostas grosseiras dos últimos meses, só estava tomando coragem de ir falar com você. Mas está tudo bem, estamos bem, não estamos?
— Sim, estamos... – respondeu.
Infelizmente, não sabia se aquilo era uma verdade completa.
[…]
Henry não sentia seu corpo naquele momento.
O treino tinha sido tão pesado que seu membros iam precisar de uns bons dias de descanso. Seus joelhos doíam como o inferno de tanto ficar abaixado. Seus braços estavam molengas pelas boladas que levava. Pra completar, sua bochecha estava totalmente dolorida por conta de duas boladas que levara no mesmo local.
Estava matando a garrafa de água quando Chris jogou-se ao seu lado, completamente cansado e suado. Os treinos para centrais também não tinham sido nem um pouco fáceis aquele dia.
Os outros colegas de equipe também estavam morrendo, o treinador falando algumas coisas que precisavam ser melhoradas enquanto os atletas intercalavam entre resmungar e quererem se matar.
— Christian e Henrique, quero falar com vocês. O resto está liberado.
Henry logo ficou tenso. Odiava quando o chamavam daquela forma e ele sempre pensava que era alguma coisa ruim. Mas Chris estava com ele e, mesmo que não pudessem demonstrar afeto naquele lugar, o sorriso do central o acalmou um pouco.
Quando o ginásio ficou vazio, Henry e Chris se aproximaram ainda mais do treinador.
— Meus sinceros parabéns, vocês foram convocados para a seleção brasileira sub20. A competição vai durar 10 dias de fevereiro, em Miami e você vão pra Saquarema mês que vem para os treinos. Precisam me trazer essas papeladas até dia 20 de dezembro. Estou muito orgulhoso de vocês, meninos.
Henry estava de olhos arregalados, não sabendo muito bem como reagir. Processar que estava sendo convocado para a seleção brasileira era algo bastante difícil, ainda mais que não via nada demais que ele pudesse oferecer para o time.
Chris, por outro lado, só faltava jogar serpentina e soltar fogos ali mesmo.
— Caralho! Henry, nós vamos para a seleção brasileira! Você sabe o quão foda é isso? Meu Deus, eu mal posso esperar! Puta que pariu!
— Isso tá certo? – perguntou Henry depois de alguns segundos. – Quero dizer, entendo que o Chris seja convocado, mas eu?
O treinador soltou um suspiro e olhou sincero para Henry, colocando a mão em seu ombro.
— Eu sei que você não confia no seu potencial e nem sequer enxerga o quão bom atleta você é. Mas existem pessoas que enxergam isso e não tem prova maior que essa.
Ele entregou os papéis para Henry, que ainda continuava estagnado e se encaminhou em direção à saída do ginásio.
— Você é demais! Estou muito feliz por você – disse Chris aparecendo a sua frente e lhe dando um abraço apertado – Sempre soube que você era o melhor líbero que esse time respeita.
Pareceu que a ficha finalmente tinha caído e Henry sorriu mais abertamente do que o normal. Alguma coisa lhe aqueceu o coração ao mesmo tempo em que sentia uma pressão na boca do estômago. Estava animado com a notícia, apesar de tudo.
— Também estou muito orgulhoso de você – ele disse retribuindo o abraço. – O melhor de tudo... Nós vamos pra Miami!
— Melhor ainda – Chris falou sorrindo maliciosamente ao se separar de Henry. Roubou um beijo estalado do outro e piscou – Vou passar mais de um mês inteirinho com você e somente com você.
Henry retribuiu o sorriso de maneira forçada. Seria bom para a relação dos dois esse período juntos, todos os dias, talvez até no mesmo quarto. Porém, Henry ainda estava receoso com as intenções de Chris. O outro não tinha tocado nada com relação a namoro, eles não tinham oficializado nada, mas Henry ainda sentia que Chris esperava algo dele, não apenas a reciprocidade de que falara no baile.
E ele não tinha um histórico muito bom com relacionamentos sérios. Também não sabia ao certo o que sentia por Chris. Simplesmente não queria estragar nada com o outro, mas às vezes parecia inevitável. Afinal, ele tinha essa mania incorrigível de estragar tudo.
— Sim, vai ser maravilhoso – ele disse, não sabendo ao certo se seria verdade ou não.
As coisas não pareciam muito certas para Henry, não mesmo, e aquilo o estava matando. Lentamente.
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