Além das Palavras
9 The Change
Notas iniciais

Beth se sentia patética por ter chorado tanto durante a viagem na frente do homem que mais admirava. Ao mesmo tempo, se sentia tão leve e calma que na metade do caminho, acabou pegando no sono sem nem mesmo perceber.
Daryl permaneceu o restante da viagem velando pelo sono de sua aluna. Sentia-se bem por ver o pequeno sorriso nos lábios de Beth e sua expressão suave dormindo. No entanto, seu coração ainda estava bastante incomodado ao pensar em tudo que a linda garota havia passado.
Mesmo sendo um homem que evitava recorrer a violência, o professor não tinha dúvidas que se ele se encontrasse com Zach, faria questão de quebrar todos os seus dentes e membros do corpo para que ele sofresse pelo menos um pouco do que Beth deveria ter suportado ao longo dos anos de relacionamento.
Assim que chegaram em Atlanta, Daryl decide que eles deveriam comer antes de seguirem para o seminário. Estavam com fome e cansados pela longa viagem que ainda abalou o emocional de ambos.
O professor se dirige para um restaurante onde ele costuma fazer suas refeições sempre que visita sua cidade natal. Por algum motivo, estava animado em mostrar a Beth o lugar onde passou toda a sua infância.
Mas o que realmente surpreendeu Daryl foi o sentimento de culpa que ele sentiu ao acordar a garota, informando que chegaram ao primeiro destino do dia. Ela dormia tão serena e tranquila, que ele se sentia mal por atrapalhar o descanso que Beth tinha, após passar por algo tão desgastante quanto contar seu passado.
— Desculpa por ter dormido durante quase toda a viagem. Deve ter sido bem irritante me ter chorado a maior parte do caminho — lamenta Beth, envergonhada.
A garçonete aparece com os seus pedidos e eles passam a comer. Estavam famintos e a deliciosa refeição foi aceita de bom grado. Eles comem um pouco e suspiram, apreciando o sabor de seus pratos.
— Eu garanto que não foi irritante. E está tudo bem ter dormido. Você estava cansada. Na verdade, lamento ter acordado você, mas imaginei que estaria com fome, depois de tudo o que aconteceu — afirma Daryl e Beth assente.
— Sim. A minha última refeição foi no café da manhã — concorda a loira, olhando em volta. — Mas esse lugar é realmente incrível.
O restaurante era pequeno, mas bastante acolhedor. Com toda a sua decoração rústica em cores escuras e muitos quadros retrôs. O aroma agradável da comida tradicional também trazia nostalgia a Daryl, que havia compartilhado muitas lembranças com sua família naquele lugar.
— Eu também gosto desse restaurante. Vinha muito aqui com meu pai e meu irmão quando eu era criança — conta Daryl, chamando a atenção da garota. — Minha mãe trabalhava fora e era muito ocupada. Estava sempre no hospital e raramente cozinhava para nós. Meu pai era dono de uma livraria próxima daqui, então frequentemente levava meu irmão mais velho e eu para o trabalho. No final do dia, ele nos trazia aqui e comíamos sobremesa sem que minha mãe soubesse.
— Parecia ser divertido — comenta Beth, sorrindo.
Ela estava surpresa pelo professor estar compartilhando consigo sobre sua vida pessoal. O homem nunca falava sobre si mesmo, por mais que os alunos tentassem arrancar qualquer mísera informação sobre ele.
— Sim. Na adolescência, eu era obrigado a vir com meus primos. Sendo o mais novo, geralmente eu era usado para conseguir permissões dos meus tios ou para levar a culpa pelas burradas que os meus primos e meu irmão cometiam — Daryl continua a falar, dando um discreto sorriso. — A minha família é enorme.
— Você só tem um irmão mais velho? — questiona Beth, curiosa.
— Sim. Mas tenho onze primos mais velhos que foram criados como meus irmãos. Enquanto nossos pais trabalhavam e nós não estávamos na escola, todos os primos ficavam na casa de meus avós — revela o professor, dando um gole em seu suco.
— Devia ser realmente animado ter todos juntos.
— E bastante barulhento — resmunga o professor, fazendo Beth gargalhar. — Meus primos e irmão eram irritantes, mas de certa forma, eles são boas pessoas. Apenas tente não levar nada do que eles disserem para o lado pessoal.
— Eu sempre quis ter uma família grande, mas sempre fomos somente meus irmãos, meus pais e eu. Depois que Shawn e Maggie se casaram, eu até passei a ter contato com os meus cunhados e sobrinhos, mas não sou tão próxima assim deles. Ainda que eu conviva bastante com o Hershel e a Kim — conta Beth, pensativa.
— Esses são os nomes dos seus sobrinhos? — pergunta Daryl.
— Sim. Hershel tem dez anos e a Kim tem sete anos. São crianças maravilhosas e felizmente me dou bem com os companheiros de meus irmãos. Ainda assim, eu me sinto um pouco deslocada quando a família está toda reunida — comenta a aluna, encarando sua comida com um fraco sorriso.
Daryl observa Beth por alguns instantes. Pondera se deveria comentar sobre essa sensação de desconforto que ela parece ter com a família, mas decide que já havia forçado demais a garota a falar sobre seu doloroso passado.
Não diria mais nada agora. Esperaria o momento em que ela estivesse pronta para contar ou desabafar sobre seus sentimentos em relação a família, pois assim como aconteceu hoje, ele sabia que esse momento chegaria.
— Bom, acredito que eu devo avisar que quando eu estou com a minha família eu... bem, meu comportamento muda um pouco — informa Daryl, atraindo a atenção de Beth mais uma vez. Ele parecia desconfortável. — Peço que ignore minhas ações atípicas. Meus primos e, principalmente, meu irmão conseguem despertar um lado diferente meu.
— Seu comportamento muda? — repete a garota, pensativa. — Bom, eu imagino que todos são assim. Creio que o senhor deva se sentir muito mais à vontade com os seus familiares. Tudo bem. Prometo que não contarei a ninguém o que acontecer na casa de sua família.
— Não é bem sobre isso que eu estou preocupado. Não é como se eu estivesse escondendo algo ou com medo que você conte para alguém sobre minha família — responde o professor, parecendo desconfortável. — Bem, será muito mais fácil de entender o que quero dizer quando você os conhecer.
Resolvendo não pressionar seu professor, Beth decide deixar de lado o desejo de exigir mais explicações e volta a comer. A refeição se seguiu com uma conversa agradável sobre os livros que eles estavam ansiosos para ler e a última crítica postada por Daryl no jornal, que havia interessado Beth.
Assim que terminaram, Daryl e Beth seguiram para o hotel onde seria realizado o seminário do professor. Felizmente, a equipe organizadora do evento não se importou com a presença da garota e até mesmo ofereceram dois quartos para que eles ficassem à vontade para deixar suas coisas.
Como era de se esperar de uma das maiores fãs do professor de Literatura, Beth não conseguiu tirar os olhos da apresentação de Daryl. Era fascinante a visão que Daryl tinha sobre a abordagem da Literatura nas escolas e as técnicas que poderiam ser usadas para incentivar a leitura e escrita não apenas de alunos como da própria população da era digital, abordando inclusive, histórias criadas pelos fãs como um dos grandes incentivadores da leitura.
Após o término do aclamado seminário, Beth e Daryl retornam para os quartos que receberam da organização para se arrumar para o próximo evento do dia. A garota não conseguia se segurar de tanta animação ao pensar que conheceria pessoalmente o seu escritor favorito.
Por outro lado, Daryl se sentia nervoso e bastante apreensivo. Conhecia bem as personalidades complicadas de seus familiares e temia que Beth se sentisse intimidada. E tudo piorava ao pensar que eles dificilmente entenderiam a relação professor e aluna que Daryl e Beth possuem.
Daryl não sabia como a família reagiria quando conhecessem a garota. Conhecidos por serem extremos, o professor sabia que só havia duas reações possíveis de sua família: ou eles odiariam Beth ao ponto de fazer a garota correr para longe deles aos prantos ou a amariam ao ponto de recebê-la como membro oficial da família e serem um exemplo de hospitalidade.
Assim, com suas mentes presas em seus pensamentos, Daryl e Beth terminam de se arrumar. Ao se encontrarem no térreo do hotel, o professor não consegue deixar de se sentir deslumbrado ao ver quão bela Beth estava em um vestido vermelho simples, mas que desenhava bem as suas delicadas curvas.
— Você está magnífica — elogia Daryl, assim que Beth o alcança.
O sorriso tímido da garota se torna ainda mais radiante ao ver que o professor havia aprovado seu visual. Não sabia exatamente se deveria ir com um look de gala ou algo mais casual para a festa de lançamento do livro, então se sentia aliviada por ver os olhos de admiração de Daryl.
— Você também está incrível, professor — responde Beth, observando o homem.
E seu coração concordava bastante com aquela afirmação, enquanto os seus verdes olhos brilhantes encaravam Daryl completamente encantada com a aparência do homem, que usava um terno azul escuro assim como sua gravata e uma blusa social cinza claro, o que era um verdadeiro veneno para sua mente, que possuía um fraco para homens vestidos com roupas sociais.
— Vamos? A festa já começou e eu tenho certeza de que não vai demorar muito para que minha mãe comece a me ligar cobrando a minha presença — comenta Daryl, estendendo a mão para Beth.
— Então é melhor nos apressarmos — supõe Beth, aceitando que o professor a guiasse até seu carro, que não demora a aparecer com o manobrista. — A festa é muito longe?
— Bem, a festa de lançamento será na livraria do meu pai, que fica no centro. Se o trânsito não estiver muito ruim, chegamos em trinta minutos. Já o pós-festa será na casa dos meus avós. Minha família adora festejar e qualquer coisa é motivo para eles se unirem e beberem como se não houvesse amanhã — conta o professor, fazendo Beth rir.
— Confesso que não o vejo em um ambiente como esse, professor — afirma a loira, sorrindo ao ver Daryl abrir a porta do carro para ela. — Obrigada.
— E é exatamente por isso que eu estava sempre fugindo da minha família — responde Daryl, entrando no lado do motorista.
Ele coloca o cinto e após dar a gorjeta para o manobrista, ele passa a dirigir em direção a festa de lançamento que eles já estavam atrasados.
— Por causa das minhas fugas, eu ganhei o apelido de Toupeira.
— Toupeira? Por quê? — questiona Beth, confusa. — Se fosse para dar algum apelido de acordo com a sua personalidade, pensei que seria algo como morcego ou lobo solitário.
— Um dia, quando eu ainda era uma criança, meus primos encontraram um livro infantil sobre toupeiras na livraria do meu pai. Bem, eu não sei se você sabe, mas as toupeiras são consideradas um dos animais mais solitários e antissociais do mundo. Elas gostam de cavar vários buracos na terra e detestam dividi-los. Nesse livro também falava que as toupeiras passam grande parte de suas vidas cavando e atravessando túneis que possuem espaço apenas para um animal — explica Daryl, arrancando uma risada divertida de Beth.
— Em outras palavras, as toupeiras são animais que detestam barulhos, não suportam outros seres e amam ficar isoladas. De certa forma, faz algum sentido esse ser seu apelido — brinca Beth.
Daryl bufa, lançando um olhar insatisfeito, mas logo se sente contagiado pela risada melodiosa de Beth e um sorriso discreto surge em seus lábios. A garota sempre o fazia se tornar muito mais sociável do que ele geralmente era.
O restante do trajeto, Daryl e Beth continuaram a compartilhar histórias de sua infância com a família. Mesmo não sendo algo grandioso, eles se sentiam mais próximos durante aquele momento. Se identificavam em muitos aspectos e realmente se divertiam com as lembranças.
Ao chegarem na livraria, Daryl ainda demora um tempo até encontrar uma vaga para estacionar o carro. Após se identificar na portaria, eles entram na livraria e foi inevitável para Beth não se surpreender com o tamanho e beleza do lugar. Não esperava encontrar um ambiente que contrastasse tão bem o moderno com o clássico grego.
A livraria era completamente branca, com escadas em espiral, pilastras semelhantes as colunas gregas e o piso de madeira clara no térreo. Até onde ela conseguia ver, os outros andares da livraria possuíam carpete acinzentado que contrastava bem com as capas coloridas dos livros, que funcionavam muito bem como decoração.
— Esse lugar é... — Beth suspira, enquanto Daryl a conduz para dentro da livraria.
— Incrível, não é? — comenta Daryl, entendendo o que Beth queria expressar. — Ao longo desses seis andares podemos encontrar estantes bem cuidadas, escadarias charmosas, varandas de ferro delicadas e uma infinidade de livros de diferentes temáticas que se misturam entre si para formar uma bela composição em um espaço cheio de luz.
— Eu nunca estive em uma livraria tão bonita e encantadora — concorda Beth, olhando em volta com seus olhos verdes brilhando intensamente.
— A Book Light não é apenas uma livraria, onde as pessoas vão para comprar livros. Meu pai quis criar um ambiente onde é possível relaxar lendo um bom livro, enquanto se delicia de um saboroso vinho. Ele fez questão de acrescentar uma cafeteria no último andar com uma visão encantadora da cidade no último andar — conta o professor, conduzindo a garota para o último andar da livraria, onde ocorria a festa.
— Você cresceu em uma livraria assim? Impressionante! É por isso que você é tão familiarizado com a leitura, professor — comenta a loira e Daryl nega.
— Não. Quando eu era criança, a livraria era pequena. A Book Light existe há mais de quarenta anos, mas somente há quinze anos é que meu pai conseguiu transformar seu sonho em realidade. Foram cinco anos de construção para chegar nesse patamar e se tornar um ponto turístico da cidade — responde Daryl, dando um sorriso orgulhoso.
As portas do grandioso elevador de vidro se abre e eles entram. Enquanto eles sobem para o último andar do prédio, Beth admira a livraria. Tudo era tão elegante e grandioso. Havia tantos livros que ela sentia que poderia passar anos naquele lugar que ainda não seria capaz de ler todos os títulos disponíveis.
— ... finalmente, eu gostaria de agradecer a todos mais uma vez por tirarem um tempo para vir aqui hoje.
A voz do escritor ecoa pela cafeteria lotada, enquanto ele se encontrava no palco. Beth arfa ao se deparar com a vista deslumbrante da cidade iluminada pelas luzes noturnas se sobressaindo por detrás de Will D. Bruce.
— Parece que chegamos no fim de seu discurso — comenta Daryl, olhando em volta.
Ele procurava por algum de seus familiares, mas o lugar estava tão cheio, que ele não conseguia encontrar nenhum rosto conhecido. Daryl aperta o braço de Beth que o segurava, temendo perdê-la no meio da multidão, e a conduz para perto do pai, que cumprimentava os fãs.
Beth arfa mais uma vez ao se dar conta que estava mesmo diante de um de seus escritores favoritos. Ela retira o livro que estava em sua bolsa e sorri nervosa, sem acreditar que Will D. Bruce poderia autografar seu exemplar que ela fez questão de comprar na pré-venda.
— Você foi muito bem hoje, senhor.
Daryl e Beth escutam uma das fãs do escritor elogiar o homem, enquanto ele autografa seu exemplar. Ele sorri de forma mais contida e assente, apreciando as palavras da jovem mulher.
— Obrigado. Espero que aprecie a leitura — comenta Will, entregando a caneta e o livro de volta para a fã.
O escritor ergue o olhar e se surpreende ao encontrar seu filho mais novo se aproximando dele acompanhado de uma bela garota. Will faz sinal para a esposa, anunciando silenciosamente a chegada de Daryl.
— Você veio! — exclama Will, afastando de seus fãs para cumprimentar o filho.
— É claro que eu vim. Parabéns pelo novo lançamento, pai — parabeniza Daryl, que se surpreende ao ser puxado para um forte e caloroso abraço.
— Bem-vindo de volta ao lar, filho. Sentimos sua falta — murmura o escritor, apertando mais o abraço, que timidamente é correspondido por Daryl.
Eles se afastam e o sorriso de Will de alarga. Fazia quase um ano que eles haviam se encontrado pessoalmente. Com a vida agitado de ambos, pai e filho não se encontravam com tanta frequência.
Daryl também não era exatamente o exemplo de filho comunicativo que ligava para os pais contando sobre sua vida ou perguntando sobre os acontecimentos da família, então até mesmo as conversas à longa distância eram raras. Mesmo quando os pais ligavam ou realizavam chamadas de vídeo, Daryl parecia sempre fugir.
Will observa o caçula por alguns instantes e de repente se lembra do fato extraordinário de que o filho veio para a festa de lançamento de seu livro com uma bela acompanhante. Nesse momento, sua esposa aparece e seus olhos recaem imediatamente sobre Beth.
Viola alterna seu olhar entre filho e o rosto desconhecido. Ela até mesmo havia se esquecido de cumprimentar seu caçula de tão surpresa que se encontrava com a presença feminina.
— Quem é ela? — indaga a mãe de Daryl, encarando a garota com expectativa.
Encarando a mãe com repreensão por agir de maneira tão invasiva, sem nem mesmo ter os cumprimentado, Daryl suspira e se aproxima de Beth. As formalidades teriam que ficar para depois, afinal, sua família não o deixariam em paz após estarem diante da primeira garota que ele apresentaria para a família.
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