Além das Palavras
5 One Art

O silêncio no carro era constrangedor. Daryl e Beth estavam envergonhados pela situação e era incômodo permanecer quietos, quando suas mentes trabalhavam de maneira tão frenética. Ainda assim, nenhum dos dois sabia como quebrar o clima estranho que havia se formado desde que entraram no carro.
O motorista encara Daryl pelo retrovisor e faz um sinal para questionar se deveria ligar o som. Até ele havia notado que a carona dada pelo seu contratante e o fato de o casal estar sentado tão próximos no banco de trás havia gerado uma situação constrangedora.
Daryl assente. Talvez a música do rádio pudesse deixar o clima mais ameno, afinal, quem não gosta de música? E dependendo da sorte, eles até mesmo conseguiriam um assunto impessoal que os fizesse relaxar um pouco.
Uma melodia conhecida por ambos ecoa pelo carro. Daryl observa Beth pelo canto do olho e consegue ver que a música atraiu a atenção da garota. A loira, por outro lado, se sentia surpresa por justamente aquela música estar tocando no carro.
— Gosta dessa música? — questiona Daryl, observando as reações interessantes de Beth.
— Não sei dizer — confessa a garota, dando um sorriso estranho.
Beth se vira para Daryl e o encara com atenção, lendo sua expressão. Estava bastante interessada em saber a opinião do professor em relação a música que ela conhecia melhor do que ninguém.
— E você? Gosta dela?
— Sim. Annette é uma cantora que ficou muito famosa quando eu estava entrando na adolescência. Não era particularmente fã dela, mas acho que nos últimos anos ela tem lançado excelentes músicas. Expired Lover é mesmo uma música muito interessante. Chamou bastante a minha atenção desde que a escutei pela primeira vez — conta Daryl, dando um leve sorriso.
— Você... realmente gostou de Expired Lover, professor? — questiona Beth com seus olhos brilhando em expetativas.
— Gostei bastante. Apesar de não poder opinar sobre questões musicais como ritmo e melodia, sendo um professor de Literatura e Poesia, analisar as letras das músicas é algo que eu faço naturalmente. As últimas músicas de Annette têm se mostrado muito mais profundas do que as que ela lançava quando eu era adolescente. Assim como Expired Lover e Last Chance, sinto que há muito significado por detrás dessas músicas — explica o professor e Beth continua a encará-lo surpresa.
— Não sabia que era fã de Annette, professor.
— Eu não sou — garante o homem, dando de ombros. — Nem mesmo entendo muito bem de música, mas até mesmo eu posso reconhecer uma boa canção e essas músicas são realmente boas.
— Entendo — sussurra Beth, emocionada.
“Então ele gostou e não apenas porquê é um fã” — pensa a garota, sorrindo genuinamente feliz.
— Nunca imaginei que você seria fã da Annette. Imaginei que pela sua idade, iria preferir cantores mais atuais — comenta Daryl e Beth ri, dando de ombros.
— Bom, é impossível você não conhecer uma cantora quando ela é sua mãe — revela Beth, surpreendendo o professor.
— Annette é sua mãe? — questiona Daryl, confuso. — Eu jamais teria imaginado algo assim. Vocês não se parecem.
— Sim. Não temos nada em comum — concorda a loira e Daryl consegue notar a melancolia presente em sua voz, enquanto ela encara a paisagem pela janela ao seu lado.
A música termina e Daryl se pergunta se deveria questionar se ela havia ficado ofendida por ele comentar que as duas não se parecem. No entanto, ele se retém. Parecia que havia algo muito pessoal e delicado por detrás do desconforto e desânimo da garota.
— Essa foi a última música de Annette, Expired Lover. Dando continuidade a nossa entrevista, nós queríamos saber sobre o segredo dela para um casamento feliz. Annette, você está em um casamento feliz com o cineasta Hershel Greene e vocês são conhecidos por serem bem melosos. Não tem sequer um escândalo sobre vocês. Qual é o seu segredo? — questiona o radialista, atraindo a atenção de Beth e Daryl para a entrevista.
— Nós só respeitamos um ao outro. E já que o meu bem é um homem tão de família, nós não temos nada sobre o que brigar. Ele sempre coloca nossa família em primeiro lugar. Ah, não! Eu me gabei demais do meu marido? — indaga Annette, fazendo o radialista ri.
— Está tudo bem. É bom ouvir isso — afirma o entrevistador.
— Parece que seus pais possuem um ótimo casamento. Eles seriam o que se chama de par perfeito? — indaga Daryl e ele pode ver que seu comentário só parece deixar a garota ainda mais afetada.
— Nem tudo é o que parece — murmura Beth, entristecida. Ela suspira e força um sorriso. — Pode parar aqui. Eu moro naquela casa.
— Você está bem? — questiona o professor.
— Sim. Apenas cansada do dia. Obrigada pela carona, professor — agradece Beth, melhorando sua expressão. Ela abre a porta do carro e desce. — Boa noite, professor. Prometo devolver seu casaco ainda essa semana.
— Boa noite, Beth e não se preocupe. Pode me devolver quando for melhor para você — afirma o homem, observando sua aluna com preocupação.
Beth assente e sorri mais uma vez. Acenando, ela se dirige a porta de entrada de sua casa. Assim que confirma que a garota havia entrado, Daryl suspira e encara o motorista.
— Podemos ir.
— Sim, senhor.
Beth observa o carro de seu professor se afasta pela janela da sala de estar e suspira. Um sentimento agridoce faz seu coração acelerar os batimentos. Sentia-se grata e feliz pelo professor que tanto admira gostar das músicas que ela escreveu, mas pensar sobre o casamento de seus pais a deixava incomodada.
Imaginando que seus pais estariam dormindo àquela hora, já que todas as luzes da casa estavam apagadas, Beth sobe a escada que levava ao segundo andar da casa com passos cautelosos, pronta para tomar um bom banho e dormir como se não houvesse amanhã.
— Onde você estava? Por que não me avisou que chegaria tão tarde? Tem noção do quão preocupada eu estava? — indaga Annette, surpreendendo Beth, que não havia notado a presença da mãe na entrada da cozinha.
— Meus amigos da faculdade me arrastaram para a festa de confraternização pelo encerramento do semestre. Desculpa não ter avisado. Eu não lembrei — lamenta, virando-se para a mãe, que liga as luzes da sala.
Beth observa a marca roxa no olho da mãe e a expressão preocupada em seus olhos. Annette é muito bonita. Ela não aparenta ter a idade que tem, no entanto, a tristeza cravada em sua alma brilhava em seus lindos olhos verdes, mostrando que ela havia sofrido muito mais na vida do que merecia.
— Você colocou gelo em seu olho? — questiona Beth, aproximando-se da mãe para ver melhor o ferimento em seu bonito rosto.
— Está tudo bem. Não se preocupe. Apenas vá dormir — pede Annette, afastando-se antes que a filha tocasse em seu rosto.
— Onde está meu pai? — pergunta a garota, suspirando cansada.
Beth conhecia a mãe o bastante para saber que ela era orgulhosa demais para permitir que a filha mais nova cuidasse do ferimento em seu rosto. E o pior de tudo é que Beth sabia que essa não seria a última vez que chegaria e veria as marcas de violência presentes no corpo da mãe.
Mas o que Beth mais temia era que um dia chegasse em casa e não encontrasse mais a mulher com vida. Temia pela segurança dela e sentia um grande ódio se apossar de seu coração. Sentia-se impotente e frustrada por não conseguir fazer nada pela situação de sua mãe.
— Ele saiu e ainda não chegou — responde Annette, virando-se para retornar para cozinha. — Vai tomar um banho. Eu vou preparar algo para você comer. Aposto que você ainda não comeu nada.
— Mãe... — chama Beth, fazendo Annette se virar para encarar a filha. — Por que você ainda está com o meu pai? Por que você não se separa desse homem que bate em você? Se você o denunciar para a polícia, poderá se ver livre das agressões. Por que não nos deixa te ajudar? Está com medo do que as pessoas vão pensar? Ou você está mesmo... apenas aguentando até que eu saia de casa?
— Esse homem ainda é o seu pai, Beth. E você acha que o divórcio é fácil assim para um casal com filhos? Eu não vou deixar que as pessoas chamem você e seus irmãos de filhos da divorciada Annette. Não vou permitir que a vida de vocês vire um inferno. Pare de pensar em coisas sem sentido. Suba para descansar e tome um banho. Você está fedendo a cerveja. Eu levarei algo para você comer.
Beth observa a mãe voltar para a cozinha e sente seu coração se apertar. Odiava a situação que sua amorosa mãe vivia, mas por mais que já tivesse tentado, tudo o que recebia da mulher era palavras de repreensão e pedidos para que não se envolvesse.
Hershel era um bom pai para Beth e seus irmãos. Nunca deixou faltar nada em casa e fazia questão de participar de todas os eventos dos filhos na escola. Ele também era bastante presente em suas vidas, apesar de ser bastante rigoroso. No entanto, Hershel era um péssimo marido.
Ele era ignorante, ciumento e controlador. Enxergava a esposa como uma propriedade e não uma companheira. No entanto, suas atitudes violentas só começaram a aparecer quando os irmãos de Beth se casaram e saíram de casa. Com a caçula na faculdade e noiva, ela quase não ficava em casa. Isso fez com que Hershel se tornasse mais dependente da esposa.
Sendo uma cantora talentosa que voltou a fazer sucesso com as músicas compostas por Beth, Annette passou a ficar mais tempo em turnê. Hershel se tornou mais paranoico e passou a descontar suas frustrações na bebida. Isso o fez se tornar um alcoólatra e ficou ainda mais violento com a esposa.
Após o fim do noivado com Zach, Beth perdeu as vezes em que encontrou a mãe com algum hematoma. Ela tentou conversar com a mãe e com o pai. Pediu o auxílio dos irmãos que tentaram intervir de toda forma, mas Annette se recusava a receber ajuda e o pai sempre dizia que iria mudar.
Beth até mesmo chegou a denunciar anonimamente o pai por violência doméstica contra mulher, mas Annette sempre dizia a polícia que tudo não passava de invenções. Sem provas, já que as marcas da violência raramente eram visuais, eles não conseguiam levar Hershel preso.
A garota conseguia ver que a mãe apenas queria proteger os filhos de uma imagem negativa e de todos os transtornos que a separação resultaria, já que o casal era bastante conhecido em todo o país. Mesmo assim, era frustrante.
Um suspiro escapa de seus lábios assim que ela se senta em sua cama. No entanto, ao escutar um barulho estranho, ela nota que algo havia caído no chão com o seu movimento brusco. Ao olhar para o chão, Beth se surpreende com o que encontra.
— Uma carteira?
Beth mexe no casaco do professor que ainda usava e surpreende ao ver além da carteira, Daryl havia deixado o março de cigarro e seu isqueiro no bolso de seu casaco.
— Ele vai procurar essas coisas e achar que as perdeu. Em especial a carteira. Talvez eu devesse ligar para avisar que está comigo — pondera Beth, pegando seu celular dentro de sua bolsa. — Ah, claro. Como eu sou idiota. Eu não tenho o número dele. Bom, eu deveria ligar para o escritório dele amanhã cedo. Se eu não me engano, no site da faculdade tem o número dos telefones dos escritórios dos professores.
Beth retira o casaco de Daryl e sente o cheiro sutil cítrico de tangerina e cigarros. De alguma forma, a loira achava que a fragrância combinava bastante com o professor. Para ela, Daryl possui a imagem de alguém que nunca deve ter passado por um período de imprudências juvenis. Daryl exala maturidade e responsabilidade.
Por algum motivo, ela sorri e se deita em sua cama, apertando o casaco contra si. Sentia-se acalentada com o aconchego que a fragrância do perfume de Daryl a transmitia. Assim, sem notar quão cansada estava pelo dia cheio de fortes emoções, Beth se entrega a um sono tranquilo que fazia um bom tempo que não tinha.
Annette dá algumas batidas na porta do quarto da filha e entra quando não é respondida. Ela deixa a bandeja que trazia para a filha sobre a penteadeira e a suspira ao ver que Beth não havia tomado banho e nem comeria.
Cansada, Annette se aproxima de Beth e se surpreende ao ver que ela dormia abraçada com um casaco masculino e com um sorriso doce em seus lábios. Essa era a primeira vez que via a filha dormir tão tranquilamente desde que terminou seu relacionamento com Zach.
Ela acaricia o rosto delicado de Beth e sente seu coração se apertar ao pensar o quanto ela havia sofrido por causa do ex-noivo. Annette encara o casaco masculino mais uma vez. Sentia-se inquieta ao pensar na possibilidade de Beth machucar seu delicado coração novamente ao se envolver com mais um homem que não a merecia.
Annette sabia que não tinha muito direito de interferir na vida da caçula e a aconselhar sobre romance, já que ela mesmo estava presa em um relacionamento tóxico. Ainda assim, ela sofria para que os filhos fossem felizes. Faria o que fosse preciso para garantir a tranquilidade de seus filhos. Aguentaria todo o sofrimento de seu casamento se no fim, tivesse a certeza de que Beth, Shawn e Maggie vivam suas vidas livremente.
Um suspiro escapa de seus lábios. Ela se levanta para retirar os sapatos que a filha usava quando nota uma carteira masculina sobre a cama. Annette estranha ainda mais ao ver um maço de cigarro e um isqueiro sobre a cama.
Até onde sabia, Beth não é fumante.
Annette abre a carteira e busca por algum documento que identificasse o dono dela. Assim que encontra uma carteira de motorista, Annette encara a filha para ter certeza de que ela está dormindo e volta sua atenção para o documento.
— Daryl Dixon? — sussurra, lendo o nome no documento. Annette morde a ponta de sua unha, encarando a filha. — Esse não é o nome daquele professor que ela admira? Por que Beth está com a carteira dele e o casaco?
Beth se mexe na cama, assustando Annette. Ao ver que a filha não acordou, ela suspira e resolve devolver o documento de volta ao lugar. Não tinha certeza do que a presença daqueles objetos deveria significar e nem como a filha conseguiu a carteira do homem, mas Beth parecia feliz.
Então, por enquanto, Annette decidi observar a situação e ver até onde esse envolvimento da filha dará.
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