Além daquilo que enxergamos
5 Capítula Quatro
Notas iniciais
Por que me sinto tão ciente da caneta em minha mochila? Estou há horas estudando, mas a cada cinco minutos me disperso pensando no maldito objeto.
Solto um suspiro frustrado e, por fim, desisto de continuar tentando prestar atenção à teoria da Segregação Independente. Por algum motivo, um cilindro transparente cheio de tinta azul me parece muito mais interessante do que Genética.
Decido descer para a cozinha tomar um copo de água e talvez comer algo. Quem sabe assim não volto ao normal?
Perdida em pensamentos, só desperto quando sinto um cheiro suspeito logo que chego à porta do cômodo, um aroma doce, familiar e tão bem-vindo neste momento...
— Vó! Quando você voltou? – pergunto para a senhora de cabelos que pouco a pouco vão se tornando grisalhos e levemente encurvada que se encontra a frente do forno.
Ela se vira e, antes mesmo de responder, já abre os braços. Vou correndo em sua direção e a abraço, me sentindo confortada imediatamente. A Sra. Genevieve havia viajado para o outro lado do país, se encontrar com uma irmã que não via há tempos, e aproveitou para ficar lá por quase dois meses. Senti tanta saudade dela, e as chamadas telefônicas praticamente diárias não me ajudaram.
– Voltei hoje de manhã, mas saí para fazer algumas compras pouco antes de você voltar. Se não fosse por mim, ninguém comeria nessa casa! – ela responde, dando sua costumeira bronca. Vó Gen não está errada, no entanto.
Meus pais quase não param em casa, acabam comendo fora devido as suas ocupações, sendo minha mãe uma médica e meu pai, um advogado, e quanto a mim... bem, às vezes me esqueço de me alimentar, quando estudo muito. Isso seria, é claro, quase todos os dias. Perdi a conta de quantas vezes, nesses últimos meses, levantei sentindo tontura e fraqueza. Mas, como um sexto sentido, era sempre nesses momentos que vovó ligava e me lembrava de comer. Ela é minha salvadora.
— Sente-se, querida. O bolo está quase pronto.
Ah, os bolos de Genevieve West são uma lenda em Franklin. Todos querem um pedaço. Quantas pessoas já não pediram para que Vó Gen abrisse um pequeno negócio, nem que fosse apenas de encomendas, porém ela sempre foi muito firme e responde toda vez: “Meus bolos só são bons porque faço com vontade. Se transformá-los em trabalho, perderão o gosto.” Ninguém ousa discutir; essa senhora consegue ser muito teimosa.
Observo-a em silêncio enquanto a mesma retira, com todo o cuidado, o bolo de chocolate do forno. O aroma chega a mim com força total, me dando água na boca. Entretanto, nem isso é o suficiente para me fazer esquecer daquele... energúmeno.
— E então, corujinha, o que está lhe afligindo?
Vó Gen realmente me conhece como a palma de sua mão. Quando criança, ficava impressionada com essa sua capacidade, achando que ela, de alguma forma, usasse magia para isso. Afinal, se meus próprios pais não eram capazes de perceber quando eu me sentia para baixo, como outra pessoa conseguiria realizar tal proeza? Levou um certo tempo até eu entender que, para conhecer bem uma pessoa, é preciso tempo e confiança, que é necessário viver, de fato, com ela e saber o que se passa em sua vida.
Obviamente, tudo que nunca tive com meus pais. Não que os culpe tanto, afinal, eu sei que se importam comigo. Porém o trabalho, para eles, vem em primeiro lugar. Sempre foi assim.
– Não se preocupe, não é nada demais – respondo. É claro que vovó não acredita nem por um milésimo de segundo e apenas me encara com as sobrancelhas erguidas. – Certo, eu conto. É que tem um aluno novo na escola e ele acabou de chegar e parece que ele simplesmente sabe tudo e isso me irrita, porque nem consigo mais responder as perguntas e eu não entendo como ele pode ser tão bom e como os professores parecem amá-lo e...
Vó Gen dá a volta na mesa e põe uma mão em meu ombro. Seu gesto me acalma e eu paro de falar, finalmente me permitindo respirar. Eu sou assim. Não costumo falar o que sinto, até que parece que vou explodir e preciso soltar tudo de uma vez, ou eu realmente explodo.
— Tudo bem, querida. Eu entendi, você está se sentindo ameaçada por ele, isso é normal quando não se está acostumado a ficar em desvantagem – ela me diz, olhando firmemente em minha direção. É a sua maneira de me fazer entender que eu devo escutá-la, sem interromper. É um pouco difícil para mim me manter calada, já que quero dizer que nunca que o garoto poderia conseguir me ameaçar, contudo eu obedeço. – Você sempre fez de tudo para ser a melhor. As notas mais altas são suas, os primeiros lugares em projetos e feiras e debates são seus.
“Mas isso não dura para sempre. Em algum momento da sua vida, terá que ceder e aceitar ficar em segundo. Não significa que você não foi boa o suficiente, que falhou. Jamais. Não pode se criticar tanto por uma coisa dessas, porque está fora de seu controle. Não acha que o fato dele ser tão bom seja porque ele também se esforça? Pode desmerece-lo somente por tentar e conseguir? Não é exatamente isso que você sempre faz?”
Sinto uma vontade imensa de rebater cada palavra, de dizer que ela não pode fazer isso comigo, pois ela sabe o quanto é importante para mim alcançar a primeira posição. Cada nota A+ é equivalente a cinco minutos passados ao lado dos meus pais. Cada primeira colocação é uma refeição juntos. Cada menção do próprio diretor da escola em relação a mim significa abraços e elogios vindos deles.
Entretanto, não digo nada. Eu sei que ela está certa e por isso sequer me atrevo a mencionar o plano estúpido (e “infalível” como os planos do Cebolinha) que formulei e que cheguei a botar em prática. Talvez eu deva apenas me manter quieta na minha e estudar mais ainda.
Olho para o bolo a minha frente, com os olhos ardendo. De repente, já não sinto mais tanta vontade de prova-lo. Ainda assim, o faço, esperando me sentir, por algum motivo, aliviada. No entanto, minha mente está uma confusão de emoções e não consigo nomear nenhuma. Ao invés disso, volto a me lembrar da droga da caneta.
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