Além da vida

12 Renesmee- Encontros


Eu sorri enquanto acariciava o focinho macio de Tornado. Seu olhar profundo e atento me fazia sentir uma conexão antiga e intensa, como se o cavalo e eu já tivéssemos vivido muitas aventuras juntos.

— Tornado... — murmurei, o nome fluindo naturalmente dos meus lábios, e o cavalo relichou em resposta, balançando a cabeça. Não pude evitar rir baixinho.

Foi então que algo inesperado aconteceu. Tornado abaixou as patas dianteiras, como se estivesse me convidando a subir. Fiquei um pouco assustada, hesitando por um momento. Eu nunca havia montado em um cavalo antes... ou pelo menos, não que eu me lembrasse. Mas, ao mesmo tempo, algo dentro de mim sabia exatamente o que fazer. Não era apenas intuição; era uma certeza antiga, como uma memória distante que ressurgia naquele instante.

Respirei fundo e, com cuidado, subi no animal. Tornado se ergueu devagar, e eu segurei firme em sua crina, sentindo o calor de seu corpo e a força em seus movimentos. Sem pensar muito, dei um leve toque com o pé na lateral do cavalo, e ele partiu em disparada pelo campo, o vento batendo em meu rosto.

Fechei os olhos e, por um instante, me deixei levar pela sensação de liberdade. As memórias de Eva invadiram minha mente com força, misturando-se às minhas próprias, até que já não havia distinção entre as duas. Tornado corria em círculos ao redor do cercado, e eu podia sentir a felicidade e a saudade se entrelaçando dentro de mim. Era como se, naquele momento, eu estivesse revivendo algo que já havia experimentado antes, mas de uma forma diferente, mais intensa.

Lentamente, o cavalo foi diminuindo o ritmo até parar por completo. Ele se abaixou novamente, me permitindo descer. Com um sorriso leve, segurei seu rosto entre minhas mãos e depositei um beijo suave em seu focinho.

— Você é incrível, Tornado... — sussurrei, ainda envolvida pelo momento, quando uma voz grave e masculina me arrancou daquele transe.

— Como você fez isso?

Virei-me rapidamente, meu coração disparando no peito ao reconhecer a figura à minha frente. Ele estava um pouco distante, mas eu podia ver claramente. O homem deu um passo para trás, surpreso, seus olhos escuros analisando cada detalhe meu. Apesar da barba, da expressão cansada e das roupas sujas e gastas, eu sabia exatamente quem ele era.

Jacob Black.

O ar pareceu sumir dos meus pulmões por um segundo. Meu coração batia forte, como se quisesse sair do meu peito. Eu conhecia aquele olhar... havia algo profundo nele, algo que fazia meu peito apertar de uma forma inexplicável.

— Jacob... — murmurei, ainda sem acreditar que ele estava ali, bem na minha frente.

Ele continuava me encarando, visivelmente perturbado. Era como se estivesse diante de um fantasma. Não era difícil de imaginar o porquê; afinal, para ele, eu parecia Eva.

Meu coração se acelerava a cada segundo, enquanto os olhos de Jacob se estreitavam, cheios de dúvidas e confusão. Ali, diante dele, eu me perguntava como seria a nossa primeira troca de palavras... o que ele estaria pensando?

Jacob me olhou com um misto de incredulidade e frustração, como se eu fosse um erro que ele não soubesse como corrigir. Seu tom de voz era frio e rude quando finalmente falou.

— Pelo menos você sabe lidar com os cavalos, mas não quero mais ver você montando nesse cavalo. — Ele fez um gesto em direção a Tornado, que ainda estava ao meu lado, e aquilo me atingiu como uma crítica pessoal.

Tentei manter a calma, apesar do incômodo crescente em meu peito. Eu esperava algo diferente, uma conexão talvez, por tudo o que carregava dentro de mim. Mas a realidade à minha frente era outra. Ele não era o Jacob das minhas lembranças de Eva, o homem caloroso e protetor. Este Jacob era amargurado, como se o peso de anos difíceis estivesse gravado em cada linha de seu rosto.

Soltei uma risada irônica e arqueei uma sobrancelha, encarando-o de volta.

— Muito prazer, senhor Black — disse, com uma ponta de sarcasmo na voz, tentando não demonstrar o quanto aquele encontro estava me afetando. — Parece que já começamos bem.

Claire riu, mas Jeremy, que até então se mantinha em silêncio, se adiantou, sua voz carregada de frustração.

— Não acho que seja uma boa ideia contratar alguém sem experiência. Isso pode comprometer o funcionamento do haras.

Antes que eu pudesse responder, Jacob ergueu a mão, cortando qualquer discussão.

— Ela está contratada. — A decisão veio rápida e definitiva, sem qualquer consideração pelo que Jeremy ou Claire achassem. Em seguida, ele se virou e começou a caminhar para longe, sem nem ao menos olhar para mim novamente.

Fiquei ali parada, observando enquanto ele se afastava, o aperto no meu peito aumentando. Esse não era o Jacob que Eva conheceu e amou. Ele parecia uma versão distante, destruída por anos de sofrimento e responsabilidades. Era um homem que carregava o peso do mundo nas costas, e eu me perguntava o que tinha acontecido para transformá-lo tanto.

— Você está bem? — Claire perguntou, me trazendo de volta para a realidade.

Assenti, tentando disfarçar o turbilhão de emoções dentro de mim.

— Sim, estou... — menti, enquanto meus olhos seguiam Jacob, que desaparecia entre os estábulos do haras. Suspirei profundamente, tentando acalmar o ritmo do meu coração.

Enquanto Claire falava algo sobre o trabalho que me aguardava, meus pensamentos permaneciam presos em Jacob. Havia algo nele, uma tristeza latente, que eu não conseguia ignorar. Mesmo sendo um estranho agora, uma parte de mim ainda o reconhecia... E isso me deixava profundamente inquieta.

Caminhar pelo haras ao lado de Claire era como uma viagem a um lugar familiar, mas ao mesmo tempo estranho. Eu reconhecia pedaços das lembranças de Eva, mas algo parecia sempre estar fora do lugar. Talvez fosse o peso do tempo ou, quem sabe, a ausência daquela vida passada. Claire mantinha um ritmo leve, explicando cada parte do haras com entusiasmo. Quando paramos diante de uma pequena casa próxima aos estábulos, ela me olhou com um sorriso.

— Aqui é o consultório veterinário. — Apontou para a porta de madeira bem cuidada. — É onde guardamos os medicamentos e materiais para os animais.

Entrei na casa, e logo fui envolvida pelo cheiro característico de remédios e produtos de limpeza. Era um espaço pequeno, mas aconchegante, com prateleiras organizadas cheias de frascos e medicamentos. Uma mesa de exames simples estava ao centro, com alguns instrumentos veterinários dispostos de forma ordenada. As paredes eram brancas, e a luz natural entrava pelas janelas grandes, iluminando o ambiente de forma suave. Era acolhedor, e ao mesmo tempo funcional. Tudo parecia estar no lugar certo.

— Esse lugar é ótimo, Claire. — Sorri, genuinamente impressionada. — É simples, mas eficiente.

— O papai sempre se preocupou com o bem-estar dos animais — respondeu ela com um olhar de orgulho. — Ele pode parecer meio... complicado, mas essa parte dele nunca mudou.

Eu apenas assenti, absorvendo as palavras dela enquanto meu olhar vagava pelo ambiente. "Complicado" era um eufemismo para o homem que eu havia conhecido mais cedo. Mas era reconfortante saber que, pelo menos com os animais, Jacob ainda mantinha aquele cuidado.

Saímos do consultório e continuamos a caminhar, e Claire, de repente, sugeriu com animação:

— Vamos almoçar? Vou te levar até a casa grande, onde nós moramos. A comida de lá é maravilhosa!

Concordei com um leve sorriso e a segui. Enquanto caminhávamos, o ambiente ao redor parecia ganhar uma nova vivacidade. O haras, mesmo com toda a carga emocional que carregava para mim, era um lugar lindo, com os cavalos correndo livres pelos campos, o vento soprando levemente entre as árvores. Era um espaço que, de certa forma, me trazia paz.

Ao chegarmos à casa grande, a sensação de déjà vu voltou com força. O estilo rústico, os detalhes simples mas elegantes... Tudo me parecia familiar, como se eu já tivesse entrado ali centenas de vezes antes. Assim que cruzamos a porta, no entanto, percebi que não éramos as únicas a notar minha presença.

Alguns empregados nos observavam com olhares surpresos, como se tivessem visto um fantasma. Claire, ao meu lado, parecia se divertir com a situação, soltando uma risadinha ao ver suas expressões.

— Eles acham que você é a minha mãe reencarnada. — Claire piscou para mim, claramente achando graça na reação dos outros.

Eu ri, mas era uma risada nervosa. Ainda era estranho demais para mim estar ali, com tantas lembranças misturadas entre o passado e o presente. Mas o sorriso que eu mantinha rapidamente se desfez ao olhar para frente e ver uma figura familiar parada diante de nós.

Isa.

Ela estava ali, parada no meio da sala, e seus olhos se fixaram nos meus com uma expressão que eu não soube interpretar de imediato. Claire pareceu não perceber a tensão no ar e a saudou alegremente.

— Oi, Isa — Claire disse, como se nada estivesse acontecendo. — Trouxe uma convidada para o almoço.

Isa sorriu timidamente ao me ver, e suas palavras me pegaram de surpresa.

— Você é idêntica a ela, minha melhor amiga.

Isa deu dois passos na minha direção, mas eu me afastei instintivamente. A confusão no rosto de Claire e Isa era evidente, mas eu estava tomada por uma sensação estranha. Olhei para Isa e disse, minha voz carregada de ressentimento e dor:

— Você é tão boa amiga que até o marido da amiga tomou para si.

O comentário deixou um silêncio desconfortável no ar, e eu vi o choque se desenhar nas feições de Isa. A tensão era palpável, e eu me senti imediatamente envergonhada pela minha própria impulsividade. O que eu estava fazendo?

Sem saber como agir eu pedi desculpas antes de sair correndo.