Notas iniciais
Não vou falar muito nas notas inicias, só quero pedir desculpas pelo tempo que passei sem postar. Mas eu me sinto desmotivada sem nenhuma participação de vocês nos comentários. Falo mais nas notas finais.

A imagem da escola parecia ser igual todos os dias, mas, no fundo, eu sentia ser diferente. Em uma instituição de mais de mil alunos, eu me sentia apenas uma. Só mais uma. Sentada no mesmo lugar de sempre, notada pelas mesmas pessoas de sempre e, o pior, pelo mesmo motivo de sempre.

A única pessoa que parecia me olhar de maneira diferente, de um modo bom, era o Filipe. Ah, Filipe... Quem o vê apenas de longe enxerga apenas o garoto mais inteligente da sala e defensor dos oprimidos. Mas, nesse tempo todo que estamos juntos, eu passei a enxergá-lo com outros olhos.

Ele se parecia muito comigo. E, se tem uma coisa que eu aprendi na vida, é que, quando temos muitos problemas, acabamos nos tornando egoístas, vendo apenas nossas tristezas e fragilidades.

— Momento reflitão, né, karine? — Ah, e tinha o Roberto também. Ele era o tipo de pessoa que eu não conseguia deginir se era boa ou má. Às vezes parecia ser uma caixinha de surpresas.

— Só um pouco — respondi. — Tive um sonho bem diferente nessa noite que me fez pensar um pouco.

— Sonhou comigo?

— Foi só um sonho, não um pesadelo.

Roberto riu. Não sei por que, mas às vezes ele parecia ser um garoto que ninguém conseguia tirar do sério. Nem mesmo eu.

— E o que você sonhou? — ele perguntou.

— Não estou a fim de contar.

— Ok. Mas eu sei que você vai me dizer o que achou do que te mandei pelo e-mail.

Ah, é mesmo! Eu devia falar sobre o que ele me escreveu!

— Você é muito sensível — murmurei.

— Oi?

— Eu disse que você é muito sensível.

— Isso é uma espécie de elogio?

— Pra mim, sim.

Roberto pareceu um pouco decepcionado.

— Então é só isso? — ele insistiu.

Suspirei, é claro que ele estava esperando que eu falasse mais.

— Você escreve bem, melhor que eu. Satisfeito? Você conseguiu captar todo o sentimento e a essência do TDAH mesmo sem ter a doença.

— É, talvez. — Roberto sorriu.

Dei a conversa por encerrado e observei que Filipe havia faltado. Acho que era a primeira vez, desde quando o conheci, que o vi faltar. Ou talvez ele já tivesse faltado antes e eu não me lembrava.

No segundo horário, a porta da sala se abriu para quem chegou atrasado. Como sempre gabriel era desses. Dessa vez ele parou e olhou para a sala inteira, e depois para mim. E sorriu malicioso.

— Parece que seu defensor não veio hoje. Tadinha... Vai estar vulnerável — Gabriel falou ameaçadoramente quando passou perto de mim.

— Só tenta — Roberto sussurrou entre os dentes fazendo a cara mais ameaçadora possível. Por um instante Gabriel ficou temeroso, mas logo percebeu que era apenas Roberto atrás de mim.

— Fica na sua, esquisito. Não quero ter que bater em crianças.

— Sou faixa preta em jiu-jitsu e karatê. E não vou ter pena de você se precisar sair da minha zona de conforto.

— Tá pra nascer o dia que você vai me intimidar.

— Acho que esse dia nasceu hoje.

Gabriel ficou vermelho de raiva.

— Hoje, no fim da aula, atrás da escola, vamos ver se você é mesmo homem.

Depois disso, Gabriel se sentou no lugar de sempre.

— Ficou maluco?! — Me virei para Roberto, ainda de boca aberta.

— Esse cara não pode simplesmente se achar mais forte e superior a todo mundo! Ele te ameaçou!

— Eu sei me defender! — rebati.

— Ah, claro. Será que você não percebe que sem o Filipe você não ganha respeito de ninguém nessa escola?

Uau, aquilo foi extremamente ofensivo pra mim. Principalmente porque, no fundo, eu sabia que era verdade. Eu não sabia me defender, vivia escondida nas asas do Filipe e, agora, até Roberto queria me proteger como se eu fosse uma criancinha.

— Gabriel não vai ter pena de você — desconversei.

— E quem disse que eu vou ter dele?

Uni as sobrancelhas. Ele estava falando sério quando disse que sabia lutar? Não tive tempo de perguntar porque o professor já estava me olhando feio demais por estar conversando na aula.
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— E não é que o ruivo teve mesmo coragem de me encarar? — Gabriel disse se aproximando de Roberto. Já era quase duas da tarde e estávamos atrás da escola.

Roberto não queria que eu o acompanhasse, mas eu insisti, não podia deixá-lo sozinho depois de me defender do Gabriel.

Eu já consiverava as chances do Roberto sair ileso baixíssimas, e aí mais três garotos apareceram atrás do Gabriel para deixar a luta injusta. Eu não podia deixar isso continuar.

— Vocês estão em número desigual! — briguei.

— Calada aí, problemática! — um dos amigos de Gabriel falou. Resolvi numerá-los com Um, Dois e Três, já que não sabia seus nomes.

— Deixa, Karine, podem vir mais cinco deles e quem sabe teremos uma luta justa.

Pareceu que Gabriel e seus seguidores ficaram um poucos receosos. Mas não recuaram.

— Acho que vocês não vão precisar sujar as mãos com esse fracote — Gabriel disse para Um, Dois e Três. — Vai ser mais fácil do que qualquer um de nós imagina.

— Vamos parar com essa conversa, me mostre tudo o que sabe fazer. -

Roberto parecia mesmo determinado e isso me deixou muito confuso. Ele era pequeno e magricelo demais para enfrentá-los.

Eu jamais me perdoaria se alguma coisa de ruim acontecesse com o Roberto. Mas foi aí que o garoto me surpreendeu. Gabriel avançou, mas Roberto o interrompeu com um soco de esquerda no estômago. Gabriel se curvou para frente notavelmente sentindo dor e caiu de joelho.

Automaticamente Um, Dois e Três correram para bater em Roberto. Mas nenhum deles conseguiu encosta nele. Ele estava tão tranquilo que chegava a assustar. Deu um chute bem dado no órgão reprodutor do Três e outro na cara do Dois. Ambos caíram se retorcendo de dor.

— Ah, mas isso não vai ficar assim! — Gabriel rosnou se levantando. Inutilmente socou o ar ao tentar acertar Roberto que foi bem mais rápido e deu uma cotovelada na costela de Gabriel, mas, antes que ele caísse, Roberto o puxou pelo braço esquerdo e o girou lhe deixando em uma posição bem desconfortável.

E foi nesse momento que as coisas ficaram bem mais feias.

Na mesma posição que estava, Roberto chutou com bastante força a costa de Gabriel. Não se contentando com isso, sentou sobre ele e distribuiu três socos seguidos no rosto. E eu gritei, fiquei assustada demais. Ele não parecia o Roberto de antes. Até a sua expressão estava mudada, meio... Demoníaca?

Um, Dois e Três pareceram ficar tão assustados quanto eu e correram para longe de Roberto e Gabriel.

— Roberto, para! Vai matar o garoto! — gritei depois de Roberto chutar mais uma vez a cabeça de gabriel.

— Tudo bem — Roberto respondeu ofegante. — Mas ele teve o que mereceu.
Saímos de trás da escola deixando Gabriel desacordado. Nunca pensei que algum dia teria pena desse garoto... E Roberto saiu da briga apenas com as juntas das mãos vermelhas de tanto bater.

Notas finais
Depois de anos sofrendo com minha falta de atenção e inquietação, nesse ano decidi procurar ajuda. Eu não conversei com meus pais porque não me sinto a vontade para isso, então conversei com a minha orientadora da escola que me encaminhou para a psicóloga. Eu mal pude acreditar, a solução estava tão perto de mim... Não podia deixá-la escapar. Era minha vida que estava em jogo, meu bem estar. Tudo que me importava nessa vida levaria sentença se eu aceitasse abrir o jogo com a psicóloga, mas eu nunca fui de me expressar bem oralmente. Para minha sorte, mesmo sem falar muita coisa, a psicóloga viu minha hiperatividade e disse que eu poderia ter deficit de atenção. Senti muito alívio quando ela disse isso. Disse também que eu deveria passar por uma avaliação neuropsicológica antes de qualquer diagnóstico. Fiquei um pouco receosa, mas sei que isso será o melhor para mim. O maior motivo de estar escrevendo isso agora é que eu estou orgulhosa de mim mesma. Porque eu sempre tive medo, porque quando eu dava sinais de tdah sempre rolava aquele preconceito, porque desde sempre fui chamada de louca, doente mental e outras coisas. Mas aí eu cansei, disse para mim mesma que não dava mais, que quem tava sofrendo com as noites mal dormidas, com a maldita falta de atenção era eu; quem sentia agonia ao ter que permanecer sentada era eu, quem não consegue ficar parada sou eu. A pessoa que sofre com tudo isso sou eu. A que pensa em suicídio quando entra em desespero é essa criatura que está escrevendo esse texto agora. E eu sabia que podia me ajudar, e sabia como, mas tinha medo. Medo de me frustrar. Mas, até agora, com a ajuda de Deus tô indo. Se tem uma coisa que eu aprendi nessa vida é que não adianta correr, não adianta querer pular dois obstáculos ao mesmo tempo, com um mesmo salto. O melhor é dar um passo de cada vez. Não importa se vai demorar, se vai chegar em último lugar, o importante é chegar e não ficar no meio do caminho. Nós, crianças, jovens adultos com TDAH, somos gênios. Quando entramos em hiperfoco conseguimos fazer coisas que nenhum "normal" consegue. Mas o que falta é confiança. Confiança dos outros em nós e de nós em nós mesmos. Porque quando escutam que você tem deficit de atenção, te imaginam como um incapaz e retardado. E não vai ser hoje que pessoas vão parar de morrer por tristeza, por escutar idiotices dos outros, de autodepreciação, de depressão. Eu já até esqueci o que queria escrever aqui, mas de uma coisa eu tenho certeza: eu consegui, com muito esforço, mas a minha luz ainda não foi apagada (já foi bastante ofuscada, mas eu não vou sumir enquanto uma única celula minha estiver lutando por mim) e a sua luz também não será. Não há buraco mais fundo do que aquele cavado; meio óbvio, não é? Mas o que eu quero dizer é que não há pior problema do que aquele que existe e, se ele não é apenas uma preocupação imaginária, você pode lutar contra ele. É bem difícil, eu sei. Às vezes parece até impossível, mas não é, acredite. Não tô tentando animar ninguém, não tô escrevendo palavras alegres pra aumentar o astral de ninguém porque eu acho que seus sentimentos quem cria e lida é você mesmo. Só quero dizer que, se não dermos forças uns para os outros, quem dará? Escrever Além da Psicologia não é mais um hobby pra mim. Passou a ser a minha própria demonstração de realidade. Karine não é mais uma "eu", mas sim uma amiga muito parecida comigo. Filipe não é mais o príncipe encantado e perfeito. Ele é o tipo de pessoa que todos idealizam de um jeito, mas, no fundo, ele é só mais um garoto também com problemas. Gabriel não é mais o garoto peste que todos odeiam. Ele não pode ser só isso. Vocês o julgam como vilão, mas já pararam pra pensar que só enxergam o lado mau dele porque esse é o único que eu deixo aparecer? Roberto também não é só mais um coadjuvante ou personagem que vai movimentar a trama, ele pensa, tem sentimentos, qualidades e defeitos. Todos nessa história têm. A mãe da Karine, a psicóloga... Eu me sinto em dívida com os meus leitores porque eu tentei passar uma mensagem com todos esses capítulos, mas parece que eu não consigo! Porque tudo que tá no meu coração, porque tudo que se passa... Porque tudo o que eu me empenho a escrever sai em vão. Isso deixou de ser uma diversão. É uma missão. Nem que eu tenha que reescrever palavra por palavra de cada capítulo da história, eu vou fazer. É isso, amigos. E perdoem-me pelo imenso vácuo. Ah, só pra constar, não gosto mais do meu professor de matemática (mas isso eu conto depois).