Além da Vida

1 Capítulo único - Amar até a eternidade


– Vai mais devagar. – Murmurei.

Odiava quando Tom dirigia rápido demais. E odiava também quando ele fingia que não escutava o que eu dizia.

– Thomas você pode, por favor, ir mais devagar – Pedi quando ele não diminui a primeira vez.

Ele reduziu a velocidade e continuou em silêncio. Nós estávamos brigando muito ultimamente, mas essa parecia ser a pior de todas. Eu não tinha mais o que falar e não queria ouvir as desculpas que ele iria inventar. Brigar com ele era tudo que eu mais odiava, mas ele sempre encontrava um modo de me fazer gritar com ele. Dessa vez Tom havia ido a uma boate, uma amiga o viu e me ligou avisando que ele estava lá. Fui todo caminho desejando que ela tivesse enganada, e que não fosse o meu Tom que ela havia visto. Não, ela estava certa, era o mesmo Thomas que tinha me pedido em noivado à dois dias atrás.

A noite estava fria, era final de julho, o vento gelado batia que entrava pela janela batia no meu rosto deixando minhas bochechas congeladas. Estremeci e me abracei na tentativa de me aquecer.

– Se você quiser, posso fechar as janelas. – Sugeriu Tom.

– Não, eu to bem. – Menti.

Fechar as janelas me deixaria claustrofóbica dentro do carro com ele. Já passava de uma hora da manhã e as ruas estavam praticamente desertas, Tom ligava o aquecedor quando uma luz muito forte brilhou do lado da janela dele.

Então tudo que vi foi escuridão. Não ouvia nada além de batidas agudas continuas. Não consegui sentir nada, a escuridão tomou conta de mim. Não sei por quanto tempo fiquei desse jeito, mas achava que não sairia dali nunca mais. Talvez eu tivesse morrido e percebi, ou apenas estivesse dormindo tendo algum pesadelo.

Depois de todo aquele tempo na escuridão comecei a sonhar, não era bem um sonho e sim um pesadelo. Eu via o Tom, estávamos caminhando lado a lado de mãos dadas, de repente ele parou, largou minha mão e se afastou sem dizer nada. Sabia que aquilo significava um adeus, mas não conseguia evitar, não conseguia segui-lo, não conseguia gritar. A sensação de agonia tomou conta de mim.

– TOM? — Gritei.

Quando chamei por Tom, percebi que o cenário havia mudado, antes tudo estava escuro a não ser pela luz que ele seguia em direção. E agora tudo estava claro, num tom azul, sentia o cheiro de flores e ainda ouvia as batidas agudas continuas, mas agora também ouvia vozes ao longe.

– Milly? — Essa voz estava mais perto que as outras. — Milena?

Segui a direção da voz, virei minha cabeça e senti uma tontura horrível.

– Onde estou? — Perguntei.

Minha garganta estava seca, sentia sede. Ainda não sabia com quem estava falando, não consegui destinguir o rosto, minha visão ainda estava embaçada por causa da claridade.

– Isso não importa agora. O que importa é que você finalmente acordou! Vou chamar uma enfermeira. — A voz estava eufórica. Como se estivesse me esperado muito tempo.

Por quanto tempo será que eu dormir? Eu me perguntei. Onde estava? Onde estava Tom? Precisava ver ele. Não queria que aquele sonho se tornasse realidade. Não queria que ele fosse embora. mas a voz disse enfermeira? Como assim? Eu estava em um hospital? O que aconteceu comigo? As batidas agudas ficaram mais rápidas.

– Ela já está vindo. Que bom que você acordou!

Então eu reconheci o rosto, era minha irmã Crystine. Ela passava a mão afagando minha cabeça na tentativa de me acalmar. A enfermeira entrou no quarto segurando uma prancheta.

– Bom dia! — Ela disse simpática. — Então vamos ver... Você teve uma alteração agora a pouco. O que aconteceu? — Perguntou ela olhando para a Crys.

– Não sei, ela não disse nada ainda. — Respondeu Crys.

– Onde está o Tom? O que aconteceu? — Perguntei. Estava ficando agoniada.

– Calma querida. — Falou Crys segurando minha mãe.

– Falem logo o que aconteceu? — Gritei. As batidas aumentaram novamente e só então percebi que era o som dos meus batimentos cardíacos.

– Milly, você tem que se acalmar senão não poderemos lhe contar nada. — Crys falou com uma voz doce, tentando me esconder algo.

– Exatamente querida. – Disse a enfermeira.

– Então me falem logo o que aconteceu. Porque eu estou em um hospital e onde está o Thomas!

– Querida... – A enfermeira começou a falar, mas a Crys interrompeu ela.

– Não. Eu acho melhor eu fazer isso – Disse ela a enfermeira.

– Fazer o que? – Perguntei confusa.

– Milly, qual a ultima coisa que você se lembra?

– Hm... Eu no carro com o Tom... E depois uma luz super forte – Eu inspirei profundamente e isso doeu. – Porque todo meu corpo está doendo?

– Querida você quebrou uma perna, duas costelas e bateu a cabeça. – A enfermeira me falou, analisando a prancheta.

– Mas... Como?

– Milly... – Começou a Crys – Você sofreu um acidente. O carro onde você e Thomas estavam se chocou co um caminhão descontrolado. Você ficou em coma por cinco dias. Eu já estava ficando agoniada porque você não acordava nunca – A voz de Crys foi diminuindo.

– Ta, mas eu to bem, eu to aqui. E onde esta o Tom? – Precisava saber como ele ficou depois desse acidente. Será que ele teve mais sorte que eu?

Então o silêncio tomou conta do quarto e ninguém disse nada. Meus olhos passaram de Crys a enfermeira. Elas não pareciam felizes com a minha pergunta. Mas o que será que aconteceu? MEUS DEUS NÃO! Só uma coisa podia ter acontecido a ponto de ninguém querer me contar nada.

– NÃO! – Gritei histérica.

– Eu sinto muito Milly. – Crys falou tristemente.

Então era mesmo verdade. Tom estava... Estava... Morto. Não podia ser verdade, isso não era verdade. Em um instante eu estava com ele e agora não podia mais vê-lo. Isso era inaceitável, algo além do comum. As batidas aumentaram freneticamente. E eu segui na escuridão mais uma vez.

Dessa vez sabia que não estava morrendo, mas apenas me preparando para voltar a viver. Se pudesse escolheria não voltar, não queria voltar se Tom não estivesse lá. Viver sem ele seria completamente difícil, algo impossível de se fazer, mas eu seria obrigada a tentar.

Não dava pra saber por quanto tempo fiquei perdida na escuridão, mas quando acordei, senti um vazio dentro de mim. Tudo que mais desejava era que isso fosse um pesadelo mais para a minha tristeza não era. Tudo era muito real. Foi como ter o coração arrancado e só vivesse em corpo, pois minha alma havia morrido junto com Tom. Abri os olhos e não estava tão claro como da última vez, agora a luz vinha de um ponto fixo, que eu logo identifiquei como o abajur perto da minha cama.

– Ah Milly! Fiquei com medo de que você dormisse por mais inço dias – Crys disse aliviada.

– Quanto tempo eu dormi de novo? – perguntei meio tonta, minha cabeça ainda doía.

– Hm... Acho que mais de doze horas.

– Isso não é normal, é?

– Na verdade não. Mas você tinha acabado de acordar de um coma. Acho que isso é aceitável no seu estado.

Passei a noite toda acordada. Estava cansada, mas não com sono. A Crys ficou acordada comigo por um tempo, depois desistiu e dormiu. Tive pena dela, ela estava com uma aparência cansada e pensei em quantos dias ela ficou sem dormir tomando conta de mim.

Crystine era a minha irmã mais velha. Antes eram apenas ela, minha mãe e eu. Nós éramos melhores amigas e quando nossa mãe morreu há quatro anos, eu tinha apenas 17 anos e Crys cuidou de mim como se fosse sua própria filha. Morei com ela todo esse tempo e tinha me mudado há dois meses, quando Tom comprou uma casa para nós.

A enfermeira entrou o quarto, distraindo meus pensamentos – ela entrava de meia e meia hora e verificava todos os aparelhos. – Minha cabeça doía muito, sentia umas pontadas muito fortes.

– Você precisa descansar querida – Falou a enfermeira.

– Não estou cansada. Só minha cabeça que dói. E será que você pode me chamar de Milly? – Me chamar de querida já estava dando nos nervos.

– Ah, claro. E quanto a sua dor de cabeça, eu lhe darei um remédio para a dor parar.

– Obrigada.

Ela colocou algo em um dos tubos e de repente comecei a me sentir mais leve. A minha cabeça já não doía mais, na verdade não sentia nada. Não queria dormir, mas era impossível lutar.

Talvez fosse pro isso que não queria dormir, estava tendo um pesadelo. Dessa vez estava sozinha e então Tom aparecia, dizia adeus e ia embora sorrindo. O sorriso dele era o mais lindo de todos que já havia visto. Tom sempre me contagiava com o seu sorriso. Mas ele estava indo embora feliz, e eu não conseguia impedir.

– Tom! – Acordei gritando.

– Calma esta tudo bem. – Falou Crys me tranqüilizando.

Já estava de manhã e Crys vestia uma roupa diferente. Que bom, pelo menos ela não ficava toda horas apenas cuidando de mim.

– Não, não está – Rebati.

Então comecei a chorar, foi a primeira vez que chorava desde que soubera da morte de Thomas. Crys não disse nada, apenas esperou minha crise passar.

Fiquei mais de uma semana no hospital, fazia vários exames, pois a batida na cabeça havia sido muito forte e causou um corte profundo e isso resultou no meu coma. Toda vez quando dormia, tinha pesadelos e acordava chamando Tom. Descobri que ele morreu no dia do acidente e que seu enterro já havia acontecido.

Quando recebi alta fui para casa de Crystine, ela estava com medo de me deixar sozinha e eu também não estava segura se podia ficar sozinha.

– Bem- vinda! – Disse Crys abrindo a porta.

– Ah, obrigada. Crys... Acho que eu vou à minha casa. Preciso de algumas roupas limpas. – As roupas eram uma desculpa, mas eu queria ir à minha casa.

– Eu não acho uma boa idéia. Se você quiser eu vou lá e pego as roupas – Ela falou encerrando o assunto.

– Porque eu não posso ir à minha própria casa?

– Em primeiro lugar porque você não consegue andar nem um metro sem a minha ajuda. Segundo, porque você acha que eu a trouxe para cá? Porque eu não quero que você vá a sua casa.

– Hm... Eu não aceito. – Falei.

– Milly vem cá. – Crys me pegou e me sentou no sofá. – Não é que eu não tenho medo de você ficar sozinha nesse estado, disso também, mas você ir à sua casa vai trazer mais lembranças tristes do Tom. E isso não é bom para você.

– Entendo, mas mesmo assim ainda preciso das roupas.

Crys tinha razão, talvez fosse por isso que eu queria ir até minha casa. Para me permitir lembrar Tom, mas isso iria doer mais do que qualquer hematoma do meu corpo.

– Vem que eu te levo para seu quarto. – Crys falou e me ajudou a ir até o quarto.

Era um saco depender de alguém para tudo, mas Crystine fazia sem reclamar. Na casa dela um tinha um quarto somente para mim, ela dizia que seria o quarto de sua filha quando ela tivesse uma. Ela voltou a trabalhar no dia seguinte, Crys já havia faltado muito e me fez prometer que ficaria em casa e se precisasse ligaria. Isso de me tratar como criança já estava enchendo, talvez ela não precisasse de uma filha ela já tinha a mim. Ela insistiu para contratar alguém para ficar comigo, nó discutimos sobre isso e ela aceitou que eu poderia ficar bem sozinha.

Um mês se passou e eu ainda estava prisioneira. Não aquentava mais ficar naquela casa sozinha. Sempre evitava pensar em Thomas, mas quando pensava chorava sem parar, isso era a única coisa boa de ficar sozinha, podia chorar sem me preocupar. Os pesadelos com ele diminuíram, às vezes até sonhava algo bom. Mas isso também era motivo para chorar, ver tudo o que podia acontecer se ele ainda estivesse aqui.

Desde a morte dele não tinha visto, nem falado, nada sobre ele – Crys não conversa sobre o Tom comigo – Não havia visitado o tumulo dele e não podia ir lá sozinha, por causa da minha perna, e porque Crys nunca me deixaria ir lá. Ela era super protetora.

– Vamos? – Falou Crys naquela manhã. Ela não estava vestida para o trabalho.

– Aonde? Posso saber?

– Hoje que você vai tirar essa tala. Se esqueceu?

– Ah, já estava pensando que isso iria fazer parte de mim para sempre.

– Então vamos? – Falou ela impaciente.

– Claro, mas eu preciso me arrumar – Disse a ela, e fui para o quarto.

Já tinha adquirido uma habilidade extra de como andar com uma tala na perna. Me arrumei o mais rápido que consegui e Crystine me levou para o hospital. Enfim poderia fazer tudo sozinha, inclusive ir ao cemitério. Crys ainda não iria aprovar minha idéia, mas sem tala ela precisaria me levar, então não precisava saber. //

Voltamos para casa e fui para me quarto. Foi assim que passei meu ultimo mês, trancada no quarto. Crys só ficava em casa nos finais de semana. Ela não percebera que eu não comia, que eu não me mexia, enquanto ela não estava. Se tivesse percebido me levaria ao psicólogo. Era deprimente, mas ainda não tinha encontrado uma forma para viver sem o Tom aqui.

No dia seguinte, Crystine foi trabalhar como de costume, e eu fui me arrumar para ir até minha casa. Lá era o primeiro lugar que iria. Chamei um táxi depois de um tempo para ter certeza que Crys não me veria. Durante o caminho, pensei em como encontraria a minha casa. Desci o táxi e fiquei parada em frente a minha casa. Ela não parecia diferente, tudo exatamente normal. Havia cartas na caixa do correio, pensei em ir até lá, mas mudei de idéia, isso não importava. Meu objetivo não era esse.

Caminhei parando em frente a porta, coloquei a mãe na maçaneta e a girei devagar. Quando a porta abriu um cheiro conhecido me invadiu. Era o cheiro do Tom misturado com o meu, era o nosso cheiro, o cheiro que eu tanto gostava. Entrei na casa e ela perecia completamente igual da que eu havia deixado antes de ir buscar Tom. Tirando pelo vaso que eu tinha derrubado, por causa da pressa, naquela noite, ele já estava de volta a mesa de centro. Com certeza Crys tinha o colocado lá. A casa toda tinha uma leve camada de poeira. Fui para o quarto, mas antes parei no início do corredor onde tinha um porta-retrato com uma foto minha e do Tom, no nosso aniversário de um ano de namoro.

No quarto o nosso cheiro era mais forte. O guarda-roupas estava parcialmente vazio, Crys havia levado todas as minhas roupas para sua casa. Olhei fixamente para todo o quarto mas uma coisa me chamou a atenção, era o casaco do Tom que estava pendurado na cabeceira da cama. Sentei na cama, coloquei o porta-retrato de lado e peguei o casaco. Inspirei profundamente e aquele cheiro me invadiu, a colônia que ele sempre usou desde que eu o conhecia. Naquele momento parecia que o Tom estava vivo me abraçando, dessa vez não resisti e comecei a chorar. Me deitei na cama abraçada com o casaco, e me enrolei em uma bola.

Porque ele havia indo embora? Porque me deixou aqui sozinha? Ele não percebia que não conseguiria viver sem ele? Não sei por quanto tempo fiquei repetindo essas perguntas sem respostas, mas quando me levantei já estava escurecendo. Fui para fora de casa e comecei a correi, não sabia para onde estava indo, mas não conseguia para de correr. Depois uns 20 minutos minhas pernas já estavam doendo, e eu estava em frente ao cemitério. Eu podia não saber, mas me subconsciente me levou ao lugar que no final das contas era onde eu queria ir.

Voltei a correr desesperadamente procurando algo, quando alguma coisa me fez parar. Era uma lápide escrita:

Thomas P. Spencer

é 18.04.1984

… 25.07.2007

Me sentei em frente a escritura e voltei a chorar. Não disse nada, não conseguia pensar em nada. Apenas fiquei sentada, lendo aquilo várias vezes. Crys com certeza já devia Ter chegado do trabalho, mas não queria ligar para ela. Ela viria me buscar e eu não queria ir embora, queria ficar aqui!

– Porque você me deixou sozinha? – Disse por fim em um sussurro.

Nesse momento, dois braços me envolveram e me levantaram. Por mais inacreditável, por mais impossível fosse, era Tom. O meu Tom. Olhava fixamente tentando acreditar que ele estava ali, me olhando, sorrindo – o sorriso perfeito –, para mim.

– Você nunca esteve sozinha. – Ele falou sorrindo ainda mais.

– Então por você foi e me deixou aqui? – Perguntei em um fio de voz.

– Eu estou aqui para te buscar.

Eu o abracei fortemente e encostei minha cabeça em seu peito. Ele afagou meus cabelos e beijou o alto da minha cabeça.

– Eu te amo. – Falei inclinando a cabeça para atras tentando ver seu rosto.

– Eu também te amo.

Ele segurou minha mão e caminhamos juntos para a eternidade. Do lado da pessoa que mais amei em vida e mais amaria em morte.
Notas finais
Minha primeira oneshot, o que acharam? Reviews *-*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!