Além da Coragem - Livro 1
6 Capítulo 5
Notas iniciais
De volta ao Brasil, o encontro da armadura:
Foi fácil reconhecer Aldebaran quando cheguei ao Brasil. Como dissera Camus, era muito alto e forte, de pele bronzeada, e rosto calmo. Eu já era pequena para a média das mulheres, perto dele, então, com mais de dois metros de altura, a primeira coisa que pensei é que teria torcicolo se conversasse muito com ele... Ao me apresentar, o Cavaleiro abriu logo um sorriso, dizendo:
- Então é você, é uma garota muito bonita, eu sou Aldebaran, Cavaleiro de ouro de Touro. Venha comigo, você descansará da viagem e amanhã começaremos nossa busca pela sua armadura.
A armadura estaria escondida perto de onde eu nascesse, e eu nascera longe dos centros urbanos brasileiros, perto de aldeias indígenas.
- Aldebaran, então ela não estaria em território indígena?
- Hum... É provável...
- Eu me lembro de uma história que o pajé da tribo onde vivi contava.
- Uma história? Me conta então.
- \"Há muito tempo, muito antes dos brancos chegarem, diziam que os espíritos trouxeram aqui a mensagem de uma jovem. Branca como as nuvens, de cabelos dourados como o sol e ondulados como as águas do mar. Se cobria com tecidos tão brancos como ela mesma e não punha os pés no chão. Era também um espírito, mas de terras longínquas, do outro lado de \'Paraguaçu\', o grande mar. Trazia consigo uma caixa sagrada para a qual pedia abrigo. No futuro, dizia ela que a vida na Terra estará em grande perigo, e que uma menina nascida nestas terras haverá de usar o que a caixa guarda, e lutará contra o mau que quererá o domínio através do desespero. Onde estiver, quando se aproximar da caixa, o espírito da menina entrará em contato com o da caixa, e ela será encontrada. Quando esse dia chegar, saberemos que o destino da Terra estará em suas mãos, e nas dos outros seres que também lutarão com ela\".
- Incrível... Uma lenda que cruzou os mares antes dos navegadores, hahaha, você é mesmo famosa!
- Quem ia imaginar que tavam falando de mim... Bom, já temos uma pista, e tem um homem na aldeia que fala português, ele pode ajudar a gente.
- Ótimo, vamos pra lá, então.
Toda a aldeia ficou em alvoroço quando me viram viva, e completamente espantados quando contei o que tinha acontecido no dia em que sumi. Mas o espanto geral foi quando souberam que eu queria encontrar a caixa da lenda.
- Aquela caixa é importante. – dizia o pajé – Por que a quer? Você tem sede de encontrar o que os antigos esconderam, como muitos dos brancos?
Mas quando disse qual era o motivo, ele demorou a acreditar. Como na primeira vez, segurou meu rosto e olhou fixo para mim.
- Não tem mentira nos seus olhos... Daquela vez vi que você tinha algo diferente, mas não fazia idéia de que seria isso. Paotê pode ajudar vocês.
Ele não só sabia nossa língua, nossas histórias e um pouco da ciência, também conhecia a mata como ninguém mais. Com ele, vasculhamos todos os lugares de mais difícil acesso da floresta, mas nada seria assim tão fácil. Levou cerca de um ano de investigações, e um lugar apenas não fora visto.
- Aquele lugar? Está doida, Nala? Você lembra das histórias do pajé, todos que entraram lá nunca voltaram, desapareceram para sempre.
- Que história é essa? – perguntou Aldebaran.
- Dizem que tem algum tipo de feitiço lá, como se houvesse uma barreira. Todos os que voltaram, dizem que não conseguiram chegar perto porque uma energia muito forte parecia afastá-los de lá. Os que conseguiram ir adiante sumiram diante dos olhos de quem estava perto, e nunca voltaram.
- Interessante... É o que acontece nas proximidades do Santuário. O cosmo de Atena envolve todo o lugar, e impede que quem não seja autorizado entre nas dependências. Deve ser o mesmo que ocorre aqui.
- E é mais um motivo para acreditarmos que seja este o lugar, certo?
- Isso mesmo... Está disposta a se arriscar?
- Que Amazona eu seria se me intimidasse com o primeiro desafio?
- Vocês dois só podem estar doidos!
- Você não precisa vir...
- O... O pajé me encarregou de cuidar de vocês... Eu vou.
Chegamos ao local, a energia era mesmo de um cosmo bastante poderoso, eu e Aldebaran podíamos sentir isso. Mas Paotê não conseguia chegar perto, seu coração e espírito pareciam ser esmagados por aquela energia. Era a mesma energia da caverna, quando encontrei meu amuleto, a mesma que emanava daqueles lobos, mas eu não podia reconhecer. Estavam lá como guardiões...
- Aldebaran?
- Podemos nos aproximar, nossos cosmos nos protegem, e eu posso proteger Paotê com o meu...
Entramos, o cosmo se espalhava por todo o local e Paotê estava muito amedrontado. O caminho acaba diante de uma enorme parede de pedra.
- E agora? – pergunta Paotê, enquanto eu pousava as mãos sobre a rocha, sentindo uma energia diferente.
- Eu senti! Aldebaran, eu senti! Um cosmo diferente, do outro lado. Parece me chamar...
- Eu posso derrubar isso... – diz o gigante com um sorriso.
- Esperem... O que é isso?
Debaixo do mato que crescia, Paotê encontra uma pedra com um desenho bastante sugestivo. Vincado na rocha, um baixo relevo na forma exata de meu amuleto, eu o usei e este encaixou-se perfeitamente, fazendo abrir uma das pedras, como uma porta. O rapaz está boquiaberto.
- Isso, definitivamente, não é obra de nativos brasileiros.
Ao descer as escadarias, a única coisa que iluminava o caminho era meu cosmo e o de Aldebaran. Uma grande sala abriu-se ao pé da escada, preenchido pelo cosmo local, era como se fora erguido um dia antes. Piso, pilares, detalhes em afrescos, tochas de iluminação acesas, parecíamos ter sido transportados para a Grécia num instante. No fundo, como na caverna do amuleto, a mesma imagem do tigre, com as pedras brilhantes, na parede, as mesmas cabeças esculpidas em pedra branca e, no centro, dois pequenos pilares sustentavam uma mesa, sobre a qual estava a urna da armadura de bronze, com os desenhos típicos das caixas das armaduras sagradas, e a figura do Tigre Dentes-de-Sabre voltado para a entrada do salão.
Ao meu toque, a urna toma um brilho alaranjado como meu cosmo, respondendo a mim como sua escolhida e protegida por sua constelação.
Voltamos a salvo com a armadura, e Paotê teria uma incrível história para contar, que passaria para as futuras gerações como a lenda anterior.
Agradeci Aldebaran e a todos na aldeia pela ajuda. Ainda queria visitar a vila onde nasci, mas mantive minha identidade em sigilo, para que se aquele que tentara me matar anos atrás estivesse vivo e com as mesmas intenções, eu tivesse a chance de encontrá-lo antes dele saber que eu vivia.
Pela TV da venda soube do tal \"Torneio Intergaláctico\", no Japão. Curiosa para saber por que Cavaleiros se exporiam a público, resolvi ir para lá, talvez encontrasse Hyoga e Isaak. Mas como não ser reconhecida, para que não se espalhasse que a escolhida de Anany já estava entre os Cavaleiros? Resolvi me passar por uma Amazona normal, por traz de uma máscara inexpressiva.
Sobre o túmulo de minha mãe, flores, em meus olhos, lágrimas e meu coração estava preenchido de saudades.
Continua...
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