Além
3 Capítulo 3 – O Invasor
“Após o sinal, deixe o seu recado...”.
- Mãe, pelo amor de Deus, VEM PRA CASA!
Louise estava à beira de um colapso nervoso. Após observar, estarrecida, o pandemônio em seu quarto, ela logo correu para a cozinha e pegou seu celular para ligar para Sr.ª Oliveira.
“Tuuuum... Tuuuum...”
“Após o sinal, deixe o seu recado...”.
- Cara, NÃO É POSSÍVEL.
Depois de tentar seis vezes, deduziu que o celular de sua mãe estava em modo silencioso – ela SEMPRE deixava em modo silencioso por causa das aulas que ministrava. Lembrando deste fato, Louise direcionou suas tentativas para outra pessoa.
“Tuuuum... Tuuuum...”
- Mariana, atende essa merda...
“Tuuuum... Tuuuum...”
- Lou, liga daqui a pouco que eu tô assis...
- MARIANA ALGUÉM INVADIU A CASA!
- Como assim? O que aconteceu?
- Eu cheguei da escola e meu armário tá todo revirado! Não tinha ninguém aqui — além do Bolinho. E minha mãe nem entrou, ela saiu pra almoçar com a tia Flávia.
- Mana, seja racional. Bolinho... bagunça...
- O ARMÁRIO TAVA TRANCADO!
- Primeiro: para de gritar. Segundo: você pode ter achado que fechou o armário, mas ele pode ter ficado só encostado e acabou abrindo. Acontecia direto comigo quando eu morava aí. E você sabe que o Bolinho...
- Minha flor do campo de jasmins, me escuta. Eu tranquei o armário antes de sair e tenho certeza disso porque fiz questão de verificar – Louise estava ofegante e gesticulando com as mãos tremendo e o cordão de miçangas de sua avó dando voltas em seu pescoço.
– Além disso, COMO O GATO VAI TIRAR TODAS AS ROUPAS DE LÁ?
- Sendo bem sincera, depois de estagiar naquela clínica de felinos, eu não duvido mais de nada. Já olhou os outros quartos?
- Não e nem vou, vai que tem alguém escondido.
- Se tivesse já teria te matado – Mariana conteve uma risada.
- QUE MARAVILHA OUVIR ISSO AGORA!
- Obviamente você já tentou ligar pra minha...
- O que você acha? Ela sempre deixa aquele bendito celular no silencioso.
- Tá, bota o Bolinho na caixa e pega um Uber pra cá agora, a gente divide o valor. Tchau.
Mariana finalizou a ligação e Louise não pensou duas vezes: agarrou um Bolinho bem agitado no colo e o enfiou em sua caixa de transporte, pegou sachê e um pote com 4 fatias de pizza sabor calabresa e portuguesa na geladeira que ela e sua mãe haviam pedido na noite anterior, ajeitou sua mochila nas costas e colocou o endereço do apartamento de sua irmã no aplicativo no celular.
Mas, enquanto abria a porta para sair de casa, a adolescente parou por um breve momento.
- Tem alguma coisa errada.
Os pelos de seu corpo eriçaram-se sem nenhuma explicação aparente e, ao mesmo tempo, manifestou-se um único pensamento em sua cabeça: SAIA DAÍ AGORA.
Louise olhou para trás.
A casa estava com todas as luzes apagadas. Ela verificou com o olhar, rapidamente, a cozinha, a sala e a entrada para o corredor. O silêncio reinava e tudo parecia estar dentro do ordinário.
Ordinário demais. Ela se deu conta que nada na casa, além do armário, parecia remexido.
- Tem alguma coisa errada — repetiu.
Louise fechou a porta, trancando-a dando duas voltas com a chave, e dirigiu-se ao Fiat Mobi que a esperava.
- Boa tarde.
- Boa tarde.
Mesmo sentada no carro em direção ao apartamento de sua irmã, a sensação de que algo não está certo não deixava Louise relaxar. Ela repassava em sua mente cada uma de suas ações desde que havia chegado em casa e, realmente, não parecia ter nada fora do lugar no ambiente – com exceção do armário em seu quarto. Será que sua mãe havia mexido nele antes de sair de casa? Não houve tempo nem algum motivo aparente para isso, ela não deixa nada que a pertence lá e raramente abre o armário, apenas em dias de faxina profunda – não era o caso.
Ela sabia que, além de seus pertences, o armário guardava um pequeno baú – do qual não tinha certeza a quem pertencera -, uma caixa de costura e algumas bijuterias de sua avó Amélia, uns três sapatos antigos de Mariana e um terno cinza de seu avô Antônio – Louise e Mariana pediram aos pais para não o doar. O terno as lembrava do parente, era muito bonito e foi bem cuidado.
Um invasor? Mas a porta e as janelas da casa estavam trancadas quando ela chegou e Bolinho não demonstrou o comportamento que ele geralmente tem quando há algum estranho visitando – ele costuma se esconder em sua casinha ou embaixo de uma das camas.
- Rafael.
Louise posicionou a caixa de transporte com um Bolinho estressado no banco traseiro livre e pegou seu celular. Após desbloqueá-lo o com polegar, acessou o aplicativo do Whatsapp.
Lou Oliveira 💖: Rafael, ta aí? É urgente
Uns trinta segundos depois, o aplicativo indicou que Rafael estava “digitando...”.
Rafa😎: Fala. Qq rolou?
Lou Oliveira 💖: Ta podendo ouvir áudio?
Rafa😎: To vou pegar o fone
Rafa😎: Perai
Rafa😎: To na casa da minha avó
Louise, então, começou a gravar um áudio contando, detalhadamente, tudo que havia acontecido desde que chegou na sua casa até o presente momento.
“digitando...”
Rafa😎: Caralho.....
“gravando áudio...”
A adolescente observava a paisagem da cidade. O início da primavera se manifestava em um céu claro, com poucas nuvens, onde o sol esquentava a cidade do Rio de Janeiro com mais veemência, mas ainda havia uma brisa fria agradável, remanescente do outono, entrando pela fresta da janela do carro.
“Pliiim!”
Louise logo clicou na notificação e abriu o áudio enviado por seu amigo.
- Lou, se eu fosse você eu já teria botado fogo nessa merda de armário. Que porra é essa? Tu fica mexendo com essas paradas de demônio, satanás e ainda fica surpresa? Eu já falei que isso vai dar merda, mas você fica “ain, é só um filme. Ain, é só um vídeo”. Aí vai e acontece isso. Tu ainda duvida que atrai? E outra: você não olhou no quarto de visita nem da sua mãe pra confirmar se ninguém invadiu né? Sua mãe também é foda as vezes – foi mal, tia, mas CARALHO! Toda vez que você tenta ligar ela não atende. Lembra naquele dia na casa da Aline? Tenta ligar de novo antes de chegar na casa da sua irmã.
Louise riu de forma contida e pressionou o botão do Whatsapp para gravar um novo áudio. Bolinho soltou um longo miado.
- Só você pra me fazer rir agora, mano. Eu não duvido que seja alguma parada espiritual não, mas tenho que excluir todas as possibilidades racionais antes. Vou tentar falar com a minha mãe de novo e, junto com a minha irmã, vamos ver o que fazer. Por mim, no mínimo, a gente devia fazer um Boletim de Ocorrência, sei lá. EU NÃO SOU LOUCA, eu tranquei aquele bendito armário antes de sair. E ainda comentei com você sobre ele bem antes.
Louise abaixou o celular liberando o botão no aplicativo e, ao mesmo tempo, seu olhar cruzou com o do motorista do Uber no espelho retrovisor interno do carro. A expressão dele dizia com todas as letras: “essa aí é pirada”. Ela, rapidamente, abaixou a cabeça com um sorriso envergonhado e sentiu sua face começar a arder.
- Miauuu...
- A gente já tá chegando, Bolinho.
Após alguns segundos, levantou o rosto novamente e olhou pela janela. Já estava perto do prédio que a irmã mora.
“Ligar pra minha mãe” – pensou.
“Tuuuum... Tuuuum...”
“Após o sinal, deixe o seu recado...”.
Louise soltou um resmungo gutural, mais alto do que imaginou que seria. Imediatamente tampou a boca com a mão esquerda. O motorista do Uber abafou uma risada.
“Ótimo, daqui a pouco ele muda a rota me deixa no CAPS”.
...
- Obrigada, um bom dia! – disse Louise enquanto fechava, delicadamente, a porta do Fiat Mobi e segurava firmemente a caixa com o Bolinho pela alça na outra mão.
- Pra você também! E boa sorte! – disse o motorista com um meio sorriso e olhar repleto de ironia.
“Ah, debochado, eu vou dar quatro estrelas pra ele, SIM!” – pensou enquanto selecionava cinco estrelas e “muito simpático” no aplicativo.
Louise caminhou em direção ao portão do prédio e, ao chegar no portão metálico cinza, digitou o número 502 no interfone.
- Oi – era a voz uma das amigas que compartilha o apartamento com Mariana saindo do aparelho.
- Oi, é a Louise, irmã da Mari.
“Trac”
O portão abriu e ela seguiu pelo calçamento de pedra em direção à portaria e, posteriormente, ao elevador.
- Quinto andar... CALMA, BOLINHO! – exclamou. O gato miava e arranhava a grade plástica da caixa.
Após pressionar o botão com o número “5” gravado, Louise deixou seu corpo inclinar para o lado direito, encostando-o na parede do elevador. Logo após, soltou um longo suspiro. O elevador começara a subir.
Ao chegar no quinto andar, Louise empurrou a porta metálica do elevador e logo se deparou com o apartamento 502 aberto e uma figura familiar a esperando.
Mariana se tornou uma mulher muito bonita. No auge de seus 22 anos, ela é, pelo menos, dez centímetros mais alta que sua irmã e a textura de seu rosto parece daquelas modelos de comercial de produtos de beleza (“para de comer carne para ver seu o seu não fica igual!”, como sempre diz).
Estava vestindo um short esportivo da Adidas acompanhado de uma camiseta sem manga com uma gravura que dizia “MEDVET”. Seus longos cabelos pretos estavam presos em um coque bem semelhante ao de Sr.ª Oliveira e seus olhos cor de mel, quase idênticos aos de Louise, carregavam muito significado.
- Eita que ela tá viva – disse a futura Veterinária.
- Você teria feito pior que eu – disse Louise colocando a caixa com o Bolinho no chão delicadamente e dando um abraço na irmã.
- Teria nada, pensaria logo que foi o Bolinho – Mariana apontou para a caixa de transporte.
- Preciso comer e de um banho. Sorte que eu sempre deixo uma roupa de emergência na mochila. Me empresta aquele seu xampu roxo? – Louise pegou a caixa com o gato novamente e entrou no apartamento.
- Óbvio que não – disse Mariana enquanto trancava a porta.
- Valeu, prometo não gastar ele todo. Ah, trouxe pizza! Tá na mochila — mas tem carne.
- Eu já falei que eu te amo hoje? Eu ainda tava decidindo o que almoçar. Eu tiro a carne, não tem problema.
Louise levantou a grade da caixa do Bolinho e ele permaneceu dentro dela, acuado, por algum tempo.
- É. Difícil um gato sair andando em um espaço novo igual cachorro, principalmente tendo outro gato aqui.
Mariana se referia a Elis, a gatinha tricolor adotada por ela há alguns anos e que estava presa em seu quarto.
- Daqui a pouco ele sai, bota um pouco de sachê pra ele ali no canto – disse Mariana enquanto pegava o pote com os quatro pedaços de pizza na mochila de Louise.
...
Após o breve almoço e um merecido banho (com xampu roxo), Louise se encaminhou para o quarto de Mariana. Ambas preferiram não falar muito sobre o incidente durante a refeição, pois Mariana fez questão de apresentar a colega de apartamento Letícia (Louise nunca a havia visto pessoalmente) e as três jogaram conversa fora enquanto comiam.
Ao abrir a porta, se deparou com sua irmã sentada em uma cadeira de escritório preta, com Elis no colo, assistindo a um vídeo sobre fermentação natural de pães.
Seu quarto é espaçoso, principalmente quando comparado com outros apartamentos no Rio. As paredes foram pintadas de bege e há uma grande janela que se desloca horizontalmente para abrir e fechar, dando vista para a rua e propiciando bastante iluminação natural, ao ponto de Mariana ter comprado uma cortina do tipo “blackout” para cobri-la quando o Sol estivesse incomodando – a cama da irmã fica com sua lateral encostada nessa parede e ela não gosta da ideia dos raios UV atingindo sua pele o dia todo.
Para a parede da frente, Mariana comprou um móvel planejado de madeira com espaço para deixar sua televisão de 43 polegadas e, abaixo dela, seu notebook em uma escrivaninha acoplada. Ao lado do notebook, seu bonsai chamado Georgeles continua firme e forte.
Na parede direita, Mariana posicionou um armário compensado moderno para suas roupas e outros pertences, tendo cor clara, bem semelhante ao móvel da televisão e notebook.
- Tem secador? – disse Louise tirando a toalha molhada da cabeça.
- Armário, porta da direita, terceira gaveta – disse Mariana sem tirar os olhos do vídeo que estava mostrando o passo a passo de como fazer um “levain”. Elis levantou a cabeça para analisar os movimentos de sua “tia”.
Louise pegou o secador e se sentou na cama de Mariana para utilizá-lo conectado à tomada mais próxima.
- Tem quase uma hora que eu tô aqui e minha mãe ainda não ligou de volta. Não me surpreendo, ela parecia preocupada quando falou da tia Flávia comigo mais cedo.
Mariana pausou o vídeo.
- Bom, fazia tempo que elas não se encontravam assim. E a gente sabe que as coisas não andam fáceis por lá desde que descobriram o câncer do Leonardo.
Leonardo é um dos primos de Louise e Mariana. Ele tem 24 anos e, desde os 22, tem batalhado contra um câncer no cólon.
Louise desligou o secador.
- Sim... é muito difícil. Na última vez que eu o vi, tinha emagrecido tanto – Louise sentiu um nó na garganta.
Mariana olhou a irmã nos olhos, levantou-se da cadeira – colocando Elis no chão — e se sentou ao lado dela, a abraçando por um breve momento.
- Vamos continuar orando por ele, mana. Torcer pra esse maldito câncer entrar em remissão.
Louise ligou o secador novamente.
- Com certeza.
Mariana ficou observando Louise por alguns segundos.
- Mas e aí – disse a irmã mais velha mudando de assunto -, me conta melhor essa história do armário. Você ainda acha que alguém invadiu a casa? – Mariana abriu um sorriso.
- Se eu achasse eu já teria ligado pra polícia – Louise devolvia o sorriso para a irmã.
- Na hora fiquei nervosa e achei que sim, porque tipo... eu sabia que não tinha ninguém em casa e eu tenho certeza mais que absoluta que eu tranquei bem o armário antes de sair.
Louise, então, contou sobre a situação estranha que passou antes de ir à escola. Ao terminar, Mariana a olhava com uma expressão séria.
- Lou, eu te conheço e sei que você é bastante “engajada” com essas coisas de paranormal. Sei, também, que você é muito inteligente e sabe analisar essas situações de forma racional.
- Lá vem.
- Não, eu não tô deslegitimando você não. Eu lembro muito bem daquele dia depois da morte do papai e, naquele momento, eu senti muita verdade em você. Mas a vida seria muito mais fácil se a gente pudesse explicar, com plena certeza, todas as supostas coincidências através do “espiritual”.
- Tá, então você acha que invadiram a casa? – disse Louise, impaciente.
- Não, eu acho que você tava bêbada de sono e achou que trancou o armário, quando, na verdade, não trancou. Aí o Bolinho fez a festa – disse Mariana, sendo totalmente sincera.
Louise fez uma careta.
- Mari, eu pensei em todas as possibilidades racionais, como você falou. Eu, de verdade, não acredito que o Bolinho teria força pra jogar basicamente TUDO que tava no armário no chão.
- Isso porque você nunca viu um gato virado no Jiraya na clínica. O Bolinho é um anjo. Já essa princesa aqui...
Mariana estendeu o braço para dar carinho à Elis. A gata estava se esfregando nas pernas das irmãs após um longo período cheirando os dedos de Louise – o cheiro de Bolinho ainda devia estar presente.
- Mas teve outra coisa. Quando eu tava saindo, eu senti uma coisa diferente. Eu tive CERTEZA que eu tinha que sair de casa.
- Como assim? – Mariana franziu a testa.
- Não sei explicar, era como se...
“Driiiim.... driiiim....”
- Eita, minha mãe tá ligando – disse Louise, segurando seu celular.
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