Always at your side
22 Desvendando o mistério
Notas iniciais
Chego em casa por volta das 21h e vou direto tomar outro banho para relaxar. Por mais que eu tentasse, não consegui tirar o Castle por um segundo sequer da cabeça depois que o assunto sobre nós dois terminou. Não que eu não tenha dado atenção à minha mãe ou algo do tipo, na verdade o nosso dia foi maravilhoso: depois que saímos do restaurante, demos um belo passeio pela cidade (fomos ao shopping, fizemos compras, encaramos as vitrines desejando ter tudo o que estava por trás delas, como há muito tempo não fazíamos) e, ao anoitecer, passamos um bom tempo no parque observando tudo ao nosso redor, trazendo de volta as boas lembranças e imaginando o que ainda está por vir. Mas aquela sensação de incômodo ou até mesmo angústia, estava comigo a todo o momento.
Saio do banheiro e, minutos depois, devidamente vestida com o meu pijama e sentada sobre a cama, encaro a caixinha que o Castle mandou para mim em minhas mãos. Respiro fundo, e aproveito para pegar a carta sobre o criado mudo, deixando-a bem ao meu lado. Desfaço o pequeno laço da caixa, talvez com mais hesitação do que o necessário, antes de retirar a tampa. Fico surpresa ao ver algo parecido com um gravador lá dentro, e confirmo isso ao segurá-lo e encontrar um pequeno papel embaixo, onde vejo a seguinte instrução: “aperte o play”.
Arqueio as sobrancelhas, em dúvida entre ouvir a mensagem contida ali ou não. Mas percebo que não tenho mesmo muita escolha e a curiosidade acaba me vencendo. Faço exatamente o que ele pediu: aperto o play. Encolho as pernas, apoiando o braço sobre o meu joelho, consequentemente deixando o gravador mais próximo da minha orelha. Lentamente, o silêncio que antes povoava o quarto, vai sendo substituído por uma música ao fundo, mas ainda assim consigo captar a letra, talvez por se tratar de uma música que eu gosto:
Love can taste like the wine of the ages, oh babe, and I know they all look so good from a distance, but I tell you I'm the one...
E então, a voz do Castle toma todo o foco:
Oi, Kate. Me desculpe por ter deixado Jeff Buckley cantando para você por esses rápidos segundos. – escuto ele rir. – Mas, aqui estou eu. Eu sei que deve estar se perguntando “o que ele está tentando fazer?” já que, por enquanto, tudo o que você tem em mãos é esse gravador e uma carta. Mas não se preocupe, porque irei explicar tudo agora... – respira fundo. – Eu disse a você que estava planejando algo para o nosso final de semana, mas como houve imprevistos, eu tive mais tempo para pensar, o que resultou em fazer algo bem diferente para nós. A ideia surgiu enquanto estávamos no supermercado, e como você já deve saber agora, eu não fiz todas aquelas perguntas sobre a sua mãe a toa. – e completa num tom mais baixo. – Espero que ela aceite ajudar, porque estou gravando isso antes de fazer a ligação. – e então, num tom animado. – Mas voltando a nós...eu tive que ser bem rápido, na verdade, e apesar de isso parecer meio bobo, as coisas estão saindo como planejei e tenho certeza de que você vai gostar. Sei que é esperta e deve estar concluindo que isso é algum tipo de jogo, onde eu te dou as pistas e você tenta desvendar o enigma. Bem, você não está errada. Aqui está como tudo vai ser: eu não vou te dizer o que vamos fazer amanhã, ou para onde irei te levar. Pelo contrário, vou te dar pistas que a levem a descobrir sozinha, começando agora.
Te vejo amanhã? – pergunta, e em seguida percebo que ele está sorrindo. – Isto é, se você não falhar.
Sinta-se livre para ler a carta...
E então, tudo volta a ficar em silêncio. Não consigo evitar que um sorriso se forme em meus lábios, antes recolocar o gravador dentro da caixa. Respiro fundo, depositando-a sobre a cama e pegando a carta em seu lugar. Fico encarando-a por alguns minutos, passando o dedo sobre o que está escrito ali: Um brinde aos mistérios da vida.
_Saúde. – sussurro, dando uma risada fraca. Tento imaginar o que ele quis dizer com isso, e é exatamente por todos os significados que passam pela minha mente serem tão adoráveis que me sinto um pouco mal.
Sem pensar duas vezes, abro o envelope. Há um cartão com apenas a letra "L" impressa. Fico sem entender e o viro entre meus dedos, encontrando um pequeno texto escrito por ele na parte de trás:
E essa é a primeira peça do quebra cabeça. Confusa? Por favor, não fique. Vou te dar uma dica: essa letra, é a primeira de muitas outras que vão indicar exatamente o lugar para onde quero te levar. Mas se quiser descobrir onde estão as outras...sugiro que ligue para mim agora mesmo. Vou ajudar, juro!
Com muito carinho e suspense,
R. C.
Apesar de isso realmente ter me deixado confusa, um novo sorriso surge em meus lábios.
Onde será que isso vai dar?
Levanto-me rapidamente, sem nem me importar em calçar os chinelos e vou direto para a sala, que é onde deixei minha bolsa juntamente com o meu celular. Sento-me no sofá e, com o aparelho em mãos, procuro pelo número dele em meus contatos. Uma sensação estranha atinge o meu corpo ao pensar que ele provavelmente está, nesse exato momento, aguardando ansioso por minha ligação. Hesito alguns minutos, talvez com medo das coisas que podem ser ditas entre nós, antes de iniciar a chamada. E como eu previ, rapidamente ele atende, dizendo animado e no seu conhecido tom irônico:
_Kate! Estava me perguntando quando receberia essa ligação.
Ouvir a sua voz faz um sorriso aparecer em meu rosto, sem que eu nem me dê conta.
_Mesmo?
_Mesmo. — ele afirma, como se realmente duvidasse que eu fosse ligar.
_Bem, não é como se eu tivesse outra opção, mas... é bom poder conversar com você.
Percebo que ele sorri, antes de dizer:
_Então... como você está?
_Ah, muito bem. E muito curiosa também, graças a uma certa pessoa que decidiu criar todo um mistério por trás de um encontro.
_Hmmm, culpado. — nós dois rimos — Vamos lá, compartilhe comigo o que você está pensando.
_Não há muito o que pensar. — faço uma pausa, e antes que ele possa dizer algo, completo. — A não ser, claro, o fato de você ter pedido ajuda à minha mãe. Você não imagina a minha surpresa quando ela me contou tudo o que sabe, e me entregou aquela caixinha, que agora descobri ser um gravador.
_Isso é bom.
_É?
_Uhum. E não para por aí. Meu objetivo é mesmo te surpreender. Aliás, tudo o que eu disse ajudou você a entender o "jogo"?
_Hm, não sei. Mas gostei do início. Adoro aquela música.
_O quê?
_Jeff Buckley...?
_Ah, sim. Aquela música. É uma das minhas favoritas. Não pensei que seria do tipo que você gosta.
_Você se surpreenderia...
_Pelo visto precisamos ter uma conversa sobre gostos musicais. Algo me diz que será uma troca de conteúdos bem agradáveis para os meus ouvidos.
_Pode ter certeza. — digo, sorrindo.
_Mas qual é, nenhuma teoria maluca de para onde vou te levar amanhã?
Deito-me no sofá, cruzando as pernas.
_Nadinha. Mas já que você colocou dessa maneira, eu deveria ficar com medo? Assustada? Manter certa distância de você?
_Manter distância? Não, não. Está mais para o contrário.
Não consigo não rir.
_Ah, mesmo? — faço uma pausa. — Continuo sem pensar em nada.
_Vai ser algo bem diferente de encontros tradicionais. Algo que eu realmente acho que tem a ver com nós dois, apesar de nos conhecermos há pouco tempo. – abro a boca para dizer algo, mas ele continua. – Só eu tenho a sensação de que não parece ter sido tão pouco tempo assim?
E isso me pega de surpresa. É quase como se ele quisesse algum tipo de confirmação, ou uma resposta que demonstre a minha posição sobre a gente.
_Não... – limito-me a dizer. Saber que ele está pensando sobre o que estamos fazendo, e das suas esperanças de que isso pode continuar, já é ruim o suficiente. – Ok, então vamos fazer algo diferente de encontros tradicionais, que tem a ver com nós dois e onde iremos ficar bem próximos um do outro? – pergunto sem pensar muito na escolha das palavras, e ao ouvi-las sair da minha boca, repreendo-me automaticamente. Porque podem significar muitas coisas. E isso me faz criar uma série de acontecimentos que só o simples fato de imaginar fazem eu me sentir pior.
_Estamos falando da mesma proximidade, não é? — ele pergunta, e percebo que está sorrindo.
_Tenho certeza que sim. – vejo-me obrigada a dizer.
_Yeah, eu também. — faz uma pausa. — Na verdade, eu quero conversar com você enquanto nos divertimos. Mas... claro, muitas coisas podem acontecer. – completa num tom irônico, e ouvir essa resposta faz crescer em mim a vontade de contar tudo a ele agora mesmo. Mas não posso. Não assim. Não seria justo com ele, não seria justo comigo. Se é que existe uma maneira justa de magoar alguém e você mesmo no processo. — Kate...? Ainda está aí?
Respiro fundo.
_Sim. E-estava pensando. – e resolvendo ignorar a parte "eu quero conversar com você", continuo. — Então, vamos lá. Perguntas de sim ou não: iremos a um restaurante?
_Não.
_Um passeio?
_Depende. Podemos passear depois.
_Mas o objetivo principal não é esse...?
_Não.
_Ok. Hm...Shoppings?
_Shoppings? Claro que não. – ele ri.
_Seu loft? — pergunto, fazendo uma careta.
_Longe disso. Meu loft é um lugar bem tradicional. — brinca. — Katherine Beckett, onde estão os dons de detetive que eu sei que você já possui?
_Pelo visto não aqui. – sopro alguns fios de cabelo que caiam em meu rosto. – E que eu me lembre, Richard Castle, você disse que iria me ajudar.
_Claro. E já ia me esquecendo...
Ele fica em silêncio.
_Se esquecendo do quê? — me vejo obrigada a perguntar.
_Hmmm... — ele faz uma pausa. — Que em exatos 15 minutos irá chegar algo para você em seu apartamento.
_O quê?
_A minha ajuda.
_Não, não. Eu quis dizer, como assim vai chegar algo aqui?
_Tipo...uma entrega.
_À essa hora??
_Um amigo meu resolveu ajudar.
_Um amigo?
_Aham.
_Ok. — mordo os lábios para conter um sorriso de contrariedade. — E suponho que não vou conseguir mais nenhuma informação além dessa, não é?
_Não até o que eu mandei estar aí.
_É mais uma de suas pistas?
_Mais ou menos... você vai entender depois.
_Ok. — respiro fundo, pensando em uma maneira de dizer tchau. — Espero não te desapontar, Castle...
_Não se despeça ainda. — ele me interrompe, como se adivinhasse. — Você vai precisar de mim agora, na verdade é exatamente por isso que pedi que me ligasse.
_Precisar de você para receber uma entrega misteriosa em meu apartamento?
_Está mais para descobrir o que é essa entrega.
_Ok, agora você conseguiu me deixar mais confusa.
_Vamos falar sobre outra coisa enquanto isso, pode ser? Que tal, nossa história?
Nossa história. Só de pensar no quanto eu realmente queria terminar de escrever junto com ele e agora estar tendo que encarar a realidade de que isso provavelmente não será mais possível, sinto meu coração apertar.
_Claro. — respondo mais baixo e com menos animação do que pretendia, e me arrependo no mesmo instante. Esse definitivamente não é um bom assunto.
_Hum, senti uma falta de ânimo nessa resposta, hein?
_Ah, por favor, não leve isso em conta, só estou um pouco...hum, cansada, eu acho... – digo, mais perguntando do que afirmando.
_Dia exaustivo?
_Apesar de divertido, foi sim... Acho que havia me esquecido do que é passar o dia com o entusiasmo em pessoa, também conhecido como minha mãe. – tento brincar e percebo que ele sorri.
_Não estou te atrapalhando, não é? Se você não quiser que eu continue a brincadeira, é só dizer, tudo bem?
_Eu não quero que você pare, Castle. Não mesmo. – Isso só me faz gostar de você um pouco mais, penso. – E sobre a nossa história, tudo que eu mais quero é poder escrever o final.
_E você pode. Acha que conseguimos terminar na segunda?
_Eu...ham... — faço uma pausa, querendo, mas não podendo dizer que sim. Passo a mão pelo cabelo num gesto nervoso. — Acho que...
E então, escuto alguém bater na porta.
_Acha que...?
_A sua entrega chegou. — levanto-me rapidamente, ao mesmo tempo em que a pessoa misteriosa bate mais exatas três vezes na porta. — Já estou indo!
Escuto o Castle rir do outro lado, mas não entendo o porquê até abrir a porta e não ver nada além de um corredor vazio.
_Mas o que...
_Olhe para baixo. — ele me interrompe, e sua voz sai distante, como se estivesse andando pela casa, procurando algo.
Faço o que ele pediu e me deparo com algo parecido com um baú. Relativamente pequeno e com um cadeado bem visível na parte da frente. Ótimo.
_Já volto. — digo, enquanto vou até a sala e deixo o meu celular sobre o sofá, e depois volto até a porta para pegar a minha "entrega". É bem leve, e tem algo que balança dentro dele juntamente com o que parece ser muito papel. Coloco-o sobre a mesinha de centro, observando os detalhes, enquanto volto a falar com o Castle. — Eu gostaria muito de saber o que se passava pela sua cabeça quando decidiu me mandar isso.
_Não gostou do meu mini baú? — ele responde, e dessa vez sua voz já está mais próxima. — É um objeto importante para mim, escolhido exatamente para você.
_Hum, não sei. É bem bonito e...criativo da sua parte — sorrio. -, mas acho que eu gostaria mais se estivesse aberto. Quero saber o que tem dentro.
_E você vai. Lembra-se da letra que estava escrita na carta?
_A letra "L", sim eu me lembro. Só não entendi. Você disse que há muitas outras, então ela deveria ser a primeira de uma palavra?
_Exatamente.
_E onde vou encontrar as outras?
_Bem, essa é a parte interessante. Eu as distribuí pela sua casa, escondendo-as em lugares específicos.
_Mas você só esteve aqui pela manhã. E eu estava bem perto de você, então... Isso me parece bem impossível.
_Não quando eu tenho a sua melhor amiga para me ajudar.
Deixo meu corpo cair no sofá.
_Espera, o quê?
_Minutos depois de você sair, nós entramos e fizemos tudo.
_Mas você foi embora. E eu vi a Maddie pegando aquele táxi.
_Certeza? Porque eu estava observando a cena, e você saiu primeiro que ela, então não teria como afirmar que ela realmente entrou no carro.
_Vocês invadiram o meu apartamento, é isso?
_Não exatamente.
_"Não exatamente"? — arqueio uma sobrancelha.
_Bem...mais cedo, quando fui até aí e a Maddie me atendeu, vi a oportunidade perfeita para pedir a ajuda dela. Eu já estava pensando em fazer isso, mas essa feliz coincidência facilitou todo o meu trabalho...
_Então quer dizer que a Maddie já sabia de tudo quando eu voltei para o quarto... — digo baixo, mais para mim do que para ele. E de repente, o olhar que ela lançou para mim assim que eu apareci na sala faz todo o sentido. — Mas por que ela resolveu ajudar, então?
_Você disse alguma coisa? — ele pergunta.
_Não, nada. Só... pensei alto.
_Ok.
_Então... — limpo a garganta. — Como isso terminou em vocês dois aqui, passeando pelos cômodos e escondendo letrinhas? — pergunto, num tom divertido, ao mesmo tempo em que imaginar ele andando por toda a minha casa e observando todas as minhas coisas me causa uma sensação que não consigo definir.
_Bem, é comum que as pessoas guardem uma chave extra das próprias casas e não pensei que com você seria diferente. Então perguntei se ela sabia onde estava guardada a sua.
_E ela simplesmente te disse? — pergunto com certa indignação, duvidando muito que ela diria a ele tão rápido assim.
_Bem, eu não diria simplesmente. Eu tive que explicar tudo antes para que ela confiasse em mim e não pensasse que eu queria roubar a sua casa ou algo do tipo.
_Eu demorei tanto assim para ir te atender?
_Ham... você não soube que eu estava aí até a Maddie começar a gritar o seu nome, então...
_Você já estava conversando com ela há um bom tempo... — completo, me sentindo um pouco idiota por não ter escutado.
_Praticamente. Você não está com raiva de mim, não é? Quero dizer, eu assumo que ter entrado em sua casa sem a sua permissão foi um pouco...
_Demais?
_Inapropriado... Mas bem, a Maddie estava comigo, ela é sua melhor amiga e tenho certeza de que se ela visse alguma "maldade" nos meus atos não teria me ajudado.
Se ele soubesse que os únicos atos sendo julgados por ela no momento são os meus...
Respiro fundo.
_Tudo bem, Castle. Na verdade estou achando isso muito inteligente da sua parte. E desde que eu não me decepcione com o que vou encontrar, você está a salvo.
_Isso é uma ameaça? — percebo que ele está sorrindo.
_Pode apostar que sim.
_E se você gostar?
_Podemos decidir depois...
_Parece ótimo para mim. Então...já que estamos falando sobre o que você precisa encontrar, que tal começarmos?
P.O.V Castle
_Estava me perguntando quando você finalmente diria isso. – escuto ela dizer, enquanto meu olhar percorre a mesa do meu escritório, onde deixei espalhado todas as anotações que fiz enquanto estava em seu apartamento. Irei precisar delas agora mesmo.
_Ok, vamos lá. Primeiro preciso saber exatamente onde você está.
_Tipo, em qual cômodo?
_Sim, e em que parte dele.
_Bem, no momento estou sentada no sofá da sala.
_Hum, bom.
_Você precisa saber disso para...?
_Te dar todas as coordenadas. Você pode ficar de pé, por favor?
_Claro. – ela diz, e escuto um barulho de movimento que indica que ela fez exatamente isso. – Deixa eu ver se entendi, você vai ir me dizendo exatamente quantos passos tenho que dar, para que direção tenho que ir, etc, para que eu ache o resto das letras?
_Exatamente.
_E você tem toda essa noção de espaço da minha casa porque...
_Porque eu e a Maddie...ou melhor, a Maddie fez e refez todos os passos e eu anotei tudo.
_Meu Deus, sério? – escuto ela rir. – Isso deve ter levado um bom tempo.
_Nem tanto, e até que foi divertido.
_Então... sobre o que vocês conversaram enquanto isso? – pergunta num tom de voz diferente. Aliás, estou percebendo ela bastante diferente. Desde a hora que a vi pela manhã. Como se estivesse distante, ou tentando me manter distante. Mas resolvo provocar:
_Ciúmes, Beckett?
_Não, Castle. – ela diz, frisando o meu sobrenome assim como fiz com o dela, e tenho certeza de que está revirando os olhos. – Só curiosidade.
_Bem, nada demais. Eventualmente, o assunto sempre voltava a você, que é a única pessoa em comum entre nós.
_Constrangedor. – sua voz sai baixa, e um sorriso se forma em meus lábios. – Eu não deveria ter perguntado. Mas, voltando, já estou de pé. O que devo fazer agora?
_Oh, ok. Quero que se vire como se fosse ir em direção à cozinha... – escuto ela balbuciar um “uhum” do outro lado. – Agora dê dez passos em linha reta... O que você vê?
_Nada além da bancada bem à minha frente.
_E essa bancada está vazia? – ela fica em silêncio e presumo que está observando.
_Não, mas há apenas o vaso de flores artificiais que uso para enfeitar... – uma pausa. – Sério, Castle?
_"Sério, Castle", o quê?
_Você escondeu algo aqui?
_Por que não dá uma olhada?
_Você não quer que eu tire toda a areia do vaso para isso, não é?
_Isso não será necessário, se souber como procurar.
_Ah, “se eu souber”... – repete.
_Mas retire as flores, elas vão te atrapalhar.
_Você acha? – ela ironiza, e dessa vez sua voz sai um pouco distante, então deduzo que ela deixou o celular de lado, para ‘vasculhar’.
Espero alguns minutos, e pergunto:
_E então?
Escuto ela suspirar.
_Hmmm, o resultado aqui é: mãos um pouco sujas de areia e uma letra “O” impressa em um cartão me encarando.
_Algum palpite?
_Bem, “L” e “O” podem formar muitas palavras.
_Sim, mas não muitos nomes de locais que podemos ir aqui em Manhattan.
_Vai ser difícil descobrir, já que não é um restaurante.
_Continue pensando, Kate. – sorrio. – Enquanto isso, dessa vez quero que dê meia volta e fique como se estivesse indo para o corredor que leva ao seu quarto, e os outros cômodos.
_Okay, prontinho.
_Agora você precisa dar 15 passos até estar lá...e vire para a esquerda. O que você vê?
Espero alguns segundos.
_A porta do quarto que minha mãe usa quando vem para cá. É para eu entrar?
_Não, não ainda. A terceira letra está por aí.
_ “Por aí”?
_Sim, nessa parte do corredor. Olhe em volta, eu já volto.
_Castle! Onde você está indo? – ainda escuto ela dizer, mas deixo meu celular sobre a mesa e vou até a cozinha para comer algo.
Encontro Alexis lendo algum livro, enquanto saboreia uma taça cheia de sorvete de flocos.
_Ainda acordada, e estudando numa noite de sábado? – pergunto, enquanto dou a volta pela bancada e vou direto para a geladeira pegar um pouco de sorvete para mim também. – Sem vontade de sair com suas amigas?
_Eu não estou estudando, apenas lendo um pouco. Esse livro é realmente bom. – diz, olhando para mim no mesmo instante em que vou até ela e apoio meus cotovelos sobre a bancada com uma colher em uma das mãos e o pote de sorvete na outra. – E já passa das 22h, então estou bem desanimada para me arrumar para sair.
_Mas essa é a melhor hora para curtir a noite. – sorrio.
_É a melhor hora para muitas outras coisas também. – ela desvia o olhar para o livro, marcando a página em que parou antes de voltar a olhar para mim. – E você pai, o que faz em casa, preso no escritório em uma noite de sábado? Eu sei que você não está escrevendo...
_Como sabe disso?
_Bem, a não ser que agora você escreva falando sozinho... – ela dá um pequeno sorriso. – Posso te escutar daqui.
_Touché. Estou no telefone com a Kate. – digo. Afinal, depois daquele dia na biblioteca não pude esconder da Alexis que algo está acontecendo entre a gente.
_Ah, colocando em prática aquela surpresa?
_Exatamente.
_E está dando certo? – ela pergunta, roubando um pouco do meu sorvete.
_Até agora sim, deixei ela ‘se virando sozinha’. Mas já vou voltar.
_Então as coisas entre vocês estão... – seu olhar indica o que ela quer dizer.
_Sim, eu acho que sim. Na verdade quero conversar sobre isso com ela amanhã.
_Isso é muito bom, mas pai, ela já te disse que...
Somos interrompidos pelo grito inconfundível de Martha Rodgers vindo do andar de cima. Levo um susto, mas Alexis apenas fecha os olhos e sussurra um “ah, não”, como se tivesse causado isso.
_Alexis! – escuto minha mãe gritar.
_O que você fez? – pergunto sério, mas ao mesmo tempo querendo rir ao imaginar o que pode ter sido.
_Nada. Não se preocupe. – ela diz de um jeito engraçado, já se levantando. – Culpa minha, eu resolvo.
_Ok. — vejo-a se afastar, e completo para mim mesmo. — Melhor eu voltar para o escritório.
E inicio o meu caminho até lá. Sento-me à mesa novamente, pegando o celular em seguida.
_Kate? — digo. — Está aí?
Alguns segundos depois ela responde:
_Ah, resolveu aparecer. Obrigada por me abandonar.
_Ei, eu avisei. E você precisa procurar sozinha, eu só dou as dicas.
_Claro.
_Encontrou alguma coisa?
_Uhum. Depois de um bom tempo andando para lá e para cá, encarando as paredes, o chão e o teto, eu finalmente me dei conta dos porta-retratos pendurados aqui. Então pensei "é isso, a letra só pode estar atrás de algum deles". Então retirei um por um, mas...
_Deixa eu adivinhar: não encontrou nada? — a interrompo, brincando.
_Engraçadinho. É, eu não encontrei. Então passei mais alguns minutos encarando as paredes, até passar pela minha cabeça que você não esconderia nada atrás dos porta-retratos, mas sim dentro deles. E agora tenho em mãos a letra "C". Que tipo de lugar tem um nome que comece com as letras "Loc"?
_Bem, acho que ouvir essa pergunta significa que devemos ir para o próximo passo, que nos leva ao seu quarto.
_E a dica da vez é?
_As três últimas letras estão lá, juntas e no mesmo lugar.
_Menos mal. Apesar de eu ter a impressão de que vai ser mais difícil de encontrar.
_Hmm, nem tanto. Fomos bonzinhos com você. Quando chegar lá, quero que não ultrapasse a porta.
_Ok, então já estou na posição certa.
_Ótimo. Agora, dê cinco passos, de modo que de um lado esteja o seu guarda-roupa e do outro a sua cama.
_Pronto. E agora?
_Agora tudo que eu posso dizer é que, elas vão estar à sua direita, esquerda ou bem à sua frente.
_Isso é realmente tudo o que você pode dizer?
_Pense pelo lado positivo, não vai precisar procurar no que está atrás de você, ou até mesmo no banheiro.
_Ah, claro, até porque isso diminui muito a lista de onde você poderia ter escondido um minúsculo cartão.
_Na verdade...
_Shhhh, estou tentando pensar como você. — ela me interrompe, dizendo num tom de voz baixo.
Sorrio.
_Oh, ok. Me diga quando terminar.
_Qual seria o melhor lugar... — escuto-a dizer mais pra ela do que para mim. — Acho que vou começar pela direita.
_Boa sorte.
_Isso significa que não está lá?
_Eu não sei de nada.
Escuto ela respirar fundo.
_Ok, você está no viva voz agora, e eu... — sua voz começa a sair mais baixa. — estou indo vasculhar o meu próprio guarda roupa, ou sei lá, algo próximo a ele.
_Não tem nada dentro dele, só para avisar. Seria uma pena você ter que bagunçar todas as suas roupas.
_Ah, obrigada pela consideração. — e depois do que para mim foram longos minutos, ela reaparece, um pouco sem fôlego. — Ok. Descobri que não há nada à minha direita ou à minha esquerda.
_Já? Quero dizer, você já procurou do outro lado?
_Não, mas me lembrei do que você disse, e você frisou o "ou bem à sua frente" na frase. Só não tenho muita certeza do que quis dizer com isso já que voltei para o meu lugar inicial e o que tem bem à minha frente é...
_Eu poderia falar que foi uma coincidência eu ter dito aquilo. – a interrompo. – Mas perguntar o que você está vendo agora é melhor...
_Castle. — ela diz, repentinamente séria. — Você não...me diz que não... — e então sua voz desaparece por outros longos minutos, mas dessa vez é como se ela tivesse mesmo retirado o som.
_Kate? Ainda está aí? — pergunto, em vão.
_Posso te perguntar uma coisa? — escuto ela dizer de repente, ainda num tom de voz sério.
_Claro. — respondo, sem entender.
_A única coisa que tinha à minha frente era o meu criado mudo. E em cima dele o meu... caderno. Não foi você que escondeu essas letras dentro dele, não é?
E então um sorriso se forma em meus lábios. Quando a Maddie decidiu esconder algo lá, percebi mesmo que mais parecia um diário. E provavelmente ela escreveu algo sobre nós.
_Não. Juro que não li suas confissões sobre mim. — brinco.
_Cala a boca, Castle. — diz, seguido de um suspiro que eu diria ser de alívio.
_Ideia criada e executada pela Maddie. Eu não iria mexer nas suas coisas assim. — faço uma pausa. — Então, o que você tem em mãos?
_As letras "K", "E" e "D". — responde no tom animado de antes. — E juntando com as outras, já sei que a palavra formada é "Locked". Ah, e encontrei uma chave minúscula junto com a última letra, o que na verdade é bem conveniente para a situação. Por acaso ela abre o cadeado daquele baú?
_Por que não tenta? Mas antes — completo. — Algum palpite de para onde vamos agora?
_Aham. — ela diz, para a minha surpresa. Sei que está sorrindo.
_Mesmo?
_Não fique tão surpreso. Se for o que estou pensando, tem mesmo a ver com a gente, apesar de não ser nem de longe o que eu imaginava.
_Isso é bom ou ruim?
_É ótimo. – faz uma pausa. – Já estou pronta para abrir o cadeado. Não devo me preocupar quanto ao que tem aqui dentro, né? Tipo, algum bicho nojento, ou sei lá...
_Não, não, eu provavelmente teria mais medo de colocá-lo aí do que você de abrir.
Escuto-a rir.
_Ok... – e alguns minutos depois. – Há bastantes papéis aqui dentro... – respira fundo. – Hmm, acho que encontrei algo. Parece um cartão, mas um pouco maior que os outros... Tem algo escrito nele... – silêncio. – Manhattan. Locked Manhattan. É isso, não é? Você vai me levar até lá?
Sorrio, antes de perguntar:
_Seu palpite estava certo?
_Sim! E realmente não é um local comum para “encontros”. Mas ótimo para muita diversão e com certeza tem a ver com a gente.
_Então você está familiarizada com o que acontece lá?
_Claro que sim! Eu amo desvendar as coisas, lembra? É um local recente no centro de Manhattan, você poderia ter me dado essa dica.
_Bem, não foi necessário. E saber que você gostou é ótimo. Mas, certeza de que não tem mais nada para encontrar dentro desse baú?
_Sério? Mais coisas?
_Termine de desvendar esse mistério, Kate... – digo e, antes de encerrar a ligação, completo com um sorriso nos lábios. — Tenha uma boa noite.
Fale com o autor