Always
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Olá! Essa fic faz parte do Projeto One-shot Oculta, um amigo oculto entre autoras do fandom de Crepúsculo. Confira as regras e todas as participantes no nosso perfil oficial ?“ bit.ly/POSOnyah ?“ na aba "Favoritas” e “Estou Acompanhando”.
Essa fanfic é dedicada à minha amiga oculta Mari Pattinson, @maripattinson_ no twitter. Espero que goste!
365
— Eu espero que você seja tão infeliz quanto eu!
Eu acordei. Mais uma vez o mesmo sonho e as mesmas palavras. Sim, eu sou tão infeliz quanto você. E espero que eu esteja pior, porque eu odiaria te ver sofrer.
Mas esses pesadelos me fazem feliz. Eu te vejo tão nitidamente, consigo até sentir o cheiro. Eu penso em você todos os dias
730
— Bro, você tem certeza que vai ficar bem?
— Eu já disse Emm, estou bem!
Há dias tentava convencer Emmett de que eu ficaria bem sozinho. Por que todos acham que eu preciso de companhia o tempo todo?
— Cara, eu só me preocupo, você sabe. Você não pode nos culpar por isso.
— Eu sei, e me desculpe por ser grosso. É só um dia difícil como qualquer outro, e eu vou ficar melhor sozinho ok?
— Ok, até mais então
Observei meu melhor amigo do colegial sair em direção a sua picape. Eles estavam indo para Seattle. Eu era o único aqui, então decidi por manter a loja aberta mesmo no feriado, para caso alguém precisasse de suprimentos.
Eu me dirigi para os fundos, e me sentei na beira do cais com meu cooler e George. Ele tinha sido um bom companheiro nos últimos meses, apesar de ser apenas um cachorro brincalhão.
O sol começou a se pôr, e logo eu senti o familiar desespero.
Eu nunca consegui expressar o que havia em meu peito. Sempre me faltaram oportunidades e quando elas surgiam, me faltavam palavras. Acho que mesmo agora, depois de passar tanto tempo refletindo e ensaiando, eu não conseguiria.
1095
Fecho a porta, e a única coisa que vejo agora é um caminhão de mudança parado em frente a minha casa. Estranho, eu sei. Mas é uma boa mudança na rotina para esse dia. Eu estou indo morar com Irina, minha noiva. Noiva, isso mesmo. Nem eu sei como aconteceu, mas acho que chega um momento na vida em que você sabe que precisa fazer isso. Para evitar as perguntas, os questionamentos, e os olhares julgadores.
Eu não queria mais ser apontado como o cara esquisito que fica sentada no mesmo lugar sempre porque ainda espera a ex-namorada voltar. Eu não queria minha família preocupada comigo o dia inteiro. Eu não queria ver as crianças virarem adolescentes e depois adultos, e não fazer nada — por mais agradável que essa ideia pareça. Então era hora de mudar os ares.
1460
— Edward, você se arrepende?
Era uma pergunta difícil. Eu gostava de Irina, gostava de Chicago, mas não era o meu lugar. E ela sabia disso, principalmente após eu jogar na cara dela em uma discussão que tivemos quando eu cheguei bêbado em casa.
Talvez eu tenha me tornado um alcoólatra? Eu não sei dizer. Eu sei que conheci Mike, e descobri que ele era adepto a um copo de chopp todo dia após o trabalho. Eu me tornei sua companhia, e aos poucos o copo virou uma noite inteira, que resultou em brigas, problemas que afetaram toda a minha vida e por último, uma demissão.
Eu estava sentado em frente a minha casa com cercado branco que ficava em um bairro familiar da cidade. Eu tinha uma bela mulher, um belo carro, dinheiro para sustentar um filho se eu quisesse. Mas a dor em meu peito me fazia sentir como se estivesse fora de rumo. Eu precisava voltar.
1825
— Hey, é bom te ver de novo!
Jessica era uma antiga colega. Ela não morava mais em Forks, mas passava o fim do verão aqui, todos os anos. Em seu primeiro dia após a chegada, ela sempre vinha até a loja para me dar oi e fazer perguntas… Um tanto quanto inconvenientes.
— Oi Jess, espero que seja um bom fim de verão dessa vez.
— Sem pés quebrados, eu espero! — ela disse e cruzou os dedos enquanto caminhava até mim. Lá vamos nós.
— Tomara mesmo…
— Então, dessa vez eu tenho algo pra contar da cidade grande, é sobre ela.
Ok, isso era novo. Ela nunca afirmava, sempre perguntava. E depois dava em cima de mim. Isso só podia ser uma coisa e eu não gost…
— Eu vi a Bella! E ela vai se casar!!
Merda.
2190
Charlie veio aqui ontem. E eu achei estranho, afinal ele sempre compra seus artigos de pesca em Seattle. Então ele parecia sem jeito, ficava mudando de assunto e comentando ao redor. Até que ele me disse que estava indo para o casamento dela.
Eu sabia que isso iria acontecer um dia, mas não tão rápido. Ok, parece rápido pra mim mas já faz um tempo. Se ela tivesse seguido em frente estava na hora, não?
Mas ainda dói.
Filho, eu sei mais do que ninguém a dor que é ver a sua mulher partir. Mas você tem de seguir em frente. Ele apertou a minha mão e saiu logo depois, como se me deixasse pra pensar sobre aquilo. Pensar? Não tinha o que pensar. Ninguém esquece aquela mulher. Ninguém supera.
2555
Eu estava juntando os meus pedaços e colando. Finalmente decidi que era hora de fazer isso. Claro, isso não significa que eu seria feliz ou algo assim, mas pelo menos não ficaria em um estado deplorável. Minha mãe me mandou para consultas semanais com a doutora Angela Weber, minha colega no colegial e que agora era psicóloga formada pela NYU. Eu estava fazendo exercícios, indo nas reuniões do AA, aumentando a loja, ajudando na reconstrução das casas de La Push que sofreram com o último tornado, e até comecei a fazer alguns cursos na faculdade comunitária. Era uma boa perspectiva, não?
— Hey, tem alguém aqui? Eu preciso de alguma revista e linha, por favor!
Eu ouvi os passos e coisas sendo derrubadas. Não era real, era uma alucinação. Não era aquele perfume. Não eram passos atrapalhados. Não era a voz que assombrava meus sonhos.
— Isabella? — eu chamei, pra provar que eu estava 100% doido.
Ela caminhou até o balcão, e quando me viu congelou no lugar. Continuava linda, mesmo com cara de espanto. Eu fui absorvido pela sua beleza. Qual o meu nome mesmo?
— Edward? — ah, era esse.
— Isabella?
— Ok — ela levantou as mãos — já sabemos nossos nomes. O que você faz aqui?
— Eu sou o dono?
— Dono? Como assim? Você não tinha ido embora?
Agora eu pude entender a confusão e o motivo de ela ter entrado tão despreocupada. Ela sabia de algumas coisas. Mas quanto?
— Sim, Isabella, eu fui embora assim como você. Mas eu voltei.
Eu senti que ela ficou desconfortável enquanto mudava o peso de um pé para o outro, mas logo se recuperou e sorriu.
— Bem, parece que você sentiu falta do verde daqui hein? É um bom lugar para construir família, eu acredito. Seguro, tranquilo, essas coisas.
— Você está certa, mas eu estou aqui sozinho como sempre.
Várias emoções passaram pelo seu rosto e eu pude ver a fumaça saindo de suas engrenagens.
— Sozinho?
— Sozinho.
— Como assim?
— Como você está me vendo agora Isabella, sozinho. Minha casa é logo à frente e se você der um pequeno vislumbre pode ver que não tem mais ninguém além do George, que é um grande labrador que eu considero como filho. Fora ele, minha família são aqueles que você já conhece.
— Mas espera, você tinha ido embora. Pra Chicago, com uma loira peituda segundo o que todo mundo disse. Cadê ela e por que você está aqui?
— Calma lá, Chefe Swan. Quando isso virou um interrogatório? E quem disse isso?
— Ok Edward, aparentemente eu estou desatualizada das fofocas da cidade. Então — ela começou a andar em direção a porta — eu vou pegar um ar e me atualizar, e depois eu volto aqui pra falar com você.
— Espera Isabel…
— TCHAU!
A doutora Weber teria muito trabalho essa semana...
2920
Obviamente eu nunca mais tive notícias dela. Eu sabia que ela tinha ido embora no dia depois daquele ocorrido. O Chefe Swan veio aqui mais vezes desde então, mas eu nunca consegui perguntar nada sobre ela. Diferente do povo daqui que tem a boca enorme, eu sou tímido e sem jeito, evito contato e quando questionado eu respondo com poucas palavras. Então você também se pergunta, como eu cuido dessa loja há anos? Nem eu sei.
Eu consegui concluir alguns cursos na faculdade comunitária, coisas que comecei anos atrás e faltava pouco pra acabar. Agora eu tenho certificado para fazer esculturas, tirar fotos e fazer móveis. Esse último foi de grande utilidade, já que no último tornado uma parte da loja foi danificada pela água. Também fiz algumas reformas necessárias na NM Caça&Pesca. E hoje era a "inauguração". Não que alguém além de mim realmente se importasse. Eles só queriam vir aqui e comprar suas linhas. Eu passava o dia aqui. Então era um colírio para os olhos os novos balcões de madeira clara.
Eu ouvi o sino avisar de um novo cliente, mas continuei embaixo do balcão parafusando algumas portas. Até que ouvi duas risadas e precisei ver para crer.
Chefe Swan. E Isabella Swan.
Jesus Fodido Cristo.
— Então, isso aqui tudo é seu agora?
Era a primeira vez que ela falava comigo essa noite. Acontece que o Chefe Swan sabia que eu estava mudando a loja e veio comemorar, já que era um dos lugares que ele mais frequentava em Forks. E coincidentemente, sua única filha, que também é minha ex-namorada, estava na cidade para uma breve visita. Ao que parece o velho a convidou justamente no mesmo fim de semana da minha inauguração, e insistiu muito para que ela viesse. Curioso...
Mas então ela chegou aqui e apenas olhou para tudo enquanto eu e seu pai conversamos. Isso já tinha duas horas, e agora ele estava quieto apenas andando ao redor.
— É sim. Logo depois que eu voltei, o velho James passou os documentos para meu nome. Ele disse que a loja precisava de energia nova. Nova, pfff, como se algo novo aparecesse aqui todos os dias.
— Bem, eu apareci hoje.
— Eu sei, mas isso é um evento único. Não é como se você fosse voltar todos os dias.
— Bem, talvez eu volte.
— O quê? Você voltar? Como assim?
— Edward — Charlie nos interrompeu antes que ela respondesse — venha almoçar conosco amanhã. Não fique aqui sozinho mais um dia, eu fico doente por você garoto.
— Copiado, Chefe Swan! — quando eu voltei para a mulher ao meu lado, não foi possível retomar o assunto pois ela estava se levantando e limpando o que utilizamos em nosso jantar. Como assim voltar? Que merda é essa? Por que eu me importo? Alguém precisa começar a me responder.
2921
— Bom dia? — a porta do sobrado de madeira branca estava aberta, então tomei liberdade para entrar. Hoje eu fechei a loja mais cedo e atendi ao pedido do Chefe Swan. Eu gostava muito dele, e estava curioso para saber mais a respeito do que Isabella disse ontem. Não que eu estivesse interessado… Quem eu quero enganar? É claro que estou interessado. Eu não vejo a mulher durante anos e quando ela aparece, fica toda enigmática.
— Aqui, Edward! — ela me chama da cozinha e eu vou até lá para encontrá-la suja de farinha. Como ela continuava linda até assim? — Ok pare de me olhar com essa cara e me ajude. A batedeira saiu de controle e olha só, banho de farinha!
— Eu não sei o que eu faço, de verdade!
— Apenas pegue um pano e comece a passar pelos lugares mais distantes do olho do furacão.
Nós ficamos algum tempo limpando a pequena cozinha, conversando amenidades, perguntando sobre a família, o tempo, o colégio. Ignorando a sensação de desconforto que pairava.
— Jess esteve aqui uns anos atrás. Ela veio até a loja, como sempre, e falou sem parar de você. Foi estranho…
— Que engraçado, eu também encontrei com ela em Seattle, e ela só falou de você.
— Pois é. Ela sempre foi assim né? Inconveniente…
— É… Mas e o que ela dis…
— Hey, crianças! É engraçado ver vocês juntos aqui de novo — Charlie escolheu esse momento pra entrar — é quase como se eu tivesse voltado no tempo.
Naquele momento era como se tivessem estourado com um alfinete a bolha da ignorância em que estávamos. Aquela atmosfera pacífica em que estávamos anteriormente se foi, e não havia nada naquela cozinha além de mágoa e ressentimento.
— Você pode até ter voltado no tempo pai, mas não consertou as coisas que aconteceram — ela saiu da cozinha e subiu as escadas pisando firme.
— Boa sorte filho...
— Por que?
— Eu estou saindo, espero que vocês consigam se resolver.
— Espera, você me chamou pra almoçar. Eu achei qu…
— Achou errado, garoto. Eu não aguento mais esse vai e vem de vocês dois. Bells está mudando pra cá de volta, eu sei que você ainda não sabia da novidade e muito menos dos motivos, mas é isso. Eu quero muito que vocês se acertem, já faz tanto tempo, não acha? — ele saiu andando despreocupadamente. Merda, porque ele pensou que isso daria certo?
Então pela próxima meia hora lá estava eu limpando a cozinha lentamente, tentando prolongar a minha ocupação enquanto Isabella não aparecia. Eu não entendia nada do que estava acontecendo, mas eu sabia que ela estava ali, eu estava ali e nós tínhamos muito o que conversar. Será que isso aconteceria mesmo? Como seria um mundo sem essa tensão toda? E que história é essa de mudança?
— Você quer saber mesmo? — ela perguntou, virei-me e a vi escorada na entrada da cozinha.
— Falei isso em voz alta? — disse coçando a cabeça.
— Sim.
— Desculpe — optei pela sinceridade — eu só estou muito confuso, tem muita coisa acontecendo e o seu pai…
— Eu sei, ele é doido.
— … ele me largou aqui e disse um monte de coisas e eu nem sei o que está acontecendo
— Edward...
— … ele começou a falar da gente e disse que não almoçaria…
— Edward!
— … e pra melhorar eu também nem sei o diabos eu estou fazendo ou tenho que fazer e…
— EDWARD!
Desde quando ela grita assim?
— Desde sempre e sim, você falou em voz alta — ela me deu um empurrão leve com o ombro e voltou a cozinhar.
Ela passou os próximos minutos quieta, o que foi bom já que tive tempo pra me recuperar da vergonha que estava sentindo. Respirei fundo e me ocupei com o porta guardanapos quando comecei a falar.
— Então…
— Então?
— Você está voltando para Forks?
— Eu estou voltando para Forks — meu coração deu uma cambalhota com essa afirmação. Ainda bem que a doutora Weber nunca me disse que eu deveria enterrar meus sentimentos, porque nesse momento tudo teria sido em vão.
— Posso saber o motivo, ou você prefere manter o mistério por um tempo? — ela se virou para mim e me encarou por alguns segundos
— Pode.
— Posso?
— Pode!
— Mesmo?
— Ok Edward, eu vou te contar. Pegue umas cervejas no freezer enquanto eu coloco isso aqui no forno.
5 minutos depois estávamos sentados nos fundos da casa, tomando cerveja em goles pequenos, ouvindo a respiração um do outro enquanto olhávamos a chuva caindo.
— Engraçado, agora sim parece que voltamos no tempo. Mesmo lugar, cerveja, chuva e nós dois — ela deu um longo gole e eu percebi porque me sentia tão confortável. Esse momento era nosso, e nada nunca mudaria isso. Eu apenas fiquei em silêncio, contemplando esse momento.
— Então — ela disse se espreguiçando e colocando as mãos nos bolsos — tudo começou depois do meu divórcio. Eu tranquei a faculdade 2 ou 3 anos depois que saí daqui, e conheci ele 3 anos depois disso. Nós nos casamos e 6 meses depois deu tudo errado.
— 6 meses?
— Não venha me julgar, senhor certinho. Eu soube que você ficou apenas 9 meses em Chicago…
— Culpado!
— Em resumo, nenhum de nós estava naquele barco pelos motivos certos, então eu consegui voltar para o campus, concluí o curso, fiz uma especialização e agora estou aqui.
— Ok, ok — eu me ajeitei na cadeira — eu entendi, mas eu sou curioso então posso fazer algumas perguntas?
Ela respirou fundo e pareceu considerar. Eu vi quando ela tomou sua decisão enquanto afundava na cadeira.
— Claro, vá em frente.
— Primeiro, trancar a faculdade? Eu não esperava isso de você, a senhora vai focar na minha vida e nunca nenhum homem vai me parar.
— Eu sei — ela bufou — mas na época eu só chutei o balde. Acho que eu não queria perder outra chance de ser feliz...
Silêncio. Eu sabia do que ela estava falando.
— Ok, faz sentido. E por que o divórcio veio tão rápido?
— Eu não o amava, nunca o amei. Só achei que precisava agarrar a primeira chance que aparecesse. E ele só queria que a família parasse de encher o saco — ela respirou fundo antes de continuar — Alec está na linhagem de chefes da indústria em Seattle. A família dele controla tudo, então há uma pressão para que ele se case, tenha filhos e seja decente. Mas a verdade é que ele pretende passar o comando para o primo Félix e mudar para a América do Sul. Ele quer estudar línguas mortas ou algo assim… E o seu primo já está na escola de negócios
— Uau… É muita coisa. Digo, você tinha o que, 19 na época? E ele?
— Isso. Eu com 19 e ele só um ano mais velho.
— Nossa, era muita coisa para pessoas tão jovens!
— Pois é… Então um dia depois de sair da casa dos pais dele, nós sabíamos que não tinha mais como aguentar tudo aquilo. Nos divorciamos de forma tranquila, eu voltei a cursar literatura, afinal faltava muito pouco para conseguir o diploma. Depois da formatura fiz uma especialização e comecei a dar aulas, o que nos leva ao motivo de eu estar aqui.
— Você dá aulas?
— Sim, e a partir da semana que vem, vou dar aulas na Forks High School.
— Uau, isso é muito… legal eu acho — eu estava tentando disfarçar minha surpresa e também felicidade por ela estar de volta. Será que poderíamos voltar a conviver?
— Mas e você? Eu falei tanto de mim, e até hoje eu não sei nada além da loira...
— Loira peituda — completei junto com ela — Irina, você quer dizer. Pois é… eu não sei por onde começar
— Pode ser pelo começo?
— Engraçadinha — tomei o último gole da garrafa em minha mão — ela apareceu aqui no segundo verão depois que você foi. Nos divertimos e eu sinceramente não sei o que acontece, mas quando eu vi, estava com as coisas encaixotadas dentro de uma caminhão mudando para Chicago, ela ostentava um anel no seu dedo, e eu tinha um bom emprego em vista por lá.
— O sonho de toda mulher: um homem bonito com um bom emprego, e um anel de noivado no dedo. O que deu errado?
— Tudo? Eu não gostava daquela vida, não gostava do trabalho, dos amigos, dela talvez. Eu comecei a beber e me meti em confusão, até que perdi o emprego. Me lembro de uma noite que eu gritei que não gostava dela e tudo aquilo. Depois disso, não teve muito o que fazer…
— Nossa!
— É… E eu também sempre gostei daqui sabe? Eu gostava da loja, gostava de fazer um curso aqui e ali, ajudar os caras em La Push, ficar perto da família. Então voltar para casa não era um retrocesso, mas era estar onde eu queria estar.
— Eu entendo, e eu me sinto assim agora.
Nós sustentamos o olhar um no outro até que a chuva ficou mais forte e fomos obrigados a entrar. Almoçamos juntos, conversando amenidades, e seguimos na limpeza do desastre que ocorreu na cozinha.
Mais tarde, nós estávamos assistindo televisão e ela pediu pra eu seguir ela até o quarto, pois tinha algo que queria me mostrar.
— Eu guardei isso por muito tempo aqui, e toda vez que vinha pra Forks — disse enquanto tirava uma caixa de cima do seu armário, no quarto onde ela sempre viveu — eu passava horas olhando. Meu pai me deu bronca muitas vezes, me dizendo que eu deveria fazer algo a respeito, mas eu ainda não estava pronta. Acho que agora, com você aqui e enfim, tudo diferente, eu posso finalmente falar sobre isso e fazer algo.
Ela colocou essa caixa nas minhas mãos e me olhou em expectativa. Era uma caixa de sapato simples, mas por fora era cheia de recortes de revistas antigas. Eu conseguia ver todos os personagens das minhas séries favoritas ali. Alguns cantores, nomes de bandas, e palavras aleatórias. Era como uma cápsula do tempo.
— Espero que isso tudo não te assuste. Eu vou estar lá embaixo, pra você ter um pouco de privacidade.
Eu não tinha entendido o motivo de ela ter saído, até abrir a caixa. Puta. Merda. Deus do céu. A caixa estava repleta de coisas nossas, lembranças, presentes, fotos, e tudo mais que contava a nossa história juntos.
Eu e Isabella nos conhecemos ainda na infância. Deveríamos ter 8 anos na primeira vez que nos vimos. Crescemos juntos, mesmo estando em escolas diferentes. Fomos a todos os bailes juntos, feiras de ciências, jogos, em todos os momentos um estava lá para segurar a mão do outro. Eu não sei o exato momento em que começamos a nutrir sentimentos um pelo outro, mas lembro muito bem de uma carta que deixei na casa dela em um dia chuvoso de verão, e de como tudo mudou depois disso.
Isabella tinha dado seu primeiro beijo no dia anterior. Ela demorou muito mais que todos os adolescentes de Forks, pois dizia que queria um momento especial. Jacob a levou para um piquenique na reserva, e lá aconteceu. Quando eu fiquei sabendo, fiquei louco. Eu tinha 15 anos e fui correndo até a casa dela para tirar satisfação. Nem lembro o que disse, mas ela me deu um tapa na cara e gritou que queria ter dado o primeiro beijo comigo, mas eu tinha estragado tudo beijando Tanya, capitã das líderes de torcida, um ano antes.
Eu fiquei em choque. Naquela noite escrevi uma carta para ela — que agora se encontrava por cima de todos os itens da caixa — abrindo meu coração e sendo totalmente sincero a respeito dos meus sentimentos. Uma carta, porque eu era muito tímido e me atrapalhava para falar na frente de qualquer pessoa. Na segunda de manhã antes da sua saída para a escola, deixei a carta na cesta da sua bicicleta e fui para a aula.
O que eu não esperava é que no meio do terceiro período, enquanto eu estava na aula de literatura, a sala foi invadida por uma Isabella ensopada por conta da chuva que caía lá fora, com um papel em sua mão, que logo notei ser a minha carta.
— Senhorita, o que está acontecendo? Isso é uma aula!
— Desculpe senhora, eu preciso responder pessoalmente a carta de Edward Cullen.
— Isso aqui é uma aula de literatura, garotinha. Não é um baile onde vocês mandam bilhetes. Vá embora!
Eu observei o diálogo, pasmo, sem saber se deveria interferir ou não. Isabella me olhou e virou as costas para sair, mas mudou de ideia no último segundo.
— Senhorita, eu já disse que…
— Senhora, isso é uma aula de literatura e eu não vou atrapalhar. Inclusive, vou me utilizar de recursos literários para responder ao senhor Cullen sem que ele perca o foco.
Ela pigarrou e começou a citar alguma passagem de algum livro. Eu ouvi aquilo encantado.
— "...Esforcei-me para nomear os sentimentos que me invadiram, mas não havia palavras fortes o suficiente para contê-los…" e eu não sei se consigo continuar isso — ela virou e começou a andar até a minha carteira — porque realmente não há mais palavras para o que eu quero dizer. Então, Edward Cullen, eu vou te beijar agora, porque seus sentimentos são correspondidos.
Continuando a explorar as lembranças, logo abaixo da carta estava uma foto que tiramos naquele mesmo dia, depois que eu fui expulso da sala por perturbar a ordem. Nós corremos para minha casa e passamos a tarde juntos. Eu ouvi tudo que ela tinha a dizer, e fiquei maravilhado ao saber que ela apenas beijou Jacob por ciúmes. Eu revelei a ela que queria ter experiência, caso um dia ela me pedisse para ser seu primeiro beijo, e por isso beijei Tanya. Nós rimos e nos beijamos durante toda aquela tarde.
Começamos a namorar oficialmente 2 meses depois. Nossos pais e amigos ficaram muito felizes, e tudo correu bem. Nós tínhamos planos, tínhamos uma relação maravilhosa e estávamos felizes. Dentro da caixa também encontrei diversas outras coisas, como nossas alianças de namoro, fotos, ingressos do primeiro filme que vimos no nosso primeiro dia dos namorados.
Eu vi tudo aquilo maravilhado, e me perguntei como tudo isso acabou tão rápido. Então, como a caixa estivesse respondendo a minha pergunta, eu logo achei o que foi o motivo do nosso fim. Ou o começo dele.
Ao fim do colegial, eu não queria ir para a faculdade por ainda não saber o que queria ser. Naquele ano eu tinha conseguido um emprego na loja de caça e pesca de James, um senhor que residia em Forks desde que nasceu. E eu gostava da minha rotina, gostava da loja e da sensação de estar em casa. A minha relação com Isabella estava ótima, então eu decidi que após a nossa formatura iria pedir ela em casamento. Ela poderia ir para a faculdade comunitária, e eu também, e nos meus planos também estava a planta de uma casa que eu iria começar a construir logo após ela aceitar o meu pedido.
Mas ela não aceitou.
Naquele dia, ela correu para casa chorando. Eu fui atrás dela, é claro. Chegando lá, eu tentei entender o que estava acontecendo, e então ela me jogou todos aqueles envelopes que eu segurava agora em mãos.
Isabella Swan foi aceita em todas as faculdades de prestígio do território norte americano. Todas elas muito longe de Forks. Então ela me disse que tinha recebido as cartas um mês atrás, e esperava que eu pudesse entender que ela estava nervosa em me contar. Mas ela achava que tudo ia ficar bem, e ela poderia voltar pra casa uma vez ao mês, assim como eu poderia visitar ela quando quisesse.
Eu não reagi bem. Eu apenas saí de casa e andei, até chegar em La Push. Eu simplesmente não entendia porque ela não se sentia em casa comigo, e porque ela tinha que fazer aquilo. Na época eu não pensei que ela só estava saindo por um tempo, mas me senti abandonado. E traído, porque ela escondeu aquela informação de mim.
Ela foi embora na mesma semana. Algum tempo depois eu descobri que ela recusou todas aquelas instituições famosas que a aceitaram, e se mudou para a universidade de Seattle. O Chefe Swan a apoiaria em tudo, mas ele ficou imensamente feliz por ela estar a apenas algumas horas de Forks. E eu nunca mais a vi. Até o ano passado. E nunca tive uma conversa com ela, até ontem. E agora, eu estava aqui olhando para essa caixa, sabendo que a dona do meu coração estava lá embaixo me esperando, e a única pergunta que eu conseguia fazer é por que ainda não sentamos e resolvemos as coisas, para podermos continuar de onde paramos?
Guardei a caixa no mesmo lugar em que estava, e desci as escadas atordoado. Não sabia o que fazer ou por onde começar, mas queria resolver isso. Eu sabia que precisava superar meu medo de falar por apenas alguns minutos. Apenas o suficiente para dizer que ela esteve em meus pensamentos sempre, e que eu estava apavorado com a ideia de perdê-la.
Eu estava determinado a fazer isso, mas quando eu entrei na cozinha eu fui pego de surpresa. Acho que essa nova visão das coisas também me deu uma nova visão dela. Ali, eu via tudo o que eu precisava. Ela estava linda, com um avental florido sujo de molho, os cabelos presos com algumas madeixas rebeldes caindo pelo rosto. Como eu fui capaz de deixar ela ir?
— Eu acho que você precisa parar de falar em voz alta tudo que pensa, Edward. Ou então fazer disso sua nova forma de comunicação — ela disse, enquanto se virava e andava na minha direção — já que assim você fala sem filtro e não se deixa impedir pela timidez. Meus planos agora consistem em nunca mais te deixar ir, e também quem sabe futuramente descobrir se aquele pedido de casamento ainda vale. Então espero que você fale muito, afinal serão muitos anos de casados, não é?
Isabella Swan será a minha morte. Mas morrerei muito feliz.
2927
Naquele dia eu e Bella jantamos juntos e conversamos coisas leves. O que eu fiz aqui, o que ela fez lá, tudo que perdemos na vida do outro nos últimos anos. Acabamos por dormir no sofá e fomos acordados pelo Chefe Swan assim que ele chegou da pescaria. Ele disse que aquilo não era apropriado, mas eu conseguia ver um sorriso por baixo do bigode. Charlie era o nosso maior fã.
Bella foi embora dois dias depois, apenas para buscar sua mudança em Seattle. Ela chegaria hoje, e entre telefonemas e mensagens, ficou combinado que ela deixaria suas coisas na casa do pai, passaria o dia com ele e após isso viria para jantar na minha casa. Eu tive um longo trabalho nos últimos dias, limpando tudo e organizando o que eu chamo de organização, mas que ela com certeza veria como a casa de um solteiro. Nossa, apenas a ideia de ter ela aqui já me deixava nas nuvens. Eu não sabia como iríamos prosseguir com ela morando tão perto e tudo se resolvendo entre nós, mas esperava que as coisas acabassem bem.
Estava colocando comida na tigela de George, pronto para voltar a loja após a pausa do almoço, quando ouvi um carro parando na entrada, e passos rápidos pelo cascalho. Então, logo depois, batidas nervosas na porta.
— Quem será uma hora dessas George?
E quando eu abri, lá estava Isabella Swan. pelo horário, eu sabia que ela estaria chegando na cidade. Mas não imaginei encontra-la na minha porta toda com os cabelos desgrenhados, roupas sujas, aparência de cansada. Ela puxou uma lufada de ar, e sorriu.
— Eu tive toda uma semana para pensar, e imaginei diversos cenários diferentes, diversas possibilidades. Não consigo me ver de outra maneira aqui em Forks, e não existe outra saída para nossa situação. Então, Edward Cullen, eu sei que estou 8 anos atrasada, mas se você ainda quiser casar comigo e me construir uma casa, eu definitivamente aceito.
Notas finais
Não esqueça de deixar seu comentário e até a próxima!
Fale com o autor