Always
1 Capítulo único
Notas iniciais
O vento frio da primavera balançava os cachos do detetive enquanto ele fazia o seu caminho até a saída da festa. A festa de casamento de John, para comemorar sua união com alguém que não foi Sherlock.
Não foi tão ruim, no entanto, pois Sherlock realmente gostou da nova companheira de John. Mary era corajosa e perspicaz, e o mais importante de tudo: ela fez John feliz, especialmente nesses longos anos que Sherlock não esteve lá para fazê-lo.
John o tinha perdoado facilmente, afinal, e quase tudo voltou a ser como antes. O loiro já não vivia mais em Baker Street 221B, mas ele e Sherlock ainda resolveram alguns casos, tomaram chá com biscoitos com Mrs. Hudson, e em uma ocasião, jantaram juntos no Angelo, com a desculpa de Sherlock de estar “investigando um caso em potencial nas proximidades”.
No geral, o casamento de John e Mary tinha sido um sucesso, e a festa estava extremamente animada, com a pista de dança lotada. O estoque de champagne não ia resistir muito.
Cercado pelo êxtase de todo mundo, Sherlock havia se enganado em pensar que ele fazia parte da festa. Não estava feliz, realmente. E no meio de todas aquelas pessoas, sabia que lá não era o seu lugar.
Como John e Mary tinham voltado para a pista de dança, sem nem sequer lembrar de sua presença lá, Sherlock percebeu que, sem John, estava isolado do resto do mundo. O “detetive mais famoso do mundo” (pelo menos em sua imaginação) estava sozinho agora. Sua mente tomou uma aquiescência solene com sua própria circunstância.
Apressado, Sherlock colocou a valsa que compôs para o casal em um envelope, e deixou-o onde ele sabia que eles iriam encontrá-lo. Antes que pudesse deslizar para fora despercebidamente, como o planejado, uma voz o parou. Mas não era qualquer voz. Era a voz dele. Ele a reconheceria até no meio de uma guerra, pois era a voz que ressoava em sua mente enquanto ele considerou sair do mundo dos vivos para escapar da tortura que sofreu, mesmo estando longe.
-- Onde você pensa que vai? – John perguntou, apoiando-se no batente.
Sherlock girou os calcanhares e fitou o médico, com certa tristeza. Ele nunca saberia o impacto que teve na vida de Sherlock. Descartando o pensamento, retomou sua postura tradicional.
-- Sair.
O médico bufou, revirando os olhos.
-- Ok, Sherlock, eu não sou tão estúpido assim – ele brincou, fechando a porta atrás de si, e chegando a ficar a poucos metros de distância de Sherlock, que tinha desviado o olhar para seus sapatos. – Por que ia embora?
-- Você sabe que eu não gosto muito de festas – Sherlock tentou dizer sem parecer rude, e acrescentou um sorriso tão falso logo em seguida, que tinha certeza de que dessa vez, John tinha notado.
-- Sério? Mas eu pensei que você adorava dançar. – John comentou, sorrindo, e os olhos de Sherlock estreitaram.
-- Como sabe?
-- Eu ouvi você dizer a Janine.
-- Oh... – Sherlock olhou para John, sem saber o que ele poderia fazer com esta nova informação.
-- Então, por que você não está dançando? – perguntou John.
-- As pessoas lá são tão maçantes... – Sherlock mentiu, acenando com a mão para dar ênfase. Na verdade, a única pessoa ele realmente queria dançar não estava disponível.
John riu.
-- Vamos lá! – John disse, pegando Sherlock pelo pulso, e o gruiando até a parte de trás da casa. Sherlock sentiu um arrepio correr por seu corpo, mas ignorou, e o seguiu mais por curiosidade. Uma pequena chama de esperança acendeu-se em seu coração. Ter a atenção de John em seu casamento, nem que fosse por um minuto, era gratificante.
Sherlock emergiu no quintal ricamente decorado. Não tinha se preocupado em olhá-lo muito, exceto através da janela na sala de estar. Havia flâmulas amarradas em árvores e pequenas mesas cobertas com tons odiosamente neons de roxo e amarelo para combinar. As pessoas pareciam estar mais preocupadas com a aparência de seu casamento do que se a pessoa que eles estavam se casando era a certa ou não. Sherlock riu internamente com o pensamento.
John parou no meio do pátio e girou para ver se Sherlock ainda estava atrás dele. Havia apenas duas janelas na parte de trás da casa, de onde eles não podiam ser vistos da sala principal, onde todos estavam. Assim, eles estavam completamente sozinhos.
Depois de olhar para os dois lados, como garantia, John estendeu a mão com expectativa para Sherlock, que apenas levantou as sobrancelhas e o fitou, intrigado. O canto da boca de John ergueu-se e ele esclareceu:
-- Venha aqui seu idiota, e dance comigo.
Sherlock gelou, perguntando-se se tinha ouvido direito. Ainda com a expressão interrogativa, caminhou até John, e hesitou. Suas mãos iam segurar os quadris do loiro, mas pararam no meio do caminho. Ele não sabia como reagir.
John riu com gosto.
-- Se esta é a sua ideia de dançar, eu posso ver por que você deixou pra lá! – John brincou, assumindo a liderança e agarrando a mão de Sherlock com firmeza. Em seguida, segurou a cintura do homem mais alto. Sherlock sacudiu-se de sua confusão e colocou a outra mão sobre o ombro do loiro, seguindo o exemplo de John em uma valsa casual. Ele estava familiarizado, devido às "lições" que dera a ele, como treino para a grande valsa com Mary. Era estranho o seu aprendiz estar conduzindo o “professor”.
-- Hey, relaxe. – John murmurou, puxando corpo ágil de Sherlock mais perto de seu. –Você já fez a parte mais difícil do dia. – acrescentou.
-- E qual seria? O discurso ou a captura de um assassino?
-- Eu diria que o discurso, mas você lidou com isso fantasticamente. Melhor do que eu imaginava que seria. – John respondeu.
-- Você acha? – Sherlock perguntou, tentando conter a surpresa em sua voz.
-- Sim, foi muito... Foi excepcional, Sherlock. Tudo o que você fez por nós foi adorável. – a sinceridade na voz de John foi uma das muitas coisas que Sherlock admirou nele. Muitas pessoas não seriam tão sinceras, Sherlock pensava.
John o fitou.
-- Hmm, bem, eu acabei de falar o que eu estava pensando... – Sherlock disse, em um ar casual. “Mas o que...?”, sua consciência se manifestou. Não sabia se aquilo havia sido dito por ele e John estarem a sós, ou talvez o champanhe (considerando sua recém-descoberta baixa tolerância ao álcool), ou a atmosfera etérea sob o luar. Mas já que já tinha começado, decidiu dizer tudo de uma vez. Tudo o que não teria coragem de fazer se estivesse cem por cento sóbrio.
-- Eu quis dizer cada palavra, John – Sherlock falou enquanto olhava diretamente nos olhos azul-celeste de John.
-- Eu sei, ainda que tenha sido uma surpresa...
-- O quê? O fato de eu sentir algo, ou de eu ter divulgado isso para todo o salão? – Sherlock perguntou, e John deu uma risada curta. Logo em seguida, sorriu para ele.
-- Você mudou. – John comentou, ainda olhando calorosamente no olhar implacável do detetive. – Desde que você voltou eu quero dizer. Não me interprete mal, é uma mudança agradável, mas como o seu amigo, eu estou preocupado se você está bem com tudo isso. Sabe como é.
-- Eu estive bem durante cinco meses, três dias, e 14 horas. – Sherlock respondeu sem rodeios. – Mais ou menos – acrescentou ele, em uma reflexão tardia.
John arqueou as sobrancelhas.
-- O que aconteceu há cinco meses? – perguntou John, tentando parecer indiferente. Sabia que Sherlock não gostava de curiosidade excessiva, mas sempre quis saber o que aconteceu enquanto ele se passava por morto.
Sherlock deu um longo suspiro.
-- Há cinco meses, três dias e 14 horas atrás eu andei pelas portas do hotel Landmark e seu restaurante projetado para os extremamente ricos e aqueles que desejam ser. Como eu entrei, eu observei que havia pelo menos três pessoas que tentam fazer negócios. Um homem que finge ser um atleta famoso para dormir com a mulher na frente dele, e uma senhora idosa um pouco infeliz a ser coagida a mudar a sua vontade. Era bom estar de volta a Londres, cercado por pessoas tão transparentes que eu pudesse lê-los tão claramente como os menus que estavam nas mesas. Eu estava bem, de certa forma. No entanto, eu vi um homem em particular beber de um copo de vinho enquanto esperava uma mulher que, se as coisas corressem bem, se tornaria sua esposa. Cinco meses, três dias e 14 horas atrás eu vi você, John. – Sherlock concluiu, e encarou John, esperando por sua reação.
O moreno não sabia o que esperar. Provavelmente outro soco. Mas, como sempre, John foi uma das pessoas mais surpreendentes Sherlock teve o prazer de conhecer. A mão do loiro deslizou do ombro de Sherlock para agarrar a parte de trás do seu pescoço e trazer os lábios do detetive suavemente contra seus.
Não foi rápido e desesperado como Sherlock tinha visto na televisão. Foi suave e sincero, tudo o que Sherlock poderia esperar do homem mais compassivo que ele conhecia. Felizmente, só levou um segundo para Sherlock compreender a situação, e dobrar o pescoço para baixo, e então John não teria que se esforçar tanto para alcançá-lo. John passou os dedos pelos cachos sedosos de Sherlock, provocando um suspiro no mesmo. Sherlock afastou primeiro, mas só para envolver seus braços em torno do tronco de John e abraçá-lo como se nunca mais fosse soltar.
Aquele tinha sido muito melhor do que o abraço que John dera logo após seu discurso. O médico fechou os olhos, satisfeito e se agarrou a seu detetive tão firmemente como se também não pretendesse soltá-lo tão cedo.
Sherlock sabia que John teria que sair junto com Mary para que eles pudessem ir à sua Lua de Mel, e ele, de mau humor, teria que voltar à Baker Street. Talvez, quando chegasse, resolvesse compor, expulsando seus sentimentos definitivamente. Entretanto, o detetive bloqueou tais pensamentos em favor de saborear a sensação de seu melhor amigo e único amor ali, abraçando-o.
John compreendia que agora já estava feito, e que teria de ir. Apoiando sua cabeça no pescoço de Sherlock, ele sussurrou seu último voto no ouvido de seu detetive:
-- Eu sempre estarei aqui, sempre.
-- Sempre?
John segurou as mãos de Sherlock.
-- Sempre.
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