Alvorecer Rúnico
1 Os Sempre Mortais Ratos do Cais
Notas iniciais
TARIC
Runeterra era linda, impossível negar. Constantemente o Escudo de Valoran se pegava pensando nisso. Tinha animais tão variados que parecia impossível listar todos, árvores com diferentes cores ou formas e alguns lugares eram tão encantadores quanto outros eram perigosos. O mar, os rios, tudo incrível. Apesar disso, desde que descera do Monte Targon, sentia-se absoluto. Nunca mais contemplaria uma visão tão magnífica, tampouco deslumbraria tamanho brilho.
Esticou-se preguiçosamente, desviando os pensamentos. Tinha trabalho a fazer. Ergueu-se da grama, balançando suavemente as roupas para limpar-se e caminhou até a beira do rio Kalamanda. Taric dobrou apenas um joelhou, coletou água com as mãos e molhou o rosto inteiro de uma vez. Passara a noite ali perto, porque sabia que era um lugar bastante seguro. Haviam algumas dunas de areia logo atrás que lhe protegia de qualquer tribo covarde, daquelas que matariam um homem dormindo e roubariam seus bens, e a frente apenas água. Não que os animais aquáticos sejam menos perigosos que os humanos, só são mais confiáveis.
Seu martelo encontrava-se jogado a um canto com os pedaços de sua armadura reluzente e não foi difícil notar como o tecido puro de sua roupa estava folgado, velho. Chegara ali pela noite, cheio de areia e lavara não só seu próprio corpo, mas também seus objetos. A capa, porém, assim como o pano de suas vestes, não puderam ser molhadas. Era verdade que o frio não lhe afetava como a os homens comuns, contudo ainda não estava acostumado a dormir desnudo em uma noite gélida.
Seu objetivo era chegar em Nashramae, o famoso porto shuriname. Não sabia bem o porquê, mas depois que descera da Montanha, sua mente fora invadida com esse objetivo. Então cumpri-lo-ia. Teria sido mais fácil caminhar ao sudeste de Targon, seguindo as rotas comerciais talvez conseguisse uma balsa que lhe levasse pelo rio Vekaura e, dali em diante, estaria em Zaun rapidamente. O problema é que esse trajeto não acabava em Nashramae. Teria que desbravar o deserto se quisesse chegar lá; ou seguir trilhando a costa do mar.
Sua barriga roncou antes que terminasse de atar a armadura, lembrou que tinha fome. Era complexo achar qualquer animal tão distante do Monte Targon. Nem mesmo os ibiks, herbívoros particularmente deliciosos que costumavam habitar os locais mais planos, se arriscavam a ir tão longe. Se tivesse encontrado um único ibik, poderia se alimentar, sozinho, por meses, e não reclamaria nem quando apodrecesse. O animal era gigantesco, tinha uma carne gordurenta, crocante e produzia um leite doce inigualável. Lembrava-se de tê-lo provado certa vez, quando ainda morava em Demacia. Parece que foi em outra vida, mas eu ainda recordo daqueles tempos. As piores memórias são as que mais dificilmente se vão.
Tudo o que havia encontrado era um erbok velho, já morto, provavelmente por outro da mesma espécie, e alguns tamus perdidos. O erbok era horrível, oleoso, tinha muitos ossos e aquele parecia estar doente, a julgar pelo gosto da carne, enquanto os tamus... Taric tinha pena de matá-los. Não agora, que estava com fome e pensava em ibiks crocantes, todavia quando avistara uma dupla perdida, não pôde atacar. Tamu era um bicho inteligente e domesticável com pelos tão macios que poderiam ser usados para roupas. Não os matou.
Sentia as consequências disso, enquanto caminhava sem qualquer vestígio de alimento ou perspectiva de achar algum animal. Olhou para o rio ao seu lado, com a corrente forte, e perguntou a si próprio se era possível encontrar algum peixe ali. Não fazia a menor ideia.
— Morrer de fome seria ridículo. — Às vezes Taric gostava de conversar sozinho, porque sentia como se fosse desaprender a falar ou perder a voz se não o fizesse. Também parecia que alguém estava sempre lhe escutando. — Não, isso é drama da minha parte. Vou encontrar algo antes de chegar em Urzeris. — Seu sorriso triste denunciava a falta de certeza, mas não havia ninguém em milhas que pudesse visualizá-lo.
TWISTED FATE
Ratos. Mas não ratos quaisquer, ratos do cais. Em todas as direções que Twisted Fate olhava, via a mesma pequena e mortal praga. Não tinha certeza o porquê de ter topado invadir aquele galpão velho, mas sabia que se estivesse a seu alcance, Malcolm Graves sofreria as consequências de ter um rato do cais arremessado em seu rosto.
Suspirou profundamente, agarrado em uma espécie de mastro e apoiando os pés na parede. Aquilo era no mínimo humilhante. Porém, sua maior preocupação era o fato de os bichinhos pularem cada vez mais alto e mordiscarem suas pernas, coxa e até nádegas. Dói particularmente na bunda, refletiu em um momento de baboseira. Jurava que em situações como aquela tentava esquecer o deboche, mas era tããão difícil. Se eu conseguisse pegar uma carta, talvez pudesse matá-los todos. Era um absurdo, porém se não tivesse conseguido achar outra alternativa, tentaria fazê-lo. Para sua sorte, havia grande possibilidade de Graves adentrar o alçapão quando chegasse e, então, poderia dar uma ajudinha. Sim, até porque aquele plano estúpido era dele.
Tudo bem, nada teria dado errado se eu não tivesse acordado os ratos, mas como iria adivinhar que haviam tantos? Sentiu dentes enormes rasgando sua calça e gritou um sonoro “não”. Isso foi caríssimo, maldito.
Por vezes, em sua infância, sentira-se como um rato de porão, furtando coisas, dormindo em bares ou ruas e enganado qualquer pessoa para obter alguma quantia. Até hoje vivia assim, porém dessa vez não tinha mais nenhum sentimento negativo para com isso. Pelo contrário, fazia um favor à humanidade corrigindo o erro que era dar riquezas a pessoas tão tolas que eram enganadas até a pobreza. Ao furtar um galpão como aquele, só queria lembrar ao dono que não deveria abandonar seus objetos.
Graves prometeu uma arca cheia de iguarias sem iguais, lembrou-se emburrado, e o que eu encontrei foi uma morte trágica. Malcolm pedira para seu companheiro confiscar o baú que estaria lá dentro, pois conseguiria a chave. Agora Twisted percebia tardiamente que a existência de um tesouro ali era história de bêbados. Ou de pescadores. Pior: pescadores bêbados. Ouviu-se rir sozinho com esse pequeno gracejo e suas mãos deslizaram. Já estava cansado, quase dormente, e uma distração era mais do que o necessário para cair naquele bando de animais carnívoros. Quando se estatelou no chão, por cima do corpo de alguns bichos, ainda não tinha tido a consciência do que acontecera. Pareceu uma espécie de pesadelo macabro, mas não era. Em poucos segundos os animais avançaram em seu corpo sanguinariamente e os dentes pareceram mais afiados do que uma adaga. Seu braço rasgou de uma vez quando o primeiro bicho mordeu, porém não gritou. Teve medo. Medo.
Os ratos esmagados espetavam suas costas com os pelos espinhentos que tinham e, pouco a pouco, começavam a perfurá-lo. Todo seu corpo sendo arranhado ou mordido. Ainda assim, abriu os olhos. Nenhuma lágrima sequer escapou, ou gemido de dor. Balançou o braço esquerdo com uma brutalidade que não sabia possuir e afastou meia dúzia de bichos grotescos, depois retirou uma carta da manga e sentiu-a quente; brilhava. A luz era tão intensa que os bichos menores se afastaram. Twisted Fate tremia quando se levantou, todinho dor e sangue, exceto a carta que luzia em sua mão. Suas pernas bambearam quando alguns ratos as morderam. Abocanhavam-lhe até os ossos e o Mestre das Cartas sabia que eram capazes de rachá-lo ao meio.
Arremessou de uma vez várias cartas. Não uma, ou duas, dezenas. Elas se multiplicavam em faixas de três, reluzentes, vermelhas, azuis, douradas... Alguns ratos foram atingidos em cheio, lhes cortando a cabeça ou ferindo gravemente. Outros se esquivaram ou voltaram a erguer-se após o impacto. Eram tantos! Aqueles menores sentiam-se tentados a fugir, mas queriam se alimentar igual os outros.
Seu ombro deslocou quando um rato alcançou a mão direita e a puxou, se não tivesse mantido o punho fechado, teria perdido todos os dedos. Tentou não olhar, mas era possível enxergar a carne viva e sangrava; sangrava o suficiente para abastecer meia dezena de algum daqueles rituais feitos em homenagem à Lua Sangrenta.
Uma carta amarela paralisou o bicho que tentara lhe arrancar o braço e outra, avermelhada, concedeu certa lentidão aos que estavam em volta. Era sua única oportunidade. Se não conseguisse fugir agora, morreria. Com certa dificuldade, começou a correr. O primeiro passo é o mais difícil, Twisted, pensou. Mas estava enganado, não era. Cada vez que erguia a perna para pisar novamente, sentia-se um soldado de areia, como aqueles que alguns mercadores alegavam ter visto em Shurima.
Por um milésimo de segundo pareceu desabar e decidiu desistir. Vivera tempo o bastante e o mundo estava farto de pessoas como ele, seria minimamente nobre servir de alimento àquelas vis criaturas e, ainda assim, mais nobre do que fora em toda sua existência.
Mas então recordou-se de um detalhe: o mundo sempre esteve farto de pessoas como ele. Foi por isso que presenciou sua família sofrendo com armas de ébrios vingativos, viu seu povo lhe exilar, abandonou o nome de nascença e coisas muito piores. Era por ter sua existência odiada que teimava em existir.
Quando isso lhe ocorreu, virou-se astutamente para jogar mais um punhado de cartas e continuou correndo. Tropeçou em alguma coisa e escorregou para fora do galpão. Suas pernas estavam abertas e um rato corria em direção ferozmente. Ele engoliu em seco, porém conseguiu fechar a porta com os pés antes que ocorresse algo irreversível.
Enquanto tremia, assustadiço e ensanguentado, com a cabeça encostada nos portões de madeira daquele inferno, percebeu que chovia. A água salgada fazia arder ainda mais seus ferimentos. Chorava desesperadamente, com a morte quase certa, quando Graves apareceu com uma chave. Twisted não lhe disse nada, apenas apertou o braço direito — ou o que restava dele — e desmaiou.
TALON
— Eles não sobreviverão —avisou o assassino a uma senhora idosa que mantinha os olhos arregalados, mirando dois cadáveres noxianos estirados naquele beco. A mulher parecia ser vendedora de alguma coisa. Talon esperou que fosse de comer e foi chama-la, mas esqueceu que suas lâminas ainda estavam ensanguentadas. — Não adianta ficar olhando como se pudesse ressuscitá-los, exceto se puder. Você pode?
A velha não reagiu àquilo e o rapaz revirou os olhos, insatisfeito. Não estava emburrado com a pobre shuriname de pele bronzeada e mãos enrugadas, mas por ter fracassado novamente. Cada vez que não conseguia obter sucesso sentia o peso de todas as derrotas sob seus ombros e isso lhe dava vontade de matar alguém, literalmente.
Mas não era esse tipo de assassino. Suspirou, recolhendo uma espécie de fruta de Shurima. Era toda laranja, arredondada e grande. Não entendia como aquele povo podia se contentar sempre com o mínimo. Não era mais doce do que o pior de Noxus. Se bem que aqui também é Noxus. Sempre me esqueço. Ainda assim, mordiscou.
Enquanto deixava aquele beco e a vendedora para trás, refletia sobre sua busca. Du Couteau sumira fazia tanto tempo e quase não deixara rastros. Era difícil procurá-lo e cada vez parecia mais distante. Se estivesse vivo, gostaria de devolvê-lo à Noxus. Se estivesse morto, gostaria de vinga-lo. Independentemente de onde e como esteja, vou achá-lo.
Suas filhas não pareceram demonstrar tanto interesse no desaparecimento do pai e, às vezes, Talon se perguntava se alguma delas seria capaz de vencê-lo em um duelo. Du Couteau já havia mandado que matassem Katarina e Cassiopeia se tornara uma víbora predatória dos confins sujos de Noxus. Ainda assim, seria decepcionante pensar que o general tinha tido um fim tão simples.
Não. Ele era mais forte do que eu e do que qualquer outro. Ajeitou o capuz que havia deixado cair e começou a limpar o sangue que tinha nas lâminas. Precisaria encontrar um lugar para descansar e, quando anoitecesse, partiria. Estava cansado de Bel’zhun e mais ainda de Shurima. Duvidava muito que Du Couteau tivesse sido abatido por alguém daquele povo e mais ainda que tivesse sido capturado. Já procurara por toda Noxus, desde a Fonte do Minério, na fronteira com Freljord, até Trevale, próximo a Demacia e até naqueles fatídicos desertos com seu povo que voluntariamente se unia à potência noxiana. Precisava escolher onde iria agora.
Aqueles homens disseram alguma coisa sobre um “Demônio Dourado”. Isso parece coisa ioniana. É difícil dizer se falaram pelo desespero ou se há algum sentido. Mas como trabalharam com Du Couteau, então é possível que estivessem dizendo a verdade. Só havia um jeito de conferir.
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