Alvorecer - As Crônicas Elementais.
2 A Praia.
Notas iniciais
Acordou com metade de sua face mergulhada em um fino e raso lençol de água salgada do mar, e um lençol mais grosso e áspero da areia que se encontrava logo abaixo da água. Foi quando acordou e deu por si fraco, cansado, deitado de bruços, julgou que o pedaço de madeira destroçado que estava próximo a seus braços teria salvado sua vida e ao mesmo tempo levado ao seu leito salgado, molhado e salpicado pelos grãos de areia daquela praia.
Tentou levantar com todas as suas forças, foi quando percebeu o quanto todo o seu corpo doía. Voltou a deitar-se para tomar um pouco mais de fôlego, dessa vez com a barriga para cima ao olhar para o infinito céu azul-anil com poucas nuvens brancas e pequenas espalhadas por ele, com o sol a mais ou menos a quarenta e cinco graus de inclinação no horizonte do leste, julgando assim que deveria ser ainda manha, com poucos minutos antes das nove horas, embora a luz do sol não estivesse tão clara ali nessa suposta hora, sendo reduzida por algo, uma nuvem talvez. Não sabia de como reconhecia isso, e nem sabia de onde saia toda a confiança em pensar que aquele palpite de horário estivesse certo. Aliais, não sabia de nada, não se recordava de nada antes do seu despertar, nem mesmo de seu nome, a única coisa que não tinha lhe escapado era aquele sonho terrível cheio de escuridão, desespero e magoa que teve antes de acordar.
O forte rugido que ouviu foi ainda mais aterrorizador. Ao ouvir, levantou-se como que para se defender de algum golpe mortal desferido contra seu corpo, e como se sua sobrevivência dependesse disso. Foi quando olhou uma coluna feita de uma grossa fumaça flutuando logo acima, a poucos centímetros de altura da superfície do mar. Para todo lado que olhava, ao invés de ver o mar e o horizonte, via um pouco do mar e no lugar do horizonte havia aquela grossa e alta coluna de nevoa, uma parede de grandes nuvens brancas que pareciam ter descido do céu, e logo acima do toda dessa grande parede estava a forte luz do sol da manha, subindo lentamente em direção ao céu azul-anil. Observou aquela coluna de sua esquerda a direita (supôs que sua direita era sul e sua esquerda era norte, de acordo com o sol ascendente), mas seja lá qual fosse o lado que se virava, via-se somente o mar, a areia da praia, o grosso nevoeiro no lugar do horizonte na sua frente, e uma densa floresta que se encontrava na direção de suas costas, seguindo a curva da praia. Então veio outra vez o rugido, mais fraco do que o ultimo que o tinha feito pular de susto. Percebeu então que o som bestial vinha da espessa e alta nevoa.
Talvez, de algum modo o rugido vindo da nevoa, a sua exaustão, suas roupas rasgadas, o pedaço de madeira que deveria ter se agarrado para não morrer afogado que parecia ser alguma parte de um navio ou barco, tinham todos esses fatos alguma ligação com o rugido feroz que o assustou tanto, ao ponto de inconscientemente se levantar as pressas. Algo dizia que a correlação desses fatos estava correta, porem não sabia que tipo de criatura poderia ser dona daquele rugido, e que tipo de mal teria feito que ficasse tão marcante na sua frágil memória fragmentada.
Mais uma vez ouviu o rugido, e tinha certeza agora que o reconhecia, e que sua teoria poderia estar certa. Uma forte dor de cabeça o atingiu nesse momento, mesmo se sentindo fraco, começou a correr para a sua direita mesmo que cambaleando, com as mãos segurando sua cabeça, como que tentativa de tirar essas dores manualmente. Tentava se lembrar do que realmente havia se passado, mas a cada flash de memória que vinha a sua mente, tinha mais medo e mais duvida de se realmente gostaria de lembrar o que houve. Nesses flashes via o convés de um navio balançando para todos os lados por fortes ventos e ondas, homens gritando e correndo para todos os lados com longas lanças com ponta forma de anzol nas mãos, e uma grande sombra na escuridão da noite chuvosa, com o formato de um grosso pescoço de serpente que surgia subitamente, com mandíbulas escancaradas a fim de rasgar toda a madeira do navio e carne humana que estivesse no caminho de seus dentes.
Decidiu então que já era hora de sair dali, fosse por medo de uma ferra marinha, fosse por fome e sede, ou por tudo isso junto, decidiu ir em direção a sua direita (ir para o sul no caso). Acompanhava o percurso de areia, mar e arvores, e o grande nevoeiro acompanhava agora em um silencio acusador, no lugar onde deveria pertencer ao horizonte. Andou durante alguns minutos, com desconfiança parou de andar quando não ouviu mais nenhum rugido. Com suspeita olhava para o nevoeiro, esperando ouvir ou ver algo, mas este se mostrou teimoso á suas desconfianças e permaneceu em silencio novamente. Agora caminhando a passos pesados, o corpo parecia ter o dobro do peso e sentia isso a cada passo descalço na areia, as roupas molhadas agora ao menos estavam começando a ficar mais secas, apesar de não haver nenhum problema com o calção de couro grosseiro marrom que vestia, sua camisa de mangas longas feita de linho estava aos trapos, com uma manga inteira faltando, expondo totalmente seu braço direito, embora também não estivesse ligando pra isso com o seu estomago implorando por comida e sua garganta por água doce.
Pensou em criar uma lança para pesca com algum galho de alguma arvore daquela floresta para tentar pegar alguns peixes, já que não tinha linha de pesca para fazer uma vara de pescar, foi em direção a um galho mais ou menos reto, considerado por ele bom para o serviço. Tentou fazer com as próprias mãos uma ponta afiada no galho, ou fazer com que a ponta se dividisse em outras pequenas pontas agudas, para facilitar a captura de peixes, o galho era firme e resistente, e também muito teimoso para com os seus dedos sem muita força. Ate que se deu conta que preso em seu calção, havia um cinto com uma bainha para punhais, mas o instrumento em si não estava lá, o que deixou muito decepcionado. Pensou então de achar alguma pedra que poderia usar para ao menos afiar a ponta do galho, mas a praia era lisa como um tapete esbranquiçado com somente as marcas da maré alta e pegadas de gaivotas e outras aves marinhas.
Agora também havia suas pegadas, formando uma fileira de pés humanos na areia. Com o galho em sua mão, caminhou por mais meia hora, ou uma hora inteira, ou mais ou menos isso. Quando se esta com fome, perdido e fraco, o tempo começa a se mexer na velocidade que bem lhe cabe. Caminhou por, sabe-se lá quanto tempo, ate que as arvores pareceram se abrir e revelarem ruínas de construções, ruínas de ruas de madeira, e pontes de embarcadouros que saiam de terra para mar adentro. Se deparou com uma espécie de cidade portuária, com dois tipos de embarcadouros, grandes e pequenos, uns ainda inteiros, outros em destroços. As ruínas das construções eram da mesma forma, grandes (ou se preferir de tamanho normal aos padrões humanos) e pequenas construídas de forma peculiar. As pequenas construções tinham sido pintadas de um azul-anil bem claro (daquelas que ainda restavam alguma mão de tinta não desbotada pelo tempo, ou por incêndios acontecidos para poder notar isso), e outras até se mesclavam com os dois tipos de construções, com portas (as que tinham) para pessoas grandes, e talvez para crianças, um tipo de porta dentro da outra, e com janelas da mesma forma construídas. Pelas as ervas daninhas em toda a parte no chão, matos irregulares saído das pedras usadas para marcar as ruas da cidade, arvores crescendo dentro de algumas casas e em alguns pontos das ruas, e milhares de trepadeiras subindo pelas paredes de outras construções, ele não soube dizer se a cidade invadira a floresta, ou a floresta invadira a cidade.
Tentou entrar nas construções, as que eram feitas para pessoas de seu mesmo tamanho, já nas outras pequenas, entrava com certa dificuldade, sempre se esquecendo do quanto que tinha de ficar com a cabeça baixa, levando a bater com frequência a cabeça nos batentes, às vezes nos apoios para velas enferrujados pelo o tempo e maresia, assim pensava que nem valia a pena continuar a explorar. Entrou em algumas das construções adequadas para seu tamanho que considerava normal, para explorar seus interiores, em algumas não ousava a entrar se não estivesse melhor armado do que com um pedaço de pau, devido a escuridão de alguns cômodos, outras não se atrevia a ficar por muito tempo, pois os andares superiores feitos de madeira e pedra ameaçavam desabar, ou porque as escadas se encontravam na mesma situação ou já se encontravam desabadas. Encontrou uma construção arruinada e grande, com um grande salão comum, com uma bancada de pedras e madeira a fim de formar um tipo de recepção, e ao lado escadas para os andares superiores, julgou ser ali uma hospedaria, e o mais curioso era ver algumas partes daquela construção eram adaptadas para pessoas de tamanhos reduzidos.
Se realmente era uma hospedaria, então devia haver uma cozinha, e na cozinha deveria haver qualquer coisa que lhe pudesse ajudar a dar forma a sua lança de pesca improvisada com madeira. De fato, achou um cômodo que parecia uma cozinha com suportes para panelas e talheres nos tetos, dutos saindo de um grande forno feito de pedra e tijolos, indo rudemente em direção ao teto para formar uma chaminé, uma mesa de madeira no centro da cozinha, logo abaixo do suporte de panelas, mas com partes queimadas e partida ao meio. Nas paredes aos lados, pelas manchas encontradas velhas e encardidas, devia ser onde carnes, legumes, frutas e verduras deviam ser cortadas, com gavetas de madeira que adentrava nas pedras. Abria a todas as gavetas procurando uma faca ou algo do tipo, se decepcionou da mesma forma que se decepcionou com a bainha para punhal do seu sinto.
Achou uma porta que levava para um andar no subsolo, para uma adega, com as prateleiras para garrafas vazias e com teias de aranhas agora a dominar o lugar das garrafas, isso era o que via com a pouca luz que entrava pela porta que abriu no cômodo semissubterrâneo. Estava muito escuro, mas a luz que entrava da porta que abrira refletira no centro da adega, percebeu então que parecia que a luz estava sendo refletida por algum objeto de metal. Uma faca, uma faca feita para cortar grossos pedaços de carne, que jazia ali no chão porque tinha penetrado na barriga de alguém, um alguém que agora só restava os ossos.
Era uma faca bem grande, não estava muito afiada devido o tempo que ficou enterrada, primeiramente na carne daquela pessoa e pelo o tempo sem ter sido amolada, mas com a lamina grande, e que serviria ao propósito de deixar uma ponta aguda na lança de pesca improvisada. Foi para fora do prédio suspeito à hospedaria, saiu pelas ruas cheias de mato e ervas daninhas, e foi em direção da aos cais, em direção as areais entre os grandes e pequenos embarcadores do cais, preparando a ponta do pedaço de pau para ficar afiado com a ajuda da faca mal amolada. Pensava que no meio dos embarcadouros envelhecidos e destroçados, não acharia nenhum bom peixe para pescar, mas estava enganado, pois os grandes pedaços de madeira dos embarcadouros, tanto os ainda firmes quando os destruídos formavam uma espécie de pequeno recife de corais cheios de vida, tanto que quando saiu da água com três peixes de dez centímetros furados pelo pedaço de pau agora com ponta afiada.
Adentrando novamente nas ruas da cidade portuária abandonada, chegou a uma rua bem larga que dava para uma espécie de pátio, com uma grande fonte, nesta, uma grande estatua em ruínas, assim não conseguiu identificar se era humano ou qualquer outra coisa. Porem na base daquela grande fonte seca estavam escritas runas, estranhas pois não conseguia entende-las, também não tinha certeza se saberia ler, se tinha aprendido em um momento de sua vida em que suas lembranças eram acessíveis. Já começava anoitecer quando fez uma fogueira para assar os peixes, usando pedaços de portas já destroçadas ou pedaços de gravetos das arvores que invadiam a cidade. Agora com um pouco da energia já restabelecida, resolveu deixar o ultimo peixe para antes do anoitecer completo, enrolando-o num pedaço rasgado da manga que restava de sua camisa de linho. Mas ainda estava com sede, e não parecia haver nenhum rio ou riacho por perto, e a fonte estava seca e poeirenta, ate perceber alguns coqueiros. Conseguiu usar a lança improvisada para incentivar a alguns cocos a caírem enquanto a maioria se mantinham persistentes, mas outros estavam tão longe no alto que mesmo com a lança de pau não alcançaria. No fim das contas conseguiu dois cocos, um bem pequeno e outro de tamanho generoso, mas em ambos encontrou dificuldades para quebrar suas cascas devido a certa falta de gume na faca que encontrou nas ossadas na adega.
Já as sobras de luz do sol iam se desvanecendo e voltou recolher alguns gravetos e mais madeira envelhecida de portas e janelas arruinadas para reacender a fogueira. Começou a cozinhar o próximo peixe, e depois de comer se deitou próximo da fogueira agarrando-se a faca das ossadas e sua lança de pau. Àquela hora o ocaso já caira por completo, e a meia floresta e meia cidade estava mais escura. Pensou que talvez devesse ter feito a fogueira dentro de uma das construções embora haver perigo tanto dentro e fora delas, pois afinal outras criaturas também poderiam ter usado as ruínas como abrigo, e não havia de saber se eram criaturas comedoras de peixes e cocos como ele, ou devoradora de carne de criaturas maiores que peixes.
Quando se deu por si estava sonhando novamente, sonhando com a mesma escuridão que sonhara antes de acordar de bruços na areia. Uma escuridão do nada, pura trevas, sem chão, sem noção de cima ou para baixo, direita ou esquerda, nada alem de seu próprio corpo dentro da escuridão flutuando. Tentou olhar para os lados, mas não havia diferença. A única coisa possível de se ver era seu próprio corpo, no meio do vazio escuro, ate de repente uma luz fraca em tom anil mostrou-se fraca, oscilante e distante. Quando essa fraca iluminação surgiu conseguiu colocar os pés no chão, ou em algo solido que ele estava se referindo á ser um chão, mesmo não se destacando do resto daquele cenário. Ao menos estava em pé.
Deu alguns passos em direção àquela luz distante logo acima, ate que ouviu risos. Esses risos eram muito familiares, trouxe boas sensações a principio, aquela voz tão suave e segura, que só poderia vir de uma mulher decidida, forte e segura, mas ao mesmo tempo cheia de charme e doçura. Tal voz veio estranhamente á acalma-lo, mas depois que os risos se tornaram soluços de choro, uma forte e terrível dor o atingiu, primeiramente no peito, mas depois tomou o seu corpo inteiro, fazendo parecer que pesava mais de toneladas e sufocando seus pulmões.
A fraca luz agora começava a desaparecer, e a escuridão que julgara ser solida para ser o seu chão estava agora começando a deixar seu corpo afundar lentamente. Outras luzes surgiam em pares, essas eram pequenas e moviam-se em sua direção, por todos os lados esses pares surgiam, luzes pequenas de um branco cinzento bem tênue, que deixavam rastros bem finos de luz ainda menores conforme se moviam.
- Sombras vivas, essas luzes fracas... São olhos! — ele percebeu, então enquanto mais afundava e como se não fosse possível, ainda mais sombras começavam a rodea-lo, sombras em forma quase humanoides ou animalescas como seres quadrúpedes e seres alados vindos por cima de sua cabeça. Quando quase todo o seu corpo estava emerso em escuridão, a ponto de somente sobrar a sua mão para fora daquela confusão de sombras, apontando para cima e para o nada ao mesmo tempo, gritou com todas as suas forças e acordou.
Ao invés de estar rodeado por seres sombrios, estava rodeado por quatro criaturas humanoides do tamanho de crianças com orelhas bem pontudas, uns seres roliços e outros esguios. Duas com pequenas lanças e duas com pequenas espadas apontadas contra seu corpo, um do par de lanças também tinha uma aljava com pequenas flechas pendendo da cintura e também um arco preso ao ombro, outro do par das espadas também tinha uma aljava com pequenas flechas na cintura e um arco no mesmo lugar. Suas peles eram da mesma cor dos pequenos edifícios em ruínas daquela cidade, usando roupas e toucas de ponta longa de cor esverdeada escura.
- É melhor não se mexer, ou aqueles gritos que estava dando serão seus últimos, e acabara igual ao sapo-ouriço que estávamos caçando! – disse um desses pequenos homens. Ao menos eles não eram feitos de sombras e não estavam tentando engoli-lo como aquelas cosias do escuro. Ao menos não ainda.
Fale com o autor