Alvorada

10 Sussurros


Depois que Haru foi embora, Jasper colocou Elodie sob vigilância. Dobrou a guarda na porta dela e proibiu Ruby de entrar depois do pôr do sol.

Elodie não aguentou. Usou o truque mais clássico.

Ela amarrou lençol em lençol, prendeu no pé da cama e desceu pela sacada. O tecido queimava as mãos. Lá embaixo, o jardim dos fundos estava vazio.

Ela conhecia aquele caminho de olhos fechados. Foi se esgueirando pelas paredes, descalça para não fazer barulho, até o portão lateral. O portão que dava para a rua das criadas. O que ela usava desde os doze anos para fugir para treinar com o Ryus.

A mão já estava na maçaneta quando sentiu o metal frio no pescoço.

Elodie congelou. O coração foi para a garganta.

— Regra número três: nunca seja óbvia.

A voz de Ryus era séria e firme.

Ela não se virou.

— Você sempre foge por aqui — ele continuou. — Acharam que aumentando a guarda na porta principal iam te segurar. Ninguém se dá ao trabalho de vigiar esse lado por causa das visitas do Imperador. Foi fácil demais.

Elodie fechou os olhos, irritada consigo mesma.

— Regra número quatro: seja óbvia se quiser chamar a atenção do alvo desejado.

Ele esboçou um sorriso desafiador.

— Agora vai me enrolar — Ryus deu a volta e ficou na frente dela. Ainda com a espada erguida. — Não funciona comigo.

Elodie abaixou as mãos.

— Eu preciso voltar lá.

— No Carvalho? Elodie, se o Jasper descobre...

— Ele não vai descobrir se você não contar.

— Ele vai te matar.

— Ele precisa de mim viva para o casamento com o príncipe — ela rebateu, mas a voz falhou. — Ele não vai me matar. Mas vai matar minha mãe se eu não obedecer. Eu sei.

Ryus abaixou a espada finalmente.

— Então por que tá arriscando?

— Justamente por ela. Se eu não fizer isso, vai ser pior. Ele vai ter o exército de Aya. O apoio do rei. Ninguém segura ele depois.

Um par de guardas passou conversando no corredor lateral. Ryus puxou Elodie com força para trás de uma amoreira grande, colocou a mão sobre a boca dela.

Eles prenderam a respiração. A escuridão e as folhas os cobriam.

— ...juro que ouvi voz aqui — disse um dos guardas, parando a dois passos deles.

O outro riu.

— Voz de mulher? Aqui? Só se for os fantasmas das que o Imperador dispensa.

Eles foram embora rindo.

Ryus tirou a mão da boca dela devagar.

— É perigoso demais.

— Eu já deixei um cavalo do lado de fora do muro. Não vou levar a Aelia. Eu volto logo, tio. Eu juro.

Ryus olhou para ela. Para a menina que ele ensinou a segurar uma espada com 9 anos porque ela o ameaçou a não falar mais com ele. E ele sabia que ela podia ser a pessoa mais teimosa do mundo.

— Você não vai me dar escolha, não é?

— Você me ensinou a não morrer sem lutar.

Ryus guardou a espada.

— Uma hora. Se você não voltar em uma hora, eu vou atrás de você e te arrasto de volta. Entendeu?

Elodie sorriu, aliviada, e o abraçou rápido.

— Uma hora.

Ela escalou a amoreira. Os galhos grossos levavam para o outro lado do muro. Ryus ficou lá embaixo, olhando até ela sumir na rua escura. Depois voltou para dentro e foi esperar na biblioteca, de onde dava para ver o portão lateral.

O vento da madrugada cortava o rosto de Elodie enquanto ela cavalgava. A floresta de Jaspe ficava mais fechada a cada metro. Os cavalos comuns se recusavam a entrar depois de um certo ponto. O dela também parou, relinchando, com medo. A Aelia era a única que conseguia chegar perto.

— Tudo bem. Fica aqui — ela sussurrou e desceu.

Ela entrou a pé. Sozinha.

O carvalho ficava no coração. Era tão grande que precisava de dez homens para abraçar o tronco. A árvore parecia cheia de vida, como se alguém a cuidasse com muito esmero.

Elodie se aproximou com as pernas tremendo. Não era mais a aventura de criança.

— Oi... — a voz saiu pequena. — Sou eu de novo.

Nenhuma resposta. Só o piar de uma coruja.

Ela encostou a mão. A madeira estava gelada.

— Me ajuda, por favor. Eu não sei o que fazer. Eu não sei o que procurar exatamente. Ele vai... — a voz quebrou. — Você me deixou entrar uma vez. Você me contou a verdade! Por que me deixou chegar até aqui se não ia me ajudar?

Silêncio.

Elodie sentiu a raiva subir, misturada com o desespero. Deu um soco fraco no tronco.

— Me responde!

Nada.

Ela desabou de joelhos. A exaustão das últimas noites, a dor no peito que não passava, o medo da mãe. Tudo veio de uma vez. Ela encostou a testa na casca fria e chorou. Sem fazer barulho. Uma lágrima grossa escorreu pelo rosto e caiu na terra batida na raiz da árvore.

E então...

Thum.

Ela levantou a cabeça na hora.

Thum. Thum.

Não era o coração dela. Vinha de dentro da madeira. Devagar, forte, pulsando sob a palma da mão dela.

Uma brisa morna, impossível naquela madrugada fria, soprou ao redor dela, levantando seus cabelos. Não trazia cheiro de folha podre. Trazia cheiro de terra molhada.

E com a brisa, o sussurro. Mais claro do que nunca, como se falasse dentro da cabeça dela.

“Elodie... procure entre as filhas Whritemore. Elas são o seu sangue. Confie nelas.”

O pulsar parou de repente. A brisa sumiu.

Elodie ficou ali, de testa colada no carvalho, ofegante.

— As filhas... — ela repetiu.

Um galho quebrou perto. Passos.

Ela se levantou num pulo, olhou ao redor assustada e correu de volta para o cavalo, repetindo a frase na cabeça para não esquecer.

...

Assim que voltou, ela conseguiu entrar sem ser vista. No dia seguinte, Ruby foi até o quarto da filha, aflita, pois Ryus já lhe contara sobre a aventura noturna da filha.

— Me deixem entrar — disse ela aos dois guardas que estavam na porta do quarto.

— A senhorita Whritemore ainda não tomou o seu desjejum.

Ruby ficou um pouco irritada, mas permaneceu firme.

— Pois eu irei levá-la para tomar café comigo.

— Isso não será permitido, Imperatriz. O imperador deu ordens...

— Ela é minha filha!

— E por mais que eu não goste, ela também é a minha filha — disse Jasper se aproximando da porta. — Olha que coisa. Sempre tem algo que não gostamos no nosso caminho.

Ruby olhou para Jasper com a raiva lhe tomando. Uma serviçal chegou com uma bandeja com o café da manhã de Elodie.

— Aqui está. Não posso deixar a futura rainha de Aya morrer de fome antes do casamento.

O sorriso sádico de Jasper acertou Ruby de uma forma grotesca. Ela se aproximou de Jasper olhando bem nos olhos.

— A nossa filha...

— Sua filha...

— UMA WHRITEMORE! Não se esqueça que essa maldita maldição vem da sua linhagem, não da minha.

— Mas foi você quem gerou uma menina, Ruby — a voz de Jasper era como se ele estivesse apenas dizendo algo óbvio. — Eu te alertei das consequências.

Ruby cerrou os punhos contendo sua raiva.

Jasper suspirou pesado como se Ruby não conseguisse compreender algo muito simples.

— Hoje eu estou de bom humor, então vou deixar que tomem café da manhã juntas.

A dama entregou a bandeja para Ruby, que considerava um absurdo as ações de Jasper.

Os guardas abriram as portas e Ruby entrou, indo até a cama onde Elodie estava sentada.

A porta atrás de si se fechou e ela escutou a tranca.

— Ele não pode te tratar assim — disse Ruby com lágrimas nos olhos.

— Mamãe...

Elodie se levantou, pegou a bandeja e a pôs sobre a mesinha ao lado, em seguida abraçou a mãe puxando-a para se sentar na cama.

— Elodie, não era isso que eu queria pra você...

Elodie sorriu e enxugou o rosto de Ruby.

— Está tudo bem, mamãe. A senhora não tem culpa.

Havia tristeza nos olhos de Ruby.

— De qualquer forma isso acaba em alguns dias, não é?

Elodie segurou as mãos trêmulas de Ruby.

— De um jeito ou de outro, acaba sim.

Ruby passou a mão no rosto delicado da filha.

— Eu soube que se arriscou indo até a floresta de novo. Filha, você não deveria se pôr em perigo assim.

— O tio não tinha nada que ter te contado... — Elodie sorriu confiante. — Eu consegui outra pista.

Ruby ficou surpresa.

— Outra? E o que é?

— É... eu não sei...

— Elodie.

— “Confie nas filhas Whritemore, procure entre elas.” Mais ou menos isso.

Ruby gelou.

— Procurar entre as filhas... mas elas estão mortas.

Elodie franziu a testa pensando.

— Pois é. Eu fiquei a noite toda pensando sobre isso. Acho que alguma delas descobriu alguma coisa. Pode ter deixado um diário, uma carta. Alguma coisa. O carvalho não falaria à toa.

— Filha, isso não faz sentido nenhum — disse Ruby preocupada.

Elodie suavizou sua expressão e esboçou um sorriso.

— E o que faz sentido nessa família, mãe?