Alvorada
5 O Inesperado
Haru se aproximou de Jasper, que forçou um sorriso simpático diante do homem imponente à sua frente.
— Imperador, me parece que sua filha não está muito ansiosa para me conhecer.
— Imagina, Vossa Alteza. Ryus foi buscá-la agora mesmo.
Haru sorriu, dando um gole em seu vinho. Percebia o nervosismo de Jasper. Para o azar do imperador de Jaspe, Haru era observador e paciente quando se tratava de jogos políticos.
O príncipe voltou para perto de Jun, seu conselheiro e guarda pessoal.
— Então, o imperador está entrando em desespero? — perguntou Jun, discreto.
— Não tenho certeza se Elodie vai aparecer. Se aparecer, pode causar uma comoção.
— Você ainda acha que ela está sendo forçada a se casar por algum motivo oculto?
Haru suspirou, olhando para Jasper, que já não conseguia mais esconder sua impaciência.
— Passei a noite toda ouvindo que Elodie é linda, gentil, doce e obediente — a voz de Haru era baixa, mas o olhar era de insatisfação.
— Parece mais que estão tentando te vender uma terra. — disse Jun.
Haru bufou uma risada curta.
— Das duas, uma: o império quer se livrar de um problema ou está desesperado para firmar uma aliança mais sólida com Aya.
...
Ryus bateu na porta de Elodie, um pouco impaciente. Ouviu um “entra” de Ruby e abriu.
Ao ver Elodie, perdeu o fôlego. A jovem estava de pé, diante dele, tão linda como jamais estivera.
Elodie não participava dos bailes promovidos no palácio. Seus aniversários eram proibidos de ser comemorados, mas, apesar disso, a cozinheira sempre lhe fazia um pequeno bolo de chocolate com avelãs, que ela amava.
Ryus se aproxima, ainda deslumbrado, e sorriu. Elodie retribui.
— Podemos ir, tio?
— Você está linda, Elodie.
— Bom, então acho que isso já é meio caminho andado para conquistar o príncipe herdeiro.
Ryus riu, mas logo o sorriso se apagou. Olhou para Ruby, que também estava linda em seu vestido rosa.
— O imperador ameaçou a senhora, Ruby, caso você não se comporte, Elodie.
Isso não as surpreendeu.
Elodie se aproxima de Ryus, notando sua preocupação.
— Tio, vai dar tudo certo.
Ryus a olha com a ternura de um pai.
— Jasper tem sorte de ter uma filha como você. Só não enxerga isso. Não sei se é de alguma valia para você, Elodie, mas eu tenho orgulho de ter te visto crescer. Essa roupa diz exatamente quem você é: forte, destemida, teimosa, mas corajosa. Você tem um bom coração que herdou da sua mãe.
Elodie sorri, emocionada.
— Isso tem mais valor para mim do que os laços de sangue que tenho com o imperador.
Ryus estendeu a mão para Elodie, que se recompôs.
— Então vamos ao campo de batalha.
Isso arranca um sorriso divertido das duas.
Os três foram em direção ao salão. Chegando ao pé da escada, todos notaram a presença de Elodie.
Haru olhou sem muito interesse para a escada enquanto tomava seu vinho.
— Aí vem a noiva — disse Jun.
O murmúrio do salão morreu quando ela surgiu no alto da escadaria.
Haru caminhou devagar até o pé da escada, com Elodie entrando em seu campo de visão.
Não foi a tiara de rubis que prendeu o ar de Haru. Nem o vermelho e ouro do vestido de Jaspe, cortado para lembrar que, apesar dos vinte anos, aquele era um corpo de mulher — cintura marcada, curva de quem já não é de menina.
Foi o cabelo. Castanho, longo, descendo em ondas que pegavam a luz dos candelabros como se a noite tivesse sido fiada para ela. Foi a pele morena, quente, viva de um jeito que as damas de Aya, pálidas de pólvora, nunca seriam.
Por um segundo, só um segundo, Haru se encantou. Como qualquer homem se encantaria.
Bonita. A princesa reclusa era absurdamente bonita.
Então ela desceu um degrau.
E olhou para ele.
Os olhos não eram castanhos. Eram mel derretido com aço no fundo. Claros demais, afiados demais para um rosto de feições tão delicadas. A boca — Deus, a boca era uma sentença. Cheia, marcada, feita para dizer verdades que cortam ou calam reis.
E ela sorriu.
Não foi sorriso de noiva. Não foi sorriso de princesa treinada para agradar príncipe herdeiro.
Foi o arrepio de uma lâmina saindo da bainha.t
Um sorriso pequeno, sem dentes, sem convite. Um sorriso que atravessou o salão, atravessou o vinho na mão dele, atravessou o título de Vossa Alteza e disse, claro como uma ordem de comando:
“Você não me manipula.”
O copo na mão de Haru balançou um pouco.
Reclusa. Frágil. Mentiram.
Aquela não era uma menina para preencher posto num tratado. Era uma mulher que já tinha decidido quem vivia e quem morria no próprio jogo.
E, pela primeira vez desde que a esposa morreu, Haru Tetsuro, de Aya, sentiu algo perigoso no peito.
Não era desejo. Ainda não.
Era fascínio.
Era o aço reconhecendo outro aço.
Ele devolveu o copo à mesa sem beber. Porque, de repente, o vinho de Jaspe tinha gosto de guerra.
E ele queria estar na linha de frente dela.
Ryus notou o olhar de Haru sobre Elodie.
— Olha, acho que você realmente chamou a atenção do príncipe — sussurrou Ryus.
Elodie engoliu em seco.
Ela desceu o último degrau já pronta para odiar.
Tinha ensaiado a cena: olhar frio, resposta seca, deixar claro que era prisioneira, não noiva. Esperava um velho barrigudo com hálito de vinho. Ou um militar cruel com cara de quem chicoteia servo por esporte. Jasper escolheria um desses para humilhá-la.
Então ergueu os olhos.
E o mundo falhou por meio segundo.
Não era velho. Não era baixo. Não era carrasco.
Era luto em forma de homem.
Alto. Ombros largos sob o casaco preto bordado em ouro de Aya — ouro que gritava poder, não enfeite. O cabelo, longo, azul profundo como noite sem lua, preso para trás com uma mecha teimosa caindo na testa, como se nem ele seguisse protocolo. O rosto era esculpido para comandar exércitos: mandíbula marcada, sobrancelhas franzidas como quem vive em guerra, pele pálida de quem carrega reino nas costas.
Mas os olhos...
Os olhos não eram pretos. Eram castanho escuro, cor de terra molhada depois da tempestade. Fundos. Atentos. Gentis. Do tipo que já viu morte e escolheu não virar monstro.
E ele veio. Não esperou que ela chegasse até o trono. Não deixou que Jasper a entregasse como gado.
Haru Tetsuro subiu dois degraus que os separavam, luvas brancas impecáveis, e parou, ficando abaixo dela de propósito. Estendeu a mão. Não para pegar. Para oferecer.
— Princesa Elodie — a voz era baixa, firme, arranhada de quem já deu ordem em campo de batalha. Sem o teatro meloso dos nobres de Jaspe. — Sou Haru Tetsuro, de Aya. É uma honra.
O coração dela TRAIU. Bateu. Forte. Uma vez. Alto o suficiente para ela ter certeza de que Ryus, a dois passos, ouviu.
Não. Não, não, não.
Ela não podia gostar dele. Não podia amolecer. Não com Ruby de refém. Não com a maldição no pescoço. Não com uma missão a cumprir.
Então fez sua jogada: mentiu.
Pousou os dedos na luva branca dele, fria como mármore, e curvou os lábios no mesmo sorriso-lâmina de antes.
— Vossa Alteza — disse, e a voz não tremeu. Por fora. — Jaspe lhe dá as boas-vindas.
Mas por dentro? Por dentro ela gritou.
Porque mesmo através da luva, a mão dele era firme. Segura. Não apertou. Só amparou, como se soubesse que princesas também sangram.
E quando ele a conduziu salão adentro, com aquele rubi no peito dele espelhando os rubis na tiara dela, Elodie entendeu o verdadeiro perigo:
Jasper mandou um marido.
Aya mandou um rei de luto.
E o destino mandou a única pessoa que podia quebrá-la por dentro sem nem tocar numa espada.
Nenhum dos dois era o que o outro esperava. Em absolutamente nada. O inesperado é isso. Nenhum dos dois estava preparado para esse encontro.
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