Alvo Potter e a Sala de Espelhos
25 Capítulo 25 — Passe de Plumpton
— CAPÍTULO VINTE E CINCO —
Passe de Plumpton
A MESA DA GRIFINÓRIA ERA uma mancha densa vermelha e dourada quando Alvo desceu para tomar café na manhã seguinte. Ao primeiro captar de sua imagem, os colegas de Casa aplaudiram e assoviaram. Rose e Wayne, que estavam junto, deram uma palmadinha estimulante, enquanto Alvo retribuiu com uma espécie de careta e um aceno com a cabeça.
— Anime-se, Al — disse Victoire, atirando uma echarpe por cima dos ombros. — Sei que vai ser genial... ou pelo menos melhor que o Dencourt.
— Duvido que serei melhor que você — murmurou Alvo, apoiando a bochecha na mão.
Glascott se aproximou de Alvo junto dos outros jogadores, como se ele merecesse alguma espécie de guarda de honra.
— Está tudo bem? — preocupou-se Glascott, direcionando a pergunta mais a Wayne e Rose que o próprio Alvo.
Não era uma novidade, àquela altura. Durante toda a semana Sean se empenhou ao máximo para que o menino estivesse em perfeitas condições para o jogo, utilizando táticas que Alvo julgou nem um pouco confortáveis, tais como dicas infindáveis sobre os jogadores da Lufa-Lufa e longas e monótonas conversas sobre táticas defensivas. Alvo fazia de tudo para evitá-lo, esquivando-se mais rápido que um pomo de ouro, todavia era sempre apanhado de surpresa pelo capitão.
— Está ótimo — disse Rose, tentando não transparecer nenhuma aflição.
— Excelente! — Sean bebeu seu chá de uma vez e estalou os lábios. — Bom, então nos vemos no vestiário, Alvo, não vá se atrasar, hein!
O time bateu em retirada e o garoto revirou os olhos para cima, onde se encontrava o céu espelhado no teto encantado do Salão Principal. Não havia nenhuma novidade, o sol continuava tentando penetrar impotentemente a massa chumbo formada pelas nuvens, o que, para Alvo, representou mais um mau agouro de que sua estreia seria um fiasco. Já era comum o garoto ter esses lapsos de confiança e insegurança. Por mais que suas sessões de treinos tenham sido quase impecáveis, as enxurradas de vaias e zombações dos rivais sempre colocavam sua auto-estima para baixo. Achou que não suportaria continuar em Hogwarts caso perdessem o jogo.
— Beba — Rose ofereceu-lhe um copo de suco de abóbora.
— Você tem de comer. — Wayne empurrou um tijela de cornflakes. — Prove.
— Obrigado — agradeceu-os e enfiou uma colherada do cereal na boca, mesmo sem muito apetite.
Lá pelas onze horas, os três amigos, assim como todo o resto da escola, começaram a descer em direção do estádio, todos usando rosetas e agitando estandartes. Rose e Wayne desejaram sorte a Alvo, que seguiu trilhando caminho ao vestiário, onde todos os jogadores estavam colocando o tradicional uniforme vermelho da Grifinória.
— As condições não são as melhores — avaliou Carl, espiando o céu nublado. — Está ventando bastante.
Matilda tocou a língua com o dedo indicador e ergueu-o.
— O vento está soprando para o leste, Carl, é só ficar ligado no jogo.
— Pelo menos não está chovendo — consolou Alaric, calçando as luvas de goleiro.
— Pessoal, venham, concentração — disse energicamente Sean, andando de lá para cá no vestiário. — Muito bem, chegou o grande dia. O dia que precisamos ser impecáveis em tudo. Temos um dos melhores times dos últimos tempos da Grifinória, ainda mais com o nosso novo apanhador.
Tiago despenteou os cabelos do irmão.
— Você vai conseguir — sussurrou para Alvo.
— Eu não sei... — falou Alvo, descorando.
— Se eu estou falando que vai, é porque vai — irritou-se Tiago. Ele encarou o irmão como se dissesse “Ou te deserdo”.
— Apliquem o que fizemos no treino e o jogo estará no papo, OK? — continuou Sean. — Vamos lá.
Os jogadores se posicionaram em um túnel sob as arquibancadas que rodeavam o campo, enquanto as vozes dos locutores faziam as estruturas vibrarem. Os jogadores da Lufa-Lufa se perfilaram ao lado dos da Grifinória, ambos esperando a apresentação. Em seguida, o Prof. Bagman desfilou por entre os jogadores com um caixote de madeira preso embaixo dos braços maciços. Alvo olhou mais de perto os jogadores da Lufa-Lufa: tinham três meninas e quatro meninos, sendo dois primeiranistas, Rufo Hopkins e Drika Owin. Contudo, o verdadeiro concorrente de Alvo era um garoto que ele via frequentemente na revista d’A Garota dos Segredos. Sempre representado como um dos melhores apanhadores da escola, alto, forte, queixo quadrado: Dave Dagworth.
— Boa sorte, Potter — desejou Dave, com um quê de ironia que Alvo reconheceu ser tão peculiar quanto o de Tiago — Vai precisar.
Alvo fingiu não ouvir, embora o seu coração causasse um frêmito terrível no peito.
“Vamos receber o time dos lufanos”, ecoou a voz de Roxanne. “Lessing, a goleira, Hopkins e Flemming os batedores, Owin, Peasgood e Singleton os artilheiros e... Dagworth, o apanhador!”
Um a um, os jogadores da Lufa-Lufa entraram em campo sob uma onda incrível de aplausos. Era de se imaginar que os alunos da Sonserina e Corvinal tomassem partido contra os grifinórios.
“E agora, uma salva de palmas para o time da Grifinória!”, exclamou Fred. “Daggerfall! Brunner! Potter! Glascott! Aingremont! Mumps!”
Foi-se o último rastro de Matilda e Alvo ficou sozinho no túnel. Ele sentiu uma certa expectativa na voz de Fred em anunciar o seu nome. Respirou fundo pela última vez.
“E o mais novo e talentoso apanhador... Potter!”
Alvo imergiu campo adentro, ovacionado pela torcida de sua Casa e recebendo uma disparada de ofensa dos sonserinos. O Prof. Bagman estava posicionado no centro do campo, trajado do uniforme da Seleção Inglesa, sua barriga, como de praxe, para fora dos limites do tecido. Ele aguardava as duas equipes para abrir o caixote.
— Vamos lá, capitães, se cumprimentem — disse o professor. Sean e Peasgood, um garoto que Alvo via sempre nas reuniões do Clube de Poções, apertaram as mãos com uma certa tensão e voltaram às suas posições. — Montem em suas vassouras, por favor. Quando eu apitar... três... dois... um...
Soou o apito e Alvo não perdeu tempo em exibir a potência da sua vassoura. Antes que qualquer um dos outros treze jogadores se lançassem ao ar, ele já estava no alto, percorrendo o campo de olho no pomo e em Dave, que ziguezagueava abaixo dele.
“E aí vem a Lufa-Lufa para sua primeira tentativa”, irradiou Fred. “Owin passa para Peasgood, escapa da marcação de Brunner, agora ele vai mergulhando em direção dos aros, vamos Alaric! E...”
ZUM!
Alvo, por um milésimo de segundo, conseguira puxar o cabo da vassoura para o lado, evitando o balaço que passou lambendo a sua orelha esquerda. Ofegante com a guinada inesperada, ele olhou para baixo e viu que Dave ria dele. Ou melhor, todos da Lufa-Lufa estavam felizes, assim como boa parte do estádio, que comemorava o primeiro gol do jogo.
— Atenção, Alvo! — alertou Matilda. — Tente não ser alvejado!
O garoto assentiu e mudou de lado no campo, seguido de perto por Dave, que se mostrava um excelente piloto, cortando a sua frente a todo instante, de modo que Alvo tivesse de mudar de direção. Era difícil se concentrar na caça ao pomo, não só porque Peasgood marcara mais um gol, mas porque, em meio aos berros e vivas, Alvo ouvia inconfundivelmente a voz de Malfoy gritando contra ele:
— Ei, Potter, por que não chama sua tia para apitar o jogo? As chances de vocês vencerem seriam maiores!
Alvo fechou os olhos por um instante, tentando manter a mente longe das arquibancadas. A Grifinória tinha de vencer, não importava o que acontecesse. Era a única maneira de manter as chances de título vivas. O estômago do menino embrulhou com a perspectiva de ser o estudante a obliterar o sonho da Taça de Quadribol para a Grifinória.
Decorridos quinze minutos de jogo, a Lufa-Lufa perdeu um pouco do seu ritmo avassalador, ao passo que a Grifinória crescera de produção. Aos poucos, a partida deixara de ser modorrenta para um verdadeiro duelo emocionante, onde os goleiros começavam a brilhar com defesas verdadeiramente espetaculares.
“Glascott percorre o campo com a goles”, disse Roxanne pelo mega-fone. “Um bom passe para Brunner, evita muito bem o artilheiro Singleton, lançamento para Potter e... GOL DA GRIFINÓRIA!”
Agora quem fazia a festa era a torcida dos grifinórios, que agitaram um bandeirão que rugia de verdade. Alvo deu um soco no ar.
— Foi sorte — disse Dave, chocando-se intencionalmente contra o garoto.
Alvo olhou para os lados, buscando socorro, mas o Prof. Bagman estava de costas e o resto de seus companheiros ainda comemoravam o gol de Tiago. Com o sangue fervendo, Alvo começou a se afastar do bolo de jogadores, ligeiramente acovardado. Revidar não andiantaria nada, pensou. Não tinha corpo suficiente para enfrentar Dave, então ateu-se na procura ao pomo. Contudo, Dave estava no seu encalço, quase roçando as palhas das vassouras.
— Saia da marcação dele! — berrou Tiago. — Parecem um casal!
Alvo bem que tentou uma, duas, três vezes, mas Dave ficou na sua cola o tempo todo. O menino até imaginou ter visto um raio dourado passeando pelo campo, mas um novo petardo enviado pelos batedores lufanos o fizeram perde-lo de vista. Abaixo dele, Sean voava com a goles embaixo dos braços em direção das balizas, Tiago e Violeta logo atrás, os três na formação Hawkshead. Dave, que contemplava a partida tão próximo de Alvo, de repente, puxou o cabo da vassoura e saiu a toda para longe, causando um enorme alívio em Alvo — que em poucos instantes se tornou em pânico.
— Eu acho que Dagworth viu o pomo — lamentou Fred. Ele apertou os binóculos nos olhos. — É, senhores, decididamente aquilo é o pomo... e ele parece bem próximo...
Alvo, num grande lance de desespero, estugou atrás de Dave, favorecido pela velocidade colossal que a Turbo XXX lhe dava. Ele continuou se aproximando cada vez mais, o vento assoviando nas orelhas enquanro o estômago desabava com a visão de Dave a uma curta distância da bolinha. Alvo gritou para sua vassoura andar mais rápida, o que chamou a atenção do apanhador adversário. Dave olhou de soslaio por cima do ombro e tomou uma atitude totalmente inesperada: jogou o cotovelo contra Alvo, subindo um grito de raiva da torcida da Grifinória, acompanhada pelo silvo longo do apito do Prof. Bagman. Por muito pouco Alvo não caiu da vassoura, arrancando um suspiro coletivo.
“Penâlti a favor da Grifinória!”, exclamou Roxanne com ar de felicidade. “Dagworth deu um encontrão ilegal em Potter ao invés de capturar o pomo... Idiota...”
— Weasley! — advertiu o Prof. Flitwick, sobre um amontoado de barris.
Alvo finalmente tomou conta de si. Seu ombro ardia e latejava de dor. Ele pressionou o braço enquanto os companheiros vinham na sua direção.
— Está tudo OK, Alvo? — perguntou Sean com ar de pavor.
— Está... — gemeu Alvo, tentando mostrar força.
— Isto é inadmissível! — bradou Matilda Mumps. — Ele quis quebrar o Alvo!
Os jogadores da Lufa-Lufa, no entanto, nada reclamaram com o Prof. Bagman, mas sim com Dave, que deu as costas para o capitão Peasgood. Sean tomou a posse da goles para bater o pênalti e Alvo saiu de perto, estreitado os olhos em caça do pomo, que estava à solta por aí. Dave havia parado de segui-lo e voava com ferocidade pelo campo, driblando velozmente os jogadores, tentando a todo custo achar o pomo. Alvo, então, resolveu retrucar a sua tática: começou a seguir Dave de perto, emparelhado aonde quer que ele fosse.
Poucos instantes depois, a massa vermelha e ouro começou a vibrar de alegria e Alvo nem precisou olhar para trás para saber que a Grifinória tinha empatado a partida. Bastasse ele capturar o pomo e tudo estaria resolvido.
A estratagema do garoto ia dando certo, pois nenhum batedor ousava enviar um balaço na direção deles, temerosos de que poderiam acertar um de seus jogadores. Por isso, Alvo e Dave estavam quase em uma posição neutra em relação ao jogo.
— Acha que vai nos vencer desse jeito? — provocou Dave. — Ficando na minha sombra como fica na do seu pai, Potter?
Alvo abriu e fechou a boca na hora de responder, pois algo mais chamativo roubou-lhe a atenção. Ali estava, batendo suas asas perto da cabeça de Dave, o pomo de ouro. Ele precisava de alguma forma esticar o braço, apenas. Mas como fazer isso sem denunciar seu intento?
Todavia, antes mesmo que ele tentasse fazer algum movimento brusco, as duas torcidas começaram a gritar excitadas; não eufóricos como o do gol, mas em sinal de alerta para que os apanhadores começassem a disputa voraz pela posse do pomo. Dave, que tinha um sorriso desdenhoso emoldurado, desmanchou-o e girou os olhos para cima. Então o lance pareceu correr em câmera lenta. Os olhos de Dave se arregalaram de espanto enquanto Alvo mergulhava sobre ele. Irredutível, estendera os dedos e agora tinha todas as chances a seu favor. Alvo podia até sentir o farfalhar das asas quando passou pela bola, a mão aberta, mas sem nada nela...
Dave ergueu o punho ar, triunfante. A torcida lufana começou a urrar de felicidade, os estandartes começaram a tremular e os jogadores da Lufa-Lufa fizeram menção de que começariam a comemorar. Contudo, Dave parecia confuso e atordoado, o que repercutiu pelo campo. O apanhador abriu os dedos — não havia nenhum pomo ali. Fez-se um silêncio nas arquibancadas, seguidos de múrmurios.
Os jogadores começaram a olhar para os lados, à procura do pomo, inclusive Alvo. Seu braço tinha um estranho comichão incômodo, como se algo estivesse tentando escapar. Então, num súbito de inspiração lógica, o garoto percebeu a bolinha do tamanho de uma noz rolar diretamente para a palma de sua mão, de onde ele a prendeu como se sua vida dependesse disso.
“Afinal, Roxy, onde está o pomo?”, perguntou Fred, sua voz ecoando por todo os terrenos da escola.
Em resposta, Alvo levantou o pomo para o alto, berrando:
— PEGUEI! EU APANHEI O POMO DE OURO!
“Alvo apanhou, Fred, Potter captura o pomo e a GRIFINÓRIA VENCEU!”, exclamou Roxanne, atirando o mega-fone para cima e abraçando o irmão.
Alvo não soube explicar o que estava sentindo naquele momento. Pousou no solo, cercado de gritos de viva, um rugido de leão e todos os outros jogadores da Grifinória, que corriam para agarrá-lo de alguma forma.
“É incrível, senhoras e senhores!”, narrou Fred. “Uma captura assombrosa do jovem estreante, uma manobra simplesmente indescritível... Isso tem nome, Roxanne?”
E a mente de Alvo tratou de responder com uma ironia maior que a de Dave e Tiago juntos: Passe de Plumpton.
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