Altruísta
2 Conto II
Notas iniciais
Conto II — Dezesseis anos atrás.
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Como já foi dito por mim, não fora nem um pouco difícil descobrir o grande interesse de Sakura em Sasuke. Ela sempre o olhara com os seus olhos esverdeados de uma forma intensa, que chegava a ser complicado de se ver. E para ele, com toda a certeza, acolhedor. Pois veja bem, Sasuke nunca fora uma pessoa lotada de amigos, ainda que fosse bonito (não que algum dia eu sequer tenha admitido a verdade em voz alta) e inteligente. Tinha uma personalidade difícil de ser desvendada ao início, e um comportamento por as vezes desagradável, além de diversas vezes afastar as pessoas ao seu redor, remoendo as tragédias que sucederam em sua infância. Por esse motivo, era uma das únicas certezas que eu havia tido em toda a minha vida: Sasuke tinha o vazio da sua vida trágica preenchida pelo amor e zelo de Sakura. Desde o primeiro dia em que eles haviam se conhecido em minha casa.
O ápice da minha certeza fora ver o fatídico dia em que Haruno Sakura dera o seu maior e um tanto desastrado avanço ao seu relacionamento com o Uchiha, confessando os seus mais profundos e puros sentimentos. Por mais que eu, Uzumaki Naruto, seja uma pessoa petulante e bastante curioso, não fora a minha intenção (de forma alguma, sério) presenciar a declaração no momento mais (in)conveniente.
— Eu vou embora.
Não fiquei realmente impressionado com a constatação de Sasuke naquele dia, afinal de contas ele tinha mesmo que ajudar o seu irmão, que era o único parente vivo, a administrar a empresa que os seus falecidos país haviam deixado de herança.
— Quando? — a resposta de Sakura soara fria, coisa muito estranha.
Ela sempre fora uma pessoa intensa, que transborda seus sentimentos, seja de raiva ou felicidade, sem se preocupar com o que poderia acontecer. Mas nesse momento a sua resposta saíra realmente o oposto disso. Fora mais como se fosse o próprio Sasuke que tivesse dito.
— Depois de amanhã.
Os olhos de Sakura arregalaram-se naquele momento, e o seu rosto demonstrara um desespero vivo.
— Mas... Já?! Eu... — Sakura sempre fora uma menina inteligente, mas nesse momento parecia estar travada por algum motivo.
Provavelmente tentando e não conseguindo encontrar uma solução para o problema. Ela sabia da empresa nas mãos do irmão mais velho Uchiha e com certeza tinha em mente que isso aconteceria em algum momento, no entanto, ela não parecia ter calculado que fosse tão cedo assim.
— Eu vou morar muito longe. — o rosto de Sasuke, para uma pessoa que não o conhecia tanto, não conseguiria ver nenhum tipo de emoção.
Mas, para mim, que sou o melhor amigo dele desde que me dou por gente, sei que há vários sentimentos conflitantes dentro de si. Dor, medo, amor e um pouco de desespero. Talvez ainda houvesse mais sentimentos, todavia não estava em um local tão bom para ver a cena. Eles encontravam-se em um jardim feito pela cidade de Konoha, local onde haviam várias flores, árvores e um gramado com um cheiro vívido e atrativo até para quem não era um fanático por natureza como eu. Por sorte o local não era muito conhecido, o que fazia um ponto de encontro para nós três. Eu havia chamado ambos para fazermos alguma coisa diferente, já que finalmente terminamos o ensino médio. Por sorte, ou azar, tinha esquecido a minha carteira em casa, o que me fez voltar correndo para buscá-la. E quando voltei vi a cena que até hoje me machuca.
— Então eu vou com você. — era palpável a convicção de Sakura.
E isso me afetava. E também o afetava tanto quanto. Eu sabia disso. Só não tinha certeza de que a garota tinha esse conhecimento.
— Isso não tem nada a ver com você, mas com a minha família. — Sakura ouvira as palavras duras de Sasuke sem se abalar, ou sequer se mover de forma incômoda.
Ela ainda ficava o olhando com aqueles malditos olhos verdes. E isso o afetava muito, tirando um pouco de sua compostura fria e sem sentimentos. Sasuke parecia frágil, instável, com as suas pernas tremendo e os olhos tentando se desviar do olhar amoroso da garota.
— Você não tem que fazer isso por mim, Sakura.
Se tivesse uma coisa que eu não esperaria, seria uma risada de Sakura nesse momento. Quase soltei um palavrão de tanta surpresa. Sasuke não estava menos surpreso que eu.
— Acha mesmo que sou tão bondosa para fazer isso apenas pelos outros?! Isso é por mim também. Eu quero sua felicidade tanto quanto a minha. E sei que juntos conseguiremos isso. Ouse dizer o contrário. — mas nada fora negado por ele.
E como poderia? Era tudo verdade. Algumas pessoas poderiam confundir a sua certeza e ousadia como se ela se achasse ou algo assim, mas não era nada disso. Eu a conhecia. Sakura, no fundo, (agora eu tinha certeza) sabia que ele também a retribuía de forma tão intensa como seus próprios sentimentos. E ela finalmente havia se libertado de todas as suas inseguranças em relação a ele, eu tinha observado naquele momento. E isso era bom. Eu estava feliz, apesar de tudo.
O que poderia se melhor do que a felicidade do amor da sua vida e do seu irmão de alma?
— E então? — ela indaga.
— Não vou querer lidar com o seu pai quando ele descobrir isso.
Mais uma vez escuto a risada alta de Sakura.
— Ora, Sasuke-kun, logo você sendo tão covarde? — o seu tom de deboche havia pegado ele em cheio, já que franziu o cenho.
— Jamais. É só que você já é forte o suficiente para lidar com isso sozinha.
Eu gostaria muito de gozar com a cara dele ao ouvir isso, mas Sakura precisava de uma resposta assim. Ela precisava de um reconhecimento de que estava libertada de sua fraqueza quanto à sua confiança.
— Obrigada. — e, dito isso, ela colou seus lábios no dele.
E isso aqueceu meu coração. Tanto da forma boa quanto da pior possível.
***
Sasuke havia vindo na minha casa para se despedir, porque eu me recusei a vê-lo indo. Para ele, isso era apenas uma provocação final antes que ele se mude de fato, mas o motivo era outro. Seria doloroso ver que apenas eu seria deixado para trás pelas pessoas por quem mais me importo no mundo.
— Ei, Naruto. — era estranho ouvir Sasuke dizer meu nome sem nenhum tipo de apelido ou deboche no tom de voz.
E isso já me dava a certeza de qual assunto ele abordaria.
— O que você quer, seu maldito? Pensei que fosse embora. — tentei parecer o mais normal possível e, devido ao fato de que ele também estava um pouco nervoso, acabou não percebendo o meu emocional.
— O que... — ele hesitou um momento, parecendo estar em conflito. — Você acha da Sakura?
Eu sabia que não poderia dizer a verdade. Não mesmo. Precisava continuar com a minha atitude mentirosa e altruísta, pois uma mera brecha do meu real sentimento acabaria com o futuro dos dois. E por consequência com eles também.
— Você... — um gosto amargo tomou a minha boca, mas continuei da mesma forma. — É imbecil?! É melhor você cuidar bem dela e serem felizes a vida toda. Porque ela sempre foi e sempre será uma ótima amiga pra mim.
Por que mentir doía tanto? Por que parte de mim desejava que ele descobrisse a mentira?! Eu não podia ser assim, isso era egoísmo. Sakura nunca retribuiria meus sentinentos, tinha consciência disso. Mas no momento decisivo, fiquei em conflito com a minha decisão.
— Humpf, Usutatonkachi.
A resposta de Sasuke com um sorriso no canto pequeno, mas verdadeiro, demonstrou que eu tinha feito a coisa certa. Era necessário. Sempre foi melhor uma pessoa sofrer do que duas. Ou três.
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