Alto Mar Noturno
1 Alto Mar Noturno
OK. Imagine um navio (mercante) em alto mar, à noite. Imagine que você sobe até o topo dele, onde estão antenas e quejandos. Imagine que há um lugar onde você pode deitar-se. Imagine o quase silêncio, porque o mar canta suavemente ao bater no casco da embarcação -- no ritmo das ondas que quebra e produz. Imagine que não há lâmpadas. Imagine que, de repente, não há nada nem ninguém, além de você. Imagine que o negrume do mar se mistura ao negrume do céu. Imagine que você está no centro de tudo. Imagine a abóboda estrelada -- alucinantemente estrelada. Imagine que até para um poeta é impossível descrever a epifania. Imagine que, daí por diante, você nunca mais será a mesma: aquela faísca divina que existe na alma se ilumina -- "facho a arder na noite escura". Imagine que você nem de longe recupera a sua humanidade, mas é alçada, braços abertos, à condição de partícipe do universo. (Creia: passei por isso noite após noite nas duas viagens de navio que fiz com meu pai -- ele, primeiro, como Imediato; depois, como Comandante. Inescapavelmente, nunca mais pude ser "normal".)
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