Faíscas irradiavam por entre os muros do castelo de Hogwarts. Lampejos verdes, vermelhos, azuis e prateados escapavam da ponta da varinha de bruxos que nem sempre lutavam pela mesma causa. Os rostos a serem vistos tinham em seu semblante o desespero que a guerra trazia.

O luto.

A tristeza.

Cadáveres eram depositados nos cantos, provisoriamente. Uma aluna da lufa-lufa, que lutou bravamente, acabara de ser arrastada pelos braços desfalecidos, em direção a uma parede, onde seu corpo gélido descansou, por fim.

Draco Malfoy estava lá. Em meio aos lampejos coloridos deixavam por milímetros de raspar em sua capa. Sua expressão era de perfeita confusão.

Entre comensais da morte e alunos que defendiam Hogwarts, não sabia onde era seu lugar. De qualquer forma, sabia que não seria bem aceita em ambas as opções. Sentia em seu âmago o medo que se apoderava, e seus olhos prata, tão impecáveis quanto vidro, buscavam em desespero pela pele clara e os cabelos castanhos claros, os quais sentia a necessidade de se refugiar, ao menos esta vez.

Entre empurrões na multidão, caminhava contra o fluxo de alunos. Enxergou Lilá Brown desfalecida, o lobo Greyback ainda sobre seu corpo, e engoliu em seco o amargor que lhe torturava a garganta.

E se Hermione acabasse da mesma forma?

Os cabelos não mais tão ajustados se destacavam com a claridade em meio aos corredores escuros e tumultuados. Precisava encontrar Hermione Granger, nem que essa fosse a última coisa que fizesse em sua vida miserável.

Após muito caminhar, havia parado, recostando-se sobre a estátua de uma bruxa corcunda. Implorou a Merlin por qualquer sinal de vida da jovem, e como em resposta, Hermione apareceu correndo na direção paralela, em busca de algo que o loiro sabia ser sua pessoa.

Seria de grande hipocrisia, em meio a mortes e gritos abafados, aquele maldito sorriso lhe surgir nos lábios? Em todo caso, não estava mais no controle de seus atos, não com a grifina caminhando em sua direção, os olhos encharcados, o desespero exalando por todos seus poros.

Sorria como um idiota, sabendo que a partir daquele momento em que seus peitos se tocaram e seus braços envolveram as costas pequenas da castanha, aquele seria o último abraço que teriam.

Não estava feliz, ao menos achava algo engraçado. Estava resiliente, e havia aceitado sua perda, por mais que essa lhe doesse no fundo de seu próprio ser.

Deixou que as lágrimas de Hermione fossem depositadas sobre seu peito, molhando e tornando úmida sua camisa. Não devia reclamar, era a última vez que aquilo aconteceria, certamente. Permitiu-se sugar o aroma que os cabelos castanhos exalavam, misturados a um incômodo odor de fumaça, presenteado pelas cinzas que pousavam sobre os fios emaranhados como em sua infância.

Não haviam palavras a serem ditadas naquele momento, portanto quando Hermione afastou-se e entreabriu os lábios, esses foram preenchidos pela boca de Draco, gelada e trêmula de ansiedade.

Era irônica a forma como aquele último beijo parecia com o primeiro.

Lembre-se de tudo que queríamos

Agora, todas as lembranças estão assombradas

Nós fomos feitos para dizer adeus

Mesmo com o rosto erguido

Isso nunca teria funcionado do jeito certo

Nós nunca fomos feitos para fazer ou morrer

Naquele mesmo lugar, um ano atrás, o casal havia se esbarrado, e em meio à confusão de Draco devido suas missões para com Voldemort, não havia sequer pedido desculpas por ter derrubado os livros da castanha.

“Muito educado, Malfoy”

Havia sido essa pequena frase que mexeu com o orgulho do sonserino, que desistiu de caminhar em direção a sala precisa para consertar o armário sumidouro, para provocar a sabe-tudo, que a muito tempo não recebia tais chateações.

“Com certeza tive uma educação melhor que a sua, sujeitinha de sangue-ruim”

Esperava um soco, ou até mesmo um palavrão, mas o que veio lhe surpreendeu por completo. Naquele dia Hermione se pôs a chorar, insultando-o não com xingamentos, mas sim com palavras. Palavras estas que não passavam de verdades ditas em seu maior desespero.

“Você é um covarde, Draco Malfoy.”

“Por isso ninguém gosta de você.”

“Seu filhote de comensal.”

“Você nunca irá encontrar alguém que te ame, sua fuinha azeda.”

Era bobo, mas a vontade que sentiu de provar à Grifina que ela estava errada, lhe motivou a, pela primeira vez em sua vida, pedir perdão. Não foram longas palavras enxugadas de discursos de vitimismo. Foi apenas um pedido de desculpas, e era a vez de Hermione Granger parar boquiaberta enquanto o loiro seguia para sua missão.

As provocações haviam se tornados mais constantes, mas estas agora vinham carregadas de falsos pedidos de desculpas.

“A senhorita fedelha Granger acabou de deixar cair uma nota A em poções, peço desculpas por meu atrevimento.”

Não se demorou para que tais declarações irônicas deixassem de irritar Hermione, e sim fizessem um efeito positivo. Ela passara a rir, e outro gesto que o loiro não deixou passar despercebido, era o pequeno cachinho teimoso, que sempre era ajeitado para trás da orelha, coincidentemente nos momentos em que se cruzavam nos corredores.

Para sua surpresa, o rapaz também passou a ter seus dias cinzas coloridos pelo amendoado de Hermione. Não conseguia controlar o sorriso em seus lábios ao passar pela grifina rindo com os amigos nos corredores, tampouco tinha coragem de questioná-la quando a via sozinha, os olhos marejados e os passos rápidos.

Por sorte, havia adotado outra técnica para diverti-la nos dias chuvosos, onde grossos pingos de lágrimas eram derrubados pelos céus nublados, enquanto pequenas gotículas de chuva pingavam dos olhos da castanha.

“Com licença, senhorita fedelha, mas acredito que tenha deixado cair isso.”

E trazia copos de água, copos esse que brincava, dizendo que eram as lágrimas de Hermione, que haviam sido juntadas. Entre a umidade do choro e o desespero por perder seu grande amor, Ronald Weasley, ela ria fraco.

Entre seus encontros com os comensais da morte e sua missão de matar Dumbledore, provocar Hermione Granger havia se tornado, de longe, seu afazer preferido. Os dias em que não a encontrava eram considerados dias jogados ao lixo, e os dias em que tinha a sorte de lhe arrancar um pequeno sorriso eram prestigiados.

E as conversas se tornaram mais longas. Os pedidos de desculpas acompanhados de copos de água eram apenas uma desculpa para as conversas nos corredores em que ninguém circulava. Não possuíam muitos gostos em comum, exceto o extravagante prazer pela leitura europeia.

“Como assim você gosta de Shakespeare, Malfoy? E desde quando você admira escritores trouxas?

“Para uma bruxa tão inteligente, você deveria saber que Shakespeare foi um ótimo corvino, Granger.”

As conversas se transformaram em noites passadas em claro, conversando por cartas com uma coruja que parecia inevitavelmente entediada por ter que entregar cartas de janela para janela.

“Estou com sono, Draco Malfoy, por favor me deixe dormir! Tenho prova de runas antigas a prestar amanhã e não tive tempo o suficiente de estudar!”

“Me encontre no corredor da bruxa corcunda, fedelha, garanto que será a melhor aula de runas que terá em toda sua humilde vida.”

E no corredor da estátua da bruxa corcunda, ninguém estudou sobre runas. Riam alto ao comparar o professor com um troll de bigode e barba, e ao fim da noite, Draco teve a primeira oportunidade de, por fim, ajeitar aquele cacho tão teimoso quanto Hermione Granger.

E o beijo finalmente havia acontecido. A guerra prestes a começar, um sonserino e uma grifina. Um comensal e uma defensora da Ordem da Fênix.

Estavam fadados ao fim, antes mesmo que algo começasse, e ainda dessa forma tiveram teimosia o suficiente para insistir nos beijos às escondidas e os xingamentos disfarçados de elogios em meio à aula de poções.

E ali estavam. Beijavam-se como se fosse a primeira vez. A lembrança presente na mente de ambos, apesar de que grande parte de seus cérebros não ousasse se concentrar em nada mais do que aquele momento.

Se pudesse, Draco reviveria aquele momento todos os dias de sua vida.

Sabia que Hermione corria risco estando ao seu lado. Já havia sido tamanha sua irresponsabilidade, ao permanecer com a grifina mesmo sabendo o perigo que seu nome trazia.

Apesar de tudo, sua consciência permanece intacta. Fez o que pode para deixar a mulher em seus braços viva, e apesar das noites mal dormidas, gastas em discussões que sempre acabavam entre lágrimas salgadas e o gosto amargo na boca, fazia o possível para deixá-la feliz.

No fundo de si, sabia que não havia sido feito para isso. Foi criado para ser um monstro, e apesar de seus atos falhos, nada supriria a falta que Hermione sentia de alguém com quem pudesse contar.

Eu não queria que nos consumíssemos, eu

Eu não vim aqui para te machucar, agora eu não consigo parar

Eu quero que você saiba

Não importa

Onde nós tomamos esta estrada

Mas alguém tem que ir

E eu quero que você saiba

Você não poderia ter me amado melhor

Mas eu quero que você siga em frente

Então eu já fui

Hermione sentiu os dedos trêmulos do comensal sobre sua face, quente devido aos momentos que havia acabado de passar, lutando contra os mesmos que viviam ao lado do homem à sua frente. Fitou seus olhos, e percebeu que os vidros cinzentos haviam se liquidificado, substituídos por um mar chuvoso. Lágrimas escorriam dos orbes do sonserino, que havia até mesmo desistido de escondê-las por tanto tempo.

—Tão linda… —Sua voz saiu rouca e fraca, em um tom que poderia ser facilmente confundida com um pedido de desculpas não verbalizado.

Estavam lá. Castanho no cinza, misturados em uma perfeita sincronia.

Hermione estava corada. Seus olhos expulsavam lágrimas como nunca haviam feito, e o loiro permitia-se beijar cada centímetro do rosto rosado devido ao rubor.

Não existiram conversas premeditadas, muito menos planejamento para o que aconteceria. Apenas sabiam. Desde o momento em que a guerra havia começado, tinham plena consciência de que apenas prorrogaram o que sequer devia ter acontecido.

Eram opostos perfeitos. Hermione com sua inteligência, Draco com sua astúcia. Sabiam o quanto, em qualquer outra situação, a possibilidade de dar errado era nula. Mas naquele momento, no mundo em que viviam, e nas posições que possuíam, seria impossível.

Olhando para você torna isso mais difícil

Mas eu sei que você encontrará outro

Que nem sempre a faça querer chorar

Começou com o beijo perfeito, então

Podíamos sentir o veneno se instalar

A perfeição não pôde manter este amor vivo

Encostados um sobre o outro, permitiram-se chorar, por fim, todas as lágrimas que haviam sido deixadas para aquele momento. Os estampidos a distância chamavam suas atenções, implorando para que fizessem aquilo que haviam sido designado a fazer, mas seus corpos, estáticos, não se permitiam sair daquele lugar.

Os momentos que haviam passados juntos pareciam ser carregados pelo pó. As cartas durante a madrugada, os encontros as escondidas, os desabafos e conversas jogadas ao ar, esses não mais existiam.

Hermione precisava proteger sua escola.

Draco precisava proteger Hermione.

Saiba que te amo tanto

Eu te amo o suficiente para te deixar ir

Foi a vez de Hermione acariciar o rosto do loiro, a barba por fazer mostrando o desleixo ao qual havia se submetido. As palavras não ditas permaneciam nas sublinhas, e Draco deixava que seus sentimentos fossem expostos, ao menos em frente à única mulher a qual amou.

Respiraram fundo, como quem tomava coragem para fazer uma longa caminhada, e seus impulsos imploravam por apenas mais um abraço.

E o loiro a envolveu novamente, cobrindo tudo que conseguia com seu corpo, e tomando a mulher para si, ao menos o que seria nos próximos segundos. Hermione recostou sua face sobre o pescoço de Draco, inalando o forte cheiro de canela, café, cigarro.

—Já te falei para parar com esses vícios, Draco. —Resmungou contra sua camisa, e o peito do sonserino se moveu em um riso frio.

Eu quero que você saiba

Não importa

Onde nós tomamos esta estrada

Mas alguém tem que ir

E eu quero que você saiba

Você não poderia ter me amado melhor

Mas eu quero que você siga em frente

Então eu já fui

Os segundos se passaram rápido, e com eles os estampidos e gritos de desespero eram trazidos com ainda maior proximidade. Havia chegado a hora, e apesar de sua pouca vontade, Draco permitiu-se afastar. Depositou um beijo sobre a testa de Hermione, e em meio a tantas palavras não ditas, caminhou em direção ao que seria seu certeiro destino.

—Adeus, Draco.

No seu destino não havia Hermione Granger nem seu cheiro adocicado, as broncas por não ter feito a lição de casa direito...Não, aquilo era mais do que merecia. Seu futuro tampouco oferecia o luxo da mansão Malfoy, sendo essa tomada pelos homens de preto os quais nutriam o asco do loiro.

Seu futuro era estar só. Talvez em Azkaban, pagando por seus crimes contra os trouxas, talvez com uma boa carteira de cigarro e um litro de whisky barato, mas desejar Hermione Granger para seu destino era, de certo, querer demais.

Lembre-se de todas as coisas que queríamos
Agora, todas as lembranças estão assombradas
Sempre fomos feitos para dizer adeus

Notas finais
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