Apertei a mao de Daniel tao forte que, por mais que ele negue, seus olhos se encheram de lagrimas. Exceto isso, ele nao moveu um musculo. Minha mão estava suada e fria. Eu estava com medo.

Ele nao sabia que eu via aqueles vultos negros a nossa volta, mas logo percebeu que havia algo errado. Olhei em seus olhos violeta e os vi brilhar de curiosidade, conversávamos sem dizer uma palavras. E sei que em meus olhos ele viu o pavor que sentia e nao conseguia falar.

As unicas palavras que sairam da minha boca foram quase uma suplica, pedi que voltassemos para sua casa, ele foi compreensivo e aceitou sem fazer perguntas. Nos levantamos para ir embora, contudo eu tremia e ele percebeu.

–Qual o problema Luciana? — Ele apertou minha mão e eu senti vontade de chorar.

–Nada. — Minha voz saiu forte e segura, como se nada me amedrontasse, mas meu tremor me entregava, ele iria insistir nao importa o que eu dissesse.

–Luciana eu nao to brincando, O QUE FOI? — Seus olhos adquiriram um tom de violeta selvagem fazendo com que eu sentisse um impulso louco de agarra-lo, porém nao o fiz, me contentei e abraçar seu braço e soluçar.

–Me leve para sua casa Daniel... por favor. — Ele se apiedou e nao disse mais nada, me envolveu em seus braços e beijou minha testa.

Meu coração acelerou, nossos rostos estavam proximos, muito proximos, a boca de Daniel ficou entreaberta esperando por meus labios, meus batimentos cardiacos estavam tao altos que ele pode ouvi-los, sorriu e se aproximou mais um pouco.

Antes que nossas bocas se encontrassem, uma sombra se esgueirou por nossas pernas, embora nao soubesse o motivo, Daniel se arrepiou. Me afastei bruscamente, e baixei a cabeça, estava a ponto de chorar de novo, mais sombras se aproximaram e eu fiquei paralisada de medo.

Daniel me puxou para perto dele e me abraçou com tanta força que fiquei sem ar.

–Se nao quer me beijar, nao quer. Nao estou com raiva, eu entendo, so nao quero que voce se afaste de mim. — Nao era um aviso, nem uma confissao, era um pedido. De Daniel para mim, e era claro que eu iria cumpri-lo.

Eu queria gritar, dizer o motivo de ter me afastado. Mas eu nao podia. Ver vultos negros ao seu redor nao é um bom sinal no final das contas. Abracei-o com mais força.

–Quem é voce eu o que fez o arrogante, prepotente, bruto, mal educado, pervertido, sem vergonha, duas-caras... — As palavras sairam da minha boca por vontade propria, e Daniel nao pareceu satisfeito com os adjetivos que atribui a eles, no meio da minha fala disse:

–DA PRA RESUMIR STA. INUTIL? — Ele disse com um sorriso irritado no rosto, e um tom gentil.

–...Daniel Grigori que eu conheci. — Completei a frase.

Ele sorriu, me soltou do seu abraço mais que reconfortante e colocou as maos nos bolsos. Pegou seu casaco e os sapatos que estavam no trapiche e colocou sobre o ombro, ele seguiu o caminho de volta sem olhar para tras ate o final, quando chegou a beira do lado, se virou e me encarou.

Eu sabia que ele me esperava, peguei meu casaco e meus sapatos, minhas maos tremiam, as sombras ainda nao haviam nos deixado e eu temia que nunca fossem embora. Ainda assim, o olhar dele a minha espera me encheu de uma felicidade até entao desconhecida.

Quando cheguei ao lado dele, ele passou um braço pela minha cintura. Eu estava inquieta. Olhava para trás o tempo todo. Daniel parece ter percebido.

–Alguma coisa lá atrás? — Ele disse se virando tambem.

–N-Nada... — Eu gaguejei. Quis me matar por ter me entregue assim em uma unica frase. Mas Daniel foi compreensivo, mais do que eu esperava.

Ele segurou meu braço com a mão livre e nós paramos. Por um minuto inteiro ele nao disse nada, só me encarou no olhos. Entao, de repente, sorriu e balançou a cabeça de um jeito afetado.

–Vamos apostar corrida até a moto. — Ele disse vestindo o casaco e os sapatos.

–O que?! — Eu disse. Mas a verdade era que correr era a única coisa que passava na minha cabeça.

Daniel se levantou rápido e riscou uma linha no chão.

–No tres! Um... Dois... — Um vulto se esgueirou pela minha perna, ele era frio e gosmento. Me arrepiei.

–TRES! — Gritei o mais alto que pude correndo a toda velocidade.

Corremos ate o local onde Daniel havia estacionado a moto. Eu fugia dos vultos, Daniel me acompanhava sem saber o motivo. Subi na moto assim que a vi, sem nem ao menos calçar os sapatos.

Daniel abafou o riso e murmurou xingamentos para mim e para todas as pessoas em volta, so eu escutei e isso me fez rir com ele.

–Voce nao vai para casa mesmo? — Ele disse depois de me forçar a calçar os sapatos e subir na moto. Os vultos sobrevoavam nossa cabeça.

–Eu vou cumpri o que disse a mamae, nao vou ficar nem mais um segundo com aquele porco do Pete. — Disse isso enquanto envolvia meus braços em volta de sua cintura.

–Para onde voce vai? Voce nao tem muitos amigos eu percebi... — Ele deu a partida e seguimos para qualquer lugar, qualquer lugar longe da praia e das sombras.

Depois de alguns minutos pensando respondi a pergunta:

–Vou para um hotel... — Sei que havia pedido para ir para a casa dele, mas aquilo era so uma desculpa para nao deixar aquele abraço. Eu COM CERTEZA nao queria dormir lá. Daniel nao disse nada, so respirou fundo e acelerou a moto.

Perguntei varias vezes para onde iamos, e Daniel sempre respondia para um otimo hotel, por mais controverso que possa parecer, aquilo me acalmou muito, tudo por que eu sabia para onde estavamos indo, e nao era hotel nenhum.

Qaundo abri meus olhos e vi a casa, com hera na parede lateral e porta de mogno, suspirei.

–Daniel eu nao vou ficar na sua casa. — Falei observando aquela bela construção sem descer da moto.

–Então por que veio pra cá? — É, o bom Daniel havia ficado na praia. Sentado no trapiche.

–Eu nao tenho muitos amigos lembra? — Falei sem encará-lo. Os braços cruzados e o quadril encostado a moto.

–Somos amigos? — Ele disse virando-se para mim com um sorriso.

–Nao vou dormir aí dentro. — Esquivei da pergunta.

–Hm... Voce nao respondeu minha pergunta. — Ele disse sorridente.

–Nem voce a minha, estamos quites. Me leve a um hotel. — Eu disse séria.

–Nao. — Ele se aproximou e pegou meu braço. — Vamos, entre.

–Se nao quiser que eu quebre o seu braço dessa vez, deveria simplesmente me soltar. — Eu falei sem sair do lugar. Daniel me soltou e se encostou ao meu lado.

–Luciana... Por favor. — Ele disse com um sorrisinho. Eu continuei séria, encarando a porta.

–Nao. — Abaixei a cabeça. A unica imagem que passava pela minha mente era o olhar de desgosto de Aurora pousando sobre mim. — Já dormi em hotéis antes, posso fazer isso de novo.

–Luce. — A voz de Daniel saiu mais grave e meu corpo inteiro estremeceu ao som da sua pronuncia.

Nao era o nome. Era o modo como Daniel o pronunciava. Em menos de um milésimo de segundo, os vultos nos rodearam e eu prendi a respiração. Daniel se aproximou de mim e junto com ele, os vultos vieram junto.

Um deles se entrepôs entre nós. Era no formato de uma vassoura, mas fedia como a barba de Pete. Me afastei.

–Eu fico! — Eu disse rápido olhando para o outro lado. Daniel suspirou mais uma vez.

–Fica aonde? — Ele disse para me torturar. Talvez fosse o troco pelo que eu estava fazendo.

–Eu aceito dormir na sua casa. — Eu disse irritada.

–Dormir comigo. — Ele falou com o tom zombeteiro. Mesmo que eu nao o encarasse, já conseguia ver seu rosto contorcido em usa expressão sedutora e irritante.

–O que disse? — Falei me virando para ele. O lábio em um meio sorriso cheio de pecados.

–Voce aceita dormir comigo Luciana Nightfall? — Ele estendeu a mão e sorriu para mim.

–Que tipo de pergunta é ess. — Antes que eu pudesse terminar de falar ele puxou meu braço e o prendeu no meio da costa. — Ai!

–Voce é forte Luciana... Mas eu sou homem. — O sorriso dele se expandiu e dominou o rosto inteiro. — Agora... Eu sei que nao dói, eu vi voce derrubando o clube de box e karatê em menos de uma tarde.

–Vai te fuder.

–Qual a sua resposta? Luce... — Ele sussurrou em meu ouvido e os vultos se enroscaram na minha perna.

Por algum motivo lembrei dos meus pesadelos, em que vultos transformavam-se em buracos e eu caía em pura escuridão. O desespero de que aquilo se tornasse realidade me dominou.

–Eu aceito dormir com voce! — Eu falei fechando os olhos.

–Hm... — Daniel falou com um olhar confuso. — Achei que fosse ter mais briga...

–Briga? — Como um flecha, eu escapei da chave de braço de Daniel e lhe passei uma rasteira. — Como se voce fosse páreo pra mim. Levante-se e abra a porta pra mim agora!

–Merda!

Quando entramos na casa, Aurora nos recebeu com gritos. Nao eram iguais ao da minha mae. Os dela eram mais irritantes, talvez por que tivessem mais preocupação, mais amor.

Daniel explicou toda minha situação para ela, exceto a parte da praia, e a parte onde eu era assediada.

Ela compreendeu, pediu um pijama emprestado para a prima de Daniel que estava na casa. Ela tinha a minha idade, mas era um pouco menor, Aurora tambem mandou-me tomar um banho para tirar a areia do corpo (ela tambem gritou por termos ido à praia).

Apos tomar uma ducha revigorante, percebi que o pijama da prima de Daniel, Larissa, nao satisfazia meu estilo nem um pouco. Ele era curto e provocante, e sendo Larissa menor que eu, ele ficou incrivelmente justo.

Nao ficou desconfortavel, mas ficou vergonhoso. Saí do banheiro vestida, mas enrolada na toalha. Sentei no sofa e Daniel me olhou curioso, talvez se perguntasse por que eu estaria tao corada.

Eu nao corava facilmente. Só quando sentia uma vergonha monstruosa, ou quando estava com raiva. E nessa situação, eram os dois. Eu lembrava que era culpa de Pete estar naquela situação, logo em seguida, lembrava da situação em si e por fim, corava.

Larissa entrou no banheiro e saiu com um pijama ainda menor e mais justo que o meu, ela mecheu nos cabelos e percebi uma semelhança monstruosa entre ela e Gabi.

Depois foi a vez de Daniel. Quando ele saiu o banho usava somente uma calça de tecido grosso, sem blusa. Meu coração acelerou e a lembrança do nosso "quase-beijo" quase me deu uma leve palpitação. Logo em seguida veio a lembrança dos vultos e eu desviei o olhar para o outro lado.

Larissa estava sentada do meu lado conversando sobre uma banda pop que fazia um sucesso estrondoso (eu nunca havia ouvido falar, mas fingi interesse) quando Daniel saiu do banho e se sentou na poltrona ao nosso lado.

Em um piscar de olhos ela se levantou na mesma hora e se sentou no braço da poltrona jogando suas lindas pernas torneadas no colo de Daniel, ele a olhou com um olhar sedutor, e ela retribuiu. Quando se lembrou que eu estava na sala, Daniel baixou o olhos do rosto de Larissa e a atirou para o sofa. Nao trocamos uma palavra depois disso.

Na hora de dormir, Aurora me mandou para o quarto de hopedes, e eu fui sem pestanejar, Larissa iria dormir com as crianças e Daniel continuaria no quarto dele. Tudo estava bem arranjado.

O quarto de hospedes era grande e confortavel, como o resto da casa, exceto pelo fato de estar infestado de sombras para todos os lados, principalmente na frente do armario. Consegui abafar o grito, mas nao consegui me conter de fugir, corri ate o quarto de Daniel o mais rapido que pude.

Ele escovava os dentes quando entrei, ofegante com os olhos mareados, ele terminou o que estava fazendo e voltou sua atençao a mim.

–É serio Luciana, voce esta estranha desde da praia, o que aconteceu? Nem pensei em me esconder nada! — O mesmo tom selvagem de violeta nos olhos me fizeram abrir a boca. Eu ainda estava enrolada na toalha.

–Vultos! Por todo o lado! — Sentei na cama e escondi o rosto. — Eu estou ficando louca Daniel?

–Nao... Se estivesse louca, eu nao as teria visto tambem.

Notas finais
Capitulo longo mas... Aaah, caps longos sao os melhores!