Already Fallen

19 O diário de Lucinda.


Notas iniciais
Weep for yourself, my man, You'll never be what is in your heart Weep little lion man, You're not as brave as you were at the start Rate yourself and rake yourself, Take all the courage you have left Wasted on fixing all the problems that you made in your own head

Luciana sentiu uma pontada invadir seu peito depois de passar os olhos pela ultima carta. Ela sentiu vergonha por invadir daquela forma a privacidade de dois amantes tão apaixonados.

Ao mesmo tempo que sentiu como se as cartas fossem um pouco dela tambem. Os dois amantes provavelmente estavam mortos a essa altura e Luciana foi a pessoa que encontrou a prova do amor dos dois... Ela merecia aquelas cartas.

Devagar Lucinda tirou do meio do bolo a carta que ela mais gostou. Era um recorte. A carta da amante, e colada ao fim, a resposta do amante. Luciana suspirou e começou a ler.

"Caro Daniel,

O tempo passa pela minha janela e eu vejo minha pele amarelar como um velho papel... E antes que eu percebesse, minha mão apanhou a caneta e começou a escrever palavras que, para mim, não faziam o menor sentido.

Parece que nos perdemos no meio das memorias. Parece que eu me perdi no meio da sua luz...

Parece que foi ontem que eu lhe vi de cachecol vermelho em meio as arvores. Ou quando lhe vi no campus da faculdade... Sempre hipnotizada pelos teus olhos felinos.

Depois de tudo que passamos... Meu bem... Eu ainda te amo. Mesmo que voce nao vá se lembrar. Mesmo que eu ja começe a sucumbir ao passado, mesmo que em pouquíssimo tempo vire pó. Eu ainda te amo.

Talvez te ame mais do que no inicio. Com certeza te amo mais do que te amei no fim. E que belo fim nós tivemos.

Minhas mãos estão tremendo tanto Daniel... Eu estou com medo... Dessa vez, acontecerá de novo e eu nao terei voce ao meu lado... Estou sozinha, a escuridão cega meus olhos e eu estou sem voce.

Mas agradeço ao pai por me permitir escrever essa carta antes do inevitável fim.

Bem meu caro, eu morro. Morro deixando para trás, filhos que nao sao teus. Espero que faças o mesmo para que um dia, nós possamos nos reencontrar.

Sua eterna Julieta, Lucinda."

Luciana parou por um instante. O olhar dela perdido em meio as letras, aos poucos recobrava o foco. Seus olhos repousaram no fim. O nome Lucinda lhe era familiar. O estranho formigamento no peito surgiu. Mas ela prosseguiu para a resposta de Daniel. O Daniel de Lucinda.

"Meu anjo,

Como me dói descobrir essa carta e tal hora... Tanto tempo depois...

A dor me recebe como amiga e a morte voa sobre minha cabeça como um cortejo de abutres.

Como eu sinto. Como eu choro Lucinda. A quanto tempo voce soube? Onde eu estava? Como nao nos encontramos? Por que nao me procurastes?

Lucinda, eu te amo. Tanto quanto te amei no Tibet, no Hawai, no Egito. Nao posso me esquecer mais. Nao quero me esquecer mais. Nao quero recomeçar.

Nosso belo final foi corrompido e eu nao sei por quem. De qualquer forma, nem tempo, nem energia me restam para que possa resolver nosso passado. Ou futuro...

Por isso, nesses ultimos suspiros eu te escrevo esta carta... Espero que ela possa chegar em tuas mãos um dia... Espero que tu possa chegar em meus braços...

Deixo para trás alguns filhos que nao cresceram em teu ventre, na esperança de te reencontrar, da forma como me pediste.

Lucinda, perdão. São as únicas palavras que se passam pela minha cabeça... É o sentimento de fim. Perdão.

Eternamente seu Romeu, Daniel."

Ao final da folha, na despedida daquele Daniel, eu chorei. Chorei ao ponto de soluçar e me perguntar o que os impedira de ficar juntos?

A cada linha das cartas de Daniel e Lucinda, mais eu me apaixonava por eles e pelo seu amor. Mais eu queria chorar por eles.

Muita coisa nao era explicada nas cartas, mas uma coisa ficava clara, o amor deles era mais forte do que... O fim.

Ainda com os olhos mareados, analisei outras cartas de Lucinda. E em meio às velhas declarações de amor, uma coisa chamou minha atenção, senti cada átomo do meu corpo se mover de excitação.

Uma simples frase, uma pequena observação. Dada exclusivamente ao seu Daniel, mas que eu havia interceptado.

No canto de uma carta que com certeza havia sido escrita por códigos, havia uma frase que não fazia sentido. Eu passei o dedo pela letra de Lucinda e suspirei.

–“Em meio aos rabiscos, um anjo me sussurra na língua de Emanuel”...? – Repeti. – O que isso quer dizer Lucinda?

De repente, uma ideia surgiu e eu sorri. Peguei novamente as cartas. Nenhuma delas possuía data. Ainda assim, era possível distinguir quais eram mais antigas pela cor do papel.

O mais rápido que pude, peguei-as e as organizei em cima da cama. A procura de frases, ou pistas em meio à caligrafia impecável de Lucinda.

Em outra carta, um paragrafo me pareceu família.

–“A verdade é perigosa para nós. E a sinceridade, uma virtude que devemos evitar. Mas meu amor... Qual a vergonha em se dizer o que sente?”

Dei um passo para trás. Onde eu escutara aquilo?

Mexi em cada canto da memória, cada momento da minha vida. E então, lembrei.

–“Qual a vergonha em se dizer o que pensa?” – Falei como quem grita Heureka. – Daniel me disse isso no dia na enfermaria... Foi ele... De novo esse pervertido invade a minha vida.

Afastei o sentimento de medo e tensão no peito e mergulhei nas cartas até que, enfim, encontrei algo que poderia me ajudar.

–“Me sinto como um profeta rabiscando nas escrituras sagradas”. – Lucinda escreveu à Daniel enquanto afirmava o quanto ela lhe fazia mal. Suspirei.

–O que você quer dizer com essas palavras Lucinda? – Falei soltando todo o ar do peito. E então, algo me ocorreu. As cartas eram de Lucinda e estavam escondidas no diário, que estava escondido no armário, que estava na família a gerações...

O diário era dela... Seria Lucinda uma parente distante de Daniel? Qual era a ligação dela com a família Grigori...

Mais um suspiro. Afundei minha cara na almofada dele e inspirei profundamente. Mas nada mais de ocorreu e eu decidi assistir a televisão.

Por algumas horas, troquei de canal várias vezes e por um motivo desconhecido, parei no canal da igreja. Na televisão o padre pregava os ensinamentos da bíblia.

–Ainda que muito da bíblia tenha se perdido na tradução da língua original falada por jesus para as outras línguas. Muito dos ensinamentos foram deixado de fora das escrituras... – A foi então que me acendeu um sinal de alerta. Desliguei a tevê e corri de volta ao quarto de Daniel.

“Em meio aos rabiscos, um anjo me sussurra na língua de Emanuel.”

“Me sinto como um profeta rabiscando nas escrituras sagradas”.

No meio dos rabiscos... DESENHOS! A língua de Emanuel, a língua de Jesus! As escrituras sagradas. O Diário! A língua misteriosa usada por Lucinda é ARAMAICO!

Corri para o quarto com lágrimas de alegria nos olhos e tomei o diário nas mãos. Eu ri por alguns minutos. Sozinha no quarto. E então, abri os trabalhos.

A tradução foi praticamente impossível. Jogar palavras no google e esperar que um significado apareça não é, nem nunca foi, um meio eficiente de se alcançar um texto com algum significado. Mas consegui traduzir algumas frases.

Uma delas trouxe um pouco mais de sentido a um desenho que antes, nada mais parecia do que uma historia em quadrinhos bizarra.

A primeira imagem da historia era uma garota, parada em frente a uma mancha preta. Ela estendia a mão e a mancha tornava-se um circulo e em seguida um espelho.

Com várias setas e observações em volta do desenho. Todas escritas em aramaico.

A frase que me chamou atenção trazia em seu conteúdo a palavra sombra. E então, eu sabia o que viria a seguir.

No meio das palavras em aramaico, haviam palavras, e até frases inteiras em latim. Essas eu fui capaz de tirar mais sentido. Em uma das frases em latim eu traduzi como.

Como convocar e vislumbrar um anunciador — concentre-se no que voce deseja saber e o anunciador virá. Estique-o pelas pontas ate que seja capaz de ver o que há dentro. Nao ha o que temer.

Obs: Não procure o que não é preciso saber.

Observei o desenho com mais cuidado. E ao contrário dos outros desenhos encontrados no diário de Lucinda, esse não me lembrava em nada os traços de Daniel.

Eram desenhos rústicos de quem não sabe o que faz, mas ainda assim, “legíveis”. Eles não eram bonequinhos de palito, mas nada comparada a arte que o pervertido era capaz de reproduzir.

Eu tinha que tentar. Mas o medo me dominou e por um momento eu congelei. Já devia passar das doze e eu estava sozinha na casa. Respirei fundo.

Daniel mergulhou no meio daquelas sombras por você... Daniel foi corajoso... Voce não é medrosa. Voce acabou com um grupo de monstras em uma tarde... Voce pode...

E então, eu comecei a invocar a minha sombra. Ou melhor, o meu Anunciador.

Notas finais
Meeus amorreecos! Minhas aulas começaram e me tomaram os cabos do meu bebê. Só posso usar pc aos fins de semana... Esse é o motivo do meu atrasinho de dois dias. Hehehehe. Mas nao se preocupem, eu vou continuar postando, mas nao com a mesma assiduidade de antes. PS:Emanuel é um dos nomes atribuídos a Jesus Cristo, conforme as profecias messiânicas descritas pelo profeta Isaías na Bíblia, no Velho Testamento. Por isso a dica da Lucinda hehehe... Sou retardada.