Notas iniciais
Counting all different ideas drifting away Past and present, they don't matter Now the future's sorted out

Levei meu corpo cambaleante para a cama e me joguei entre as cobertas, eu ardia em febre. Em poucos minutos deitada, a almofada estava encharcada de suor e meus beiços batiam.

Peguei o telefone e disquei o único numero que me veio a mente, mas Anne nao atendeu. Fechei os olhos e senti, aos poucos, minha mente viajar para longe.

Num piscar de olhos, tudo ao meu redor mudou. Eu estava sentada em uma praia nebulosa e sinistra, ao meu lado direito, Daniel estava sentado com um uniforme de soldado.

Atrás de nós havia um carro velho, e eu sentia um leve cheiro de limo e sereno. A lua iluminavao rosto dele forma gentil, ressaltando cada qualidade. Ele era tao bonito... Senti uma vontade louca de beijá-lo, quando aproximei meu rosto do dele, ouvi uma tosse do meu lado esquerdo, me virei e lá estava sentada, eu mesma.

Tomei um susto ao ver meu reflexo me encarando e me afastei com todas as forças, mas Daniel continuou imóvel assistindo as ondas baterem nas pedras. A pessoa... O outro eu foi o único a se mecher. Ela riu.

–Oi? — Ela disse balançando-se em minhas calças jeans. Tremi e balbuciei palavras sem sentido. A expressao da coisa ficou triste e ela deu um passo para frente. — Nao precisa ficar ass...

Mas eu nao ouvi o resto, corri em direção a estrada o mais rápido que pude. Daniel que arranjasse um jeito de sair de perto dela.

A estrada era de cascalho avermelhado e estava muito escuro. Caí umas tres vezes e ralei o cotovelo. A dor nem me incomodou. Eu só me concentrei em fugir. Eu precisava encontrar alguem que pudesse me ajudar, que pudesse me dar resposta.

–Por favor... Por favor... Ajuda... — Tentei gritar, mas estava ofegante. Então eu ouvi som de vozes e pensei que estava salva. Corri ainda mais rápido, mas quando percebi, estava de novo a beira do mar.

A coisa estava encostada no carro, dessa vez, seu rosto nao era com o meu. Ela era identica a Lucinda. Parei tão bruscamente e que quase caí. Lagrimas atingiram meu rosto.

–O... que?!

–Calma! — A coisa disse. — Nao vou fazer mal. Eu sou Lucinda! A mesma do diário, a mesma dos anunciadores e das cartas de amor ok?

–Aaahn... — Eu disse ficando tonta e Lucinda se aproximou de mim devagar, da mesma forma que se faz com animais.

–Eu sou amiga! — Ela disse colocando a mão no peito e eu me encolhi. Lucinda colocou a mão espalmada na minha cabeça e sorriu. — Olhe pra mim agora ok?

Levantei meus olhos devagar e a encarei nos olhos. Olhos esverdeados. Bonitos.

–Nada de olhos azul gelo. — Ela disse. — Nada de perigo.

–Quem é voce?

–Voce sabe... — Ela disse. Eu levantei uma sobrancelha e ela riu. — Só ainda nao se permitiu lembrar. Mas eu estou aqui pra isso certo?

–Hm... — Eu gemi e me sentei. — O que está acontecendo... Luu...cinda....

–Hm... Tudo bem... Acho que... Hm... — Ela coçou o queixo e se virou para mim. — O que voce acha que está acontecendo?

–Eu... Nao... Sei...

–Tudo bem... Digamos que voce está... Em reabilitação! — Ela disse.

–Nao sei o que voce está fazendo aqui, mas voce é uma inútil! — Eu disse irritada e Lucinda sorriu.

–Voce fala como ele. — E ela olhou para Daniel. — Bem... Acho que podemos dizer que é tudo culpa dele...

Mas a voz dela nao era magoada, nem irritada, nem era como se ela o culpasse. A voz de Lucinda agradecia a Daniel e eu me perguntei se era do mesmo Daniel que falávamos. Como se lesse meus pensamentos, Lucinda se virou para mim.

–Antes de tudo, tudo isso está acontecendo na sua cabeça. — Os olhos dela nem piscaram e ela nao mecheu um musculo.

Apesar do susto, eu já desconfiava. Por isso dei um passo para trás e balancei a cabeça afirmativamente.

–Tá... — Eu disse. Lucinda se sentou ao lado de Daniel na areia e o observou com paixão.

–Luciana... O que voce acha que está acontecendo? — Ela disse e então, pareceu entrar na cena, da mesma forma que um personagem entra na tela de um filme. Ela e Daniel se beijaram e quando eles se separaram, Daniel parecia esperar por algo mais. Mas esse algo nao veio.

Eu pisquei e acordei em outro lugar. Uma casa. Acima da minha cabeça, anjos lutavam. Lucinda estava parada na cozinha.

–Certo... — Ela disse um pouco confusa. — Parece que avançamos na história... Mas isso é um detalhe irrelevante.

–Um o que?! Pessoas estão lutando! O que está acontecendo?! — Entao Lucinda colocou a mão sobre os meus olhos os mantendo velados.

–Luciana, isso é coisa que está na sua cabeça. — Ela disse. — Isso nao é real.

–Mas o que é isso? — Eu disse nervosa e confusa.

–Nao sei, voce tem que me dizer... — Ela disse rindo. Aos poucos o som da batalha sumiu e eu só ouvia a minha respiração e a de Lucinda. — Deixe me contar-lhe uma história... Ok?

–Hm... — Tudo bem.

"Era uma vez, duas estrelas amantes, uma chamada de aurora, a outra de ocaso. As estrelas eram as mais bonitas do céu, e as mais queridas por seu pai sol, contudo elas eram diferentes. A estrela Ocaso era pura e boa, ela só queria dedicar-se ao amor que sentia por sua irmã, já a estrela aurora era gananciosa, e queria tudo só para si, inclusive a estrela ocaso.

Certo dia, a estrela aurora montou um plano. O plano de derrubar o sol. Ocaso se opôs, tentou convencer o amante a deixar o plano para trás, mas Aurora nao ouviu. Ela simplesmente desejou mais e mais. E do seu desejo surgiu a escuridão.

A escuridão cresceu entre as duas estrelas e dominou Aurora, que pouco a pouco, se apagou. A estrela ocaso chorou tão alto, tao forte, que todas as estrelas ao redor a ouviram, contudo uma somente se apiedou e dela se aproximou.

Eles viraram amigos e se divertiam bastante, o riso deles foi tao alto e tao forte que o próprio sol a ouviu.

Ele descobriu do plano de aurora, descobriu da traição de ocaso, e decidiu então, castigá-los, atirando-os na terra, junto com todos as outras estrelas que simpatizasse aos dois. Aurora tentou lutar até o fim, tentou garantir o que era seu, mas Ocaso já nao mais o amava. E numa explosao de luz, eles cairam na terra."

Lucinda me encarou por um instante e eu fiquei confusa.

–É isso? — Falei cruzando os braços. A mão de Lucinda ainda repousava sobre os meus olhos e eu pude ouví-la suspirar.

–Luciana... — Ela disse rindo.

–Mas a história nao tem fim... — Eu disse inquieta.

–Isso é por que voce já sabe o final. Pense Luciana, pense na história.

–A estrela... Era eu?! — Eu disse.

–Sim...?

–E eu era um anjo. — Eu disse. — O sol é deus...

–Sim...?

Parei para refletir no que tinha ouvido, tentava encontrar a resposta, mas ela nao vinha... Até que uma musica começou a ressoar ao fundo do lugar onde estávamos.

–Por que... Daniel nao estava na história... — Eu disse. Algo me dizia que Daniel nao era uma das duas estrelas.

–Mas Daniel estava. — Lucinda disse rindo.

–Ele era... O amigo? — Eu disse duvidosa e a mão de Lucinda saiu dos meus olhos. — Eu os abri e uma luz muito forte invadiu meus olhos.

Eu nao via da forma que humanos veem. Eu sentia os espiritos fluirem, eu sentia o corpo pairar. O paraiso era maravilhoso.

Corri por entre as nuvens, que nao eram nuven propriamente ditas, nem o ar era exatamente ar. Tudo era nada, e tudo ao mesmo tempo.

–Lucinda?! — Falei baixinho, tentando nao estragar a harmonia. E entao, ao longe, ouvi um psiu.

Eu vi Lucinda, encolhida em um canto, chorando. Ela chorava pelo seu amante, o que se envolvera em escuridao. Aurora.

Então uma mão surgia e envolvia Lucinda por uma sensação violeta pura. Ela se apaixonava por Daniel naquele momento.

Eu vi os momentos passarem como em um filme, os passeios, as conversas, as brincadeiras. O amor surgia e crescia. Junto com ele, as dúvidas.

E então, o dia da queda. O dia que deus descobria do plano de Aurora, o dia em que ele despejava os anjos para terra.

Eu vi ao longe, como uma espectadora, vi o trono e a sua luz, vi os anjos se elevando assim que chamavam seus nomes. Um anjo lhes peguntava.

–Qual lado voce escolhe?

O anjo respondia.

–Trono! — E assim, permanecia no céu.

Então um outro se elevou.

–Eu... Eu nao sei...

–Entao voce deve cair. — O trono respondeu com uma voz magoada. Senti arrepios pela espinha. E uma dor no peito.

O anjo chamou o nome de Daniel. E o meu.

–Eu escolho o amor. — Daniel dizia segurando a minha mão com força. Como tremíamos. Mas, de certa forma, eu vi o rosto de Lucinda naquele momento e ela era firme.

Então eu acordei. Ainda deitada na minha cama. Eu ofegava. Tentei fechar os olhos para descobrir o que acontecia depois, mas nao consegui me lembrar.

Ainda assim, varias outras memorias indesejadas invadiam minha mente, memorias que eu nao sabia de onde vinham nem onde se encaixavam, memorias de momentos e lugares completamente aleatórios, com somente uma coisa em comum.

Daniel.

Notas finais
C-C-Cap duplo?!!?!?! HáHÁ! (retardada...)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.