Along The Way

24 Capítulo XXIII


Ocultados por um grande conjunto de rochas na encosta de um pequeno morro, os dois sujeitos tentavam passar despercebidos, agradecendo mentalmente à sorte de terem encontrado um ótimo esconderijo em tão pouco tempo. Quase haviam sido vistos por conta de um descuido imperdoável, e agora tinham de se desdobrar como podiam para encobrir seus rastros e se esconder ao menos até a manhã seguinte.

Passaram uma noite longa, fria e desconfortável apertados contra as pedras úmidas e cheias de insetos, tendo somente um ao outro como fonte de calor, o que bastou para tomarem uma decisão: era o momento de agir. Não podiam arriscar ser pegos, já haviam protelado demais desde o último ataque frustrado, e não teriam oportunidade melhor que aquela, uma vez que a guarda alheia estava mais alta que nunca, e não havia previsão de baixar em um futuro próximo.

Viram a oportunidade perfeita surgir antes do nascer do sol, quando tudo ainda estava um tanto escuro, frio e silencioso.

Ouviram passos sobre as secas folhas mortas no chão, não muito longe de onde estavam, e sabendo de antemão – graças a observações anteriores – a escala dos turnos de vigia, sabiam quem era que se aproximava. Saíram do meio das pedras e se esconderam rapidamente por detrás das árvores, de onde seria mais fácil atacar.

Assistiram em silêncio a figura da mulher ruiva andar cautelosamente, vigiando atentamente seu entorno até chegar em uma moita. Um dos homens mordeu os lábios ao vê-la soltando as amarras da calça de couro escuro, e quase verbalizou seu praguejar quando a ruiva deu um passo para o lado, saindo de seu campo de visão direto. Esperaram enquanto a garota se aliviava, sinalizando em silêncio um para o outro que direções tomariam e quando agir. Combinaram os movimentos e aguardaram o melhor momento para o ataque.

Natasha já estava voltando ao acampamento sentindo-se leve com a bexiga vazia quando notou o súbito movimento vindo por detrás de si. Girou rapidamente sobre os calcanhares, bem a tempo de interceptar o movimento inimigo, que com uma corda em mãos estava pronto para lhe enlaçar o pescoço. Segurou o pulso alheio com uma mão enquanto que com a outra o socava pouco abaixo das costelas, o ouvindo arfar surpreso em seguida. O homem moveu suas mãos ligeiro novamente, ainda tentando restringir seus movimentos.

Natasha percebeu ali que o ataque tinha como objetivo sua captura, não morte, uma vez que o homem não empunhava nada letal, somente sua corda, que incansavelmente tentava enrolar em si.

A princesa habilmente desviava das investidas do estranho, ao mesmo tempo em que lhe acertava golpes em pontos estratégicos a fim de o debilitar. Em um momento de distração devido a uma joelhada na virilha, Natasha viu a deixa que queria: segurou nas sobras da corda e girou, parando detrás do homem enquanto apertava a corda em seu pescoço, exatamente como ele havia tentado fazer em si. Chutando a perna do sujeito, a garota fez com que ele ajoelhasse, e curvando-se um pouco para ficar à altura de seu ouvido disse:

― Quem te mandou? ― Perguntou entredentes, apertando a corda no pescoço do homem, que somente soltou um ganido engasgado. ― Fala, desgraçado.

Com a guarda às suas costas baixa, Natasha não notou a aproximação do segundo homem, e quando finalmente percebeu já era tarde. Sentiu uma dor lancinante na cabeça pouco antes de sua visão ficar turva e ela cair desacordada no chão da floresta.

― Idiota, o que você fez?! ― Com dificuldade devido a dor no pescoço, o homem exclamou, olhando a garota desacordada. ― É bom que ela não esteja morta.

― De nada por salvar sua vida ― resmungou, largando a pedra que usara como arma e abaixando-se para encostar seus dedos no pescoço da princesa. ― Viva.

― É bom mesmo ― murmurou. ― Vamos amarrar ela logo, antes que os amigos acordem.

― Ou podemos ir lá e cortar a garganta de todos enquanto dormem ― sugeriu, passando a corda pelas pernas da garota.

― Você sabe que não temos permissão pra isso ― respondeu de má vontade, deixando claro o seu desagrado com o fato. ― Vamos terminar logo aqui e sair.

― Não sei por que toda essa cisma do capitão com aqueles dois ― tornou a resmungar enquanto apertava os nós. ― Ele não os quer mortos, de qualquer jeito?

― Pare de tagarelar e faça o serviço direito.

Com todos os membros firmemente presos pela corda, a dupla se apressou em carregar o corpo inconsciente da garota pela floresta, avançando tão rápido quanto podiam, correndo contra o tempo e torcendo para que ela não acordasse. No momento não podiam se dar ao luxo de encobrir os rastros devidamente, então fizeram o que podiam na pressa de fugir. Quando alcançaram o local onde deixaram os cavalos, não se demoraram em montar e seguir viagem.

~•~•~•~•~•~

Ao acordar naquela manhã, a primeira coisa que Peter notou foi a inusual movimentação no acampamento. Olhou ao redor, percebendo que Tony e Clint mantinham expressões duras em seus rostos, enquanto olhavam ao redor.

― O que houve? ― Perguntou o garoto, se levantando. ― Por que estão com essas caras?

― A princesa sumiu ― Stark respondeu, sem olhar para o outro. ― Levante e ajude a procurá-la.

Subitamente alerta e igualmente preocupado, Peter se pôs em pé, abandonando o pouco de sono que lhe restara. Notou que o dia mal acabara de raiar, e o orvalho da noite ainda mantinha as coisas úmidas.

― Não é possível que ela tenha saído apenas para se aliviar? ― Propôs o garoto, enquanto sacodia a sujeira de sua capa. ― Ela pode só ter ido longe demais.

― Ela não respondeu quando a chamamos ― falou Tony, com ar de seriedade. ― E não sairia do alcance da audição. Não sozinha.

― Aqui ― Barton exclamou, atraindo a atenção dos colegas. ― Há pegadas dela indo por aqui, me parecem recentes.

Apontando para o meio das árvores, por onde as marcas avançavam, o homem se pôs no caminho, ignorando se era seguido ou não. Notou os sinais de que não havia muito tempo que, definitivamente, a garota havia passado por ali. Mais adiante em seus rastros, Clint sentiu seu coração falhar um batida ao notar as inconfundíveis marcar de uma luta. Suando frio e temeroso até os ossos, ele se aproximou e abaixou-se para melhor analisar a situação.

A terra bastante pisoteada denunciava que dois pares de pés moveram-se fervorosamente por ali, assim como galhos quebrados e a vegetação perturbada no local.

― Aparentemente houve uma luta aqui ― Clint falou consigo mesmo. ― Claramente da Nat com alguém, provavelmente um homem, a julgar pelo tamanho da pegada.

― Dois homens ― Tony completou, fazendo o outro notar sua presença. ― Tem mais um par de pegadas vindo dali.

― Será que eles a mataram? ― O homem fez a pergunta que todos ali queriam saber, baixando seu olhar para as marcas no chão. ― E sumiram com seu corpo?

― Mas não há sangue.

Peter lembrou-se de que todas as suas experiências anteriores com duelos e afins resultaram em mais de um pessoa sangrando, e ali não vira sequer um respingo.

― O garoto tem razão ― pontuou Tony. ― O lugar está limpo, então há boas chances deles a terem levado viva.

― Será que foi o mesmo de antes? ― Disse Peter, hesitante. ― O mesmo que a atacou naquele dia?

Clint apertou os dentes e fechou o punho, desviando o olhar para baixo, sentindo a raiva começar a corroê-lo por dentro, forte e latente, tomando conta de seus pensamentos. Já havia pensado naquela possibilidade, e não estava contente com a perspectiva.

― E isso... ― começou, entredentes. ― Isso é culpa sua, Stark.

― Como pode ser culpa minha? ― Retrucou o homem, cansado das acusações do outro. ― Você estava dormindo tanto quanto eu.

― Naquele dia, eu disse para atacarmos! Mas você! Você não quis! ― Seu tom de voz elevara-se até beirar à gritos, dirigindo agora seu olhar colérico ao outro. ― Se tivéssemos pegado aquele único homem, nada disso teria acontecido!

― Quem garante? ― Alterou-se Tony. ― Está claro que havia dois homens, se detivéssemos um, certamente outro viria!

― Outro viria? ― Desdenhou. ― Outro só veio porque aquele teve tempo de avisar! Eu bem disse que ele não estava sozinho!

― Então por que em vez que ficar reclamando não foi atrás dele? Eu tentei, mas todos concordaram que seria perda de tempo o seguir!

― Olha, eu acho que... ― murmurou Peter, tentando intervir na discussão.

― Você que não foi rápido o suficiente!

― Certo! ― Gritou Tony, sem paciência. ― É tudo culpa minha! Eu sou o único viajando com a princesa por aqui!

― Agora ninguém mais está viajando com a princesa, a não ser o inimigo! ― Debochou, sentindo a raiva abrandar descontada nos gritos que trocavam. ― E nem quero saber que tipo de coisas podem estar fazendo com ela nesse momento!

― Então por que perde tempo culpando os outros quando podia estar se preparando para seguirmos o rastro antes que desapareça?

Clint nada disse, somente desviou o olhar novamente para o chão, sabendo que o Stark tinha razão, porém não daria o braço a torcer.

― Peter ― Tony se dirigiu ao garoto, com um tom de voz um tanto mais brando. ― Volte ao acampamento e prepare os cavalos. Se vir qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, não hesite em correr para cá.

― Sim, senhor Stark.

E o garoto se foi, mantendo a guarda alta, temeroso em ficar sozinho e acabar tendo o mesmo que fim que a amiga.

Em silêncio duro e carregado, os dois homens ficaram, observando as evidências e tentando entender o que acontecera ali.

― Ela foi carregada daqui ― Clint murmurou, a contragosto. ― Três pares de pegada, mas somente dois se afastam por ali.

― Provavelmente a desacordaram ou amarraram firme ― comentou Tony. ― Ela não se deixaria capturar tão facilmente. Vamos voltar ao acampamento, pegar os cavalos e seguir o rastro deles.

O par de homens retornou, mantendo o tenso silêncio, até onde Peter selava o segundo cavalo. Ajudaram-no então a terminar as tarefas, para em seguida saírem, somente com uma refeição rápida a forrar o estômago.

― Sequer fizeram questão de esconder os rastros ― comentou Tony, durante o caminho. ― Aparentemente estavam com pressa.

Os três seguiam devagar entre a floresta, atentos aos indícios da passagem de pessoas, os quais podiam facilmente se confundir com os de animais de grande porte, portanto redobrar a atenção nas pegadas no chão era essencial.

― Não levou muito tempo para esse segundo ataque ― continuou o Stark. ― Então é provável que o lugar para onde estejam levando a princesa não seja muito longe. Mas não temos certeza disso, portanto todo tempo nos é precioso.

― Me pergunto por que não nos mataram ― Peter falou, pensativo. ― Dessa vez tiveram uma oportunidade melhor, mas não o fizeram.

― Tenho certeza de que estamos caminhando direto para uma armadilha ― adicionou, Clint, que até então se mantinha calado. ― Mas não temos escolha.

― Se chegarmos ao reino sem a princesa, nossas cabeças serão as primeiras a rolar ― Tony disse. ― E então será a vez da guerra que a morte ou sumiço dela acarretaria.

Peter engoliu em seco. Não gostava de pensar na perspectiva do que enfrentariam agora, o que os aguardava quando finalmente, ou se, encontrassem a princesa. Poderiam morrer todos em uma cilada ou morreriam se não recuperassem a garota. De qualquer forma o risco era real e lhe infringia um frio nada agradável na espinha.

― Olhem ali ― Clint, que seguia na frente da pequena comitiva, exclamou, apontando para o chão. ― Há pegadas de cavalo. Certamente deixaram sua montaria preparada aqui de antemão.

― A cavalo será mais difícil deles ocultarem qualquer indício de sua passagem ― comentou Tony. ― Mesmo que até agora sequer tenham se preocupado com isso.

Avançaram com cautela durante o dia, só parando durante poucos instantes ao chegarem à beira do rio, onde fizeram um breve almoço e deram água aos cavalos, para então seguir a busca.

― Definitivamente não estão se preocupando em estar sendo seguidos ― Tony começou, ao cruzarem o rio. ― As pegadas dos cavalos continuam reto daqui em diante. Se quisessem ser furtivos, poderiam viajar pela água.

― Não sei se considero isso uma sorte ― Barton murmurou. ― Mas ao menos não perderemos tempo nos recolocando no rastro.

Os primeiros indícios de que estavam chegando ao seu destino somente apareceram quando já estava escurecendo. Primeiro viram uma vaga luz entre as árvores, então Clint desceu de seu cavalo e avançou uma pequena distância furtivamente, somente o suficiente para ouvir algumas vozes. Teve certeza de que estava no lugar certo quando reconheceu entre um pequeno grupo de cavalos um em particular, ainda usando a sela de Peter, sendo este o que fora roubado dias antes.

Voltou então para onde os companheiros haviam ficado esperando, e os relatou o que vira. Decidiram descansar aquela noite, retrocedendo um pouco o caminho para enfim acamparem. O que fariam, deixaram para planejar no dia seguinte.

― Melhor fazermos turnos duplos de vigia ― Clint sugeriu, quando se preparavam para dormir. ― Não foi uma única vez que terminamos mal por dormir em serviço.

― Eu posso começar vigiando ― se ofereceu Tony. ― Quem mais?

― Eu fico com o senhor ― Peter murmurou.

O garoto sentia-se inquieto, temeroso de que se adormecesse, acordaria sob algum ataque, e sabia que se conseguisse pegar no sono naquela noite, teria mais uma vez seus sonhos perturbados pelas suas inseguranças, portanto ficar acordado até a exaustão lhe parecia uma ideia melhor.

― Tudo bem ― concordou o outro homem. ― Me acordem quando um dos dois for dormir.

Peter estendeu sua capa aos pés de uma grossa árvore, sentando-se ali e escorando-se no tronco, cruzou seus braços e olhou atentamente a floresta escura ao seu redor.

A fim de apagar o pequeno fogo que fizeram para aquecer o jantar, Tony virou-se de costas para o garoto, para então urinar sobre as brasas quase apagadas, terminando com a última fonte de luz que poderia os delatar ao inimigo.

― Isso foi um tanto nojento ― Peter comentou, vendo o vulto do homem sentar-se perto de si, encostado na mesma árvore.

― Porém deveras eficaz.

O silêncio prevaleceu novamente durante boa parte da noite, somente interrompido pelos rotineiros sons noturnos da floresta, e a cada farfalhar de arbusto ou estalar de galhos fazia o coração do pobre garoto saltar em seu peito. Peter, agora que a inercia da noite trazia à tona de uma vez todos os seus temores, se pegava impossibilitado de desviar seu foco para qualquer coisa que não fosse a princesa. Estaria ela sendo muito maltratada? Ao menos estava viva? Será que se encontrava naquele acampamento que planejavam invadir no dia seguinte, ou seria um esforço suicida em vão? Mas o que mais o deixava temeroso, era a dúvida de como terminaria a ofensiva de seu pequeno grupo. Claramente estavam em desvantagem, então as chances de tudo acabar em desastre era alta.

― Ei, garoto ― chamou baixinho o Stark. ― Você dormiu?

Desperto de seus pensamentos, Peter desviou a atenção para o local de onde vinha a voz do homem. Podia senti-lo perto, mesmo que não estivessem se tocando propriamente.

― Não, estou acordado ― respondeu no mesmo tom. ― Só estava pensando.

― Pensar demais faz mal ― retrucou em tom de brincadeira. ― Não adianta ficar se preocupando agora.

Tony sabia que o único motivo do garoto se manter tão calado por tanto tempo certamente era a preocupação e tensão gerados durante todo o dia, somados com a antecipação do que enfrentariam no dia seguinte, e tudo isso processados juntamente com a aflição de não saber a condição em que sua amiga se encontrava, fazia o mais jovem remoer essa ansiedade toda em si.

― Será que ela está bem? ― Peter perguntou, confirmando as suspeitas de Tony quanto a preocupação. ― Será que ainda está viva?

― Tenho certeza de que ela tem mais valor com vida ― respondeu, tentando tranquilizar o garoto, porém sem mentir. ― Amanhã nos prepararemos e vamos trazê-la de volta.

Peter então voltou a processar tudo em silêncio, porém o fato de externar uma de suas inseguranças fez com que o resto simplesmente atingisse seu limite e transbordasse de si, tornando seu peito apertado, ao passo que o nó em sua garganta se apertava.

― E se não conseguirmos? ― Murmurou baixo, em um sussurro, mais para si mesmo. ― Eu não quero morrer, senhor Stark...

Naquele momento Tony sentiu algo em si se quebrar. Ouvir a voz chorosa do Parker lhe segredando seu maior temor o fez acordar para a idealização de que poderia tudo dar errado. Aquela poderia ser a última noite que passariam juntos, se não a última de suas vidas. Seu peito então se tornou tão apertado quanto o do garoto, e ele respirou fundo, movendo seu corpo até estar lateralmente encostado ao de Peter. Passando de modo hesitante um braço por sobre os ombros do outro, Tony o deixou se aconchegar contra si, na carícia mais ousada que se dera ao luxo enquanto que ambos estavam conscientes, esfregando o braço de Peter com sua palma ao passo que seu olhar se desviava para o céu estrelado majoritariamente encoberto pelos frondosos galhos das árvores.

― Eu não vou deixar ninguém aqui morrer ― prometeu o Stark. ― Principalmente você, garoto.

Mordendo os lábios a fim de conter o choro, Peter se permitiu deitar a cabeça no ombro alheio, se deixando confortar ali no breu noturno, tentando não remoer o pior.