Along The Way
23 Capítulo XXII
Mais rápido do que jamais conseguiu, o Stark despiu-se de sua a capa, casaco e camisa, correndo contra o tempo enquanto chutava suas botas de seus pés, sem perder de vista Peter, que era levado junto a correnteza. Somente de calças, pôde finalmente pular para dentro d’água atrás do jovem que já afundava.
A água fria bateu forte contra seu corpo quente, lhe causando um desconforto que sequer se deu conta naquele momento, pois a vida de Peter era a prioridade ali. Nadou com o auxílio da correnteza, logo estando no local onde o jovem Parker lutava por ar. Se aproximou e passou rapidamente um dos braços por trás do tronco do garoto, o segurando firme enquanto que com algum custo e muito esforço tentava nadar de volta à margem.
Peter, já esgotado fisicamente, se deixou carregar, silenciosamente aliviado e agradecido pelo resgate.
Tony nadou com o garoto até finalmente alcançar uma margem, onde Clint e Natasha os esperavam. O Barton estendeu sua mão e puxou Peter para fora da água, o arrastando até a grama, onde o deitou. Tão ligeiro quanto possível, o Stark, ofegante, voltava a terra, tropeçando no barro e pedras da beirada, subindo no barranco até chegar ao lado do garoto, onde caiu de joelhos, rapidamente agarrando Peter e o virando de lado, enquanto este tossia e cuspia toda a água ingerida.
Tony manteve um aperto seguro contra seu corpo enquanto Peter vomitava a água, desesperado em busca de ar; só respirando aliviado quando o garoto terminou.
Olhou então enquanto ele se deitava de costas, puxando o ar dolorosamente para dentro, ainda tossindo um pouco, visivelmente exausto, ensopado e sujo com a lama da beira do rio.
― Tire essas roupas ― o Stark começou, e sem esperar uma resposta já ia soltando as amarras da gola da camisa do outro, que lhe olhou assustado. ― Você não pode ficar molhado desse jeito. Não quero que fique doente de novo.
Então Peter se sentou com alguma dificuldade, obedientemente erguendo os braços quando Tony puxou sua camisa para cima, sentindo o ar, antes morno, bater congelante em sua pele, só então se dando conta do quão frio estava se sentindo com aquelas roupas encharcadas.
Tony descartou a camisa de qualquer jeito ao seu lado na grama, partindo então para a calça, já levando suas mãos para as amarras, e só então Peter deu-se conta do que o homem fazia e onde pretendia tocar. Segurou rapidamente seu pulso, interrompendo seu ato, subitamente constrangido.
― Eu faço ― murmurou com dificuldade o garoto.
Tony assentiu, finalmente entendendo como uma invasão de sua parte tal gesto, pois sabia o quanto Peter podia ser tímido. Partiu então para as botas, tirando uma de cada vez, enquanto vagarosamente Peter soltava suas próprias calças.
― Aqui, Pete ― Natasha falou, atraindo a atenção do garoto ao envolver seus ombros nus com a capa de viagem do Stark, que fora o primeiro item que encontrara.
Peter se envolveu na peça de roupa ainda morna, se cobrindo para então terminar de tirar a calça, evitando o constrangimento da nudez diante de seus companheiros. Apertou a capa em sua volta, enquanto era ajudado por Tony a levantar, se sentindo fatigado e ainda trêmulo do susto, sendo encaminhado até a beira do fogo para se aquecer.
― Temos que secar suas roupas ― o Stark falou, pensativo. ― E as minhas ― completou, olhando para sua calça molhada.
Só então Peter se dera conta da semi nudez do Stark, olhando seu peitoral nu e molhado, onde gotas de água escorriam para se perder em sua calça igualmente encharcada. Desviou o olhar constrangido quando se deu conta de que estava encarando mais que o necessário ou considerado pudico.
― Você precisa se secar e se limpar ― Tony pontuou, olhando para o estado do garoto a sua frente. ― Vou lhe buscar uma toalha.
Dizendo isso, o Stark se foi em direção até onde deixaram suas coisas, pegando uma toalha e se secando rápida e superficialmente, lembrando de pegar também sua machadinha antes de voltar até Peter, lhe entregando o pano.
Sem se demorar, seguiu até a floresta em busca de algumas varas para fazer um varal, sem se importar se o chão da floresta machucaria seus pés descalços. Cortou algumas e retornou pra perto do fogo, montando ali a estrutura onde penduraria as roupas molhadas para que secassem com o calor. Peter já havia se secado, restando apenas os cabelos úmidos; estava agora também enrolado em seu cobertor, se sentindo aquecido e melhor fisicamente.
Após conferir como seu garoto estava, Tony foi em busca das roupas, ainda largadas na margem do rio. Lavou o barro delas como pôde e torceu sua água. Recolheu suas próprias peças secas e as botas, para finalmente retornar ao fogo, onde Clint iniciava o jantar com a ajuda de Natasha.
― Onde deixou seu casaco? ― Tony perguntou, notando que a peça não estava entre as molhadas, assim como a capa do garoto.
Peter apontou para o lugar onde estivera treinando. Tony foi até lá, recolheu as coisas, juntamente com seu arco e flechas, e retornou ao mais novo, lhe estendendo suas roupas.
Peter agradeceu, vestindo as peças em seguida, estranhando a sensação de estar vestido no tronco mas nu da cintura para baixo, somente enrolado no cobertor. Assistiu então em silêncio enquanto Tony pendurava as roupas molhadas no varal ao lado do fogo.
Quando terminou, o Stark olhou para as calças encharcadas que ainda vestia, pensando no que fazer. Concluiu que não poderia ficar molhado, é claro, então pegou a toalha descartada por Peter e se afastou do grupo de companheiros, pois tirar as calças em frente a uma dama da realeza não seria nada educado. Livrou-se da peça molhada e retornou a fim de pendurá-la junto as outras.
Peter desviou o olhar novamente quando Tony voltou, subitamente constrangido pela sua falta de roupas, já que dificilmente uma toalha contaria como peça de vestuário. Para seu alívio, Tony vestiu sua camiseta seca antes de se sentar junto ao fogo não muito longe de si.
― Espero que as roupas sequem antes da noite ― o Stark comentou, olhando para o sol baixando lentamente. ― Não estou animado com a perspectiva de dormir sem calças.
Infelizmente os desejos de Stark não foram atendidos. O material grosso do couro da calça impediu que ela secasse direito, necessitando pernoitar à beira do fogo, obrigando o homem a dormir com a toalha na cintura. Já as roupas de Peter, mais leves e finas, não demandaram tanto tempo, entretanto não estavam totalmente secas quando decidiram ir dormir.
A leve umidade da calça fazia Peter sentir calafrios pelo corpo, mesmo deitado próximo ao fogo e enrolado em seu cobertor. Sua camisa estava praticamente seca, porém não o impedia de sentir frio, e Stark percebeu o fato, quando, deitado próximo a Peter, o via tremer e se apertar sob sua coberta.
Tony pensou por um momento que não seria bom para o garoto dormir sentido calafrios daquele jeito, pois poderia adoecer seriamente e não saberia o que fariam caso ele retornasse a ter febre, portanto decidiu que a única coisa que poderia fornecer no momento, uma vez que Peter já estava vestindo todos os casacos que podia, seria seu calor humano.
Sem se importar com o que os outros pensariam, Tony se levantou e jogou seu cobertor sobre o garoto, que lhe encarou em questionamento.
― Você não pode ficar tremendo a noite toda ― respondeu à pergunta muda. ― Chega um pouquinho pra lá.
Peter obedeceu, ainda tentando processar o fato de ter Tony Stark se deitando ao seu lado debaixo dos cobertores, colando seus corpos para lhe aquecer. Tentou ignorar o fato de o homem estar grudado lateralmente a si sem sequer usar calças, somente com camisa, casaco e uma toalha para cobrir sua nudez.
― Não se acostume ― ditou o mais velho em tom de brincadeira, antes de fechar os olhos para dormir.
Não demorou para que Peter se sentisse mais confortável com o calor extra que o outro lhe emprestava, inconscientemente procurando com seus pés frios os mornos do outro, assim como se aconchegava mais ao seu corpo enquanto o sono lhe vinha vagaroso, relaxando seu corpo e mente, carregando-o para a doce inconsciência do adormecer.
Nenhum dos companheiros comentou o fato. Clint já havia se habituado a proximidade estranha e curiosa que havia entre os dois, e Natasha apenas os observava de onde estava deitada, desejando que eles se resolvessem de uma vez, pois Peter mais do que ninguém merecia ser feliz.
Quando Peter acordou na manhã do vigésimo segundo dia de viagem, a primeira coisa que percebeu foi que Tony ainda estava dormindo consigo. Não sabia por que, mas em sua cabeça nublada de sono, curiosamente, a primeira coisa que se passou foi que o homem havia voltado a dormir ali depois de terminar seu turno de guarda, mesmo que naquela altura Peter já estivesse quente e profundamente adormecido.
A segunda coisa que registrou, ainda perdido em sono, foi o fato de estar deitado sobre o Stark. Não ao seu lado, como se lembrava de ir dormir, mas literalmente sobre seu corpo. Em algum momento no meio da noite havia rolado por sobre o homem, que ao invés de o afastar, o abraçava pela cintura, aparentemente sem se incomodar com seu peso. Com a cabeça repousada sobre o ombro de Tony, Peter ouvia seu coração bater ritmado e calmo, junto com o subir e descer de seu peito com a respiração que era solta em seus cabelos.
― Bom dia ― Peter ouviu o tom insinuante e arrastado de Natasha, então se virou para olhar a garota que os observava. ― Nem preciso perguntar se dormiu bem.
O garoto sentiu seu rosto pegar fogo com a provocação da amiga, e sem perceber realmente o que fazia, o virou para o peito do homem, o escondendo ali, mortalmente envergonhado, ainda mais por constatar que era verdade. Dormira muito bem se sentindo confortável ao lado de Stark.
― Espero que esteja aproveitando bem a oportunidade de dormir com o Stark sem calças ― tornou a provocar, dessa vez falando mais baixo, para somente Peter ouvir. ― Uma vez que a toalha dele se soltou.
Peter levantou sua cabeça, dirigindo o olhar para onde Natasha apontava, constatando que sim, em algum momento durante seu sono, Tony acabara por perder a toalha, que se encontrava jogada ao seu lado no chão. Tendo isso como fato, o garoto se deu conta de que por baixo dos cobertores – e de seu corpo – o Stark estava completamente nu da cintura para baixo.
― Ai meu Deus ― Peter murmurou para a amiga, impossivelmente vermelho. ― Eu estou deitado sobre o Senhor Stark pelado!
Natasha ria do desespero do garoto, ainda mais sob seus protestos.
Peter estava tão envergonhado quanto possível. Na noite anterior, devido ao frio que sentia, não pôde realmente se ater ao fato de que tudo o que Tony usava para cobrir sua nudez era uma simples toalha enrolada em sua cintura, mas agora bem desperto, via o quanto aquilo era embaraçoso. Por conta de suas roupas, não conseguia sentir realmente a pele contra a pele do outro, mas Peter sabia que Tony poderia, se estivesse acordado, sentir com precisão cada pedacinho de si contra sua pele nua. Inclusive naquele lugar. Isso Peter tinha certeza, e era o que mais o estava envergonhando no momento. Sua perna que descansava entre as do outro fazia com que sua coxa sentisse bem o que definitivamente não deveria sentir.
Decidido a sair daquela posição comprometedora antes que o outro acordasse, Peter deslizou de cima de seu corpo com cuidado, tentando não levar o cobertor junto, até finalmente se ver livre do contato. Suspirou aliviado por não o ter acordado, então se levantou a fim de desjejuar antes de começarem a levantar acampamento.
Quando Tony acordou, não quis admitir para si mesmo que estava decepcionado por Peter não estar mais ali junto dele, então somente suspirou antes de fazer menção a se levantar, estranhando o contato direto da pele de suas pernas com o cobertor, para só então se lembrar de que estava sem suas calças. A procurou com o olhar, a encontrando no varal que fizera na noite anterior.
― Alguém pode me alcançar minha calça? ― Perguntou.
Peter, ainda sustentando o vermelho em suas bochechas, pegou a peça finalmente seca e a jogou para o homem que a pegou no ar, agradecendo.
Depois de vestidos e preparados, os viajantes partiram, e mais uma vez Tony percebeu que Peter estava mais quieto e tímido do que o costume, e se perguntou por que toda vez que acabavam dormindo juntos o garoto ficava daquele jeito. Será que ficar junto a si o envergonhava tanto? Tony lhe era motivo de vergonha?
― Que bicho te mordeu? ― O Stark questionou, sem se conter, quando pararam para acampar ao fim da tarde, notando que toda vez que Peter o olhava, desviava o olhar para baixo e corava violentamente. ― Eu não ia falar nada, mas estou ficando preocupado com seu rosto vermelho. Você está com febre?
Tony deu alguns passos rápidos para frente, se aproximando do garoto e levando uma mão à sua testa, porém Peter agilmente desviou do toque.
― Ah, não é nada, Senhor Stark ― murmurou. ― É só, hum, o calor.
Tony franziu o cenho, mas não disse mais nada.
Peter jamais admitiria que estava com vergonha de sequer olhar para o outro. Ele havia dormido com o homem sem calça! E pior: acordara com sua coxa roçando lá. Seria bom para sua sanidade mental que esquecesse disso logo.
― É tão ruim ter que andar descalço ― o garoto falou, mudando de assunto enquanto se sentava à beira de onde Tony fazia o fogo. ― Minha bota ainda não secou?
― Não, mas se quiser andar com elas molhadas fique à vontade ― respondeu, então acrescentou: ― Só cuidado para não crescer cogumelos nos seus pés com a umidade.
Peter fez um bico, não gostando da ideia de ter de ficar descalço na floresta de novo, porém igualmente desanimado com ter de usar botas úmidas.
Tony terminou de acender o fogo e olhou em volta, vendo que Clint e Natasha conversavam mais distante, enquanto tratavam dos cavalos, então voltou a mirar Peter, que escrevia em seu bloco de anotações. Abriu a boca uma e outra vez, tentando buscar as palavras que remoeu em perguntar o dia todo.
Com a comoção do fim da tarde do dia anterior, esquecera-se do que a princesa havia lhe dito, ou melhor, não dito, sobre Peter. Ele questionava-se acerca do motivo do garoto morar com os padres, já que Natasha havia se mostrado surpresa com o seminário do amigo, e comentara que havia algo mais nessa história, que Tony deveria perguntar diretamente ao garoto.
Nunca fora um homem muito curioso, e Stark se orgulhava disso, mas tais coisas insinuadas e não ditas o estavam intrigando. O que de mais haveria para se saber sobre Peter? Ele era como tantos outros jovens que buscavam estudos em meios religiosos, dedicando-se à missão sacerdotal, não era?
Mas agora que parava para pensar, Tony nunca vira realmente o garoto fazer alguma oração ou mesmo prece. Não era comum que os que se preparavam para dedicar a vida à religião, orassem ao menos uma vez ao dia? Se lembrava muito bem de que todos os padres que conhecera faziam suas orações regularmente, entretanto Peter não seguia essa regra. Que espécie de seminarista [1] era o garoto?
Decidiu que não faria mal perguntar uma coisa ou outra, nem que fosse em falso tom de conversa, já que estavam sozinhos e não faziam nada de importante.
― Então ― começou Tony ―, quando decidiu que seria padre?
Foi direto ao ponto, mas não se arrependeria agora que já o tinha dito.
― O quê? ― Falou Peter, confuso.
― Bem, você mora num seminário, não? Naturalmente que está estudando para ser um padre.
― Ah ― exclamou o garoto, parecendo entender finalmente. ― Bem, não é exatamente por isso que eu moro lá...
― Não? Então por que mora junto dos padres? ― Tony estava mais confuso que antes, pensando em teorias que explicassem o caso. ― Por acaso trabalha como criado para eles? Ou está simplesmente estudando a cartografia?
― De certa forma... ― tornou a murmurar, aparentando um súbito desânimo. ― Eu não estou vivendo lá exatamente por vontade própria... Mas não estou reclamando! Claro que não!
Tony franziu o cenho. Então realmente havia mais o que se saber sobre o garoto, mas tudo o que conseguia no momento era ficar mais confuso.
― Seus pais o estão obrigando?
― Não... Bem... ― Peter olhou para suas mãos em seu colo, ainda segurando seu bloco com as anotações. ― Eu lhe contei que sou de fora do reino, não é?
Tony assentiu, querendo que o garoto continuasse.
― Quando eu... vim... para cá, os padres me acolheram... ― seu tom era triste e nostálgico, e Tony se segurou para não perguntar o motivo que o trouxe tão longe de casa, não querendo o interromper. ― Desde então eu tento retribuir ajudando no que eu posso, e estudando também, então comecei a fazer mapas e os vender, a fim de conseguir algum dinheiro para voltar para casa...
― Por que saiu de casa? ― Tony finalmente perguntou, vendo o olhar melancólico do garoto, que o deixou vagar na direção das árvores.
Peter parecia não saber o que dizer. Ou por onde começar. Nem se deveria dizer. Lhe era um assunto doloroso, mesmo que já fizesse alguns anos que fora forçado a cruzar o oceano para tão longe de sua ilha natal...
Enquanto buscava as palavras e como dizê-las, Peter desviou o olhar para as árvores, não focando em nada exatamente, até que um súbito movimento ao longe lhe chamou a atenção.
― O que foi aquilo? ― Apontou, vendo algo se mover novamente, agora para fora de seu campo de visão.
Tony ficou subitamente alerta, momentaneamente esquecendo-se da conversa que estavam tendo, sua mente dedicada a pensar nas possibilidades do agora.
― O que você viu?
― Alguma coisa se mexeu ali ― apontou.
― Pode ter sido um animal, mas é melhor verificar.
E a conversa foi totalmente esquecida pela metade durante resto da noite, substituída pela preocupação acerca do que pudera ter sido o tal movimento.
Uma busca minuciosa foi realizada nos arredores da floresta, mas nada encontraram. Concluíram então se tratar de algum animal, porém não descartando a possibilidade de um novo ataque, terminando a noite com vigia redobrada e tensão no ar.
Fale com o autor